Os nervos do nirvana II (por Franco Átila)

a poesia é uma masturbação secreta
praticada por monges pervertidos
às portas da buceta das nuvens
que eles não conhecerão jamais

os poetas batem punheta no meio da rua
mendigos invisíveis pedindo esmola
com murmúrios inaudíveis as palavras gozam
em silêncio as sacolas passam e far

falham as peruas e cocotas vão às compras
ao salão de beleza homens de negócios
entram no cio com a última pickup da moda
oh my god as palavras urram na voz muda

do vate que esporra o poema no cu do mundo/
nada perturba o imperturbável gênio ilu
minado em seu nirvana pop em meio às calçadas
mijadas pelo vômito bêbado dos que perambulam

os buracos negros do asfalto
manto esburacado e inconsútil
que cobre a cidade de um sem fim
ao outro o corpo impuro e ávido

pelas carícias sacanas
desses mudos murmú
rios sujos de merda e porra
que brotam das bocas malditas

de seus ardentes amantes/
monges/mendigos punheteiros

Parca poesia (por Estela Mariana)

Os poetas são vaidosos – quem não é?
Mas há poetas que se gastam inteiros
Nos campeonatos nacionais e mundiais
Dos gênios do lirismo. São peões
da grandeza e da eternidade.

Mas há poetas que sabem – amargamente –
De sua vaidade. Estes sabem-se reles
Homens, como toda a gente.
Sabem que os desejos e as frustrações
E as pequenas alegrias da vida
Têm a mesma grandeza e a mesma
Precariedade das almas que passam
Vaidosas – e apreensivas – pelas parcas
Linhas de vida dos corpos.

Volverá?

Então os redemoinhos começam a se formar
Em algum ponto da linha do tempo
O que importa senão aquele olho que te olha sem parar
E os teus olhos fixos no olhar?

Todas as vaidades e veleidades
Rigores valores acúmulos
O que você juntou até ali e era a sólida base de sua morada
Se dissolve no vórtice em que a linha do ser
Se dissolve na névoa que voa o espaço
Desagregado

A vida volverá?

Quase deuses

Experimento faz macaco ter sensação de tato com braço virtual

Os homens ficarão biônicos,
os aviões mais supersônicos -
talvez surperquânticos.
Haverá leitores de sonhos
espiando nossos neurônios,
arrancando-lhes os desejos
mais recônditos e haverá
colônias, sob redomas,
em Marte e nos satélites
inóspitos de Saturno.
Computadores atômicos
acoplados a lentes astronômicas
desvendarão as galáxias
de um confim ao outro do cosmo.
Uma nave de neutrinos
passará por outra dimensão
mostrando-nos o passado
(sem sermos percebidos)
pela janela da cabine.
Tudo será filmado:
o julgamento de Sócrates
e as lágrimas de Platão.
O campeão de audiência
da televisão do futuro
será um reality de antanho.

Só esta sede infinita
e bruta que nos anima
e nos mata persistirá,
nos lembrando a essência do ser
animal que sempre seremos.

alucinação

enquanto

o mundo cai*

os poetas cantam

* um crítico reclama da literatura nacional que não se fazem mais poetas como dantes os economistas confessam não saber nada de economia e o melhor a fazer é chamar um psicólogo os facistas voltam a mostrar os dentes as bolsas oscilam os raios oscilam as chuvas oscilam o globo se aquece o povo se esquece da última história daquela novela e se gruda na próxima a música é séria mas o programa é fútil a tv quer os dólares da canção o público quer o gozo de ser fã e levantar as mãozinhas pro alto todo mundo junto cientistas advertem não haver como prover padrões de consumo americano para gregos e chineses a grécia despenca e não foi obra de persas nem troianos nem romanos a história não ensina nada a ninguém as guerras não param de matar e as pessoas se amam       ainda se amam

o cavalo arreado (por zé pelota)

Os homens e as mulheres seriam animais tristes (Paulo Honório – São Bernardo: último capítulo)

por todos os santos
e demônios que há no mundo
evoquemos misticismos e ateísmos
para um gole de gnose química e alquímica
no alambique da loucura com a taça da anarquia
mas não
toda a nossa imaginação está concentrada
em engenharias gerenciais de tornar o corpo mais eficaz
ah! religião ardorosa da dor
ah! felicidade extrema da autoflagelação
preferimos o cálice da paz
de uma loucura lenta e civilizada!

