pós-????????

27 Junho 2009
Desde… talvez desde o renascimento (ou seria desde o barroco?) há, no campo da filosofia e principalmente das artes, a disputa entre modernos e antigos. Donde se pode inferir que desde a aurora capitalista (ou seria moderna?) o problema do novo e seu confronto com as tradições nos angustia a nós, ocidentais: talvez nos definam como homens: estamos sempre às voltas, cada vez mais às voltas com o futuro, ora louvando os novos tempos que virão (utópicos ou revolucionários), ora temendo e amaldiçoando as traições à tradição, à divindade e aos valores (nostálgicos ou reacionários). A poesia moderna segundo Paz, se define exatamente por este paradoxo que ele chama de tradição da ruptura: os poetas modernos evocam a analogia e seu mundo espelhar, fechado e mágico, ao mesmo tempo que desejam a ironia, a história e a revolução do novo: são nostálgicos revolucionários.

Este tempo literário (mas também um tempo artístico em geral), este duplo desejo paradoxal que talvez venha desde a aurora da Europa moderna, que certamente se agudizou no romantismo e extrapolou todos os limites na primeira metade do século XX, esta arte burguesa que tanto se rebelou (nostálgica ou utopicamente) contra a própria burguesia e que nos legou obras e autores maravilhosos, este tempo moderno (num sentido amplo do termo), parece que acabou no pós-guerra. Parece que não existem mais as disputas entre modernos e antigos, entre a mudança e a conservação, entre o movimento e a inércia, o novo e a tradição. Os novos de cada época se chamavam (ou eram pejorativamente chamados) de modernos, em contraposição aos antigos. Agora, os ‘novos’ se intitulam (ou são pejorativamente chamados de pós: pós-modernos, pós-modernistas, pós-metafísicos, pós-literários etc). Em todo caso, a divisão entre o que chamamos de pós-modernos (na falta de nome melhor, mas os modernos eram assim chamados também por falta de nome melhor) e os outros (modernos, modernistas, neoclássicos, marxistas, estruturalistas etc) é de natureza distinta: não se trata mais de disputas dentro de um sistema estético moderno: o campo das artes parece estar se redesenhando de outra forma, de um modo que não há mais a possibilidade de oposição entre o novo e o antigo.

O que houve na segunda metade do século XX, que persiste até hoje e que chamamos de pós-nãoseioquê foi uma mudança na dinâmica das forças do campo estético, um ruptura, ou melhor, um dissolvimento do jogo entre analogia e ironia, ou seja, o fim da tradição da ruptura: se por modernidade aceitarmos a definição de Paz, estamos realmente numa pós-modernidade. Minha intenção aqui não é louvar nem condenar a situação atual deste mundo capitalista e de suas artes em estado de pós-tudo, mas tentar entendê-los. Tenho muitos motivos para condenar a época atual, diria mesmo que tenho razões de sobra para odiá-la (confesso que a odeio deveras). Tenho outro tanto de motivos para farejar nela coisas positivas e principalmente oportunidades para agir sobre ela, para corromper a sua alegria fútil. Nos meus poemas creio que exerço melhor estes movimentos de amor e ódio.

O que preciso, no entanto, é ser um homem de minha época, é aceitá-la em sua integridade. Esta aceitação não é sinônimo de conformismo, mas significa afirmar, com todas as minhas potências: “estou aqui, a situação é esta, vou enfrentá-la como está posta, sem fingir que seja outra”. Preciso me bater contra este mundo, contra o agora, mas é preciso conhecê-lo. Para tal, estou convencido que as ferramentas conceituais ditas modernas não servem ou, como nós, caipiras, costumamos dizer, não dão conta. Não porque as idéias modernas sejam simples ou toscas demais, muito pelo contrário, são admiravelmente complexas e precisas. Ocorre que o campo literário (e artístico) não é mais moderno no sentido que Paz o definiu, então os conceitos feitos para aquele mundo não podem (a não ser por efeito de contraste) nos ajudar a pensar o agora. É necessário forjar ou adaptar outros conceitos para conhecer o hoje com o qual quero me bater – como um guerreiro deve conhecer os meandros de seu inimigo, como o caçador deve dominar os hábitos de sua presa ou como a caça deve saber muito bem das armas e pontos fracos de seu predador.

Se o moderno nos define como homens ocidentais, o advento de algo distinto da modernidade talvez seja o advento de uma outra humanidade (que, no entanto, não parece ser, de forma alguma pós-capitalista, pelo contrário, o que assistimos tem o cheiro terrível de um ultra-capitalismo). Talvez por isto, por esta incerteza das épocas de transições, o nosso desnorteio, nossa falta de chão, ao que parece, mais aguda que a dos modernos. Talvez. Talvezes, talvezes, é preciso se de-bater também com tantos talvezes.

poema: pós-tudo (augusto de campos)

Coragem!

27 Junho 2009
O mundo de Baudelaire era um caos, era assustador. O mundo dos românticos já era. O mundo moderno enfim… Imaginem o mundo do modernismo (o ismo é o sufixo da obsessão: modernismo = moderno obsessivo). Naquelas épocas devia ser um horror ser um bom leitor ou mesmo crítico literário: tantas correntes e contra-correntes, tantos ismos, novas poesias e teorias, os critérios e valores literários se desmanchando e refazendo a mil, tantos e tontos, quanta coisa fervilhando! Salve o Candido que não teve medo de sua época e arriscou acompanhar os autores modernistas: é graças a gente como ele, graças a leituras como as suas que podemos traçar uma linha de sentido (mesmo que para contradizê-la) rumo ao que hoje é o canônico modernismo: imagina, ensinar os andrades na escola, onde já se viu Bilac, os desmedidos primitivos tomando o seu lugar, quem diria! Salve o Candido e os bons leitores de sua época que tiveram a generosidade de deixar seu espírito se esbarrar, tropeçar e cair nos abismos daquela literatura absurda… e fecunda!

Cadê vocês Candidos de hoje, protegidos pelas muralhas de sua cátedra ou pelas barricadas das nostalgias daquela época? O que mais se ouve é: “aquilo sim é que eram épocas, que eram poetas, que era poesia, não se fazem mais drummonds & bandeiras como antigamente, não há mais grandes poetas & poemas”. Mas ora bolas, não é que, na época do modernismo não se dizia o mesmo dos parnasianos? “não se fazem bilacs”: a mesmíssima ladainha choramingas.

Ah bons leitores e aspirantes a… Ah críticos e aspirantes a… ah acadêmicos: ousem cavalgar os bytes, ousem deixar se esbarrar por sua época e pelos escritores que labutam nela. Tenham a coragem de mergulhar no mundo caótico da era dos pós proliferativos, da relatividade absoluta dos critérios e valores literários, éticos e estéticos: quando o valor é relativo, quando não há fundamento, aí mesmo é que há a necessidade de se criar, pesar e examinar cuidadosamente o valor (que se torna obra humana, demasiadamente humana). Tenham coragem de tomar o cálice da escrita do desnorteio, inscrita em (a partir de) uma época pop: poesia em tempos pop – para ela é preciso uma leitura que ouse se bater com o tempo, com o agora, por mais atordoante e movediço que ele seja.

Meus caros acadêmicos cuidadosos, meus caros leitores receiosos, meus caros humanos sedentos do conhecimento anexato que só a arte pode saciar, deixem-se mergulhar nos abismos dos poetas de nosso tempo, que tiveram a coragem de sondar e se deixar afetar por nosso tempo. Separem o joio do trigo, discutam, disputem valores, imbriquem-se no jorro elétrico da arte em bytes. Vocês verão que há fendas luminosas (de tão tenebrosas) abertas no caos por estes artistas de pensamentos, sensações e afeições elétricas. Coragem!


O tio

31 Maio 2009

Figos no tacho, fervem
nuvens na tarde escura
de Morrinhos, o tio
falastrão quase não fala,
perdido entre as cobertas
puídas da cama puída
no quarto quase vazio.

******Os tios
******não eram eternos?

As rachaduras
do casebre em ruínas,
o olhar perdido do tio
não me conhece mais,
o silêncio,
o silêncio,
uma nuvem carregada de silêncio
se abraça ao aroma
doce de figo

******Os tios
******não eram eternos

e despenca um mundo
de água (de infância).


A crítica perversa: Machado e Schwartz

22 Maio 2009

É muito provável que Machado de Assis não gostasse, se fosse vivo, da leitura que Roberto Schwartz fez de sua obra em “Ao vencedor as batatas” e “Um mestre na periferia do capitalismo”. Certamente não gostaria, Machado não apreciaria uma crítica marxista, que traria os seus personagens dos dilemas universais do espírito para as concretudes do materialismo dialético. Machado, embora mestiço de origem pobre, era de mentalidade burguesa, diria mesmo direitista, fundador da Academia Brasileira de Letras e amante das honrarias dos altos círculos sociais de sua época. A crítica corrosiva e demolidora de seus romances, embora se dirigisse a tipos e personagens ‘representativos’ dos homens de sua época, de sua sociedade, certamente tinha por alvo o homem em geral: tratava-se de filosofia e psicologia (ou antropologia) cética e não de crítica social. Se fosse possível isolar o pensador do artista, Machado seria um filósofo, um psicólogo ou um antropólogo do espírito humano e não um crítico da sociedade patrimonialista e das elites do Brasil do século XIX.

Schwartz deturpou esta ‘intenção’ inicial machadiana de revelar, por sob o homem concreto brasileiro a miséria do homem em geral (Machado acreditava que o homem, de qualquer época e lugar, era um ser miserável). Schwartz coloca mais um espelho neste jogo de aparência e verdade: se por trás do homem concreto brasileiro há o espírito humano em geral, este universalismo burguês que se lê como sentido último no romance de Machado ainda oculta outra profundidade que talvez nem mesmo o autor tenha percebido: os conflitos sociais e concretos que movem os homens, cuja natureza se revela radicalmente histórica, mundana. Schwartz, como bom marxista, não crê em espírito humano universal e esta clave de leitura significa, para ele, a aplicação da ideologia burguesa à crítica romanesca: por trás das malezas do mundo tal crítica veria sempre a natureza imperfeita do homem, o que é uma forma de naturalizar e, portanto, aceitar as injustiças e o sofrimento que os homens impõe aos outros homens.

Por trás da expressão da natureza (imperfeita) do espírito humano (o sentido mais profundo que uma crítica burguesa encontraria nos romances de Machado) Schwartz flagra o interesse e o conflito social como motores da ação humana na obra de Machado, que expressaria, em última análise, o homem como construção histórica numa sociedade escravocrata e profundamente desigual, ainda pré-capitalista e dominada a ferro e fogo (literalmente, no caso dos escravos) por uma pequena elite que vive de rendas e/ou da monocultura de exportação: nada de espírito universal, trata-se de homens concretos numa dada época e lugar. Em vez da essência do ser humano universal, Schwartz lê estruturas sociais historicamente determinadas.

