Puxando as felpas: um poema de Wesley Peres

28 abril 2009

Procuro, como G. H., procuro, intransitivamente.
E não acho, e o que me escapa, me conduz
—  não me conduz-para, me conduz.
Procuro a fórmula precisa, exata,
para dizer o nome do que não é nome:
o mioloconcretoinvisível
o que sustenta a nervura nevrálgica,
o casulo que não resultará
em borboleta sequer.

Procuro a coisa morta
— que pulsa que pulsa que pulsa —,
como um solsempelemcarneviva.

Procuro a janela para o fora da vida,
isto é: o cerne da vida,
isto é: o vago vazio das vagas,
a anemnemônica aliteração anômala,
vazia,
autofagia nossa de cada dia,
pão solar-sonoro,
que nos causa

o desejo de nomear
os inumeráveis alvéolos da morte.

(Wesley Peres)

Não se pode dizer que um texto é bom em si, estruturalmente ou ontologicamente. Digamos que um texto, qualquer texto, deixa felpas. Se elas permitem que sejam puxadas, quer dizer, se deixam-se proliferar, ou ainda, se os leitores deste texto necessitam prolongá-lo, ecoá-lo por torção e distorção, então dizemos que um texto é fecundo, que se deixa fecundar por e com outros textos e pessoas. Os textos são feitos de gatilhos, são corpos impregnados de gatilhos e assim também são os corpos dos homens. Gatilhos existem para serem disparados e quando eles o são dizemos que os corpos se imbricam: é a própria fecundação. Tentemos puxar algumas felpas do texto acima, de modo aleatório e parcial (totalizações parciais de sentido).

Procuro a janela para o fora da vida, [1]
isto é: o cerne da vida, [2]
isto é: o vago vazio das vagas, [3]
a anemnemônica aliteração anômala, [4]
vazia, [5]

O cerne da vida está no seu fora. Que fora seria este? O fora dos organismos, o fora da temporalidade? Pois a vida se dá em organismo limitados no tempo. Aparece aqui o signo do infinito espacial e temporal fora da organização espaço-temporal dos organismos. “o vago vazio das vagas” alude ao mar imenso e aleatório de repetições e diferenças ilimitadas. Este fora remete também ao caos, no qual as formas pulsam precárias e desaparecem antes de qualquer fixação. O fora da vida é o caos infinito? Atentemos ao trabalho fonético do trecho, principalmente o aliterativo, para o qual o texto chama a atenção do leitor. O fonema v de vida se repete em vago, vazio e vagas no verso [3] e em vazia no verso [5]. Palavras que são signos da ausência e da indiferenciação e que, pelo trabalho aliterativo ecoam estes sentidos em vida. O “vago, vazio das vagas”, pelo arranjo sintático é sinônimo de “cerne da vida” e pelo arranjo fonético impregna materialmente a palavra de “vida” de de vacuidade e indiferenciação. É uma saturação de som e sentido que atinge, inclusive, a palavra fora (cerne da vida) e cujo /f/ é, como o /v/ uma labiodental. O núcleo da vida é, paradoxalmente, o anti-núcleo por excelência, isto é, o seu fora, indiferenciado, ausente, caótico e infinito. É ainda a repetição inconsciente (ou esquecida, ou esquecida ante da lembrança) e fora do normal, desviante, diferida. É o que se repete fora da normalidade e do apreensível e como diferença no caos infinito. O verso quatro evoca o acaso no caos, pois o acaso se vincula à anomalia e ao não apreensível. Mais uma vez a aliteração aludida se faz materialmente em todo o trecho. Por um lado as nasais /n/ e /m/ proliferam nos versos  [1], [3] e [4]. Por outro os flepes /r/ e /l/ se repetem nos versos [1] e [4]. Os flepes e as nasais se agrupam ao lado da anomalia, no verso [4], enquanto as labiodentais parecem se aglutinar no terceiro verso, no qual o caos disforme é afirmado. E ambos são, pelo arranjo sintático do poema, sinônimos da vida. A palavra fora parece fazer a junção destes dois grupos de fonemas, reunindo um flepe /r/ e uma labiodental /f/. É no fora que a vida pulsa.

Este fora seria a morte? Sim, a resposta já está dada no poema, antes e depois deste trecho. Por que não falamos logo da morte, tentando levar a interpretação para o caos e o acaso? Talvez porque a morte seja uma resposta paradoxal demais (um bloqueio abrupto demais às passagens/conexões da interpretação) para dizer que abriga o cerne da vida. Então tentamos vê-la pulsando e tentando se diferenciar (fixar) nas miríades de vagas caóticas que o poema evoca no trecho que separamos. Dizer que a vida está na morte não quer dizer que esteja além da morte, num sentido sagrado. Não é isto que queremos extrair do poema. Queremos extrair o que há, na morte, de circulação de fluxos contínuos de desejo indiferenciados que, por um acaso (mágico?) se diferenciam em vida limitada no tempo-espaço. Uma vida que, apesar de limitada ainda se deixa penetrar desses fluxos indiferenciados, pois o ser vivente é como se fosse uma estabilização provisória numa atmosfera caótica, ele mesmo é uma atmosfera particular e relativamente ordenada (turbilhão) em meio à indiferenciação atmosférica. É como se o organismo fosse uma corpo atmosférico com uma pressão e densidade específicos que se afirma por algum tempo nas vagas vazias de forma e sentido, em jogo contínuo com estas vagas, indicando que entre o fora indiferenciado e o dentro do corpo não existem limites claros e permanentes, ou seja, o corpo é todo poros ou, pra usarmos uma palavra do poema, janelas. O que se deseja no e pelo poema é se aproximar destas janelas e se deixar atravessar pela vida enquanto limiar entre caos indiferenciado e corpo precariamente individuado neste caos.

Ler assim tem a vantagem de prescindirmos do ser e do sujeito. Eles são estruturas, às vezes, fixas demais e o poema dispõe suas felpas de modo que possamos dispensá-los para a sua leitura. Ler assim permite-nos que atinjamos o desejo em sua materialidade imediata, sem, no entanto, que a magia seja posta de lado. Muito pelo contrário, pois a mistério permanece mais radicalmente na medida em que as verdades (do ser, do sujeito), em que a significação da vida, em suma, não é nem mesmo adiada como utopia ou privilégio de uma outra dimensão da vida. Ela, a vida, é simplesmente a presença icognoscível que se tenta nomear (e tenta se nomear):

o desejo de nomear
os inumeráveis alvéolos da morte.

O poema é a busca desta nomeação, a busca da própria vida. Nomeá-la é mais um lance para fixá-la em meio às vagas de caos. O movimento do poema (de todo texto, em úlima análise) é de diferenciação em meio ao caos dos códigos. Estes são signos do apreensível, da gnose, mas quem lida com seu tecido sabe que suas dobras são como as “vagas vazias” do fora da vida. Em última análise os códigos diferenciam a partir do mesmo mundo em que a vida se fixa e o fora desta e o daqueles formam um mesmo continuum de caos. O texto também diz respeito à fixação do poema no caos dos códigos, num movimento análogo e remissivo à estabilização precária da vida.

O poema, ao seu final, diz, de viés, o infinito, ao se referir aos “inumeráveis alvéolos da morte”, explicitando, no momento chave de um final sintetizador, a pluralidade em que a vida está imersa. A vida está em perspectiva com o inumerável inapreensível. É um poema refratário a fechamentos em sua abordagem da vida, como coisa e como nome. Talvez esteja além, ou aquém, de uma apreensão crítica que o classifique no que chamaríamos de lirismo subjetivo-ontológico, que privilegia os problemas do sujeito e do ser, embora esta talvez seja sua matriz longínqua. Outra possibilidade de o apreender seria através de uma crítica que privilegiasse a construção de linguagem e neste caso o crítico poderia facilmente argumentar que o efeito do poema decorre do seu rigor lingüístico, do qual o cerrado jogo entre som e sentido seria uma amostra. Mas nem o rigor ontológico-subjetivo, nem o rigor de linguagem e nem mesmo um sincretismo ou dialética de ambos, explicam um poema e suas “qualidades intrínsecas”. São fixações (neuroses) da crítica que necessita de suportes/crenças para se prender. Um texto artístico é como a vida (é um tipo de vida e este poema que ora lemos faz alusão a isto) e sua apreensão é da ordem da intransitividade, como a busca que se empreende no poema:

Procuro, como G. H., procuro, intransitivamente.
E não acho, e o que me escapa, me conduz

A busca do crítico talvez seja mais fecunda quando se imbrica com a do poeta e se torne apenas mais um ato de nomear o inominável, um feixe a mais no enfeixamento incongruente e contínuo dos códigos e da vida.


A profecia de McLuhan

23 abril 2009

Uns tempos atrás a simpática Agnes Arato, estudante de jornalismo, me procurou e perguntou se eu aceitaria responder algumas questões sobre a literatura na internet. O resultado foi uma boa reportagem sobre o assunto, publicada no blog da Agnes:

clique aqui para ler


diálogos impertinentes 9

9 dezembro 2008

fa – o chip

w – o que tem o chip

fa – o chip é a máquina de vcs

w – a máquina não é a net, a máquina elétrica?

fa – sim, a máquina midiática é a net, assim como a cavalaria era a máquina de guerra no medievo. mas a cavalaria era uma matilha de cavaleiros. a máquina homem-cavalo é que tornou possível a cavalaria, assim como o chip tornou a net possível. a net é uma coletividade de chips

w – o chip é a máquina mínima, uma peça da net

fa – máquina mínima sim, peça não. a net não é uma grande máquina estruturada em peças menores, mas uma profusão de máquinas em matilha, em conexão, como um enxame de abelhas, um bando de lobos, uma galáxia

w – a galáxia de mcluhan

fa – sim, mcluhan intuiu a net e o chip. a convergência de todas as mídias elétricas numa hipermídia telemática: a convergência digital

w – há um outro aspecto a considerar, q é o código digital. é ele q permite a convergência

fa – sim, o código digital, por enquanto binário, 0 e 1, é a forma de convergência de todas as formas de sinais: escritos, audiovisuais, comunicativos. com os sinais analógicos isto não era possível, cada mídia elétrica tinha sua linguagem particular

w – agora tudo é sinal binário

fa – sim, qualquer dado eletrificável (escrita, número, aúdio, imagem etc) ou sinal comunicativo transforma-se em dados e sinais binários que são manipulados com o chip, num volume e velocidade imensos. o código binário é a máquina simbólica (forma do conteúdo) e o chip a máquina física (forma da expressão), mas um não existe sem o outro, um já pressupõe o outro e, no limite, são intercambiáveis. ao se concetarem em rede, os chips se conectam com a net, fazem a net, a hipermáquina de grafia elétrica

w – e os humanos?