sabemos consertar e prolongar a vida útil dessa máquina de desejos
nosso corpo
apenas para entregá-lo mais saudável às engrenagens da eficácia
fizemos máquinas maravilhosas: motores e chips
e lamentamos por tomarem nossos postos
de trabalho – trabalho? – o caralho com o trabalho!
fizemos uma civilização de merda
de merdas que se matam por uns trocos (poucos)
que se matam por poder e mais valias mais
um povo de peões e capatazes
rebanho de si mesmo preso
por coleiras estatísticas e amarras da produtividade ascensional
e rituais de mensurações da eficiência educacional
para a perfeita comunhão com as novas ferramentas que inventamos
em número e velocidade crescentes
afinal somos a sociedade do conhecimento
um povo crente que se entrega cego ao (cego) deus da eficiência
um povo de escravos maquinais

e podíamos ser o povo do ócio
cultivando a preguiça nirvânica dos vagabundos
e o ímpeto impiedoso dos nobres
a cada um a sua vontade
de potência ou impotência
de ócios e cios – faz o que tu queres
é tudo da lei
eu vejo o cavalo de pasárgada passar arreado diante de nós
ocupados demais em nos dignificarmos com o trabalho
em atingirmos a perfeição capital
do escravo ideal

o cu rrí culo da vida

putaquepariu
tenho que mexer num tal lattes
e xerocar os comprovantes
para os bedéis do mec

não há coisa mais brochante
e sem sentido:
conhecimento de mentira
em forma de burocracia

quem foi o filhadaputa
que inventou esta contabilidade
de publicações e produtividades?
(decadências da academia
na cadência da anemia)

me esqueci
na máquina burocrática
impera a impessoalidade:
a filhadaputagem
não tem nome nem rosto

da essência humana (por franco átila)

charleskarlfriedrichsimunggilles

um cão
ou fode
ou come

o homem não
é o cão
e mais muitos
modos de produção
de Dopamina
sua deusa onipotente

em seu louvor
comem e fodem
variando as fodas
(e as comidas)
compram e bebem
cheiram e fumam
jogam trabalham
juntam cobres
nomeadas e rebanhos
dizimam-se bajulam
amos e rezam
cantam contam dançam
e pintam o sete
como crianças malcriadas

e como os cães não
saciam-se jamais

(quanto mais bebem do vinho
da deusa alegre e fácil
mais se aviva neles
a sede que os faz
viver e fenecer)

Teia etílica – prólogo (por Estela Mariana)