A crítica de Schwartz não deixa de ser uma subversão, uma leitura contra o autor ou, pelo menos, contra o que se convencionou achar o que era o autor. Trata-se, como diz Deleuze, de enrabar o autor e fazê-lo parir uma monstruosidade, ou seja, fazer sua obra dizer o que certamente não se queria (mas em literatura isto é uma dádiva, é a fecundidade infinita da obra). De certa forma, não é esta a relação entre a obra do próprio Machado com a dos românticos (especialmente José de Alencar), desejosos de exprimir o genuinamente pátrio? O romance de Machado, a partir de ‘Memórias Póstumas’, não deixa de ser uma crítica subversora do nosso romance romântico, fazendo a narrativa dizer como e o que não se queria: Machado não fora acusado de ser inglês demais?

Mas esta leitura perversa, contra o autor, contra a doxa (mesmo a dos sábios) não seria a melhor? Não seria a única que importa?


Dos moribundos

13 Maio 2009

Cada vez que entro numa loja de CDs (ou na seção especializada de um supermercado) sinto que estou entrando numa coisa mais próxima de um museu do que de um comércio. A venda de CDs novos, sem dúvida nenhuma, vai acabar, já está acabando: só os sebos sobreviverão, para aficcionados. O destino da música, vendida ou pirateada, é a internet.

A mesma sensação de cemitério anda me acometendo, com menos intensidade, quando entro numa livraria ou quando recebo convite para lançamento de livros. Editoras de livros de papel andam me cheirando a doentes terminais. Talvez a sobrevida dos livros impressos seja maior que a dos CDs – que certamente desaparecerão em breve. Mas quando olho a internet e a possibilidade que ela oferece de acesso a toda escrita do mundo em alguns cliques, quando vejo os novos readers cada vez mais se aproximando dos livros de papel em conforto e portabilidade, mais me convenço que o livro de papel está com os dias contados. E, com ele, toda uma lógica do mercado editorial, da confecção à distribuição, e toda uma maneira de ler: talvez a própria idéia de livro se altere ante o incessante fluxo de grafia (escrita e audiovisual) da internet. Como ficará a literatura num meio totalmente eletrônico? Um meio em que a escrita não se torna obsoleta, mas que seguramente está se tornando secundária em relação a imagens e sons. No máximo, a escrita terá primazia apenas em nichos específicos, como nas humanidades, pois até as notícias e bate-papos tendem a se tornar audiovisuais.

No caso da poesia, a internet está se transformando num terreno fértil para manifestações líricas que extrapolam a escrita verbal, como a poesia falada, a canção, a poesia visual (com e sem movimento), o rap etc. A poesia escrita, strictu sensu, já divide e terá que dividir ainda mais espaço com estas formas de poesia marginalizadas e desprezadas pela cultura erudita. Certamente ainda haverá espaço para a poesia escrita, pois embora a escrita verbal esteja se tornando uma mídia secundária na internet, não há sinal de que vá ser abandonada: há regiões dos saberes em que ela é indispensável. A questão é saber como fica a arte da palavra escrita (literatura) neste novo espaço. Não sei responder, mas é ilusão acreditar que a relativa estabilidade de que o campo litarário gozou, de Homero à primeira metade do século XX, persistirá. As regras do jogo literário e suas conexões com a sociedade já estão mudando substancialmente, pelo menos desde meados do século passado, e creio que mudará mais.

De alguma forma, os escritores têm que apreender estas mudanças que estão ocorrendo no campo das mídias e de sua arte, têm que dar sentido e valor a elas, tornando-as legíveis e incorporando-as em seu ofício. O artista precisa (pelo menos tentar) saber onde pisa.


precipitação

2 Maio 2009

chuva fria
no fim da tarde quente
faz a gente
se sentir gente
fazendo água


A chave

29 Abril 2009

Minúsculo cômodo
sem movimento
atado à cadeira
o velho chaveiro
me olha de baixo
por cima dos óculos,
são quatro reais.
De chave em chave
as portas se abrem
a vida se fecha.


Puxando as felpas: um poema de Wesley Peres

28 Abril 2009

Procuro, como G. H., procuro, intransitivamente.
E não acho, e o que me escapa, me conduz
—  não me conduz-para, me conduz.
Procuro a fórmula precisa, exata,
para dizer o nome do que não é nome:
o mioloconcretoinvisível
o que sustenta a nervura nevrálgica,
o casulo que não resultará
em borboleta sequer.

Procuro a coisa morta
— que pulsa que pulsa que pulsa —,
como um solsempelemcarneviva.

Procuro a janela para o fora da vida,
isto é: o cerne da vida,
isto é: o vago vazio das vagas,
a anemnemônica aliteração anômala,
vazia,
autofagia nossa de cada dia,
pão solar-sonoro,
que nos causa

o desejo de nomear
os inumeráveis alvéolos da morte.

(Wesley Peres)

Não se pode dizer que um texto é bom em si, estruturalmente ou ontologicamente. Digamos que um texto, qualquer texto, deixa felpas. Se elas permitem que sejam puxadas, quer dizer, se deixam-se proliferar, ou ainda, se os leitores deste texto necessitam prolongá-lo, ecoá-lo por torção e distorção, então dizemos que um texto é fecundo, que se deixa fecundar por e com outros textos e pessoas. Os textos são feitos de gatilhos, são corpos impregnados de gatilhos e assim também são os corpos dos homens. Gatilhos existem para serem disparados e quando eles o são dizemos que os corpos se imbricam: é a própria fecundação. Tentemos puxar algumas felpas do texto acima, de modo aleatório e parcial (totalizações parciais de sentido).

Procuro a janela para o fora da vida, [1]
isto é: o cerne da vida, [2]
isto é: o vago vazio das vagas, [3]
a anemnemônica aliteração anômala, [4]
vazia, [5]

O cerne da vida está no seu fora. Que fora seria este? O fora dos organismos, o fora da temporalidade? Pois a vida se dá em organismo limitados no tempo. Aparece aqui o signo do infinito espacial e temporal fora da organização espaço-temporal dos organismos. “o vago vazio das vagas” alude ao mar imenso e aleatório de repetições e diferenças ilimitadas. Este fora remete também ao caos, no qual as formas pulsam precárias e desaparecem antes de qualquer fixação. O fora da vida é o caos infinito? Atentemos ao trabalho fonético do trecho, principalmente o aliterativo, para o qual o texto chama a atenção do leitor. O fonema v de vida se repete em vago, vazio e vagas no verso [3] e em vazia no verso [5]. Palavras que são signos da ausência e da indiferenciação e que, pelo trabalho aliterativo ecoam estes sentidos em vida. O “vago, vazio das vagas”, pelo arranjo sintático é sinônimo de “cerne da vida” e pelo arranjo fonético impregna materialmente a palavra de “vida” de de vacuidade e indiferenciação. É uma saturação de som e sentido que atinge, inclusive, a palavra fora (cerne da vida) e cujo /f/ é, como o /v/ uma labiodental. O núcleo da vida é, paradoxalmente, o anti-núcleo por excelência, isto é, o seu fora, indiferenciado, ausente, caótico e infinito. É ainda a repetição inconsciente (ou esquecida, ou esquecida ante da lembrança) e fora do normal, desviante, diferida. É o que se repete fora da normalidade e do apreensível e como diferença no caos infinito. O verso quatro evoca o acaso no caos, pois o acaso se vincula à anomalia e ao não apreensível. Mais uma vez a aliteração aludida se faz materialmente em todo o trecho. Por um lado as nasais /n/ e /m/ proliferam nos versos  [1], [3] e [4]. Por outro os flepes /r/ e /l/ se repetem nos versos [1] e [4]. Os flepes e as nasais se agrupam ao lado da anomalia, no verso [4], enquanto as labiodentais parecem se aglutinar no terceiro verso, no qual o caos disforme é afirmado. E ambos são, pelo arranjo sintático do poema, sinônimos da vida. A palavra fora parece fazer a junção destes dois grupos de fonemas, reunindo um flepe /r/ e uma labiodental /f/. É no fora que a vida pulsa.

Este fora seria a morte? Sim, a resposta já está dada no poema, antes e depois deste trecho. Por que não falamos logo da morte, tentando levar a interpretação para o caos e o acaso? Talvez porque a morte seja uma resposta paradoxal demais (um bloqueio abrupto demais às passagens/conexões da interpretação) para dizer que abriga o cerne da vida. Então tentamos vê-la pulsando e tentando se diferenciar (fixar) nas miríades de vagas caóticas que o poema evoca no trecho que separamos. Dizer que a vida está na morte não quer dizer que esteja além da morte, num sentido sagrado. Não é isto que queremos extrair do poema. Queremos extrair o que há, na morte, de circulação de fluxos contínuos de desejo indiferenciados que, por um acaso (mágico?) se diferenciam em vida limitada no tempo-espaço. Uma vida que, apesar de limitada ainda se deixa penetrar desses fluxos indiferenciados, pois o ser vivente é como se fosse uma estabilização provisória numa atmosfera caótica, ele mesmo é uma atmosfera particular e relativamente ordenada (turbilhão) em meio à indiferenciação atmosférica. É como se o organismo fosse uma corpo atmosférico com uma pressão e densidade específicos que se afirma por algum tempo nas vagas vazias de forma e sentido, em jogo contínuo com estas vagas, indicando que entre o fora indiferenciado e o dentro do corpo não existem limites claros e permanentes, ou seja, o corpo é todo poros ou, pra usarmos uma palavra do poema, janelas. O que se deseja no e pelo poema é se aproximar destas janelas e se deixar atravessar pela vida enquanto limiar entre caos indiferenciado e corpo precariamente individuado neste caos.

Ler assim tem a vantagem de prescindirmos do ser e do sujeito. Eles são estruturas, às vezes, fixas demais e o poema dispõe suas felpas de modo que possamos dispensá-los para a sua leitura. Ler assim permite-nos que atinjamos o desejo em sua materialidade imediata, sem, no entanto, que a magia seja posta de lado. Muito pelo contrário, pois a mistério permanece mais radicalmente na medida em que as verdades (do ser, do sujeito), em que a significação da vida, em suma, não é nem mesmo adiada como utopia ou privilégio de uma outra dimensão da vida. Ela, a vida, é simplesmente a presença icognoscível que se tenta nomear (e tenta se nomear):

o desejo de nomear
os inumeráveis alvéolos da morte.

O poema é a busca desta nomeação, a busca da própria vida. Nomeá-la é mais um lance para fixá-la em meio às vagas de caos. O movimento do poema (de todo texto, em úlima análise) é de diferenciação em meio ao caos dos códigos. Estes são signos do apreensível, da gnose, mas quem lida com seu tecido sabe que suas dobras são como as “vagas vazias” do fora da vida. Em última análise os códigos diferenciam a partir do mesmo mundo em que a vida se fixa e o fora desta e o daqueles formam um mesmo continuum de caos. O texto também diz respeito à fixação do poema no caos dos códigos, num movimento análogo e remissivo à estabilização precária da vida.