fa – qdo falo chip o homem está incluso, como na máquina de guerra medieval, que era um enxame de máquinas homem-cavalo. agora se trata de um enxame de máquinas homem-chip. assim como o cavalo sozinho não era nada para a máquina de guerra, os chips sem o prolongamento do cérebro, dos pulsos neurais, não são nada na net. chip é uma metonímia da máquina cérebro-chip


diálogos impertinentes 8

3 dezembro 2008

fa – máquinas

w – ah vc. sim máquinas, o q vc quer dizer sobre as máquinas

fa – deleuze e mcluhan nos falam de máquinas. máquinas de escrita. maquinações de escritura

w – o deleuze fala de máquinas, mas desejantes, sociais (estados, igrejas etc) e até mesmo máquinas como as conhecemos, automóveis, computadores, cavalo, o conjunto homem cavalo como máquina de guerra. mas ele não diz nada sobre máquinas de escritura. vc não está querendo é unir o mcluhan e o derrida? o materialismo radical do mcluhan com o conceito filosófico de escritura do derrida?

fa – também, mas as mídias elétricas do mcluhan são máquinas sócio-materiais, máquinas como as que deleuze concebeu. o que importa nas máquinas desejantes, em todas as máquinas afinal, mesmo as mecânicas?

w – o que seria?

fa – a conexão, a co-extensão das máquinas umas nas outras, a infinita imbricação das máquinas formando um inconsciente produtivo, uma sociedade humana e até mesmo infrahumana, natural: a natura como máquinas cosmológicas, geológicas, biológicas e sociais imbricadas: profusão maquinal. a questão para deleuze não é o que é o homem ou o ser, mas a que máquinas (sociais, simbólicas, materiais, de guerra…) vc se conecta como máquina, afinal o corpo é também máquina entre máquinas, que atravessa e é atravessado por máquinas

zp – note bem, não se trata de máquinas dentro de máquinas, de peças de máquinas, mas de um atravessamento incessante, uma profusão infernal de máquinas se interpenetrando e formando uma maquinosfera que não se deixa apreender com as noções de dentro e fora: para as máquinas há somente o fora, o meio, a conexão, o poro, o limar

w – e o q tem a ver mcluhan com isto

fa – digamos q ele focou suas teorias nas máquinas da escrita, ou melhor, nas máquinas simbólicas da linguagem, mas de um modo muito materialista, sem se perguntar pela linguagem em si, mas investigando as formas de conexão físico-químicas com a máquina-corpo. para mcluhan o corpo também é uma mídia, a fala é a primeira mídia cujo conteúdo seria a mente, as ondas cerebrais, o cérebro afinal

zp – aí entraria o derrida e sua escritura. digamos que todo o trabalho do derrida é em cima das estruturas simbólicas, uma espécie de abordagem nominalista. enquanto mcluhan investiga os suportes materiais da escritura, derrida foca nas suas formas simbólicas

w – mas estas duas abordagens não são inconciliáveis? o próprio mcluhan afirmava que o meio é a mensagem, que investigar a mensagem não levaria a nada

fa – mas quem disse q estamos falando de mensagem ou de conteúdo? derrida não investiga o conteúdo mas a forma simbólica ou, por outras palavras, a forma do conteúdo como diria hjelmslev

zp – e mcluhan investiga a forma da expressão: a máquina material da mídia é a forma da expressão e a máquina simbólica a forma do conteúdo da máquina escritural

fa – no fim das contas este dualismo, forma da expressão e do conteúdo, não existe substancialmente, apenas formalmente, pois são reversíveis. um já pressupõe o outro e, no limite, faz as vezes do outro. mcluhan acaba entrando no campo simbólico e derrida tem que invocar constantemente as várias máquinas de grafia para pensar sua escritura: a fala, a escrita convencional, a mente

w – não disse q vcs queriam unir derrida e mcluhan? deleuze n precisa entrar nesse jogo

fa – ora, deleuze tem a teoria geral das máquinas desejantes. das máquinas simbólicas e materiais, máquinas de guerra e de estado, nômades e sedentárias, biológicas e sociais

zp – não estamos querendo promover um ecumenismo filosófico

w – ah bom! eu já estava estranhando vcs, com estas atitudes tão conciliatórias e benevolentes. mas se não é ecumenismo o q é então?

fa – uma fiação subterrânea anti-metafísica

w – hein?

zp – todo este pensamento das mídias, máquinas e escritura se liga a uma teia maldita da filosofia ocidental, uma teia contra-metafísica que explodiu na segunda metade do século xx

fa – a teia da imanência: a mídia de mcluhan, a máquina de deleuze e a escritura de derrida se conectam e prolongam nas teias do pensamento da imanência, fazem mundos imanentes, nos quais o movimento, a diferença e as multiplicidades são constantes e disseminativos, irredutíveis a qualquer lei, centralidade ou unidade

zp – assim como o discurso de foucault e a escritura de barthes (outros modo de dizer a imanência, outras idéias da escritura)

fa – a ontologia sem o ser, a estrutura sem o centro, a sociedade sem as formações históricas, a mente sem a psique

zp – a-ontologia, a-estrutura, a-historicidade, a-subjetividade, imanência maquínica


Diversos Afins

30 novembro 2008

Minha (?) lira cética e realista saiu na Revista Diversos Afins.

PS 1: Tá uma caipirice só neste número da Diversos Afins: além deste que vos escreve, Wesley Peres e Daniela dos Santos estão por lá também – como diriam os dois filhos de Francisco e L&L: de gyn para o mundo!

PS 2: A lira cética e realista faz parte de uma seção do popsia que chamei de antiquário das liras. A maioria dos poemas desta seção é daquele tipo que, depois de terminados, examinados e bem pesados, me pareciam ser muito mais de outros poetas ou épocas do que meus ou de agora. Bloom chamaria isto de angústia da influência, Pound diria que são máscaras/personas, Pessoa evocaria (semi)heterônimos, os membros da ordem concretista diriam que se trata de diluição dos mestre etc etc. Mas não tem jeito, os poetas e as liras do passado nos incomodam, nos cercam, nos impregnam. É pelos antigos, afinal, que nos tornamos escritores e muitas vezes nos damos conta de que o que escrevemos poderia ter sido escrito (e melhor, para nosso desconsolo) por nossos mestres do passado. Pra mim, a coisa se parece muito com o que os espíritas chamam de mediunidade. É como se nosso corpo estivesse possuído pelo espírito dos poetas mortos e, de repente, acabamos de escrever um poema à Drummond, à Bandeira, à Mário. Então dissemos, mas que merda, por que não me deixam em paz? É o tipo de coisa que nos deixa encabulados, apreensivos, afinal queremos ser originais, ter voz própria e não ficar falando pela voz dos mestres, cometendo o pecado concretista da diluição. Ao agrupar estes poemas sob o título de antiquário das liras, resolvi assumir a sina da mediunidade/diluição. Quem sabe assim os espíritos não me deixariam em paz dali em diante? Quanto à lira cética e realista, assim que acabei de escrevê-la, disse a mim mesmo, é Machado de Assis, não o da poesia, mas o da prosa – menos mal, porque ser médium de poesia parnasiana seria o fim da picada, se for pra diluir, pelo menos que seja coisa boa. Era o Machado cético e demolidor da prosa que escrevera o poema, cujos versos finais pareciam recuperar o final desolador do Quincas Borba, com aquelas estrelas tão antipoéticas, se lixando para as dores humanas. Daí o título, uma homenagem ao bruxo do Cosme Velho que infernizou meu teclado (os espíritos andam muito high tech ultimamente, nada de penas ou canetas!). E agora o pessoal da Diversos Afins publica a lira cética e realista numa edição-tributo a Machado de Assis! O editor, Fabrício Brandão, me explicou que resolveu fazer isto porque os textos confluíram para a sua obra. Eu acho que foi coisa arquitetada do além, só pode ser. O bruxo baixou na revista!


diálogos impertinentes 7

28 novembro 2008

fa – certamente os óculos serão apenas uma passagem

w – como?

fa – haverá máquinas ainda menores e mais integradas ao corpo

w – que máquinas seriam estas?

fa – uma lente ou um implante nos olhos pode funcionar como tela e câmera. no lugar dos fones de ouvido um pequeno auto-falante pode ser implantado próximo ao tímpano

w – e a mosca cibernética, onde se aninharia?

fa – ora, moscas se aninham em qualquer lugar da roupa ou mesmo do corpo. o importante é que ela vai sempre acompanhar e filmar o corpo. mas ela também fará o papel de batedor, poderá filmar coisas e lugares nos quais a pessoa não se encontra. filmar durante o sono. uma pessoa pode ter várias moscas-batedoras

w –  vários olhos-ouvidos

fa – sim, e o audiovisual das câmeras das moscas mais o da câmera acopladas ao olho do corpo ficarão gravados na net como escrita elétrica

w – será uma profusão de audiovisual numa escala inimaginável. se bem q isto já acontece com os celulares de hoje

fa – sim, mas o celular é limitado demais, desajeitado e ainda depende de comandos do corpo para gravar. estamos falando agora de um continuum de gravação, de uma escrita sem fim do dia a dia, apenas disparada pelo corpo da pessoa, mas praticamente sem o seu controle, como as câmeras dos condomínios. aliás mais sem controle ainda: vc pode programar um vôo aleatório pra sua mosca; e se quiser sua câmera-implante poderá filmar o que seus olhos verem

w – esta integração homem-máquina me faz lembrar os borgs de jornada nas estrelas, corpos entre o biológico e cibernético

fa – muita ficção científica de vcs é o vislumbre de seu desejo

w – mas os borgs são monstruosos, inimigos dos humanos

fa – as novas máquinas são sempre horripilantes. elas interferem nos corpos, na maneira como eles se conectam e se distribuem como sistemas. as mais potentes destroem a conformação usual do corpo e o joga em limiares imprevisíveis. elas questionam o ser do corpo. vcs acreditam que o corpo é um organismo simbólico e biológico relativamente estável, mas ele é, na verdade, uma profusão de conexões em contínuo movimento, uma máquina em meio a máquinas materiais e simbólicas. quando o corpo se encontra num limiar de desestruturação, o horror é o afeto mais previsível dos humanos

zp – imagine a potência desta nova máquina da escrita. vc poderá ir à igreja, reuniões, trabalho, escola apenas virtualmente. como os óculos (ou as lentes) cobrem todo o campo visual, poderão ser criados espaços virtuais audiovisuais. a sociedade das prisões do foucault, tipo século xix vai, definitivamente, se transformar na sociedade dos controles que deleuze vislumbrou

w – ainda assim capitalista

fa – capitalista, democrática, cidadã, não estamos falando de utopias e libertações, os corpos ainda serão severamente disciplinados. talvez até com mais rigor. a net é uma ferrenha ferramenta de controle. quando os estados se fundirem a ela, quando os códigos legais e telemáticos completarem sua simbiose, os controles serão infinitamente mais eficazes

zp – será a diretiva borg controlando os corpos-zangões da colméia capitalista-democrática, mas não será uma coletividade racional e igualitária como a dos borgs

w – mas a net também tem hakers, vírus, códigos abertos

fa – sim, haverá outras formas de resistência, formas de guerrilhas, bandidos, terroristas, desconformes, mais ou menos vinculados às disciplinas da normalidade

zp – as máquinas nunca fecham um sistema, nunca constituem um organismo imune, muito menos a hiper-máquina capitalista, que funciona por crises. sempre haverá os escapes, os ataques nômades, as partículas enlouquecidas, delirantes

fa – mas a potência de controle da net será imensa. veja as notas fiscais eletrônicas

w – quê?