Era um bêbado cantor, que não se sabe se a embriaguez da música alimentou o álcool ou o contrário. Um contrariado de si e da vida, o contrário dela toda certinha de horários e missas: ela, Deus eterno; ele, Deus etílico. Cada um com sua ética, com sua estética de vida, porque viver é uma arte e é preciso saber viver, cantarolava ele a letra do rei. Porque ele não era desses de talentos de compor cantigas e a bem da verdade nem de voz nem instrumento e mal e mal arranhava um violão desafinado e afinava mais ou menos um canto meia boca que lhe saía do canto da boca em meio a um bafo de bode e bordel mal disfarçado de chiclete de menta e ainda assim perfeitamente audível às narinas de quem se aproximasse. Mas pareceu a ela um anjo de Deus a sua voz cantando na Festa das Amigas de Sempre das ex-alunas do colégio, dessas festas vagabundas feitas de décimos terceiros e lembranças piegas de uma juventude bem ou mal passada e envolta de saudade aquilo sim é que era idade e rapazes e músicas. Ele meio zonzo cantava para aquelas moças velhas mas lançava era pra ela aquele olhar grande e melancólico que saltava da face magra de bêbado contumaz. Há tanto tempo ninguém a olhara assim com ternura e desejo, céu e inferno, encanto e sede, e vinha ainda uma canção tão linda! (que era mesmo uma canção bem brega). Boca e olhos dele despertando uma magia que há muito adormecia no corpo meio gordo dela toda repartida entre as rotinas da repartição e os deveres de mulher de família e as faxinas da casa. Aquilo ali, olhar e boca bêbados e cantantes dele, aquilo era um desgrudar dos carimbos e das morais da história e dos aventais, era abrir seu corpo no ar e se deixar arrastar de um vento fresco e úmido, quente e envolvente, era subir aos céus descendo a escada da adolescência, adoecer de novo de querências e medos, era ela ali, Alice ante da toca do coelho, aqueles olhos grandes de bêbado cantor a convidava a entrar, era ele ali, um poeta, e cantava para ela e só para ela como é grande o meu amor por você e era tão lindo e era verdade e era a maravilha e ele tão lindo! (era mesmo um esquálido de dar dó, chupado de cana). Então a festa se acaba como todas as festas e a senhora não quer meu telefone se acaso precisar de cantor pra outra festa ou de uma amiga a seu dispor muito obrigado a senhora fica com Deus que eu tenho que ir noutra cantoria pra ganhar mais uns trocados e então ele subiu no seu Corcel meio capenga porque de madrugada ele tocava no inferninho ali do outro lado da cidade e recebia um cachê de suas amigas putas, ora em dinheiro ora em espécie ora em bebida e naquela noite ele só quis receber em bebida, pra ver se esquecia (ou seria pra lembrar?) o rosto lindo daquela fofura, deixa disso seu perdido ela é casada, o que uma mulher daquela vai querer com um estrupício como eu? Um dia o celular o acordou de sua ressaca diária: o senhor é… é… sou eu, o senhor lembra? o senhor cantou na festa de ex-alunas semana passada, tá lembrado? é que… As teias não param de crescer nos cantos, e as parcas riem…

Teia etílica (por Estela Mariana)

Não sei se é preciso haver mestres. Maiores poetas, maiores santos – uma incongruência maiores santos, uma vez que santos buscam a humildade. Poetas líricos também não vasculham o chão à procura dos tesouros do cisco, mesmo quando falam em galáxias? Poetas vivem no mundo da lua, mas a lua deles não tem distinção de eloquência nem motores de foguetes intergalácticos. Não é que se resignam: voam na resignação. Digo porque sou poeta, e nem a maior, nem grande e nem mesmo excelente. Devo estar até abaixo da crítica, mas sou.

Ninguém saberá daquela aranha e sua teia tecida com amor no canto da repartição (se bem que eu sei, mas eu saber é o mesmo que ninguém), com tanto amor que se basta em si e não tem nem precisão de dizer pra todo mundo. Mesmo porque todo mundo está no trampo e sem tempo, e quem vai reparar o amor com que a aranha tece e espera o alimento, a vida e a morte? Só estas funcionárias de repartição que não têm o que fazer (ou têm e postergam) e ficam sonhando de poetas sonhando ciscos de vida: sonhos de aranha armando seu circo de arame aéreo, incógnito ardor.

O maior amor do mundo foi entre o bêbado e a funcionária pública que só fazia bater carimbos, se amaram tanto e loucamente que nem Dante e sua Beatriz puderam. E foi aqui, junto a nós, nesta rua qualquer além da janela, no boteco da esquina, rodeados de putas pobres que cobram baratinho, no último círculo do inferno – mas era também o paraíso, e as putas tinham asas de anjo e auréolas, tudo muito kitsch (como são as putas pobres), mas tudo estranhamente lírico (como são as putas pobres). Mas eram casados cada um pro seu lado, um com a bebida e a outra com o marido – que não a tratava mal o pobre diabo e era bom pai de sua ninhada e tinha mesmo uns carinhos doces para ela apesar da sua eterna barriga de sete meses, a careca e a boca meia mal feita que nem boca de bode, mas ela também não era lá grandes coisas da beleza e da magreza.