O poema, ao seu final, diz, de viés, o infinito, ao se referir aos “inumeráveis alvéolos da morte”, explicitando, no momento chave de um final sintetizador, a pluralidade em que a vida está imersa. A vida está em perspectiva com o inumerável inapreensível. É um poema refratário a fechamentos em sua abordagem da vida, como coisa e como nome. Talvez esteja além, ou aquém, de uma apreensão crítica que o classifique no que chamaríamos de lirismo subjetivo-ontológico, que privilegia os problemas do sujeito e do ser, embora esta talvez seja sua matriz longínqua. Outra possibilidade de o apreender seria através de uma crítica que privilegiasse a construção de linguagem e neste caso o crítico poderia facilmente argumentar que o efeito do poema decorre do seu rigor lingüístico, do qual o cerrado jogo entre som e sentido seria uma amostra. Mas nem o rigor ontológico-subjetivo, nem o rigor de linguagem e nem mesmo um sincretismo ou dialética de ambos, explicam um poema e suas “qualidades intrínsecas”. São fixações (neuroses) da crítica que necessita de suportes/crenças para se prender. Um texto artístico é como a vida (é um tipo de vida e este poema que ora lemos faz alusão a isto) e sua apreensão é da ordem da intransitividade, como a busca que se empreende no poema:

Procuro, como G. H., procuro, intransitivamente.
E não acho, e o que me escapa, me conduz

A busca do crítico talvez seja mais fecunda quando se imbrica com a do poeta e se torne apenas mais um ato de nomear o inominável, um feixe a mais no enfeixamento incongruente e contínuo dos códigos e da vida.


noite noir

26 Abril 2009

madrugada
nada no ar
ar de nada


A profecia de McLuhan

23 Abril 2009

Uns tempos atrás a simpática Agnes Arato, estudante de jornalismo, me procurou e perguntou se eu aceitaria responder algumas questões sobre a literatura na internet. O resultado foi uma boa reportagem sobre o assunto, publicada no blog da Agnes:

clique aqui para ler


Árvore

20 Abril 2009

Árvore na margem
da estrada, da vida,
tanto tempo vivido
da mesma vida pouca
dos ninguéns. Você
vegeta à beira da queda.

No entato, num canto
qualquer de você
existe algum encanto,
um canto de seiva,
um sopro de vida
que seja.

Um canto que o vento
poluído que te pui
desperta: você farfalha,
gargalha o corpo inteiro
dançando alegre pra mim
num canto perdido do mundo.


Armazém

15 Abril 2009

Aquele armazém
perdido na rua
residencial,
quase sempre
às moscas. Ali
tudo é desgaste,
o chão, o teto,
a pintura, a dona,
matrona enfadada,
tudo cai aos poucos,
descascado de tempo.
A vida ali
se afunda em si,
em silêncio
desliza
na goela qualquer
(a melhor coca
cola) do mundo.


PAUSA

15 Janeiro 2009

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma
morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
p. leminski

Vou dar um tempo com o blog, a internet e a escrita. Precisamos de pausas de vez em quando. 37 anos de vida, 20 de escrita. Muita escrita:

OBRAS on line

mundos pequenos sonhos [2008]

texturas [2006-2008]

TODOS OS E-BOOKS – prosa & poesia [1989-2008]

POEMAS (e-books)

mobiles [2007-2008]

popsia [2005-2007]

di(per)versões eletrônicas – em tela cheia [2005]

pretextos marjnaus – em tela cheia [2004-2005]

poemas de perder-se – em tela cheia [1999-2003]

marjnau – em tela cheia [1999-2002]

A Tradição travestida – em tela cheia [1989-2005]

Ciclo de Jaiara [1989-1999]

.

PROSAS (e-books)

tratactus marginale [2006]

leminski sem leme [2001]


veio

15 Janeiro 2009

infame informe feio

o que tinha que vir

veio


ESCreVivência 101100

15 Janeiro 2009

aquele

que surgiu

sem ninguém ver

quase ninguém viu

incógnito

sumiu


ESCreVivência 101011

13 Janeiro 2009

há buracos negros
que guardam nossos corpos do torpor
das visões vistas com as vísceras
e veias e intestinos
é preciso parar um pouco
de circular
sumir um pouco
na infinita gravidade
do buraco
negro

como se todo o corpo pairasse
pedra no vácuo de vácuo
furando a pele do espaço
até o útero
núcleo do espaço
todo feito de ped
aços de coisa alguma ha
vida de rajadas de energ
ia sem nenhuma direção

de tensões chicoteadas
contra o corpo rico
cheteando nas paredes
do buraco de nada
um nirvana in
vertido/tenso um nada
denso do cor
po que se faz po
eira/esia o que pu
der o corpo p
ur(r)o instestino eva
cuando corpo até a última
gota de cor
po de vida até a morte até
a vida se (re)fazer de n
ovo (corpo/pa
lavra)
luz


ESCreVivência 101010

2 Janeiro 2009

nada

não somos nada

a não ser um monte de merda

somos uns merdas que não deram certo

a merda de deus que não deu em nada ou deu(s)

em sangue somos assassinos sanguinários de crianças

em nome de deus da pátria da democracia da paz em nome

do pai da paz da

putaquepariu nada deu certo neste pedaço de cosmo vagando pelo vácuo sem fim

nada

não somos nada um monte de carbono banhado em água em meio a gases grudados ínfimos na pele de um ínfimo planeta vagando no infinito mar de galáxias um monte de neurônios ínfimos pensando que s

ou (um) ou duvidando ou inventando máquinas de matar e amar em que se ligar (uma) rede neural enredada na rede da cidade enredada na teia de cidades (uma) multidão de ver

mes fervilhando na pele da terra desde os confins da terra (uma) multidão de vermes purulentos esfregando amores & ódios uns nos outros incessantemente proliferando vermes e caos no cor

po da terra

nada

ou a curva da alma que faz gostar de uma música assim (ou assado) (uma) curva da mente que se mente alma (um) espírito mol

dado min

uto a min

uto as sinapses se ligam de acordo com o acaso de cada caso (de)pendendo do corpo de como o corpo se liga às massas de idéias e matérias que giram em torno do corpo impregnando o corpo pelos cinco mil senti

dos corpóreos por todos os poros do corpo dos ver

mes por todas as curvas do espírito que é (um)

nada

e no entanto é tudo o que se tem

as marcas no corpo grafadas no fundo do corpo nos ori

fícios o

cultos do corpo nos inter

stícios do corpo no in

trincado entre

lace dos neurônios guar

dando este nada/espírito esta ment

ira tão ver

dade

ira dos ver

mes que não são

nada

e morrem por nada e (se) matam por nada e vivem por nada nesta merda

de vida vivem

a merda da vida

de merda

mas vivem


ESCreVivência 101001

29 Dezembro 2008

aquele fio de tempo desfiando antigamente pela pele da tela um fio de lembrança nos poros da película poro das sinapses aquele filme aquela canção do roberto aquela saudade de quando você (não) viveu aquele olho escorrendo um passado triste por um triz de tempo (não) vivido pelo corpo fecundando a lágrima comovida como a vida vivida e (re)lida/lembrada o menino na casa do avô rabugento enquanto o encanto cresce no corpo do menino o desejo cresce a saudade dos pais cresce a morte o pai que não volta a mãe que vem a vida não volta nunca nas voltas da vida volta apenas (n)a vívida lembrança do vívido (não) vivido a mentira da vida vivendo comovida (como) a vida de um pedaço de vida perdida numa década qualquer de um país qualquer viver é se perder na vida qualquer de todo dia que nasce e (des)fia e finda e (re)nasce toda hora todo ano a vida inteira ida sem fim que brada que finda e ainda vibra
vida


ESCreVivência 101000

19 Dezembro 2008

fim de mundo fim de ano fim de festa fim de tudo o caminhão travestido de trenzinho as luzes de natal misturadas ao burburinho da feira da praça entrando no corpo pelos buracos do corpo a xuxa canta no último volume a música chacoalha o corpo chacoalhado pelo trem chacoalhando-se no asfalto escorrendo dos dedos até os confins do corpo de luzes e pedras e piche e cimento glóbulos rodam pelas artérias pulsos rolam pelo sistema nervoso dos fios e postes trespassando-se incessantemente tudo se conecta tubos se impregnam elétricos mecânicos corpos se imbricando tanta gente tanta mente tudo mente serpente envolvente escorrendo a língua de veneno num rastro de veneno bifurcado em mil caminhos serpeando as veias da pele transbordando o meio fio sem meada até o fim sem fim dos pulsos neurais das entranhas dos intestinos dos interstícios imperceptíveis por onde rola a saga sem fim do trenzinho cheio de crianças e pais atordoados por músicas e luzes e gentes e automóveis pensamentos desatentos preocupados cheios de lamentos cheios de sonhos cheios de vidas que se vão cheios de vãos cheios que navegam o mar de outros cheios cada vez mais cheios e nunca se bastam sempre se arrastam se expandem se preenchem de si se desdobram de si se obram de si se desconhecem de si diferentes de si as crianças olham em todas as direções apalpando o mundo com os olhos cheios de fascínio bebendo a música quente na noite quente da máquina quente de fazer dinheiro sobre rodas e sons e luzes e asfalto rolando frágil no frágil corpo infante encharcado de fluidos e feixes de luzes e sons de cantos e encantos de granas e gramas de ervas e vermes proliferando-se nas frinchas do asfalto dos corpos dos infantes de onde brotam mais infantes vermes inflando a multidão de vermes tomando cada canto do corpo infiltrando-se nos poros da pele do asfalto do solo até o estômago todo tomado feito feto de vermes vendo-se vendendo-se doando-se ao pulsar deslizante dos corpos vagando de corpo a corpo num fio sem fim de encanto de corpos vibrando enfileirados no trenzinho que se encosta ao meio fio a música cessa e desce um fio de gente e outra fila espera pra entrar e encher até transbordar e recomeçar a rodar


diálogos impertinentes 9

9 Dezembro 2008

fa – o chip

w – o que tem o chip

fa – o chip é a máquina de vcs

w – a máquina não é a net, a máquina elétrica?

fa – sim, a máquina midiática é a net, assim como a cavalaria era a máquina de guerra no medievo. mas a cavalaria era uma matilha de cavaleiros. a máquina homem-cavalo é que tornou possível a cavalaria, assim como o chip tornou a net possível. a net é uma coletividade de chips

w – o chip é a máquina mínima, uma peça da net

fa – máquina mínima sim, peça não. a net não é uma grande máquina estruturada em peças menores, mas uma profusão de máquinas em matilha, em conexão, como um enxame de abelhas, um bando de lobos, uma galáxia

w – a galáxia de mcluhan

fa – sim, mcluhan intuiu a net e o chip. a convergência de todas as mídias elétricas numa hipermídia telemática: a convergência digital

w – há um outro aspecto a considerar, q é o código digital. é ele q permite a convergência

fa – sim, o código digital, por enquanto binário, 0 e 1, é a forma de convergência de todas as formas de sinais: escritos, audiovisuais, comunicativos. com os sinais analógicos isto não era possível, cada mídia elétrica tinha sua linguagem particular

w – agora tudo é sinal binário

fa – sim, qualquer dado eletrificável (escrita, número, aúdio, imagem etc) ou sinal comunicativo transforma-se em dados e sinais binários que são manipulados com o chip, num volume e velocidade imensos. o código binário é a máquina simbólica (forma do conteúdo) e o chip a máquina física (forma da expressão), mas um não existe sem o outro, um já pressupõe o outro e, no limite, são intercambiáveis. ao se concetarem em rede, os chips se conectam com a net, fazem a net, a hipermáquina de grafia elétrica

w – e os humanos?

fa – qdo falo chip o homem está incluso, como na máquina de guerra medieval, que era um enxame de máquinas homem-cavalo. agora se trata de um enxame de máquinas homem-chip. assim como o cavalo sozinho não era nada para a máquina de guerra, os chips sem o prolongamento do cérebro, dos pulsos neurais, não são nada na net. chip é uma metonímia da máquina cérebro-chip


ESCreVivência 100111

5 Dezembro 2008

você

cria da rua

sob o sol da lua

dormindo em calçadas

de cidade em cidade

prof(m)issão pichadora

de corpo pichado

pichou a bienal

e a ficha criminal

agora

dorme entre grades

pichando sonhos

nos neurônios

quem

te pichou

o destino

?