fa – nós prestamos muita atenção ao audiovisual da net e nos esquecemos dos números, do poder de cálculo, armazenamento e manipulação de dados da telemática. são estas três potências, aliadas a sua conectividade instantânea, que a tornam uma máquina poderosa.

zp – 90% das tarefas burocráticas do estado ou de uma empresa podem ser executadas por computadores, em muito menos tempo e com muito mais qualidade do que se fossem feitas por humanos

w – sim, quando desenvolvi um sistema de contabilidade, o balancete mensal da empresa ocupava 3 pessoas e levava 1 semana para ser feito. passou a ocupar 1 pessoa e era feito em minutos. depois descobri q se a empresa quisesse podia fechar o balanço todo o dia, sem custo nenhum

fa – mas ainda era preciso lançar os movimentos

w – sim, se houvesse uma venda, a nota fiscal era enviada ao departamento contábil e digitada como lançamento

zp – mas se a venda for feita por meio da net, não é necessário que um funcionário a cadastre no sistema contábil: ela automaticamente vira um evento contábil

fa – todos os eventos de mercado, financeiros, legais, científicos, artísticos e até cotidianos serão on-line, vão receber um registro imediato na net, vão ter uma ou mais grafias elétricas que lhes correspondam

zp – vão ficar gravados/grafados e poderão ser manipulados de várias maneiras. o evento mercantil da venda de um produto se transforma em eventos financeiro, fiscal e contábil. ele também integrará as estatísticas da empresa e do estado, tudo instantaneamente e sem mediação humana

fa – as gravações/grafias de seu olho ou de suas moscas podem se tornar eventos de toda espécie, podem ser conectadas em máquinas muito diversas: científicas, artísticas, de entretenimento, mercadológicas

zp – e na medida em que o estado ou as organizações se apropriam destes registros, destas grafias, isto lhes dá um imenso poder de controle

fa – mas, como vc disse, isto também não deixa de ser uma proliferação infernal de grafia. um meio fértil para hakers, vírus, desconformes

w – de certa forma é isto q já acontece com as grafias elétricas de hoje, financeiras, tributárias, mas também artísticas, filmes, músicas. são campos de controle estatal e de ganhos de capital, mas também são terrenos férteis para a proliferação das pragas, bandidos, piratas, artistas

zp – é o que sempre aconteceu com a escrita tradicional. a escrita já um meio de reprodutibilidade técnica, como diz o adorno. a tentativa da era metafísica sempre foi a de frear sua potência de simulacro, sua capacidade de disseminação, frear o descontrole da interpretação, controlar a sua capacidade de se conectar infinitamente a outras máquinas, principalmente as marginais: rosa-cruz, maniqueísmo, seitas ou filosofias minotritárias

fa – a tentativa platônica de fazer a escrita dizer a verdade, o ser, de se dobrar ao uno. nós já falamos sobre isto

zp – mas também é o que acontece com a oralidade. a oralidade já é escrita, a mente já é escrita, já é proliferação escritural. a tribo também tenta exercer um certo controle sobre esta proliferação oral, com seus caciques e pajés. mas há sempre o pajé que mora isolado na floresta e constrói suas máquinas mágicas alternativas, subversivas, poderosas, imprevisíveis, temidas

fa – o que estamos falando é de formas de escrita, de modos de grafia, de diferentes máquinas de escritura: oral, mecânica (fônica e ideogrâmica) e elétrica. macluhan foi o primeiro a perceber o problema com agudez, estamos no começo da era elétrica: a era das máquinas elétricas da escrita


diálogos impertinentes 6

21 novembro 2008

w – estava lendo o alexei bueno ontem. tem boa verve, uma musicalidade mordente, perturbadora. sons e imagens em profusão. cria ambientações estranhas, sombrias, funestas, obscuras, fantasmagóricas…

fa – bolorentas

w – como?

fa – bolor, mofo. o homem é mesmo bom, tem talento, mas faz poesia como no fim do século xix, como um simbolista, um neo-simbolista. pelamordedeus, estamos no século xxi, a metafísica não responde, a grafia se eletrifica e ele criando atmosferas de mistério-romântico-simbolistas, se espantando com os abismos da almahumana, da vida e da morte, fazendo poesia profunda, ah vai

CONTINUA


diálogos impertinentes 5

11 novembro 2008

w – com os óculos-computadores e uma internet hiper-veloz, estando eu numa sala física, no mundo físico, vou estar simultaneamente no espaço virtual. os dois espaços vão se sobrepor, se interpenetrar

zp – mas eles sempre se interpenetraram

w – antes da internet?

zp – o mundo da religião, do mito, da ciência, do faz de conta e mesmo das histórias ‘reais’, dos acontecimentos ‘reais’, o mundo que significa, que faz sentido, o mundo que os antropólogos chamam de cultura, já é este espaço q vc chama de virtual

fa – ele existe desde q o homem é homem. aliás, é o humano. é o que define vocês como homens. é a única coisa q existe pra vocês, como meio. a natureza, vcs podem desejá-la, sonhar estar em meio a ela, mas a natura é impenetrável pra vocês: o seu mundo é a cultura, a cidade, desde q vcs existem

zp – e a cultura, a cidade-cultura é o virtual, é a sala virtual de que vc está falando

w – quer dizer q a net não representa nenhuma novidade

zp – não é isto que dissemos. a net é a nova máquina da escrita. a nova maneira técnica de grafar o virtual. é a sua cidade elétrica

fa – grafar no sentido de fazer, de desdobrar, de obrar a cidade. vcs sempre grafaram a cidade, mesmo nas culturas q vcs chamam de primitivas, nas quais a grafia principal era voz e o pensamento e a cidade-cultura se fazia pela narrativa oral, pelo mito. era pelo mito que o mundo se escrevia. depois passa a ser a escrita hieroglífica, ideogrâmica ou fonológica: época do império em lugar da aldeia, dos sacerdotes de estado em vez dos feiticeiros da tribo, da metafísica do ser em vez da magia totêmica, da hierarquia burocrática em vez dos códigos de alianças.

zp – agora há uma nova mudança de máquina escritural. vcs têm uma nova escrita, a net, grafia elétrica que se liga diretamente aos pulsos neurais

w – quer dizer que não há duas cidades? mas claramente eu percebo um mundo da net, global (aldeia global), virtual, com bilhões de humanos e esta cidade em que estou, localizada no espaço, material, com no máximo alguns milhões de pessoas

zp – operacionalmente há estes dois espaços. mas sempre houve, desde os primitivos. havia uma aldeia física, povoada por algumas dezenas ou centenas de corpos. por outro lado havia a cidade dos mitos, que normalmente estendia sua textura pluriforme a muitas aldeias: às vezes duas aldeias não se conheciam, nunca tinham ouvido falar uma da outra, mas partilhava o mesmo tecido mítico, a mesma escritura, a mesma grafia virtual: as duas aldeias físicas povoavam a mesma aldeia virtual

fa – o que importa é q estes dois espaços se imbricam e se interferem o tempo todo. um não existe sem o outro. um se faz por meio do outro. e quando se muda a grafia da cidade/aldeia, quando se muda a máquina da escrita o que acontece é que se está num limiar de mutação que atinge todas as outras máquinas, sejam elas sociais ou físicas. os desejos mudam

zp – é importante entender esta questão do limiar, pois não é a máquina da escrita que provoca, do nada, as mudanças das outras máquinas. não é assim, como se tudo começasse a partir de uma nova máquina da escrita trazida do céu. as máquinas nunca são origem, originárias, nunca começam nem terminam nada. elas mediam o tempo todo. é sempre uma maquinaria infernal, uma fábrica, um parque de fábricas roncando suas máquinas inumeráveis. a escrita elétrica, principalmente a net, não é um começo, mas um limiar, um ponto de inflexão importante. ela já era prenunciada, já se engendrava num campo de desejo, como potência de outras maquinarias capitalistas: na máquina científica pós-renascentista, por exemplo. a ciência talvez tenha sido o primeiro campo no qual se desejou domar a eletricidade: vontade de engatar a máquina de conhecimento no fluxo de elétrons da natura, vontade de controle sobre a energia do raio. segunda onda prometeica: primeiro o fogo, depois a eletricidade.

fa – depois da ciência, houve a disposição burguesa de fazer dinheiro com o conhecimento científico da eletricidade, de criar tecnologias para movimentar suas fábricas, para estabelecer uma comunicação mais ágil por meio do telégrafo

zp – a vontade dos artistas de fazerem novas máquinas de arte com a eletricidade: cinema, rádio, vitrola: pré-história pop

fa – a oportunidade que esta nova arte abria para novos negócios. a apropriação burguesa da arte da escrita elétrica: rádio-novela, Hollywood, gravadoras

zp – a vontade militar de fazer novas máquinas de guerra utilizando o poder motriz e comunicativo da eletricidade

fa – o movimento não pára, este fluxos de desejo desaguam na net. e ela vai engendrar e possibilitar outras máquinas, outros desejos. vai proliferar novas conexões que nem nós, sobre-humanos, sabemos predizer


diálogos impertinentes 4

6 novembro 2008

fa – então os óculos serão o meio de contato

w – hein?