Não podiam, cada qual sua noiva e cada qual sua cruz que tinham de carregar depois do momento em que se cruzaram e se viram e tocaram poro e poro e nunca se esqueceram… Os dois embriagados para sempre um do outro, quem dera para ele o vício fosse apenas a pinga, e para ela a rotina funcionária, como sempre havia sido até ali – e morreriam felizes para sempre. Mas não, tinha de haver aquele momento, aquele repente sem motivo do acaso em que o inseto resolve passear sua ínfima vida nos cantos do mundo e cai na teia e nunca mais se livra e é devorado de desejo, apavorado. Uma linha de voo se encontra com a linha pegajosa do amor. E as parcas riem…

O maior amor do mundo foi um pequeno caso de fios de vidas sem meadas atravessando e embaraçando corpos miseráveis que nem sabiam porque existiam ali, se amando feito gatos no telhado. E o nó que se desata só… com a morte, e mesmo assim sobra um fantasma, tecendo teias de éter no vazio, que nem poesia. E ninguém nunca soube e se soubesse não haveria de acreditar.

os roedores

os poetas sabem
que a vida não vale nada
não são como os padres
que vivem dizendo
“a vida não vale nada”
em nome da outra vida
prometida às boas ovelhas
e vivem a vida mundana dos pastores
que trepam comem e se perfumam
às custas do sangue do rebanho
os padres amigos da boa vida
e dos benfeitores do mundo
que desprezam a vida dos vermes

a vida não vale nada
para os poetas
por isto morrem na miséria
mesmo quando, por sorte
fazem o seu pé de meia
os poetas vivem
e morrem na miséria
e o sabem
talvez por isto
os poetas cantem

a vida de um deus
e a do verme mais miserável
não vale nada
por isto o poeta canta
a vagabunda que foge
na estrada do nojo
ao contrário dos padres
dos reis e burgueses
(benfeitores do mundo)
o poeta se enamora
furtivo (amor maldito)
do verme passageiro que há na vida
de qualquer vida

o poeta
é um rato
surrupiando restos

nirvana pop (o idiota)

estou ficando cada vez mais lerdo
estou ficando cada vez mais mudo
estou ficando cada vez mais tosco
estou ficando cada vez mais burro
estou ficando cada vez mais
estou ficando
estou

atingindo o nirvana pop
do punk-brega
transmutando-me num trash man
débil a vagar o espaço-
tempo vago
da idiotia

(este poema não é digno de mim
eu não sou digno de mim
eu não sou
eu)

Os impérios viram pó

E porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, poucos há que a encontrem. (Mt 7.14)

Bem aventurados os puros de coração…
Só os monges budistas serão salvos,
os monges
que entregam seu corpo aos gozos do espírito
e os crápulas
que se lançam de corpo e alma
aos porões de seu corpo.

sol (crepúsculo carbônico)

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ex-littera iv

um poema
letras imóveis na tela
soando ruídos mudos
o que pode um poema
diante do escândalo magnético
da eletricidade sonora
de uma canção?

um romance
linhas a fio que se des
fiam fábulas num livro
o que pode um romance
diante da fúria de sons
e imagens servida ao olhar
por um filme?

chaoship (mais poema&música)

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Tudo é simulacro. Os lacres estão rompidos. Musas & músicas, formas & falas, marcas & máscaras, essências & raízes, a origem é o clone. Sugam-se fadas & vampiros. Uma nuvem dissimulada boia no céu plástico de estrelas elétricas. Bytes se deixam duplicar, ao infinito. Medusas & proteus boquiabertos. Bocas magnéticas repetem palavras empedradas nas paredes da alma. Alma… a alma se desarma de si e desaba da substância dissolvida em onda e se desfaz nas praias do acaso das carnes das coisas & corpos, das matérias que definham num cosmo que se abre, que se abre, que se abre e se replica em outro sem parar, de ser outro. Sem nenhum sinal de um… um dentro