ESCreVivência 100110

3 Dezembro 2008

beber pra esque
cer a dor de d
ente (sorver cer
veja dizendo beste
iras da classe mér
dia de direita a sem
ana inteira) foder
para esquecer
a dor de gente ou
vir no máximo vo
lume uma paule
ira seca pra esquecer
a dor dos corpos inchar
cados de amor e ri
mas miseráveis


diálogos impertinentes 8

3 Dezembro 2008

fa – máquinas

w – ah vc. sim máquinas, o q vc quer dizer sobre as máquinas

fa – deleuze e mcluhan nos falam de máquinas. máquinas de escrita. maquinações de escritura

w – o deleuze fala de máquinas, mas desejantes, sociais (estados, igrejas etc) e até mesmo máquinas como as conhecemos, automóveis, computadores, cavalo, o conjunto homem cavalo como máquina de guerra. mas ele não diz nada sobre máquinas de escritura. vc não está querendo é unir o mcluhan e o derrida? o materialismo radical do mcluhan com o conceito filosófico de escritura do derrida?

fa – também, mas as mídias elétricas do mcluhan são máquinas sócio-materiais, máquinas como as que deleuze concebeu. o que importa nas máquinas desejantes, em todas as máquinas afinal, mesmo as mecânicas?

w – o que seria?

fa – a conexão, a co-extensão das máquinas umas nas outras, a infinita imbricação das máquinas formando um inconsciente produtivo, uma sociedade humana e até mesmo infrahumana, natural: a natura como máquinas cosmológicas, geológicas, biológicas e sociais imbricadas: profusão maquinal. a questão para deleuze não é o que é o homem ou o ser, mas a que máquinas (sociais, simbólicas, materiais, de guerra…) vc se conecta como máquina, afinal o corpo é também máquina entre máquinas, que atravessa e é atravessado por máquinas

zp – note bem, não se trata de máquinas dentro de máquinas, de peças de máquinas, mas de um atravessamento incessante, uma profusão infernal de máquinas se interpenetrando e formando uma maquinosfera que não se deixa apreender com as noções de dentro e fora: para as máquinas há somente o fora, o meio, a conexão, o poro, o limar

w – e o q tem a ver mcluhan com isto

fa – digamos q ele focou suas teorias nas máquinas da escrita, ou melhor, nas máquinas simbólicas da linguagem, mas de um modo muito materialista, sem se perguntar pela linguagem em si, mas investigando as formas de conexão físico-químicas com a máquina-corpo. para mcluhan o corpo também é uma mídia, a fala é a primeira mídia cujo conteúdo seria a mente, as ondas cerebrais, o cérebro afinal

zp – aí entraria o derrida e sua escritura. digamos que todo o trabalho do derrida é em cima das estruturas simbólicas, uma espécie de abordagem nominalista. enquanto mcluhan investiga os suportes materiais da escritura, derrida foca nas suas formas simbólicas

w – mas estas duas abordagens não são inconciliáveis? o próprio mcluhan afirmava que o meio é a mensagem, que investigar a mensagem não levaria a nada

fa – mas quem disse q estamos falando de mensagem ou de conteúdo? derrida não investiga o conteúdo mas a forma simbólica ou, por outras palavras, a forma do conteúdo como diria hjelmslev

zp – e mcluhan investiga a forma da expressão: a máquina material da mídia é a forma da expressão e a máquina simbólica a forma do conteúdo da máquina escritural

fa – no fim das contas este dualismo, forma da expressão e do conteúdo, não existe substancialmente, apenas formalmente, pois são reversíveis. um já pressupõe o outro e, no limite, faz as vezes do outro. mcluhan acaba entrando no campo simbólico e derrida tem que invocar constantemente as várias máquinas de grafia para pensar sua escritura: a fala, a escrita convencional, a mente

w – não disse q vcs queriam unir derrida e mcluhan? deleuze n precisa entrar nesse jogo

fa – ora, deleuze tem a teoria geral das máquinas desejantes. das máquinas simbólicas e materiais, máquinas de guerra e de estado, nômades e sedentárias, biológicas e sociais

zp – não estamos querendo promover um ecumenismo filosófico

w – ah bom! eu já estava estranhando vcs, com estas atitudes tão conciliatórias e benevolentes. mas se não é ecumenismo o q é então?

fa – uma fiação subterrânea anti-metafísica

w – hein?

zp – todo este pensamento das mídias, máquinas e escritura se liga a uma teia maldita da filosofia ocidental, uma teia contra-metafísica que explodiu na segunda metade do século xx

fa – a teia da imanência: a mídia de mcluhan, a máquina de deleuze e a escritura de derrida se conectam e prolongam nas teias do pensamento da imanência, fazem mundos imanentes, nos quais o movimento, a diferença e as multiplicidades são constantes e disseminativos, irredutíveis a qualquer lei, centralidade ou unidade

zp – assim como o discurso de foucault e a escritura de barthes (outros modo de dizer a imanência, outras idéias da escritura)

fa – a ontologia sem o ser, a estrutura sem o centro, a sociedade sem as formações históricas, a mente sem a psique

zp – a-ontologia, a-estrutura, a-historicidade, a-subjetividade, imanência maquínica


ESCreVivência 100101

2 Dezembro 2008

um mantra sem fim de alegria proli

fera gozos & édens na tela

rotina de morfina

nas veias da

rotina a

final

no

final

poucos

passarão n

o funil da vida

.

.

esc-funil

.

.

V I D A
I D A
D O
ID

A
I
D
A

.P O
.V O A
.DA DO
.P O

A
IN
D A
VIBRA


ESCreVivência 100100

1 Dezembro 2008

pega leve
todo mundo alegre
celular & cerveja
bombom & brinquedo
branquinhos felizes
negrinhos também
(a cor da alegria
são todas as cores)
gente bonita & alegre &
famílias felizes colorem
a sala o quarto a cozinha
onde quer que haja
janelas para a vida
elétrica (me) beijando
olhos & ouvidos
atentos felizes
mergulhados numa
doce dose de morfina
contra as dores da rotina
uma história a mesma
história o mesmo novelo
se desenrola na tela
a mesma novela o mesmo
filme a mesma rotina
de morfina o mesmo
final feliz entre
meado de poesias pro
pagando sorvete &
cerveja & auto
móveis & imóveis
famílias felizes
sorrindo sorrisos & feli
cidades pela casa
quase me con
venço eu
sou fel
(por
um
tr)
iz

versão turbo

pega leve
todo mundo alegre
celular & cerveja
bombom & brinquedo
branquinhos felizes
negrinhos também
(a cor da alegria
são todas as cores)
gente bonita & alegre & famílias felizes colorem a sala o quarto a cozinha onde quer que haja janelas para a vida elétrica (me) beijando olhos & ouvidos atentos felizes mergulhados numa doce dose de morfina contra as dores da rotina uma história a mesma história o mesmo novelo se desenrola na tela a mesma novela o mesmo filme a mesma rotina de morfina o mesmo final feliz entremeado de poesias propagando sorvete & cerveja & automóveis & imóveis famílias felizes sorrindo sorrisos & felicidades pela casa
quase me con
venço eu
sou fel
(por
um
tr)
iz


Diversos Afins

30 Novembro 2008

Minha (?) lira cética e realista saiu na Revista Diversos Afins.

PS 1: Tá uma caipirice só neste número da Diversos Afins: além deste que vos escreve, Wesley Peres e Daniela dos Santos estão por lá também – como diriam os dois filhos de Francisco e L&L: de gyn para o mundo!

PS 2: A lira cética e realista faz parte de uma seção do popsia que chamei de antiquário das liras. A maioria dos poemas desta seção é daquele tipo que, depois de terminados, examinados e bem pesados, me pareciam ser muito mais de outros poetas ou épocas do que meus ou de agora. Bloom chamaria isto de angústia da influência, Pound diria que são máscaras/personas, Pessoa evocaria (semi)heterônimos, os membros da ordem concretista diriam que se trata de diluição dos mestre etc etc. Mas não tem jeito, os poetas e as liras do passado nos incomodam, nos cercam, nos impregnam. É pelos antigos, afinal, que nos tornamos escritores e muitas vezes nos damos conta de que o que escrevemos poderia ter sido escrito (e melhor, para nosso desconsolo) por nossos mestres do passado. Pra mim, a coisa se parece muito com o que os espíritas chamam de mediunidade. É como se nosso corpo estivesse possuído pelo espírito dos poetas mortos e, de repente, acabamos de escrever um poema à Drummond, à Bandeira, à Mário. Então dissemos, mas que merda, por que não me deixam em paz? É o tipo de coisa que nos deixa encabulados, apreensivos, afinal queremos ser originais, ter voz própria e não ficar falando pela voz dos mestres, cometendo o pecado concretista da diluição. Ao agrupar estes poemas sob o título de antiquário das liras, resolvi assumir a sina da mediunidade/diluição. Quem sabe assim os espíritos não me deixariam em paz dali em diante? Quanto à lira cética e realista, assim que acabei de escrevê-la, disse a mim mesmo, é Machado de Assis, não o da poesia, mas o da prosa – menos mal, porque ser médium de poesia parnasiana seria o fim da picada, se for pra diluir, pelo menos que seja coisa boa. Era o Machado cético e demolidor da prosa que escrevera o poema, cujos versos finais pareciam recuperar o final desolador do Quincas Borba, com aquelas estrelas tão antipoéticas, se lixando para as dores humanas. Daí o título, uma homenagem ao bruxo do Cosme Velho que infernizou meu teclado (os espíritos andam muito high tech ultimamente, nada de penas ou canetas!). E agora o pessoal da Diversos Afins publica a lira cética e realista numa edição-tributo a Machado de Assis! O editor, Fabrício Brandão, me explicou que resolveu fazer isto porque os textos confluíram para a sua obra. Eu acho que foi coisa arquitetada do além, só pode ser. O bruxo baixou na revista!