fa – vc sabe muito bem q posso ler o movimento dos desejos presentes e combiná-los com as máquinas em desenvolvimento muito melhor q qq humano. o prognóstico é uma derivação deste exercício.

w – q prognóstico? e q troço é este de óculos?

fa – a net é a nova escrita de vcs. mas agora trata-se de uma escrita elétrica, conectável a seus impulsos neurológicos

w – grande coisa, isso o mcluhan já disse a respeito das mídias elétricas

fa – exato. a net é uma síntese e superação de todas as mídias elétricas, mas ainda é muito lenta e desajeitada pra vcs.

w – e…

fa – vcs querem q a net responda a seus olhos e ouvidos na mesma velocidade do mundo ‘real’. querem uma interação audiovisual instantânea. pra isto a net tem q ficar mais rápida, tão rápida quando o telefone e a tv. só q o telefone não tem imagem e a tv é uma via de mão única: do emissor ao receptor. vcs querem a vantagem dos dois: a interatividade do telefone e as imagens da tv.

w – isto está muito próximo: a rapidez da net cresce exponencialmente

fa – sim. e a escrita convencional irá definitivamente para segundo plano. para coisas muito específicas, como artigos de ciências humanas por exemplo. até as notícias serão gravadas.

w – a escrita tem a vantagem de ser silenciosa. às vezes queremos falar em silêncio com outra pessoa.

fa – ora, já existem tecnologias que leem o pensamento. na verdade leem as ondas cerebrais da fala: já se pode conversar com outras pessoas e comandar um computador em completo silêncio

w – ah sim

fa – outro problema da net é q ela é muito desajeitada. o computador é uma máquina grande demais, tem problemas de energia.

w – mas o laptop pode ser levado pra todo lugar e as baterias são cada vez melhores.

fa – vc não está entendendo. vcs querem uma simbiose completa homem-máquina, uma fusão mente-net

w – ?

fa – um óculos…

w – ah sim, os óculos-computadores

fa – nanotecnologia: um óculos será um computador mais potente que qq micro existente hoje em dia.

w – as lentes serão a tela

fa – sim, os segundos olhos do corpo. mas os óculos terão também um fone de ouvido, um microfone e uma câmera embutidos. toda a comunicação que funciona por ondas luminosas ou sonoras se dará por meio dos óculos.

w – o microfone certamente será esta máquina de ler a mente

fa – sim, a leitora de onda cerebrais da fala

w – e a câmera? como poderei ser filmado a partir de meus óculos computacionais? que eu saiba ainda se precisa de alguma distância para ser filmado.

fa – uma mosca

w – que?

fa – uma mosca cibernética aninhada nos óculos. ela voará à sua frente e te filmará. nanotecnologia.

w – estou num ambiente real, digamos, uma sala. ao mesmo tempo vou estar num ambiente virtual da net, vendo, sendo visto, ouvindo, ‘falando’ com a mesma naturalidade e instantaneidade do mundo real?

fa – é isto q vcs desejam. e suas máquinas já permitem isto. é o que vcs vão fazer.

w – e adeus escrita.

fa – se vc fala destes sinais gráficos fonológicos ou ideogrâmicos, sim. ela vai estar limitada a regiões restritas de sua cultura. mas a net não deixa de ser outra grafia, outra escrita.

w – como assim?

fa – que m. vc não leu o derrida? a fala, a vida q se fala, a vida que se significa (a vida q se vive afinal) já é escrita, escritura, cultura. o cérebro, a memória, já procede por escrituração: a mente é uma escritura.

w – sim, e daí

fa – daí que esta grafia q vc chama de escrita, a escrita convencional, é ‘apenas’ uma tecnologia da escritura. claro q é uma tecnologia importante: ela representou uma inflexão capital na vida de vcs: é só com a máquina da escrita q a máquina do estado e as metafísicas são possíveis.

w – a net seria outra escrita?

fa – sim. a net (na verdade o q mcluhan chama de mídias elétricas) é outra tecnologia, outra máquina de grafia: outro modo da escritura. ela tem o poder de interação instantânea da comunicação ‘real’ e, ao mesmo, tempo, o poder de reprodutibilidade da escrita: vc pode gravar os acontecimentos (verbais, visuais, auditivos) da net e manipulá-los depois, como se manipula um livro. e como no mundo ‘real’, na net você vai poder estabelecer uma comunicação audiovisual instantânea com as pessoas.

w – um poder imenso

fa – sim, máquina muito potente a net. na verdade, todas as máquinas de escrita são muito poderosas. há cerca de três milênios, quando a escrita tradicional se consolidou em alguns lugares do globo, o mundo de vcs se transformou radicalmente. as máquinas estatal, literária, judaico-cristã e filosófica só puderam existir com a escrita fônica ou ideogrâmica. as novas máquinas criam novos homens e engendram outras máquinas e formas de conexão/relação. a partir da grafia elétrica da net outras máquinas sociais serão possíveis. a máquina pop é só o começo. vcs estão num limiar imprevisível


abandonar todas as posições

1 novembro 2008

Quando fiz o “escreviver” pensei que ele finalizava o processo de escrita visual dos móbiles, pois não tinha nada a ver com suas telas-poemas: foi escrito no bloco de notas e assim permaneceu, versos alinhados à esquerda, limpos de qualquer visualidade. Pensei que depois do “escreviver” ia passar um bom tempo sem fazer poesia. Seria um poema único, não se parecia com nada antes nem se pareceria com o que viria, se viesse. Mas acabou por ser um prenúncio das ESCreVivências. Vá entender a poesia.

Agora, fuçando na minha pasta temp (de temporários), descubro um texto que poderia ser também o prenúncio das ESCreVivências. Mas ele foi escrito em janeiro de 2007 (pelo menos é a data do arquivo do Word). Nesta época eu estava escrevendo o popsia e ainda não tinha começado os móbiles. O tal texto seria também um prenúncio deste?

Em todo caso, foi por estes tempos que desisti definitivamente de querer publicar no papel, na verdade, de querer ter a chancela de editoras e ficar mesmo no submundo do submundo do submundo. Explico: poesia publicada na net, fora do circuito oficial das editoras, é o submundo da poesia que é o submundo da literatura que é um submundo das artes nestes tempos pop-audiovisuais.

E também foi por estes tempos que creio ter atingido uma certa maturidade poética: o popsia (e seu par em prosa, o tratactus marginale) talvez seja meu primeiro livro esteticamente consistente — agora se presta, caro internauta, já é outro papo — prestar, em poesia, é difícil pra cacete — é muito mais difícil que ser consistente.

Já escrefalei demais, putaquepariu que mania de escrever pelos cotovelos. Vamos ao texto feito no começo de 2007 (e que, pelo jeito, sinaliza o começo de muita coisa mais) e que deveria ser o único rabisco deste post:

abandonar todas as posições de uma guerra que já não é minha – lançar no mundo - abandonar as ambições de sair do anonimato - ser mais uma voz misturada - mais um corpo entre tantosentrar noutra luta - é preciso um caminhoum destino - traçar um destino - com o que se tem - não escrever mais - ou pelo menos não como antes – escrever ler para viver - encontrar outros modos de vida outra vida outra cidade outras – vias

***

P.S. Já que estou escrevendo pelos cotovelos mesmo, não custa dar uma nota. Eu gosto do Gessinger pra caramba, este poema que o diga. E  agora o cara parece que deu de abandonar todas as posições também. Ele tá fazendo música e jogando na net, pra baixar de graça. E uma música delicada, intimista, acústica, em duo (com Duca Leindecker). A quem interessar possa, clique aqui pra conferir.


no papel

30 outubro 2008

Ultimamente ando criando os poemas direto no computador, mas a ESCreVivência 1111 foi elaborada no papel, pois quando ela quis sair não tinha jeito de ligar o computador pra digitar.

O bom do papel é que a bagunça da criação acaba se transmitindo a ele. A confusão dos riscos e rabiscos são uma espécie de índice (gráfico? grafia?) das vagas mentais de linguagem que se imbricam na convulsão criativa. E a gente nem sabe se a coisa vai prestar. Na maioria das vezes não presta. Mas me disseram (Fred e Jamesson, e eles entendem do riscado) que a 1111 vingou:

(Obs: Para visualizar a segunda imagem num tamanho maior dê um clique nela)


diálogos impertinentes 3

28 outubro 2008

fa – é o melhor q pode?

w- é

fa – tem que ser mais, gastar mais, gastar-se mais

w – se forçar mais eu piro (ou morro)

fa – é assim mesmo, a coisa é vampira. suga o sumo até o bagaço, nós te avisamos antes de entrar

w – tudo bem, mas tenho pelo menos que parar pra recarregar um pouco

fa – carga teórica ou poética?

w – teórica principalmente. a poética é imprevisível, vem em rajadas aleatórias

fa – a parada não deve ser nem contemplativa nem retrospectiva. apenas tática

w – que seja, é preciso recarregar. os corpos têm limites de energia

fa – é preciso forçar os limites, explodi-los. só há este sentido para o corpo, realizar a sua potência, vc não leu spinoza?

w – sim, nada de almas e verdades profundas para os corpos. mas não se chega à máxima potência em linha reta. às vezes é preciso, parar, recuar, desviar, desligar-se

fa – certo, mas tenha sempre em mente a potência do corpo. o sentido do corpo é a efetivação de toda a sua potência



Tia N

18 outubro 2008

Tia N tinha memória prodigiosa. Certo dia de julho, lembrando de meu aniversário, listou, um por um, dia por dia, os familiares que nasceram no mês. Quando acontecia algo engraçado, gravava na memória o dia e a hora e nunca mais esquecia. E quando relembrava ria como se acabasse de acontecer. Falava, gesticulava e ria sozinha, como se dividisse em duas ou mais pessoas que dialogassem entre si. Gravava os bordões que o Chico Flor repetia todos os dias na rádio Morrinhos. Um dia lembro que achou interessante uma figura de linguagem de uma canção (seria uma assonância, uma rima, uma aliteração?) e a repetiu em seguida, como que para gozá-la novamente. Como era meio cega, tinha um afeto especial pelos sons. Tia N como é que os gatos fazem no telhado? E ela imitava os urros dos bichanos na farra e ria um rô rô rô gostoso e batia uma palma de satisfação se remexendo em sua gordura de comilona insasiável.