nobres & vagabundos 5

- ele está diferente, mesmo que esteja querendo parecer como antes, você sabe disso
- depois de uma viagem tão longa, talvez seja normal
- não, nunca devíamos tê-lo deixado embarcar nessa tal nAve aleatória
- estamos numa democracia, as pessoas vão aonde querem
- devíamos ter dado tarefas a ele, missões empolgantes: uma turma de noviços e uma divisão de pesquisas experimentais
- o mestre-mor não diz que pesquisas experimentais são contra-prudentes para recém-ungidos como ele?
- que nada, satisfaria seu espírito aventureiro e o manteria sob nossos olhos, longe dessa gente vagabunda
- vagabunda? a chaoship é uma instituição legal
- essa nAve aleatória que eles mantém faz suas expedições fora dos limites da liga planetária, com quem eles se encontram por lá?
- você está insinuando que a nAve entra em contato com os piratas anarquistas? que ele pode estar se aliando a eles?
- quem saberá? estes bandidos são ardilosos e sedutores. e nós sabemos como ele é, ele tem tendências…
- anarquistas? vagabundas? não, não creio nisto
- lembra-se de nossos planos para ele?
- sim, torná-lo grã-mestre de nossa academia gnóstica: juntar-se a nós em nossa missão educativa e civilizatória. ainda creio firmemente que é o destino dele
- a pergunta é: ele ainda quer se juntar à escola? todas as vezes que tocamos no assunto ele reage com evasivas
- você acha que ele desistiu da escola, de se tornar grã-mestre?
- estamos vivendo tempos difíceis e caóticos, temo que ele esteja se afastando de nós, de nossos valores logosóficos e democráticos
- e se tornando um pirata fora da lei, um vagabundo anarquista, um nômade espacial? você acha? como pode? não, não posso aceitar, ele sempre foi muito sério, leal e trabalhador, sempre comprometido com suas obrigações
- então por que partirá novamente com a nAve? se ele queria saber como é lá fora, uma vez não basta? não ficou tempo demais nesta vagabundagem improdutiva?
- então, acha mesmo que o estamos perdendo
- ele está se perdendo. temo sinceramente que não retorne mais desta segunda expedição

Nobres & vagabundos 4

Ninguém, sou ninguém, mil tribos me disputam a carne esfrangalhada da alma. Os canibais me espreitam curiosos. Meus inimigos tão pares meus. Fugir ou me atar ao conforto deste planeta-polis. O vácuo, o vácuo é tão sedutor, parcas estrelas distribuídas na pele do espaço numa rede tênue de luzes. Os neurônios oscilam indiferentes sua luminosidade interior, mandam-me ordens que não dito e sigo, por entre plasmas em fusão, ao léu. Exorbitar? Ou entrar nesta polis e achar meu lugar, fazer parecer que a viagem não é ao léu: encontrar conforto e sentido. O vácuo, outra margem de mim, canta, uiara irresistível. O vácuo aguarda paciente as mil tribos que vão deslizar em sua superfície depois de minha devoração. Ah Nemsem, se você estive aqui eu teria coragem e me lançaria, não estaria mais aqui, na órbita exata deste limite gravitacional, sem mergulho nem voo. Ah Nemsem, porque você se foi, meu antimestre?

 

amores proibidos

aonde foi parar a tropicália?
as arestas inaparáveis da tropicália
a beleza suja da tropicália
a irresistível aspereza da tropicália
samba rock valsa frevo
tango pop mambo scherzo
na mesma mistura vária
dança de índio canibal
ao som de batuque preto

ah tropicália
ela fugiu com o tom zé
pra bem longe da classe mérdia
da som preso e da rede bobo
pra bem longe das vaidades
dos medalhões da mpb
das mercancias do carnaval
da breganeja e do axé

ah tropicália
tom zé
carregou ela com ele
só pra ele
dividir ela com nóis
numa dessas encruzilhadas
da cultura em que a cultura
tá sempre de madrugada
que nem uma criança
abençoada por exu
sempre recém-nascida
aluada de pá virada
com o cu virado pra lua

nobres & vagabundos 3

não havia mais para onde fugir, ele estava cercado no hiperespaço pelas nanomáquinas do padre hedonista, não havia outra opção senão olhar no fundo sem fundo daqueles olhos hipnóticos implantados em cada encruzilhada dos labirintos da sua nave mental:
- o que você quer?
- o que todo padre quer
- O QUE VOCÊ QUER?
- o que em você quer