diálogos impertinentes 7

28 Novembro 2008

fa – certamente os óculos serão apenas uma passagem

w – como?

fa – haverá máquinas ainda menores e mais integradas ao corpo

w – que máquinas seriam estas?

fa – uma lente ou um implante nos olhos pode funcionar como tela e câmera. no lugar dos fones de ouvido um pequeno auto-falante pode ser implantado próximo ao tímpano

w – e a mosca cibernética, onde se aninharia?

fa – ora, moscas se aninham em qualquer lugar da roupa ou mesmo do corpo. o importante é que ela vai sempre acompanhar e filmar o corpo. mas ela também fará o papel de batedor, poderá filmar coisas e lugares nos quais a pessoa não se encontra. filmar durante o sono. uma pessoa pode ter várias moscas-batedoras

w –  vários olhos-ouvidos

fa – sim, e o audiovisual das câmeras das moscas mais o da câmera acopladas ao olho do corpo ficarão gravados na net como escrita elétrica

w – será uma profusão de audiovisual numa escala inimaginável. se bem q isto já acontece com os celulares de hoje

fa – sim, mas o celular é limitado demais, desajeitado e ainda depende de comandos do corpo para gravar. estamos falando agora de um continuum de gravação, de uma escrita sem fim do dia a dia, apenas disparada pelo corpo da pessoa, mas praticamente sem o seu controle, como as câmeras dos condomínios. aliás mais sem controle ainda: vc pode programar um vôo aleatório pra sua mosca; e se quiser sua câmera-implante poderá filmar o que seus olhos verem

w – esta integração homem-máquina me faz lembrar os borgs de jornada nas estrelas, corpos entre o biológico e cibernético

fa – muita ficção científica de vcs é o vislumbre de seu desejo

w – mas os borgs são monstruosos, inimigos dos humanos

fa – as novas máquinas são sempre horripilantes. elas interferem nos corpos, na maneira como eles se conectam e se distribuem como sistemas. as mais potentes destroem a conformação usual do corpo e o joga em limiares imprevisíveis. elas questionam o ser do corpo. vcs acreditam que o corpo é um organismo simbólico e biológico relativamente estável, mas ele é, na verdade, uma profusão de conexões em contínuo movimento, uma máquina em meio a máquinas materiais e simbólicas. quando o corpo se encontra num limiar de desestruturação, o horror é o afeto mais previsível dos humanos

zp – imagine a potência desta nova máquina da escrita. vc poderá ir à igreja, reuniões, trabalho, escola apenas virtualmente. como os óculos (ou as lentes) cobrem todo o campo visual, poderão ser criados espaços virtuais audiovisuais. a sociedade das prisões do foucault, tipo século xix vai, definitivamente, se transformar na sociedade dos controles que deleuze vislumbrou

w – ainda assim capitalista

fa – capitalista, democrática, cidadã, não estamos falando de utopias e libertações, os corpos ainda serão severamente disciplinados. talvez até com mais rigor. a net é uma ferrenha ferramenta de controle. quando os estados se fundirem a ela, quando os códigos legais e telemáticos completarem sua simbiose, os controles serão infinitamente mais eficazes

zp – será a diretiva borg controlando os corpos-zangões da colméia capitalista-democrática, mas não será uma coletividade racional e igualitária como a dos borgs

w – mas a net também tem hakers, vírus, códigos abertos

fa – sim, haverá outras formas de resistência, formas de guerrilhas, bandidos, terroristas, desconformes, mais ou menos vinculados às disciplinas da normalidade

zp – as máquinas nunca fecham um sistema, nunca constituem um organismo imune, muito menos a hiper-máquina capitalista, que funciona por crises. sempre haverá os escapes, os ataques nômades, as partículas enlouquecidas, delirantes

fa – mas a potência de controle da net será imensa. veja as notas fiscais eletrônicas

w – quê?

fa – nós prestamos muita atenção ao audiovisual da net e nos esquecemos dos números, do poder de cálculo, armazenamento e manipulação de dados da telemática. são estas três potências, aliadas a sua conectividade instantânea, que a tornam uma máquina poderosa.

zp – 90% das tarefas burocráticas do estado ou de uma empresa podem ser executadas por computadores, em muito menos tempo e com muito mais qualidade do que se fossem feitas por humanos

w – sim, quando desenvolvi um sistema de contabilidade, o balancete mensal da empresa ocupava 3 pessoas e levava 1 semana para ser feito. passou a ocupar 1 pessoa e era feito em minutos. depois descobri q se a empresa quisesse podia fechar o balanço todo o dia, sem custo nenhum

fa – mas ainda era preciso lançar os movimentos

w – sim, se houvesse uma venda, a nota fiscal era enviada ao departamento contábil e digitada como lançamento

zp – mas se a venda for feita por meio da net, não é necessário que um funcionário a cadastre no sistema contábil: ela automaticamente vira um evento contábil

fa – todos os eventos de mercado, financeiros, legais, científicos, artísticos e até cotidianos serão on-line, vão receber um registro imediato na net, vão ter uma ou mais grafias elétricas que lhes correspondam

zp – vão ficar gravados/grafados e poderão ser manipulados de várias maneiras. o evento mercantil da venda de um produto se transforma em eventos financeiro, fiscal e contábil. ele também integrará as estatísticas da empresa e do estado, tudo instantaneamente e sem mediação humana

fa – as gravações/grafias de seu olho ou de suas moscas podem se tornar eventos de toda espécie, podem ser conectadas em máquinas muito diversas: científicas, artísticas, de entretenimento, mercadológicas

zp – e na medida em que o estado ou as organizações se apropriam destes registros, destas grafias, isto lhes dá um imenso poder de controle

fa – mas, como vc disse, isto também não deixa de ser uma proliferação infernal de grafia. um meio fértil para hakers, vírus, desconformes

w – de certa forma é isto q já acontece com as grafias elétricas de hoje, financeiras, tributárias, mas também artísticas, filmes, músicas. são campos de controle estatal e de ganhos de capital, mas também são terrenos férteis para a proliferação das pragas, bandidos, piratas, artistas

zp – é o que sempre aconteceu com a escrita tradicional. a escrita já um meio de reprodutibilidade técnica, como diz o adorno. a tentativa da era metafísica sempre foi a de frear sua potência de simulacro, sua capacidade de disseminação, frear o descontrole da interpretação, controlar a sua capacidade de se conectar infinitamente a outras máquinas, principalmente as marginais: rosa-cruz, maniqueísmo, seitas ou filosofias minotritárias

fa – a tentativa platônica de fazer a escrita dizer a verdade, o ser, de se dobrar ao uno. nós já falamos sobre isto

zp – mas também é o que acontece com a oralidade. a oralidade já é escrita, a mente já é escrita, já é proliferação escritural. a tribo também tenta exercer um certo controle sobre esta proliferação oral, com seus caciques e pajés. mas há sempre o pajé que mora isolado na floresta e constrói suas máquinas mágicas alternativas, subversivas, poderosas, imprevisíveis, temidas

fa – o que estamos falando é de formas de escrita, de modos de grafia, de diferentes máquinas de escritura: oral, mecânica (fônica e ideogrâmica) e elétrica. macluhan foi o primeiro a perceber o problema com agudez, estamos no começo da era elétrica: a era das máquinas elétricas da escrita


ESCreVivência 100011

27 Novembro 2008

padrasto bêbado
espanca enteado
de menos de 2
até a morte enquanto
a mãe vai ao forró
ao lado a modelo
de biquíni vai tirar
o resto nas páginas
de dentro para quem
quiser comprar en
quanto a rádio toca
um sucesso popular
essa mãe é uma
vaca como é que
deixa o filho com
esse animal a modelo
prometendo delícias
da carne em meio ao
sangue esfirra de carne
por favor o mundo
está mesmo perto d
o fim está escrito
amanhã esquecemos
o menino morto é preciso
ir atrás de outros corpos
pra saciar a fome sem
fim de todo dia & toda
gente de carne
fresca & sangue ino
cente uma esfirra
e um suco quanto foi
obrigado de nada


ESCreVivência 100010

26 Novembro 2008

a poesia
é n
o interstício
é
a poesia
é n
o imperceptível
é
a poesia
é n
o imprevisto
é
a poesia
é n
o ímpeto
é
a poesia
é n
a plenitude
é
a poesia
é n

esc-poe


ESCreVivência 100001

24 Novembro 2008

pega leve
todo mundo alegre
o que você acha da
enquete no dia quente
praia piscina farofa shopping
futebol no domingo pelada na play
ground do mundo a cidade é uma farra
um livro de auto-ajuda com letras de concreto
signos da correspondência por e-mail & bate-papo
a cidade inteira é uma vitrine com os seus mendigos
e favelas por detrás das jaulas prontos pros turistas
a cidade sempre em construção nunca se contrai
uma contração eterna de gripes e estresses
a cidade e suas benesses suas festas
beneficentes seus serviços efi
cientes seu governo sempre
insuficiente suas redes
de compadrio de des
vario de prostitutas e bandidos de igrejas e bares
vendendo alegria nas garrafas nas pernas das mul
atas a cidade e suas meninas de mini-saia saindo n
a rua enlouquecendo caminhoneiros e executivos a c
idade sem freios e sua profusão de fios e sinais
subterrâneos/sem fio riscando-a linkando-a a mais
cidades as suas ruas que só levam a mais ruas ou
rodovias/aerovias que levam a mais cidades as es
colas que os meninos cheiram cheios de ira a
cidade e suas fábricas de animais e enlatados e s
eus trabalhadores atordoados na profusão de tarefas
sempre apressados sem tempo pra pensar mas reservando
um tempo e uma grana pra rezar que deus vai perdoar
se deus quiser e ele há de querer sangue de jesus
tem poder e está amarrado em nome de jesus cristo
amém ou em nome de exu oxum oxalá a vida vai melhorar
agora vai ou racha reservei esta grana pro carro
nem que seja usado é conforto minha casa é meu porto
seguro ninguém me segura agora eu sou difícil e decidida
um poema no perfil do orkut cheio de estrelinhas e
borboletas cor de rosa eu odeio falcidade eu sou fiel
eu sou putana eu traio eu faço swing eu só aceito
amizade de perfis com fotos bem dotados mais de 20
venha para a comunidade da assembléia de deus do
sexo anal de judas do bem e do mal qual o seu
nicho ou lixo que estou me lixando eu eu eu todos
os dias lavando vasilhas limpando cocô vendo a nov
ela amando o marido & dando pro amante & fazendo pl
anos de ir passear por aí distraidos do mundo não
pega pesado que a barra pesada é só depois da meia
entrada da teia de estradas que não dão em nada
como esta porrada que o boyzinho nazista deu
na boca do crioulo e nunca vai pagar por isto
quem é que vai pagar por isto quem é que vai pagar
esta rodada