Tia N. não gostava de bonecas e era temperamental. Quando nervosa mordia os braços, batia na própria cara, escabeceava a parece (ou emparedava a cabeça?) e fazia pactos com o diabo, já que Deus não resolvia nada mesmo (deixa de ser boba N, bradava a vó). Nos desentendimentos entre seus irmãos e as cunhadas ficava sempre do lado das últimas. Tia N. minha mãe nunca diz pro meu pai quanto dinheiro tem no banco, pode? Rô rô rô, bem feito, não pode dizer mesmo, senão que ele gasta tudo. Frequentava terreiro de umbanda contrariando o catolicismo da família e ninguém lhe passava a perna quando o assunto era dinheiro: esse ela via bem. Era marrenta e generosa, maliciosa e ingênua. Punha apelido nos sobrinhos. Quando aparecia pra dormir ou almoçar dizia, estilosamente como quando imitava os gatos no cio, Niiiidex.

Diziam que era de nascença. Eu, mais estudado, dizia que devia ser algum problema congênito do sistema nervoso como um todo, pois até pra andar havia uma certa dificuldade. Uma anormalidade, um erro genético. Mas era divertida. Sua presença inundava o ambiente com uma estranha atmosfera. Era diferente quando ela estava, outros ventos, outros jeitos de ver, outros pensamentos. Frescor de uma brisa inusitada errando por entre os os cérebros acertados. Errar assim, riscar assim o ambiente, não é a impressão que se deseja… deixar?


diálogos impertinentes 1

17 outubro 2008

w – que negócio é este do talento não ser individual?

fa – isso é coisa do gullar, dizer que o talento é individual. mas ele mesmo se espanta como na frança, na passagem do sec xix para o xx, havia tanto pitor bom. por que na frança e nesta época, por que não em outro tempo e lugar? será que a questão é mesmo individual?

w- é coletivo, depende do contexto, do ambiente artístico?

fa – e o que vc chama de contexto? acho melhor esta outra palavra, ambiente, pq é uma questão de atmosfera, de onda. por exemplo, vamos pegar uma onda pop, uma q vc conhece bem, a do rock brasil. há talentos individuais, claro: renato, cazuza, gessinger, herbert, arnaldo, nando, lobão etc. mas a chave da coisa é a onda rock que se formou, foram as miríades de acontecimentos políticos, econômicos, culturais, sociais, os garotos ouvindo rock inglês em brasília, a penetração tardia do punk rock em sampa, a desilução dos garotos brancos com sua classe média, com a ditadura e até com a democracia, a falta de utopia, a droga deixando de ser uma porta para um mundo alternativo e se tornando um ‘alívio imediato’ autodestrutivo. e, claro, um mercado fonográfico querendo coisas novas, rebeldes, com potencial de virar grana. estes são alguns dos elementos da onda rock dos anos 80, mas quem garantiria que a coisa ia vingar, ia vender, virar culto de massa, magnetismo hipnótico, ou seja, quem garante que ia dar numa onda? ninguém, podia não ter dado em nada e nós não saberíamos de nenhuma dessas individualidades com talento para compor hits pop rocks. eles teriam desistido, tornariam-se compositores de gingles (como muitos fizeram depois), músicos de estúdio, produtores.

w – quer dizer que não depede só do talento individual?

fa – não, não depende. mesmo pq o que é o talento individual? acreditamos que já é uma coisa dada, por deus ou pela genética, um potencial que basta ser desenvolvido. é provável q seja mesmo uma potência, a potência de um corpo, mas tal potência é muito indiferenciada, pode ir pra várias direções ou não ir pra lugar nenhum e depende de tanta coisa pra ela se desenvolver. o que digo é que quando se tem uma onda, uma atmosfera artística extremamente eletrizada, há mais possibilidade de as potências dos corpos se desenvolverem, se multiplicarem. alguns corpos inclusive, só realizam suas potências durante a onda, nem antes nem depois.

w- como foi o caso do paulo ricardo, pra continuarmos no exemplo?

fa – é, o paulo ricardo e o schiavon tbém. o RPM fez aquele primeiro disco sensacional e depois outro mto bom , o quatro coiotes, que ninguém prestou atenção, e se dissolveu. depois foi uma merda, não fizeram mais nada que prestasse. já o lobão, o gessinger e o nando reis continuaram muito criativos. mas quem garante que seriam criativos sem a onda do rock? no mínimo, sua criatividade seria de outra forma, pois até hoje o som deles é uma espécie de prolongamento da onda rock. tem uns que sabem prolongar uma onda para si, mesmo depois que ela acaba. conseguem fazê-la passar por outras atmosferas. para isto é preciso transformar a onda, variá-la infinitamente. mas as atmosferas que ela atravessam também se trasnformam.

w- quer dizer que a atmosfera pop de hoje ainda é transformada pela onda de rock brasil dos anos 80?

fa – e de uma forma muito ativa. é uma composição atmosférica: umas transformam as outras sem cessar. se bem que o que temos hoje não é uma onda, mas uma espécie de mar-asmo pop, povoado de marolas.

w- e na literatura é parecido

fa – é a mesma coisa, não só na literatura, mas na arte em geral e também no pensamento, na economia. pegue a filosofia por exemplo, o nascimento da filosofia. pq na grécia e naquela época? ninguém sabe exatamente: foi uma onda energética de pensamento e até hoje estamos sob seus efeitos.


Entrevista para O Popular

16 outubro 2008

Íntegra da entrevista concedida por e-mail a Rogério Borges, que saiu editada no jornal O Popular de 19/10/2008.


Você disponibiliza em seu site e-books e nunca publicou, segundo minhas informações, um livro em papel. Explique esta preferência pelo meio virtual.

No início (por volta de 2002), não era bem uma preferência, mas um misto de preguiça e timidez de correr atrás de uma editora. Eu tinha dois livros prontos, Ciclo de Jaiara e Marjnau, mas para publicá-los não sabia nem por onde começar, não tinha idéia a quem recorrer. Então a internet, que tinha acabado de explodir no país, foi a alternativa mais cômoda. Fiquei fascinado com o alcance virtualmente infinito de net, além do seu caráter aberto e anárquico. Abri um site chamado Naumarginal e disponibilizei estas duas obras virtuais para serem baixadas gratuitamente. Mas ainda queria publicar em papel. Só de uns dois anos pra cá me convenci que o livro impresso não é um suporte necessário, principalmente pra poesia, que quase sempre é lida de forma seletiva e fragmentária, o que pode muito bem ser feito na tela do computador. Aliás, muitos de meus livros de poesia, como o Marjnau, são feitos para serem lidos no computador, em tela cheia.

Você considera que está mais fácil publicar livros hoje em dia?

Acho que sim, há muitas editoras médias e pequenas, algumas especializadas em literatura, e mesmo uma edição por conta do autor não sai tão cara assim. É claro que ainda é difícil e é preciso batalhar muito, mas parece que o ambiente editorial no país, da década de 80 pra trás, era bem mais concentrado e fechado.

Com mais pessoas publicando suas obras, há queda de qualidade na produção? Faltam filtros?

Se há facilidade de publicação certamente sairá muita porcaria. A internet talvez seja o exemplo mais radical, pois qualquer um pode publicar o que quiser, e não apenas em forma de texto, mas também de som e imagem. E quase tudo que se publica é muito ruim. Mas acho melhor assim, deixar publicar tudo e filtrar depois que todo mundo tiver acesso. Com o mercado dominado por poucas editoras era o contrário: alguns poucos filtravam antes o que todo mundo teria acesso depois. Era uma espécie de ditadura textual. E quem garante que os critérios destes poucos eram realmente bons? Na literatura mesmo sempre houve muita igrejinha, conluio de um círculo de escritores com uma editora: nem sempre a qualidade prevalecia na hora de publicar.

Muitos disseram que a internet seria o atestado de óbito dos livros em papel. No entanto, ela serviu de meio para o aparecimento de novos autores que fazem relativo sucesso nas prateleiras das livrarias. Este chega a ser um paradoxo?

Creio que a internet vai acabar matando o livro: ela é uma espécie de profecia do McLuhan. Ele falava de TV, rádio e telefone como mídias elétricas que absorveriam as mídias antigas, entre elas a escrita. Mas no fundo estava intuindo a internet e é ela que vai absorver o mundo do texto, mais cedo ou mais tarde.

A demora em substituir o livro impresso acontece porque se trata de uma tecnologia muito boa, desde o seu nascimento, com Gutemberb. E ainda não se inventou um dispositivo eletrônico de leitura que una as vantagens do livro (leitura confortável, portabilidade e possibilidade de anotar e grifar) e da internet, que é basicamente a possibilidade de ter toda a escrita do mundo a um clique. Mas vão acabar inventado esta tecnologia (a Sony já parece ter um aparelho razoálvel), porque esta possibilidade de ter a biblioteca total num único dispositivo de leitura é muito, mas muito sedutora mesmo.

Conte um pouco de sua trajetória como escritor e qual é a procura de pessoas querendo mostrar textos inéditos em seu site.

Como todo mundo, comecei a escrever na adolescência, mas nunca fui de mostrar meus poemas. Não os mostrava pra ninguém, um pouco por timidez e também por duvidar de sua qualidade. E não estava errado, acho que muitos poemas de meu primeiro livro, o Ciclo de Jaiara são impublicáveis, apesar de eu tê-los publicado. Então minha estréia pública foi mesmo na internet, a partir do zero: eu não fazia parte de nenhum círculo literário até 2002, quando lancei meu primeiro site. Na verdade não era um escritor, porque a gente só é escritor quando alguém nos lê. Aos poucos algumas pessoas foram descobrindo meus textos e hoje circulo numa espécie de underground do meio literário de Goiânia e da internet. Na verdade circulo no underground do underground, pois a literatura no mundo pop da atualidade já é uma espécie de circuito cultural clandestino e eu circulo no submundo deste submundo: uma clandestinidade ao quadrado.

Quanto ao meu blog atual, o minutos de feitiçaria, ele é muito autoral, não tem este caráter de divulgação literária. As pessoas não me contactam para publicar seus textos no blog, elas vão lá com o intuito de ler o que escrevo. Acho admirável o pessoal que faz sites e blogs pra divulgar outros poetas, principalmente os novos que não têm muita visibiliade ainda, mas eu não tenho pique pra isto: escrever já me toma quase toda a energia criativa


T

10 outubro 2008

É um trapo. Bebe feito um gambá. Baixinho e magriça, voz titubeante, 20 filhos e um montão de netos, largados pelo mundo. Vive com a família do irmão. Um destino que não queremos pra nenhum amigo ou ente querido, um fodido sem grito, sem revolta nenhuma. Um ninguém.