Animal poetry

Há quem pense que os poetas pensam,
eles não pensam, costumam ser um desastre intelectual.
Há quem pense que os poetas são eruditos refinados…
Alguns, mas muitos são apenas vagabundos da cultura:
ardilosos, se passam por doutos.
Há quem pense que os poetas têm o poder
de sondar os abismos da palavra,
da alma e da cidade dos homens,
quando apenas vagam perdidos na superfície dos mares,
como piratas vis e violentos, sedentos
por roubar o tesouro dos homens
e torrá-lo em orgias nababescas.
Há quem pense que os poetas são sensíveis…
Isto eles são, mas sem sutileza.
Sim, os poetas são sensíveis, de uma sensibilidade brutal.

fazer nada

vazio absoluto
o cosmo está pronto
ávido útero
pelo sol do acaso
(estela mariana)

- o que tenho que fazer para dar sentido à vida
- nada
- fazer pelos outros
- nada
- por mim
- nada
- para entender as pessoas
- nada
- entender o mundo
- nada
- entender os livros a cultura a alta literatura
- nada
- o que fazer pela arte
- nada
- ensinar o que e a quem
- nada e ninguém
- o que devo fazer
- poesia

Patife mind

Bando de bandidos malditos,
de quando adolescíamos,
gritos jamais… Ouvidos
caídos no abismo dos ruídos
olvidos. Mitos sepultados
sem nascer. Pulsam perdidos
vinis vis, riscados
do mercado phonográphico,
ressuscitam ripados,
upload de fantasmas
sonoros baixando
e assombrando a rede
neural que não se ex-
quece. Patife mind.

Percepção (antes tarde…)

Solidão em fuga…
Não é uma escolha,
é um destino, linha
de vida no tecido
mal cerzido do mundo,
com a agulha do acaso.

Solidão…
Não é escolha,
é um delírio, uma linha
de fuga no horizonte
mal cerzido do mundo,
com a bulha do cosmo.

Só…
Um escolho,
um demente, um fio
sem meada, uma ponte
mal sabida da margem,
confluência do caos.

poesia é… (ladainha)

poesia não é beleza
graças a deus
poesia não é social
graças a deus
poesia não é engajada
graças a deus
poesia não é forma
graças a deus
poesia não é rigor
graças a deus
poesia não é concisa
graças a deus
poesia não é discurso
graças a deus
poesia não é profunda
graças a deus
poesia não é rezar
graças a deus
poesia não é sagrada
graças a deus
poesia não é pensar
graças a deus
poesia não é dizer eu
graças a deus
poesia não é sutil
graças a deus
poesia não é erudita
graças a deus
não é civilizada
graças a deus
poesia não sabe ler
graças a deus
poesia
não é literatura
graças a deus

poema sem poesia

(uma sucessão interminável
de exploração e extermínio)
a história do homem
é um conto de horrores
para o próprio homem
(uma sucessão interminável
de exploração e extermínio)
lobo do homem
o homem agora
domina a natura
(uma sucessão interminável
de exploração e extermínio)
há no entanto
uma coisa óbvia
que sempre se esquece
(uma sucessão interminável
de exploração e extermínio)
não se trata
da suposta essência
da natura sagrada
(uma sucessão interminável
de exploração e extermínio)
e sim do corpo
precisar respirar
comer e beber
(uma sucessão interminável
de exploração e extermínio)
e não haver nave
ou outro planeta
em que se possa viver
(uma sucessão interminável
de exploração e extermínio)

Tese de pós-doutorado: o BRock como lírica de massas no Brasil pós-abertura política