ESCreVivência 100000

22 Novembro 2008

o que se diz
o que pinta nas pistas
o olho que dança no caminho
elétrico (o) que se grafa
e disse-mina na gente
o que se quis
a mina que se esconde num abismo de elétrons
entornados n

caiu a conexão
a pista
se foi no turbilhão longe dos sentidos

a luz volta em visões
tudo se liga a mente se inunda de novo
vibra víbora mente serpente elétrica
estefluxoininterruptoestecircuitoquenãocessanuncanaduraçãof
luxoquejamaisdisseaverdadefluxoquepensamossercoisaelétricad
oagoradenossascidadesmasfluidesdequehácidades&homensflu
indonoscorposunsdosoutros
as visões as possessões as cisões nunca cessaram
a ilusão de que não há
ilusão ilude este verme imenso aninhado frágil no frágil
oco da cabeça o ver
me de bilhões de ver
mes pulsando ver
mes infinita
mente

caiu a conexão
a vitória está
chorando

perdido entre as pistas que apontam mais pistas que apontam mais
pistas infinitas e
no entanto/por isto vive
este ver
me
sem saber direito como e o que é vi
ver tudo o que gravita dentroforaemmeioagora
vive no agora
agora

caiu a conexão
cedi o fone de ouvido aos meninos
dançando rock

em rota de colisão
com

o choro da vitória
caiu a conexão

com o rar
efeito ar magn
ético e seus sin
ais e seus nãos
sua atmos
fera feita de
ondas mordentes
sem limites pre
cisos limi
ares sem p
rumos definitivos
suas proliferações infinitas de infinitos mundos por segundo

a conexão vai cair
hora do banho
dos meninos (nunca
cai a conexão
desliza apenas
a outros circuitos
apenas desliza infinita
mente)

com o
caos

esc100000


ESCreVivência 11111

22 Novembro 2008

psicografias de ocasião


esta arte está perdida
lida que não mais se
lida por ninguém querida
mendiga desmilingüida
pedindo beijo de língua

paulo leminski


amam o um
profundissima
mente mas
quando o veem
enfiam um monte de zeros
pra ver se sobra alg
um

zé pelota


os profundos
e suas graves sondagens
das sutilezas ocultas da almahumana
putaquepariu nossasenhora dos abismos de pandora
a única profundeza que almejo
é a das bocetas das sen
horas

franco átila

profundos


diálogos impertinentes 6

21 Novembro 2008

w – estava lendo o alexei bueno ontem. tem boa verve, uma musicalidade mordente, perturbadora. sons e imagens em profusão. cria ambientações estranhas, sombrias, funestas, obscuras, fantasmagóricas…

fa – bolorentas

w – como?

fa – bolor, mofo. o homem é mesmo bom, tem talento, mas faz poesia como no fim do século xix, como um simbolista, um neo-simbolista. pelamordedeus, estamos no século xxi, a metafísica não responde, a grafia se eletrifica e ele criando atmosferas de mistério-romântico-simbolistas, se espantando com os abismos da almahumana, da vida e da morte, fazendo poesia profunda, ah vai

CONTINUA


ESCreVivência 11110

21 Novembro 2008

moça

na rua

lua

no céu

infinito

frescor


ESCreVivência 11101

20 Novembro 2008

pare de pensar se
pare-se de si faça
parir um monstro
explosivo a tarde
e suas nuvens giram
sobre a superfície
dos poros da terra
do asfalto da pele
mergulhados na noite
perfumada de estrelas
esquivas a qual
quer metáfora rastros
de prata que ninguém
deixou amor en
canta os corpos vibr
ando com seus
rastros de baba
e porra suor e a
fetos química
dos infernos que ninguém
bolou e nem controla
enquanto a tv tagarela
e a net prolifera f
utilidades terra afora

só a tarde e suas nuvens
nos embala nesta brisa
nos acolhe no seu fora
seu agora e sua margem
seus rastros de ninguém
seu perfume que se evola

cada corpo sua cor
seus turbilhões e seu olor
deixando rastros
(cada corpo já é r
astro) de ninguém


ESCreVivência 11100

20 Novembro 2008

nosso amor eh assim
de alma elet
rico
nosso amor pla
tônico
de corpos longe
e espi
ritos q se t(r)ocam
nosso amor vir(us/@)tu.al
esta
tela entre nós
se enre
dando inteira
mente
nosso amor
tao real
!

poema original da estela:

E-mail amor

Nosso amor é assim,
de alma, elétrico.
Nosso amor platônico
de corpos longe
e espíritos que se tocam.
Nosso amor virtual
estatela entre nós
enredados em nós
inteiramente
doados de nós.
Nosso amor
tão real!


ESCreVivência 11011

15 Novembro 2008

a moto passa e so
me na curva da
pista quem seria
todos os que passam
atrás de seus capacetes
e vidros atrás de seus
óculos escuros de sua
pele o asfalto as
paredes os corpos
envoltos em pedra
e eletricidade
anônimos ao léu
um muro passa correndo
de dentro dos vidros
escuros as luzes
se embaçam e se
entrelaçam nas lentes
entre serpentes de
asfalto e cimento
das calçadas que
bradas um grito de
filhada sumido em meio a
a velocidade os fios
tecem teias em fuga
infinita sobre as cabeças
pensado as prestações
as diversões e os tesões te
cendo redes em fuga
de pensamentos di
fusos entre luzes
de postes em série
trespassando horizontes
interditados por pré
dios interpostos em sé
rie como cubos povo
ados de mais cubos ilu
minados guardando
corpos guardando so
nhos que se esboçam
e fogem ao mesmo
tempo noite afora
até o sol nascer no as
falto derretendo
sapatos apressados
em ir nalgum lugar qual
quer que dê nalgum
lugar em que se possa
ir e vir sem nunca
se pegar perg
untando o motivo de
tanta pressa e ver
tigem sem nunca
pensar como passa/
pensa ráp
ido o motoboy sum
indo ao longo do cor
po de asfalto que ser
peia noturno dia
nte de olhos vi
drados em se
gundos insigni
ficantes trans
passados de min
úsculos movi
mentos incógnitos perdidos no turbilhão sem fim de
uma cidade

ou
(tr)a
ver
(são)

a moto passa e some na curva da pista quem seria todos os que passam atrás de seus capacetes e vidros atrás de seus óculos escuros de sua pele o asfalto as paredes os corpos envoltos em pedra e eletricidade anônimos ao léu um muro passa correndo de dentro dos vidros escuros as luzes se embaçam e se entrelaçam nas lentes entre serpentes de asfalto e cimento das calçadas quebradas um grito de filhada sumido em meio a velocidade os fios tecem teias em fuga infinita sobre as cabeças pensado as prestações as diversões e os tesões tecendo redes em fuga de pensamentos difusos entre luzes de postes em série trespassando horizontes interditados por prédios interpostos em série como cubos povoados de mais cubos iluminados guardando corpos guardando sonhos que se esboçam e fogem ao mesmo tempo noite afora até o sol nascer no asfalto derretendo sapatos apressados em ir nalgum lugar qualquer que dê nalgum lugar em que se possa ir e vir sem nunca se pegar perguntando o motivo de tanta pressa e vertigem sem nunca pensar como passa/pensa rápido o motoboy sumindo ao longo do corpo de asfalto que serpeia noturno diante de olhos vidrados em segundos insignificantes transpassados de minúsculos movimentos incógnitos perdidos no turbilhão sem fim de uma cidade


ESCreVivência 11010

13 Novembro 2008

cada vez mais bruto
áspera aresta irregular
oficina impaciente cada vez mais
você vai chegar momento
(que já vem chegando
no tempo) do gesto
último e mais
violento

adeus tudo
que seja

letra


ESCreVivência 11001

12 Novembro 2008

de sal
(dade)
em sal
(dade)
o tem
po se
adoça

o passado (se) faz
(no) presente

os neurônios pensam que são que ah
há alguém ao longo de algum
a duração q
ue não
f(l)
ui

ser
estes s
altos de sal
dades jogando
dados sem
f(m)im


ESCreVivência 11000

11 Novembro 2008

fúria

grafar furiosamente

escre(vi)ver amar querer

com dentes caninos (de) felinos furiosos

ira de vampiros sem pouso

transtornados do vôo

vertiginoso (sem porto)

sedentos de sangue

sedentário


diálogos impertinentes 5

11 Novembro 2008

w – com os óculos-computadores e uma internet hiper-veloz, estando eu numa sala física, no mundo físico, vou estar simultaneamente no espaço virtual. os dois espaços vão se sobrepor, se interpenetrar

zp – mas eles sempre se interpenetraram

w – antes da internet?

zp – o mundo da religião, do mito, da ciência, do faz de conta e mesmo das histórias ‘reais’, dos acontecimentos ‘reais’, o mundo que significa, que faz sentido, o mundo que os antropólogos chamam de cultura, já é este espaço q vc chama de virtual

fa – ele existe desde q o homem é homem. aliás, é o humano. é o que define vocês como homens. é a única coisa q existe pra vocês, como meio. a natureza, vcs podem desejá-la, sonhar estar em meio a ela, mas a natura é impenetrável pra vocês: o seu mundo é a cultura, a cidade, desde q vcs existem

zp – e a cultura, a cidade-cultura é o virtual, é a sala virtual de que vc está falando

w – quer dizer q a net não representa nenhuma novidade

zp – não é isto que dissemos. a net é a nova máquina da escrita. a nova maneira técnica de grafar o virtual. é a sua cidade elétrica

fa – grafar no sentido de fazer, de desdobrar, de obrar a cidade. vcs sempre grafaram a cidade, mesmo nas culturas q vcs chamam de primitivas, nas quais a grafia principal era voz e o pensamento e a cidade-cultura se fazia pela narrativa oral, pelo mito. era pelo mito que o mundo se escrevia. depois passa a ser a escrita hieroglífica, ideogrâmica ou fonológica: época do império em lugar da aldeia, dos sacerdotes de estado em vez dos feiticeiros da tribo, da metafísica do ser em vez da magia totêmica, da hierarquia burocrática em vez dos códigos de alianças.

zp – agora há uma nova mudança de máquina escritural. vcs têm uma nova escrita, a net, grafia elétrica que se liga diretamente aos pulsos neurais

w – quer dizer que não há duas cidades? mas claramente eu percebo um mundo da net, global (aldeia global), virtual, com bilhões de humanos e esta cidade em que estou, localizada no espaço, material, com no máximo alguns milhões de pessoas

zp – operacionalmente há estes dois espaços. mas sempre houve, desde os primitivos. havia uma aldeia física, povoada por algumas dezenas ou centenas de corpos. por outro lado havia a cidade dos mitos, que normalmente estendia sua textura pluriforme a muitas aldeias: às vezes duas aldeias não se conheciam, nunca tinham ouvido falar uma da outra, mas partilhava o mesmo tecido mítico, a mesma escritura, a mesma grafia virtual: as duas aldeias físicas povoavam a mesma aldeia virtual

fa – o que importa é q estes dois espaços se imbricam e se interferem o tempo todo. um não existe sem o outro. um se faz por meio do outro. e quando se muda a grafia da cidade/aldeia, quando se muda a máquina da escrita o que acontece é que se está num limiar de mutação que atinge todas as outras máquinas, sejam elas sociais ou físicas. os desejos mudam

zp – é importante entender esta questão do limiar, pois não é a máquina da escrita que provoca, do nada, as mudanças das outras máquinas. não é assim, como se tudo começasse a partir de uma nova máquina da escrita trazida do céu. as máquinas nunca são origem, originárias, nunca começam nem terminam nada. elas mediam o tempo todo. é sempre uma maquinaria infernal, uma fábrica, um parque de fábricas roncando suas máquinas inumeráveis. a escrita elétrica, principalmente a net, não é um começo, mas um limiar, um ponto de inflexão importante. ela já era prenunciada, já se engendrava num campo de desejo, como potência de outras maquinarias capitalistas: na máquina científica pós-renascentista, por exemplo. a ciência talvez tenha sido o primeiro campo no qual se desejou domar a eletricidade: vontade de engatar a máquina de conhecimento no fluxo de elétrons da natura, vontade de controle sobre a energia do raio. segunda onda prometeica: primeiro o fogo, depois a eletricidade.