Devíamos ter piedade. Há quem reze por ele. E de fato parece que caminha para a auto-aniquilação. Mas num certo sentido é difícil se deixar, assim, abandonado de si, corpo ao léu, tecido às traças. É uma férrea disciplina a do caminho mais fácil. Meu pai tinha uma olaria e a gente vigiava o fogo 3 dias e 3 noites. Fazia frio e então gente bebia. Foi aí que você aprendeu a beber T.? Foi. Outro dia me disse que chegou a F. e o chamou de baixinho. Rimos, são os dois mais tampinhas da repartição. Eu disse que quando tinha o Tota ele podia tirar um sarro dele. O  Tota não passava de 1,5. Rimos.

Há uma rua aqui perto do serviço. Não há residências. De um lado um muro mal cuidado e do outro construções do Estado, abandonadas. É uma desolação só, uma rua desbotada, sem ninguém a hora nenhuma. Aliás, nela é sempre hora nenhuma. Gostaria de ver o T. caminhando nesta rua. Ninguém em hora nenhuma, trapo sobre ruína: composição limpa, rigorosa, despojada.

É muito difícil chegar, como T., a ponto de ninguém. Nós sempre somos alguém, chefe de alguém, dono do nariz ou pelo menos pau mandado. T. também tem chefe e trabalho mas é como se não tivesse de tão inútil. Se não fosse do Estado estaria na rua há muito tempo (seria uma tragédia rápida). Mas T. é uma tragédia lenta, definhando seu ninguém aos poucos, comedidamente. É difícil andar assim desprendido de amarras. A inércia absoluta é uma prática rigorosa. Nós não conseguimos. Somos um emaranhado de amarras. Sempre nos mexemos e as amarras nos apertam mais, peixes se debatendo na rede. Estamos cada vez mais presos a nossas funções predestinadas. Difícil ser um merda, um ínfimo fio de merda num rio de merda. Seria preciso, antes, fazer um mundo de merda, um cosmo de excrementos em que nos evacuamos de nós, das teias que nos fazem nós, indissolúveis. Raramente transbordamos ao trapo.


B

10 outubro 2008

Tem uma fixação por contar. Ontem me contava da nova caixa d’água que a empresa vai instalar. Tem 30m de altura, 3,18 m de diâmetro, toda cilíndrica. Estava sendo soldada no local. Chapa de aço de 3,8 mm de espessura que fazia um barulho metálico quando recebia pequenas batidas com as mãos. Informações do pessoal que estava montando. Mas eu disse, ô B, é muito alta, um edifício de 10 andares, será que eles não estavam zoando? Mas ele conferiu todas as medidas com sua trena, que sempre traz no carro.

B. não se preocupa com questões de engenharia. É em alguns detalhes que ele se fixa. Uns detalhes que para o engenehiro e os soldadores são apenas dados técnicos para o serviço ficar bem feito. E o serviço bem feito é apenas um outro dado para a renumeração. Mas para B. estes dados minuciosos e desgarrados do contexto técnico e financeiro é que são importantes, diria mesmo mágicos: uma espécie de canto de sereia.

Outro dia B. me dizia do material da película. Antes era nitrato e incendiava. É mesmo B. eu vi naquele filme, Cinema Paradiso, o incêncio. Pois é seu Wilton, depois passou a ser celulóide, que não é inflamável. Fiquei amigo do projetista de cinema seu Wilton: cada quadro tem 22mm X 18mm, medi com a régua. Me explicou o mecanismo de projeção, as lentes o som, os rolos de filme etc.

Eu gosto destas conversas com B. Entro nelas, opino sobre os detalhes, peço mais explicações. Poderia dizer sou piedoso. Nada mais equivocado. Esta perspectiva sobre o mundo, este mundo de B. realmente me fascina. Não consigo montar um mundo assim para mim, por mais que tente. O mais próximo que posso é quando faço poesia, mas viver mergulhado num mundo de detalhes desconexos de seu contexto normal não consigo.

B. recompõe as minúcias de sua percepção em outro contexto, muito difícil para nós. Nós fazemos o mundo igual, mundo de todo mundo. Ele faz outro mundo, não “o seu mundo”, não se trata de um mundo íntimo, só seu. Não, é também o mundo de todo mundo, mas por outro viés, como que pelo transvesso. Ele faz mundo, e pronto.


OBRA COMPLETA

26 setembro 2008

Juntei minha obra completa, prosa e poesia até 2008, num só arquivo compactado (39,4 Mb):

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CLIQUE AQUI PARA BAIXAR

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MÓBILES

2 julho 2008

E-book de poesia para ser lido em tela cheia no computador:

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR

Mais móbiles: poemas que fazem parte, mas não cabem no formato do e-book:

no dentro do momento (introdução alternativa)

ouvindo várias variáveis

popdélico

Baixar todos: download do e-book mais os textos acima reunidos num só arquivo compactado.

Ouvir sol(o)furioso: Os móbiles não são versos, mas blocos verbais esburacados. Sol(o)furioso foi o primeiro poema escrito neste formato. É uma espécie de gatilho/potência que disparou os outros. Esta declamação foi gravada em outubro/07.

Ouvir a gosma do cosmo: outra declamação (suja) de um poema do e-book.

Poetas incorporados (na letra e/ou no espírito da coisa): Ataíde & Alexandre; Augusto de Campos; Belchior; Caetano Veloso; Camisa de Vênus; Concretistas; E A Poe; Engenheiros do Hawaii; Ferreira Gullar; Franco Átila; Gal Costa; Hanói-Hanói; Ira!; Leandro & Leonardo & Odair José; Legião Urbana; Lobão; Manuel Bandeira; Marina Lima; Milionário & José Rico; Olavo Bilac; Paralamas do Sucesso; Paulo Leminski; Raul Seixas; RPM; Titãs; Tropicalistas; Zé Ramalho.


De quando eu era um poeta velho II

26 junho 2008

Moreira Cardoso in A Tradição travestida


De quando eu era um poeta velho

26 junho 2008

Moreira Cardoso in A tradição travestida


De quando eu fazia poemas de amor

25 junho 2008

ETERNAL
(Moreira Cardoso in Ciclo de Jaiaira)

Teu dorso louro, desço e teço
As sensações se cruzam
Emergem, jorram resgatadas
Me retorço em imagens que se desfazem lentas
Tantas e dispersas
Brutas
Que abruptamente petrificam bruscas
Todas e diversas, unas
Numa unidade imóvel
Tudo, eterno e infinitamente vasto
Instante
Não dura mais que isto, instável
E imaterial
Nada
Me contorço em chamas
Brumas
Submergem, choram amargos
Poros, soam mares
Sais, salgados ares violentam ventas
Fluidos doces viscos quentes, envolventes
Ventre da manhã
Miragem
Cores e sabores falsos. Gostos, tatos e contatos: mera quimera
Ardências frias, planas
Um jardim etéreo sem espírito
Frio
Teus fios aéreos, sérios
Teus gestos atonais nos ares: danças
Corte de ar em vários
Goles de ares, áreas de cheio e vazio
Cheiros
Preenchidos vácuos de essências e substâncias, várias
Arenas: digladiam-se sentidos
Guerras e guerreiros brutos


De quando eu fazia poemas metafísicos II

24 junho 2008

Na verdade, este poema (in A Tradição travestida) é concreto- metafísico. Os concretistas achariam um horror o uso da fé da Igreja Construtora para rezar a poesia da Igreja Profunda: trata-se uma diluição imperdoável. Mas ainda gosto deste poema todo cheio de fé. E não creio que a heresia sincrética tenha sido tão grave a ponto de condenar o Moreira Cardoso ao inferno (profundo ou concreto).


De quando eu fazia poemas metafísicos

23 junho 2008

O LOUCO

Estou fazendo uma revisão no Ciclo de Jaiara. Corrigindo a ortografia e alguns absurdos estéticos. Mas tenho que me conter, senão corto quase tudo. Relendo os primeiros versos do livro, me pergunto como tive a coragem de publicá-los. Por mais que o Moreira Cardoso seja um outro (um eu-outro, ex-eu), ainda assim era esta mão que batia no teclado.

Mas quem sou eu pra ficar cortando ou emendando o Moreira Cardoso? Ele tem lá o seu direito de existir torto, provinciano, ingênuo, crente ou ateu lamentando sua descrença. E depois, é provável que daqui a dez anos eu mesmo (ou um crítico simpático a poetas obscuros) lerei o que faço hoje achando tudo a mesma porcaria.

Em todo caso, há coisas que ainda gosto, ou pelo menos me divertem, como estes dois trechos acima de O louco. O III tem uma sonoridade mordente, de aliteração cerrada e o IV, bom o IV é mesmo uma loucura onírica (eu lia muito Jorge de Lima na época).


No dentro do momento (poesia em tempos pop)

17 junho 2008

Em artigo que aqui publiquei em 3 do corrente, afirmei que, tendo cumprido a sua função, a vanguarda acabou. Não cheguei, porém, a explicar que uma das principais razões pelas quais penso assim é que estou convencido de que o feito principal da vanguarda enquanto vanguarda não foi de natureza propriamente estética ou artística, mas cognitiva e, mais precisamente, conceitual. Em outras palavras, não é que, a partir da experiência da vanguarda, a arte tenha ficado melhor do que era, mas que, sobre ela, se aprendeu alguma coisa que não se sabia antes. Deu-se um aprendizado, um progresso cognitivo após o qual se passou a saber algo fundamental, antes não plenamente reconhecido, sobre a natureza da arte. (Antonio Cicero – Ainda a vanguarda – Folha de S.Paulo – 31/05/2008).

É um mérito dizer claramente que a vanguarda já cumpriu o seu papel. Mas seu papel, ao contrário do que afirma Antonio Cícero não foi o de esclarecer o que é a poesia, como se houvesse a verdade ou o Ser da poesia que precisasse ser entendido com mais clareza, ou em aspectos ainda desconhecidos.

O que é a poesia? Creio que o que se entende por poesia (e também por literatura e arte) é uma convenção – coletiva e ‘não intencional’. Não que seja qualquer coisa, mas é como um recorte de sentido que uma sociedade ou cultura faz de seu mundo simbólico (ou simplemenste de seu mundo). É uma maneira de fazer sentido, de organizar os saberes. No Ocidente há um saber estético mais ou menos independente (recortado) dos demais e, dentro deste saber estético, um saber da arte verbal, que hoje chamamos literatura (e poesia, que é um ramo complicado da literatura – complicado pq desde sempre namorou a música e o canto, saindo da órbita do puramente escrito. Se pensarmos bem, mesmo o que entendemos por literatura, como arte verbal escrita, recobre realmente o conto e o romance, pois o teatro também salta da órbita do puro escrito).