o rock brasil é uma merda é uma merda que canta e grita e uiva não é coisa de poeta parece mico do pateta macaqueando a graça do miquei moUSA mas tem alguma coisa estranha só quem esteve nas entranhas das ondas do Brock parece que viu no fundo do fígado os fígados destruídos dos roqueiros bêbados cantando em português um fel de céu cinza uma coisa de antropofagia de meninas se atirando autofágicas aos vampiros eretos no palco gozando seu sangue ao público vampiro dos shows da tv do chacrinha da xuxa d’angélica um tecnicolor cafona anos 80 e por trás de tanta cor um rancor mal disfarçado desatado entre os dentes de um riso misto de cinismo e desespero na boca torta dos roqueiros cuspindo uma voz fake uma diluição do punk e do progressivo que já eram diluições do rock que já era diluição da música um som que soa a pastiche malacabado uma merda cagada pela boca suja dos elétricos trouvers de um submundo subequatorial subdesenvolvido uma merda por onde passa o mundo de merda do terceiro mundo uma escatologia um fim de mundo no cu do mundo um barulho de guitarras um entulho de gritos derramados nos abismos do ouvido das massas em transe por músicos moralistas ingênuos junkies pueris meninos classe média mass media querendo cantar que nem negros ganhando como executivos rosnando como cães uivando como lobos fodendo como crápulas como dráculas viciados cantando miseravelmente a miséria da burguesia branca e limpinha em meio ao mar porco da miséria amarela da ralé verde-amarela a miséria branca da riqueza por cima da carne seca da miséria negra da periferia a miséria de existir-merda lubrificando as engrenagens do mercado e do estado seja por cima ou por baixo à esquerda ou à direita os 3 patetas ou os 3 poderes homem primata você vai morrer e não vai pro céu toda essa merda do nosso rock de merda mas que merda que merda QUE MERDA divina merda ejaculada em espasmos convulsivos pela boca gaga degenerada da geração coca cola de poetas bastardos indecentes decadentes descendentes de luís de camões e luiz gonzaga

voz blue

para amy

a voz blue
a dor e a potência dos negros
rir de uma poeta
na sarjeta?
não
não aqueles vídeos
amy antes e depois
amy a junkie
amy a doida suicida
as piadas com os trapos de amy
as nóias e os micos de amy
os playboys e patricinhas
fãs do estilo decadence da poeta
ame amy
deglutida pelo paladar
das mídias & massas
ávidas por carne decomposta

não
apenas a voz blue
plena de dor
e da potência do negros

bésame mucho (por estela mariana)

esta noite sonhei contigo
nada de novo: tu não me deste
o beijo que eu pedia

hoje acordei
com o gosto amargo do beijo
que você me negou
e se você me desse
que gosto teria o beijo de um sonho
que também seria
um beijo negado?

mas minha boca já se esqueceu
desses gostos febris da noite que passou
das miragens do meu sono conturbado
e a única coisa a arder
na sua memória volúvel
de boca voluptuosa do que não houve
(ou houve? em eco ao menos…)
é o gosto inteiro de ti
que a tua boca despeja na minha
neste beijo agora
quando sonho acordada

word machines

word sex machine
by wilton cardoso

a merda
é a comida da flor
a vida
é a comida do poema
o corpo
é a comida do amor

 

word light machine
by estela mariana

a merda
ascende à flor
a vida
ascende à arte
o corpo
acende o amor

 

word dark machine
by franco átila

a merda apodrece
em flor
a vida se perde
na letra
o corpo adoece
no amor

Vates em watts (por Estela Mariana)

Por Estela Mariana

Sempre foi assim? Sou inculta demais para saber. Neste meu novo vício de coroa solitária vivo  vagando nas vagas digitais deste mar. Um dos meus hobbies prediletos é ler poetas de agora.

A poesia deles me parece, em sua maioria, destituída de ritmo, seja ele qual for: nem os musicais, nem os mais secos cabralinos. E me parecem quase todos  discípulos ou admiradores fervorosos de Cabral. Será que não sabem que Cabral tinha ritmo? Que aliterava, ecoava, que trabalhava o som de forma cerrada e cuidadosa? Mas quero crer que sabem e que a ausência de ritmo de sua poesia não seja imperícia e sim a execução coletiva de um projeto poético que desconheço. Mas se o som faz parte das palavras, se a fala ritma, se respiramos, pulsamos as palavras, por que abandonar o som? Bom, deve haver razões que desconheço. Como disse, sou muito inculta.

Há outra coisa que me incomoda nos poetas de hoje, que é um certo tom assertivo em suas entrevistas e escritos pensantes, uma, sei lá, empáfia intelectual que a erudição acadêmica exacerba (são quase todos muito estudados de pós-graduações, não raro professores delas), um ar de certeza, mesmo quando se dizem incertos. Não quero ser porta-voz da humildade poética, mas me parece que diante de uma época estonteante como a nossa, o excesso de certeza seja um perigo, não apenas moral, mas principalmente estético: quem quer estar na vanguarda ou ser original não deveria, antes de mais nada, tatear com radares de morcegos cegos, duvidar até da própria sombra e não ter certeza nem mesmo da incerteza? Não é uma questão humildade, mas de levar o experimentalismo (e sua prudência materialista) às últimas consequências. Mas não devo saber muito bem destas coisas, pois sou uma poeta muito tradicionalmente modernista…