fa – depois da ciência, houve a disposição burguesa de fazer dinheiro com o conhecimento científico da eletricidade, de criar tecnologias para movimentar suas fábricas, para estabelecer uma comunicação mais ágil por meio do telégrafo

zp – a vontade dos artistas de fazerem novas máquinas de arte com a eletricidade: cinema, rádio, vitrola: pré-história pop

fa – a oportunidade que esta nova arte abria para novos negócios. a apropriação burguesa da arte da escrita elétrica: rádio-novela, Hollywood, gravadoras

zp – a vontade militar de fazer novas máquinas de guerra utilizando o poder motriz e comunicativo da eletricidade

fa – o movimento não pára, este fluxos de desejo desaguam na net. e ela vai engendrar e possibilitar outras máquinas, outros desejos. vai proliferar novas conexões que nem nós, sobre-humanos, sabemos predizer


ESCreVivência 10111

8 Novembro 2008

mas

cada um vibra na sua tantas são as vibrações quanto são os corpos quanto são as células do corpo os átomos do corpo às vezes vibram na mesma freqüência de vida dois ou mais corpos na mesma fibra a mesma coragem o mesmo coração confluem rios risos que se fundem

mas

muito vibra junto a milhões no mesmo gozo demarcado gado marcado po(l)vo-gozo em polvorosa que agarra os corpos no seu corpo viscoso de gosma magnética & ama & amansa & amassa os corpos na mesma massa massiva no mesmo bolo bolorento boca adentro num buraco negro de gozo

mas

vibrações subterrâneas vagam incógnitas em submundos de eletricidade sob a grossa pele de cimento da cidade que não deixa res-pirar o (seu) corpo vibrar gozar como corpo-quer

mas

o que deseja é o que todo mundo quer não importa o que seja quer vibrar em multidão medindo cada gota precisa de gozo cada fibra de vida do corpo que vibra vendo a xuxa cantar ao vivo na televisão

mas


ESCreVivência 10110

7 Novembro 2008

aquilo que surgiu

sem ninguém ver

quase ninguém viu

incógnito

sumiu

.

incognito

versão (mais) a seco


diálogos impertinentes 4

6 Novembro 2008

fa – então os óculos serão o meio de contato

w – hein?

fa – vc sabe muito bem q posso ler o movimento dos desejos presentes e combiná-los com as máquinas em desenvolvimento muito melhor q qq humano. o prognóstico é uma derivação deste exercício.

w – q prognóstico? e q troço é este de óculos?

fa – a net é a nova escrita de vcs. mas agora trata-se de uma escrita elétrica, conectável a seus impulsos neurológicos

w – grande coisa, isso o mcluhan já disse a respeito das mídias elétricas

fa – exato. a net é uma síntese e superação de todas as mídias elétricas, mas ainda é muito lenta e desajeitada pra vcs.

w – e…

fa – vcs querem q a net responda a seus olhos e ouvidos na mesma velocidade do mundo ‘real’. querem uma interação audiovisual instantânea. pra isto a net tem q ficar mais rápida, tão rápida quando o telefone e a tv. só q o telefone não tem imagem e a tv é uma via de mão única: do emissor ao receptor. vcs querem a vantagem dos dois: a interatividade do telefone e as imagens da tv.

w – isto está muito próximo: a rapidez da net cresce exponencialmente

fa – sim. e a escrita convencional irá definitivamente para segundo plano. para coisas muito específicas, como artigos de ciências humanas por exemplo. até as notícias serão gravadas.

w – a escrita tem a vantagem de ser silenciosa. às vezes queremos falar em silêncio com outra pessoa.

fa – ora, já existem tecnologias que leem o pensamento. na verdade leem as ondas cerebrais da fala: já se pode conversar com outras pessoas e comandar um computador em completo silêncio

w – ah sim

fa – outro problema da net é q ela é muito desajeitada. o computador é uma máquina grande demais, tem problemas de energia.

w – mas o laptop pode ser levado pra todo lugar e as baterias são cada vez melhores.

fa – vc não está entendendo. vcs querem uma simbiose completa homem-máquina, uma fusão mente-net

w – ?

fa – um óculos…

w – ah sim, os óculos-computadores

fa – nanotecnologia: um óculos será um computador mais potente que qq micro existente hoje em dia.

w – as lentes serão a tela

fa – sim, os segundos olhos do corpo. mas os óculos terão também um fone de ouvido, um microfone e uma câmera embutidos. toda a comunicação que funciona por ondas luminosas ou sonoras se dará por meio dos óculos.

w – o microfone certamente será esta máquina de ler a mente

fa – sim, a leitora de onda cerebrais da fala

w – e a câmera? como poderei ser filmado a partir de meus óculos computacionais? que eu saiba ainda se precisa de alguma distância para ser filmado.

fa – uma mosca

w – que?

fa – uma mosca cibernética aninhada nos óculos. ela voará à sua frente e te filmará. nanotecnologia.

w – estou num ambiente real, digamos, uma sala. ao mesmo tempo vou estar num ambiente virtual da net, vendo, sendo visto, ouvindo, ‘falando’ com a mesma naturalidade e instantaneidade do mundo real?

fa – é isto q vcs desejam. e suas máquinas já permitem isto. é o que vcs vão fazer.

w – e adeus escrita.

fa – se vc fala destes sinais gráficos fonológicos ou ideogrâmicos, sim. ela vai estar limitada a regiões restritas de sua cultura. mas a net não deixa de ser outra grafia, outra escrita.

w – como assim?

fa – que m. vc não leu o derrida? a fala, a vida q se fala, a vida que se significa (a vida q se vive afinal) já é escrita, escritura, cultura. o cérebro, a memória, já procede por escrituração: a mente é uma escritura.

w – sim, e daí

fa – daí que esta grafia q vc chama de escrita, a escrita convencional, é ‘apenas’ uma tecnologia da escritura. claro q é uma tecnologia importante: ela representou uma inflexão capital na vida de vcs: é só com a máquina da escrita q a máquina do estado e as metafísicas são possíveis.

w – a net seria outra escrita?

fa – sim. a net (na verdade o q mcluhan chama de mídias elétricas) é outra tecnologia, outra máquina de grafia: outro modo da escritura. ela tem o poder de interação instantânea da comunicação ‘real’ e, ao mesmo, tempo, o poder de reprodutibilidade da escrita: vc pode gravar os acontecimentos (verbais, visuais, auditivos) da net e manipulá-los depois, como se manipula um livro. e como no mundo ‘real’, na net você vai poder estabelecer uma comunicação audiovisual instantânea com as pessoas.

w – um poder imenso

fa – sim, máquina muito potente a net. na verdade, todas as máquinas de escrita são muito poderosas. há cerca de três milênios, quando a escrita tradicional se consolidou em alguns lugares do globo, o mundo de vcs se transformou radicalmente. as máquinas estatal, literária, judaico-cristã e filosófica só puderam existir com a escrita fônica ou ideogrâmica. as novas máquinas criam novos homens e engendram outras máquinas e formas de conexão/relação. a partir da grafia elétrica da net outras máquinas sociais serão possíveis. a máquina pop é só o começo. vcs estão num limiar imprevisível


ESCreVivência 10101

4 Novembro 2008

geral
liberou geral
tomar banho de chapéu
swing bdsm ménage
homo bi tri suruba
livre sem medida ou rima
ou com assembl(er)
(gel)éia geral
sindical de deus do dia
bo pop rock funk cai
pira que o carreggae hai
que endurecer que brochar que
brar todas as
leis beber todas
ou não ou não ou não
do não

castos hedonistas
modernos pós clássicos
neo átomos uni
versos dispersos di
fusos vários dis
funcionais sóis
galáxias under
grounds mains
tream tédio tesão
partido pequeno
enorme coisa (do) demo
crata & (do) capi
tal como tudo é tão
permissível possí
vel passível
de erro e cor
reções pragm
áticas tu
do é rel
ativo ou não ou
não ou não do não
faz o que tu
do queres pois
liberou geral
geral

não
é isto que que
ríamos então por que
não ri(ma)mos como
achamos que ri(ma)
ríamos por que
tudo parece um
a cela a céu a
berto num des
erto de gelo um ser
tão ao contrário um
a prisão
globo
gulag
?


ESCreVivência10100

3 Novembro 2008

queria dizer tudo

(mas) a palavra não

diz nada (e) diz

tudo que não quis


ESCreVivência 10011

2 Novembro 2008

a pia cheia de vasilhas
a casa cheia de crianças
sorrisos cheios de alegria
um prato cheio de comida
um livro cheio de palavras
dando bandeira no vazio
da madrugada des(p)erta

a estante cheia de livros
um livro cheio de poesia
papel cheio de vida
a vida cheia de máscaras
um riso cheio de saudades
na boca cheia de fome
falando asneiras pelo dia
a dia da cidade alerta

a mesa cheia de trabalho
trabalho cheio de tédio
tédio cheio de desejos
desejos que agora não
são mais

que dejetos abjetos
jactos de futuro
do pretérito preteridos
ao longo do leito
de um rio que deixa
a terra fértil
toda nas margens
e corre deserto
adentro/afora

águas cheias de águas
claros cheios de claros
vazios cheios de vazios
palavras cheias de palavras
como numa poesia cheia
de palavra
puxa palavra


abandonar todas as posições

1 Novembro 2008

Quando fiz o “escreviver” pensei que ele finalizava o processo de escrita visual dos móbiles, pois não tinha nada a ver com suas telas-poemas: foi escrito no bloco de notas e assim permaneceu, versos alinhados à esquerda, limpos de qualquer visualidade. Pensei que depois do “escreviver” ia passar um bom tempo sem fazer poesia. Seria um poema único, não se parecia com nada antes nem se pareceria com o que viria, se viesse. Mas acabou por ser um prenúncio das ESCreVivências. Vá entender a poesia.

Agora, fuçando na minha pasta temp (de temporários), descubro um texto que poderia ser também o prenúncio das ESCreVivências. Mas ele foi escrito em janeiro de 2007 (pelo menos é a data do arquivo do Word). Nesta época eu estava escrevendo o popsia e ainda não tinha começado os móbiles. O tal texto seria também um prenúncio deste?