Durante muito tempo, talvez desde o renascimento, o que se entende por poesia foi a arte verbal escrita em versos, com uso de figuras de som (rimas, aliterações, assonâncias etc) e de sentido. Outro critério da poesia talvez seja o seu descompromisso com a narrativa (embora ela pudesse ocorrer) e, a partir do romantismo, uma inflexão à subjetividade ou, pelo menos, um descompromisso com a objetividade. Para o Cícero, isto é uma visão redutora da poesia. De fato, a coisa para ser poesia, até o século XIX, deveria seguir certos padrões estéticos bem rígidos.

Mas é aí que o Cícero se equivoca. Não é que a poesia é um troço mais amplo e as pessoas, no passado, não viam ou não entendiam. A questão é que, do renascimento até o século XIX, houve uma certa estabilidade (que começou a ser perturbada neste mesmo sec XIX pelos românticos) no recorte de sentido que se entendia por poesia no Ocidente. E o que se entendia por poesia (o recorte que se fazia) era, de fato, a poesia e não um entendimento equivocado do que era realmente a coisa.

O Cícero poderia contra-argumentar dizendo que no medievo a idéia de poesia era mais ampla (pois envolvia também o canto dos trovadores, a canção) e que os medievais estavam, por isto, mais próximos do conceito verdadeiro de poesia. Eu diria que os medievais tinham outra idéia do que era arte verbal, que recortavam o sentido de modo diferente. E, para eles, isto que chamamos de literatura (conceito com o qual abarcamos os trovadores medievais) não tinha o sentido que lhe damos. O que o Ocidente renascentista fez foi separar a alta cultura da popular e, nesta separação, a canção ficou na cultura popular e o poema escrito se desenvolveu como arte erudita.

O que acontece no modernismo (mas já se prenunciava no romantismo e no simbolismo)? Um a um vão caindo os critérios que definem o que é e o que não é poesia. Por exemplo, as figuras de som e sentido não são mais obrigatórias e recebem um tratamento extremamente flexível, a ponto do Bandeira fazer um poema extraído de uma notícia de jornal. O verso não é mais exigido no poema em prosa (aproximação da poesia com a narrativa e o epigrama). A expressão subjetiva ou a sondagem metafísica que se tornaram um critério de poeticidade no século XIX também são duramente abaladas pelas poesias antilíricas de Drummond e principalmente de Cabral.

O que as vanguardas fizeram? Elas foram a ponta de lança desta destruição do antigo poético e, muitas vezes, da proposta de reconstrução de uma nova poesia. O que o concretismo quis, em seus momentos mais radicais? Abolir o verso e afirmar que a poesia tinha que ser verbovocovisual. Não conseguiram. O Cícero diz que é porque eles apenas contribuíram para a descoberta de uma face ainda desconhecida da poesia, a visualidade, e que o verso não caiu porque fazia parte da outra face da verdade da poesia. Eu diria o seguinte: os concretistas, no rastro de Mallarmé e Cummings, e relendo com olhos ocidentais a arte ideogrâmica japonesa e chinesa) acrescentaram / criaram (e não desvendaram ou progrediram conceitualmente) uma verdade a mais para o poético: ampliaram a idéia do poético.

O Cícero talvez diria que não aboliram o verso porque ele é um aspecto da verdade ou da natureza da poesia. Eu diria que não aboliram o verso porque a sociedade não aceitou (não desejou) uma idéia de poesia sem verso. E acho que não poderia ter desejado, não porque o verso seja necessário a um conceito transcendental de poesia, mas porque foi necessário ao conceito de poesia do Ocidente do século passado (e talvez ao atual), ao que se desejou como poesia. Só entendendo a coisa poética deste modo, como desejo de poesia é que podemos falar de sua verdade, sua natureza ou seu ser. Mas devemos ressaltar que este ser é um recorte de sentido (coletivo, convencional e não intencional) de uma cultura e época específicas: o Ocidente do século XX.

O que é poesia hoje, no início do século XXI? Neste ponto, creio que Cícero e eu concordaríamos: vai da arte em verso até a canção, por um lado (aproximação com a música). Por outro, vai do verso à poesia visual (aproximação com as artes visuais). Por outro, ainda, vai do verso à performance (aproximação com as artes cênicas). Com relação às mídias, a poesia, transita da escrita para o audiovisual e o digital (que absorve todas elas).

E como ficam a tradição e a vanguarda? Parece-me que elas são, hoje, uma grande sicronia, uma só tradição (que abarca, inclusive, a textualidade de culturas exteriores ao ocidente, como a tradição oral de povos tribais que pôde ser registrada de alguma forma e a escrita ideogrâmica do extremo oriente antigo). Ora, este olhar simpático e aberto para a estética textual de toda a tradição de todos os povos (repito, não só ocidental) e esta abertura a várias fromas de manifestações do poético (verbal, visual, performático, escrito, audiovisual etc) não decorre de uma compreensão melhor do que é poesia, mas sim de uma crise da idéia de poesia. Crise que não é só da poesia ou da literatura, mas de tudo o que se chamou, no ocidente, de Arte, de Alta Cultura. Na verdade, é um pós-crise, uma constatação que acabou de acontecer um cataclismo estético, pois a crise mesmo se deu no modernismo, na primeira metade do século XX.

No limite, poesia é tudo, inclusive arte visual sem nehuma palavra, inclusive arte sonora (música ou articulação vocal) sem o verbal: qualquer estética de relação entre símbolos que o homem possa criar é poesia. Mas o que não é, na prática estética, relação entre símbolos? Então poesia é tudo e é nada, pode ser qualquer arte. É neste ponto de absoluta indefinição que nos encontramos. Convém limitar a poesia ao uso do verbo, da palavra, escrita ou não? Não sei, não creio que seja possível. Sem dúvida a palavra ainda é um ponto de partida para se ter idéia do que é a poesia, mas parece que não é, definitivamente, um ponto de chegada. O problema é que nosso recorte estético (nossa maneira de desejar/perceber a arte) mudou muito de uns tempos pra cá. Os frankfurtianos foram os primeiros a perceber isto com clareza e forjaram o conceito de indútria cultural para explicar o acontecimento. Mas creio que só se começou a perceber a dimenção da coisa na segunda metade no século XX, quanto o terremoto estético acabara de passar. Alguns chamam o momento atual de pós-moderno ou pós-modernismo. Eu gosto de chamar o atual recorte estético de pop. Acho melhor que indústria cultural, porque o conceito dos frankfurtianos implica numa idéia de manipulação que creio ser inadequada, como se as massas fossem manipuladas pela ideologia de uma estância de poder (que detêm a propriedade da indústria cultural). E melhor que pós-moderno porque o termo moderno tem muitas relações (de amor e ódio) com o capitalismo e, definitivamente, não estamos numa era pós-capitalista. Além do que, moderno carrega o sentido do hoje, do atual e uma época pós-moderna poderia dar idéia de uma pós-vida ou pós-terreno, como se vivéssemos num mundo sobrenatural. A modernidade de nosso tempo é o pop.

Como funciona o pop? como ficam as artes da palavra e suas relações com outras artes neste universo? como fica a relação entre arte e capital (entre os dois fluxos)? qual a relação entre o conceito de pop e o de massa? como fica a questão dos valores e do gosto? Há possibilidade de haver uma Grande Arte, em contraposição ao lixo pop? quanto a esta última questão, creio que há fugas do pop, coisas excelentes, produzidas inclusive dentro do universo pop, mas não creio ser possível traçar mais uma linha divisória entre alta e baixa cultura. Antigamente era mais fácil, mesmo porque, esta linha era demarcada também pelo gênero. Por exemplo, no século XIX, se era canção, era cultura popular e pronto. Alta cultura era poema escrito. Se se fazia poema escrito havia chance de ser alta cultura, bem como uma certa clareza de critérios para se identificar se a coisa era boa ou não. Hoje tem gente que ainda insiste nisso, dizendo que canção não é arte que se preze ect e tal. Mas isto é se refugiar em critérios do século passado (aliás do sec. XIX), um recorte de sentido que não funciona mais e, principalmente, não ajuda a entender o presente. Ora, os artistas e os críticos de arte têm que ser homens do seu tempo. Rejeitar a canção e o cinema em bloco (mesmo rejeitar apenas a canção e o cinema comerciais – e o que é, nestas artes, comercial e ‘de arte’?), refjeitar, enfim, o pop, é rejeitar a sua época, a vivência estética de sua época. Antes se rejeitava a cultura popular (que os românticos começaram a resgatar), mas esta atitude tinha um sentido aristocrático, mesmo (aliás principalmente) quando era a burguesia que o fazia: era uma tentativa de enobrecer a alma. Mas nesta época a cultura erudita tinha uma vida própria, dinâmica e com bastante independência (na verdade com domínio) da culura popular. Hoje não há esta divisão clara e os críticos que se refugiam na tradição (mesmo quando incluem nelas as vanguardas) resgatam o passado de uma maneira que não faz mais sentido hoje, como se o modernismo ainda estivesse vivo e atuante. A tradição hoje é esta coisa chapada, sincrônica: tudo à nossa disposição, você pode escolher, fazer o paideuma que quiser. E o que foi feito a uma década já é tradição, entra na sicronia da tradição (veja o rock brasil, já é coisa do passado! “como eram bons aqueles tempos!). É assim que o pop, que as massas fazem e desejam a tradição. É assim que se deve desejar, com esta perda da história e das referências? Talvez não, mas é preciso considerar esta perspectiva pop, entendê-la, sentir sua força, utilizar sua potência. Não há outra maneira, nos encontramos no pop, em tempos pop e é a partir deste momento (do dentro do momento) que que artistas e críticos têm que atuar, mesmo que de maneira crítica, mesmo que recuperando a tradição: é sempre a partir e com vistas ao nosso tempo. Os saudosistas falam muito dos grandes da tradição e lamentam não haver mais mestres. Se há uma lição a se tirar dos bons poetas do passado é a seguinte: todos eles viveram e escreveram intensamente em e para sua época, no dentro de seu momento.


De quando eu fazia sonetos

6 junho 2008

Árido imóvil

Depois d’um longo nada eis-me pronto,
Entre o tirano bafo do porão
E os cômodos medidos que não são.
No quase do precário eis-me assombro.

O grande tumor negro sob o chão,
Toneladas sem fim sobre os meus ombros
De vidro. Mito: escombros do entressolho.
Além do lento nunca o talvez não…

Animalesca fome de Absoluto,
Ausente vulto insinuado além
Da silhueta de um Acaso, Deus

Precário, reticente e resoluto
Contra o ninguém de mim. Algo ou alguém
Se esgueira pelos vãos do vento… Eu!?