O aparente tom de empáfia dos ensaios (tanto quanto a ausência de ritmo da poesia) da maior parte dos poetas chiques & cultos & relativamente famosos que pipocam no nosso agora deve ter lá o seu sentido profundo (histórico ou transtemporal) que me escapa a meus neurônios tão pouco potentes. Por isto não digo o que ia dizer deles: que são uma mistura de falta de talento e egomania.

Estela Mariana é poeta que não gosta de escrever em prosa. Só o faz, segundo ela, quando se sente muito incomodada.

Wikileaks e o segredo de estado

O Estado tem mais ou menos a idade da escrita, 5 ou 6 mil anos. A era da escrita é também a dos impérios e parece ter durado até agora. O Estado precisa da escrita para funcionar (contabilizar datas, impostos, posses, comunicar, guardar dados etc). Mas nunca, nem no estado democrático, a informação escrita dos estados e das grandes empresas e organizações (espécies de estados transnacionais) foi totalmente aberta. Muito pelo contrário, a informação escrita sempre foi firmemente controlada e filtrada, inclusive com a ajuda da imprensa e de seus proprietários. E a escrita facilitava isto, pois sua disseminação pressupunha toda uma logística que ia da produção da informação, passando por sua impressão, até a distribuição. Tal logística pressupunha hierarquias e exigia poder financeiro e político para funcionar – por outras palavras, a imprensa tradicional era fácil de se controlar. Mais que isto, o controle da imprensa, seja o exercido pelo estado, seja pelos proprietários, ou por ambos, era intrínseco a ela. As tensões que sempre existiam entre imprensa (escrita, televisiva, radiofônica) e governos eram tensões dentro do controlado jogo de poder midiático.

Com a internet isto parece estar se rompendo. E o meio ajuda. A internet é uma espécie de escrita também, que grava conteúdos verbais, sonoros e visuais, mas diferentemente da escrita tradicional não há necessidade de grande estruturas empresariais para a difusão de conteúdos na rede. Para se conseguir informação sempre bastou um punhado de espiões que conhecessem o terreno. Na escrita tradicional estes espiões não tinham meios para difundir tais informações, pois todos os veículos de imprensa estavam dentro do sistema de controle: o máximo que os donos e editores de jornais faziam eram chantagear os governos com seu poder de fogo informacional, mas eles sabiam que nunca deveriam ultrapassar certos limites pois, ao fim e ao cabo, o estado sempre poderia arruinar um jornal. Com a internet este empecilho acaba, pois se um espião tem a informação, basta postá-la na internet e ela já está impressa e distribuída para todo o mundo, sem custos e sem possibilidade de bloqueio da informação, pois ela se propaga de forma virótica: depois de publicada a informação, cada computador da rede (cada cd, pendrive, hd etc) é, potencialmente, um suporte de gravação e uma fonte para sua reprodução.

Isto significa que, em potência, a internet pode acabar com os segredos dos estados nacionais, das grandes empresas e de qualquer outra grande organização. Toda grande organização necessita de segredos de estado que devem ficar restritos a um pequeno número de pessoas. Normalmente tais segredos são incompatíveis com os princípios ou a moral democrática – são, portanto, inconfessáveis, como o assassinato brutal de civis iraquianos por tropas americanas. A Wikileaks é um punhado de espiões (gente de dentro dos esquemas) e hackers que encontraram as pessoas e o meio para tornar tais segredos públicos, de forma irreversível. A Wikileaks é o desenvolvimento da potência da internet lá onde ela assombra o estado e as grandes organizações (multinacionais, bancos, igrejas): na  quebra do “segredo de estado” e na ruptura dos controles da informação. Trata-se certamente de um dos maiores desafios que o estado (e qualquer agenciamento social que se organize como ele) já enfrentou. E como o capitalismo se organiza por meio de estados e grandes corporações, talvez o que se prenuncia seja uma nova sacudida no capital.