Em todo caso, foi por estes tempos que desisti definitivamente de querer publicar no papel, na verdade, de querer ter a chancela de editoras e ficar mesmo no submundo do submundo do submundo. Explico: poesia publicada na net, fora do circuito oficial das editoras, é o submundo da poesia que é o submundo da literatura que é um submundo das artes nestes tempos pop-audiovisuais.

E também foi por estes tempos que creio ter atingido uma certa maturidade poética: o popsia (e seu par em prosa, o tratactus marginale) talvez seja meu primeiro livro esteticamente consistente — agora se presta, caro internauta, já é outro papo — prestar, em poesia, é difícil pra cacete — é muito mais difícil que ser consistente.

Já escrefalei demais, putaquepariu que mania de escrever pelos cotovelos. Vamos ao texto feito no começo de 2007 (e que, pelo jeito, sinaliza o começo de muita coisa mais) e que deveria ser o único rabisco deste post:

abandonar todas as posições de uma guerra que já não é minha – lançar no mundo - abandonar as ambições de sair do anonimato - ser mais uma voz misturada - mais um corpo entre tantosentrar noutra luta - é preciso um caminhoum destino - traçar um destino - com o que se tem - não escrever mais - ou pelo menos não como antes – escrever ler para viver - encontrar outros modos de vida outra vida outra cidade outras – vias

***

P.S. Já que estou escrevendo pelos cotovelos mesmo, não custa dar uma nota. Eu gosto do Gessinger pra caramba, este poema que o diga. E  agora o cara parece que deu de abandonar todas as posições também. Ele tá fazendo música e jogando na net, pra baixar de graça. E uma música delicada, intimista, acústica, em duo (com Duca Leindecker). A quem interessar possa, clique aqui pra conferir.


ESCreVivência 10010

31 Outubro 2008

era pra ter
escritório no sótão
aquele meio místico
lunar a vida
assim tranquila
o tempo livre todo
pra estudar
auroras e ou
troras vida
no papel e vi
trola en
quanto brincam
lá fora

era assim
que a escrita sai
ria calma ao som
dos grilos sem nen
hum grilo um trabalho
pra ter o que
comer e cri
ar filhos e ar
uma doce rotina
doce marília

mas não é assim
que é afin
al não houve nen
hum degredo
e a escrita
sai do esc
ritório num ri
tual quase diá
rio mas

por que tudo en
tão tem um j
eito de ex
ílio de sal
ário mín
imo que mal
paga as contas
deste faz
de contas
?


ESCreVivência 10001

31 Outubro 2008

vem a chuva
o balanço vai
e vem à bordo
vão crianças
é verão e vai
a chuva num instante
fica o tempo
(e a tempestade)
o relâmpago vai
num átimo vão
os infantes
no balanço da chuva
de vida imprevista
relâmpagos
caindo no mau tempo


no papel

30 Outubro 2008

Ultimamente ando criando os poemas direto no computador, mas a ESCreVivência 1111 foi elaborada no papel, pois quando ela quis sair não tinha jeito de ligar o computador pra digitar.

O bom do papel é que a bagunça da criação acaba se transmitindo a ele. A confusão dos riscos e rabiscos são uma espécie de índice (gráfico? grafia?) das vagas mentais de linguagem que se imbricam na convulsão criativa. E a gente nem sabe se a coisa vai prestar. Na maioria das vezes não presta. Mas me disseram (Fred e Jamesson, e eles entendem do riscado) que a 1111 vingou:

(Obs: Para visualizar a segunda imagem num tamanho maior dê um clique nela)


diálogos impertinentes 3

28 Outubro 2008

fa – é o melhor q pode?

w- é

fa – tem que ser mais, gastar mais, gastar-se mais

w – se forçar mais eu piro (ou morro)

fa – é assim mesmo, a coisa é vampira. suga o sumo até o bagaço, nós te avisamos antes de entrar

w – tudo bem, mas tenho pelo menos que parar pra recarregar um pouco

fa – carga teórica ou poética?

w – teórica principalmente. a poética é imprevisível, vem em rajadas aleatórias

fa – a parada não deve ser nem contemplativa nem retrospectiva. apenas tática

w – que seja, é preciso recarregar. os corpos têm limites de energia

fa – é preciso forçar os limites, explodi-los. só há este sentido para o corpo, realizar a sua potência, vc não leu spinoza?

w – sim, nada de almas e verdades profundas para os corpos. mas não se chega à máxima potência em linha reta. às vezes é preciso, parar, recuar, desviar, desligar-se

fa – certo, mas tenha sempre em mente a potência do corpo. o sentido do corpo é a efetivação de toda a sua potência


ESCreVivência 10000

28 Outubro 2008

anos 70
que saudades
a vida era
dura e a dita
também mas
tudo era
tão simples
preto no branco
tv era globo
jornal nacional
sítio e novela
hanna barbera
só tinha o chacrinha
trapalhadas e show
da vida aos domingos
vai dormir menino
que amanhã tem escola

agora
tudo anda confuso
tantas redes e astros
proliferando mundo
afora girando a mil
por hora dão vertigem
na gente

os tempos mudaram
ou foi o menino?


ESCreVivência 1110

27 Outubro 2008

condenação hedônica

a gosma da tinta
na carne do papel
poeta virtual
é poeta virgem
que ninguém respeita
neste mundo hedonista

condenação cristã

moça tem que casar
poeta que publicar
sangue no lençol
mancha no papel
a vida tem que viver
pra deus purificar
a marca do pecado
deixa a vida na mão
jogando a vida em vão
nas redes da ilusão


ESCreVivência 1101

25 Outubro 2008

ela não é pra você
é tão difícil entender
ela não existe ela não
quer nada pra valer
com ninguém com ninguém
você é um ninguém
ninguém te vê
na tv

ela é tão bela
sua voz brilha
em meio aos elétrons
enlouquecidos
no tubo sem fim
da tv

(ela é tão bela
sua voz brilha
em meio aos pixels
enlouquecidos
no plasma sem fim
da tv)

a corda
espera
você
num sujo
banheiro
ninguém
te vê
da tv

à beira
de um vas
o porco
a corda
quase
tensa
abismo
de se
gundos
a vida
por centí
metros
adeus
minha doce ama
da tv

tudo que ele tinha
era uma foto desbotada
recortada de revista
especializada em vida
de artista
h.g.



ESCreVivência 1100

22 Outubro 2008

odiamos o pop
rosnamos nossos neurônios
e palavras mudas im
potentes contra o in
finito poder pop

queremos o oposto
o contragosto
o desgosto
o malgosto
o mal das massas
magnetizadas pelo ópio
elétrico do pop

eu não
eu não
eu não
o pop é a minha canção
de ninar e a tv
minha doce ama
de leite a cantar
dorme neném
que a xuxa vem pegar

ao som do violeta de outono
putaquepariu o q é q tem a ver


Tia N

18 Outubro 2008

Tia N tinha memória prodigiosa. Certo dia de julho, lembrando de meu aniversário, listou, um por um, dia por dia, os familiares que nasceram no mês. Quando acontecia algo engraçado, gravava na memória o dia e a hora e nunca mais esquecia. E quando relembrava ria como se acabasse de acontecer. Falava, gesticulava e ria sozinha, como se dividisse em duas ou mais pessoas que dialogassem entre si. Gravava os bordões que o Chico Flor repetia todos os dias na rádio Morrinhos. Um dia lembro que achou interessante uma figura de linguagem de uma canção (seria uma assonância, uma rima, uma aliteração?) e a repetiu em seguida, como que para gozá-la novamente. Como era meio cega, tinha um afeto especial pelos sons. Tia N como é que os gatos fazem no telhado? E ela imitava os urros dos bichanos na farra e ria um rô rô rô gostoso e batia uma palma de satisfação se remexendo em sua gordura de comilona insasiável.

Tia N. não gostava de bonecas e era temperamental. Quando nervosa mordia os braços, batia na própria cara, escabeceava a parece (ou emparedava a cabeça?) e fazia pactos com o diabo, já que Deus não resolvia nada mesmo (deixa de ser boba N, bradava a vó). Nos desentendimentos entre seus irmãos e as cunhadas ficava sempre do lado das últimas. Tia N. minha mãe nunca diz pro meu pai quanto dinheiro tem no banco, pode? Rô rô rô, bem feito, não pode dizer mesmo, senão que ele gasta tudo. Frequentava terreiro de umbanda contrariando o catolicismo da família e ninguém lhe passava a perna quando o assunto era dinheiro: esse ela via bem. Era marrenta e generosa, maliciosa e ingênua. Punha apelido nos sobrinhos. Quando aparecia pra dormir ou almoçar dizia, estilosamente como quando imitava os gatos no cio, Niiiidex.

Diziam que era de nascença. Eu, mais estudado, dizia que devia ser algum problema congênito do sistema nervoso como um todo, pois até pra andar havia uma certa dificuldade. Uma anormalidade, um erro genético. Mas era divertida. Sua presença inundava o ambiente com uma estranha atmosfera. Era diferente quando ela estava, outros ventos, outros jeitos de ver, outros pensamentos. Frescor de uma brisa inusitada errando por entre os os cérebros acertados. Errar assim, riscar assim o ambiente, não é a impressão que se deseja… deixar?


ESCreVivência 1001

17 Outubro 2008

a menina baleada na cabeça nesta sexta-feira, após passar cem horas mantida refém pelo ex-namorado, foi operada no hospital Municipal de Santo André e permanece em estado gravíssimo

se não somos filhos
de deus nenhum
e alma nenhuma
nos guia do fundo
de nosso corpo
desde sempre quase
morto e nos amamos
tanto a ponto
de matarmos por ódio e
amor a ponto de nos
sacrificarmos por
amor o que nos liga
corpos ao léu
estendendo-se uns
nos outros com tanto a
feto e ar
dor
?


ESCreVivência 1000

17 Outubro 2008

mas é preciso se desarmar de tudo desgarrar de tudo se desregrar como quem toma um copo de vinho um porre um pouco de baco entre os neurônios se atirar com tudo como se faz um pouco de diversão de perversão diperversões entre as marolas do marasmo entre os demarcados entre as nossas vidas tão normais mais mais mais depois do amor a dor o des-falecimento o des o que importa é sempre a porta que interessa e arremessa-mo-nos à frente a ela e nunca paramos ou paramos apenas por estratégia ou tática ou prática de um recuo para um avançar en-fim ao fim sem fim de via-jar iara viagem sem cessar bebi um copo de cerveja ou foi uma dúzia dez sereias me seduzem no mar de baco em que navego e vou ao fundo de um copo um corpo um mundo e boio ao acaso no fluxo rio da v-ida como um boi morto vivo ao léu

quebrar todas as regras quebrar o ritmo quebrar tudo até não ter nada mais a quebrar e des-lisar por entre as quebradas de um sertão perdido de ruas e massas e eletricidade cheio de sin-ais de vida pulsando sem cessar um deserto de bilhões de hum-anos luz  desconsolados & des-controlados de si