Na verdade, de quando eu queria saber fazer. Depois que fiz os sonetos dos Sete Motivos da Árvore e este, percebi que estava prestes a conseguir. Aí parei, perdi o interesse, não me lembro bem a causa. Mas por que saber fazer sonetos? Por que fazê-los? Acho que eu pensava que pra fazer poemas sem medida era preciso saber as medidas da tradição: saber pôr a mesa para ter autoridade ao virar a mesa.

Um poeta que nasce e cresce no interior de Goiás e tem muito pouco contato com a cultura das metrópoles (a não ser por meio da TV, mass media) respira ainda os vestígios da ARP (atmosfera romântico parnasiana) que persistiu nos rincões do país muito tempo depois da explosão modernista. Eu diria mesmo que a ARP absorveu o modernismo e que ainda na década de 70, nós, caipiras, respirávamos sua atmosfera cultural. O Drummond é que sabe bem dessas coisas da província, da solidão estética das províncias, de como o isolamento limita o artista e sua a arte, mas também de como a distância possibilita uma perspectiva crítica da cultura cosmopolita do centro, que quase nunca consegue ver suas próprias fragilidades. Neste aspecto, quem está na periferia é sempre mais atento às fraquezas, já que sua estética é, pelos desígnios de seu provincianismo, ‘naturalmente’ frágil.

A (má) consciência da fragilidade, do provincianismo, da inferioridade e a consequente luta, quase sempre inglória, pela superação das limitações é um problema permanente do artista das periferias, “enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz.” Hoje é bem provável esta correlação de forças literárias entre centro e periferia tenha mudado, pois a situação da literatura na sociedade mudou radicalmente no pós-guerra, embora a consciência desta mudança pareça se dar somente mais recentemente, talvez a partir da década de 80. E foi justamente nesta década e na seguinte que me formei como poeta, escrevendo compulsivamente numa solidão inacreditável, em completo silêncio, sem contato com nenhum círculo literário (nem local, nem exterior, como pude suportar este isolamento?). Daí certamente decorre muito da ingenuidade estética do Círculo de Jaiara.

Fins de 80 e início 90: lá estava o Moreira Cardoso, jovem, mentalmente um protótipo de poeta provinciano, impregnado de formas e afetos romântico-parnasianos, lutando para atingir o modernismo, devorando Concretismo & Jorge de Lima & Drummond & Bandeira & Pessoa & Simbolistas & todos os mestres que pudesse, fazendo poemas de feição simbolista, moderno-simbolista, concretista, tentando o coloquial, o diabo. O Moreira Cardoso do Ciclo de Jaiara é uma condensação conturbada (e, quase sempre, de má qualidade) da história literária brasileira, do romantismo ao modernismo. Querendo ser gente grande na literatura, querendo bater o poeta federal, mas exatamnete aí, nestas décadas, ele tomava consciência de que esta oposição entre província e centro literário já não fazia mais sentido, a própria literatura parecia não fazer mais sentido na sociedade das mídias audiovisuais: Drummond, o último grande poeta nacional morrera, Cabral morreria após e, depois deles não haveria mais nenhum grande, nenhum poeta federal: de sistema estruturado a literatura se transforma em estilhaços (todo em traste).

Lá estava o Moreira Cardoso, pronto, finalmente pronto para tentar fazer alta literatura. Se ia realmente ser boa ou não, é como dizia o Paz, dependeria do seu tino, força e sorte, mas pelo menos ele estava pronto para tentar: as partes menos piores do Ciclo de Jaiara (Vagar, Interlúdio, Poslúdio) mostravam que ele podia tentar e, finalmente, ele saberia fazer sonetos de forma exímia, mesmo que não os fizesse. Mas pra quê? Este árduo e silencioso aprendizado parece ter sido em vão, a poesia, neste formato modernista, e mesmo concretista (que é um dos limites extremos do modernismo) parecia não dizer nada a ninguém, não fazer mais sentido no mundo eletropop da TV, da canção, do cinema e da recém chegada internet.

Acho que foi por isto que nunca publiquei Árido imovil. E nunca mais fiz sonetos. Foi uma espécie de reconhecimento do sem sentido de um soneto, mesmo em moldes modernistas. Do sem sentido da literatura como sistema, do sem sentido da luta de um poeta provinciano querendo superar suas limitações para tentar fazer alta literatura. Formar-se como poeta, a partir da província, sempre foi uma tarefa inglória, mas pelo menos havia um caminho bem definido a seguir, um sistema que colocava o poeta caipira à margem, mas mostrava, com clareza, o reluzente centro a ser atingido e a maneira de atingi-lo: apesar de sua posição desprivilegiada o poeta provinciano encontrava-se, pelo menos, num sistema estável.

A trajetória do Moreira Cardoso é bastante curiosa. Enquanto se formava como poeta, o sistema literário já estava falido há muito tempo, mas ele (e parece que quase ninguém) tinha ainda consciência disso. Na década de 90, quando estava finalmente pronto para tentar ser poeta literário, encontrar para si um lugar no sistema (epígono que seja), tentar Ser enfim, ele descobre que no mundo pop a literatura se estilhaçou. Que fazer?

De um aprendizado não conseguimos nos desfazer, por mais inútil que seja. A saída, pelo menos para o Moreria Cardoso foi morrer como ‘poeta para alta literatura’ e renascer como Zé Pelota, este exu que guiou o natimorto e seus trastes literários pelos caminhos da infopoesia, do poema em tela cheia, da visualidade pop (que é um concretismo diluído). O Zé Pelota ensinou o Moreira Cardoso a não ter medo da diluição, mais ainda, a saber que poderia haver um rigor na diluição, um rigor de margem (margem que nada tinha a ver com a situação de marginalidade provinciana do sistema literário).

E, talvez o mais importante, ensinou ao Moreira a não rejeitar o mundo pop em bloco, se refugiando nas altas esferas da erudição, a não reprimir o seu gosto pela canção e pelo cinema comercial, e sim extrair deles suas potências massivas e tentar cavalgá-las, transmutá-las em potências literárias, fazendo-as beirar/beijar a margem. Enfim, o Zé Pelota ensinou que se a igreja literária e sua fé tinham ruído, que seus sacerdotes bradavam altissonantes para um auditório vazio, havia ainda os bruxos habitando as margens da aldeia, incógnitos, sem igreja, sem ambições de ter nem pastorear o gado, murmurando suas magias aos raros visitantes que os procuravam em seus covis. Se o Moreira Cardoso, agora Wilton Cardoso, fará algo que preste com esta lição inestimável, já é outra história…

Esclarecimentos: Moreira Cardoso é como eu assinava os poemas do Ciclo de Jaiara e Zé Pelota é uma espécie de pseudônimo que (co)assina o Marjnau.


As potências da literatura (ainda não me reconheço)

3 junho 2008

Sobre o post “Não me reconheço”, André de Leones fez um curto, mas instigante comentário:

“A literatura hoje é um nicho pop, um nicho cult, especializado.”
Eu acho que sempre foi, rs.

Que diz respeito ao fato de a literatura sempre ter sido uma arte cultivada (no sentido de ser vivenciada com intensidade) por muito poucas pessoas. Realmente, parece que a vivência da literatura foi, em todas as épocas, um nicho pra poucos leitores. Mas como dizem os especialistas em direito, isso era “de fato”, pois “de direito” a literatura foi, do século XVIII iluminista até o início do século XX, um projeto para todos, um conhecimento considerado imprescindível para a boa formação do ser humano civilizado: as grandes artes em geral e a literatura em particular era uma espécie de pedra de toque do humanismo e de seu irmão, o iluminismo. Por isto havia, na arte, a figura do pedante, que fingia conhecer as obras a fundo, para ser aceito nos círculos sociais mais sofisticados. Havia esta necessidade, esta pressão para ser culto, principalmente quando se tinha algum dinheiro (ou pelo menos alguma educação formal).

Hoje a literatura é um nicho pop de fato, mas também de direito, pois não existe mais a pressão social para se ler: as “pessoas inteligentes” nestes tempos pop não se sentem obrigadas a ler boa literatura, embora esta possa ser uma de suas opções. Elas preferem o cinema e a canção, em seu ramo cult: cinema europeu, MPB, jazz. Preferem? Ou são preferidas? Será que controlamos, efetivamente, nossas preferências? Esta é a questão do desejo: desejo que nos povoa, nos induz e nos pressiona em direção a um gosto e a um gozo. O desejo pela literatura sempre povoou, de fato, bem poucos, mas exercia um poder, uma sedução sobre muitos. Hoje o poder/fascínio sobre as massas (sejam elas cult ou populares) é exercido pelo cinema e pela canção.

Foi uma perda para a literatura, sim, pois ela deixou de ser uma potência de direito, mas, por outro, lado, houve um ganho em leveza, pois agora ela está livre do peso de ser “a enobrecedora das almas” ou a “manifestação mais alta do espírito de um povo”, livre, enfim do peso de Ser. Mas o escritor ainda escreve para todo mundo, qual artista não o faz? Grafar/gravar é sempre deixar um rastro para todos, para qualquer um. No entanto ele sabe que, institucionalmente, nem mais de direito sua arte tem a potência das massas e poucos, de fato, a lerão. E, principalmente, poucos terão vontade, se sentirão instigados ou pressionados a ler. Mas esta escrita ainda poderá (e deve fazê-lo) despertar nestes poucos a potência das massas, atingir o “todo mundo” de seu raro leitor, pois cada um de nós é atravessado por “todo mundo”, povoado pelos desejos de toda a sociedade.

De fato e de direito, é apenas dessa maneira esquiva e subterrânea que a literatura atinge, hoje, seu ponto massivo e extrapola para “todo o mundo”. Ela atinge todo o cosmo social, mas não por ser uma potência universal, prescrita/imposta pelos sábios, que pressionariam o gosto geral para o “bom gosto da alta cultura”. A literatura agora é uma virulência, local, diferencial: contaminação de vizinhança, trocas celulares que afetam o corpo imperceptivelmente. A sua potência é da invisibilidade quase absoluta, sombra que se esgueira nas trevas, vampira.


popdélico

29 maio 2008

Não me reconheço

28 maio 2008

Relendo A Tradição travestida (que é uma releitura visual de alguns poemas, entre graves e ingênuos, do Ciclo de Jaiara), tenho uma sensação estranha: não me reconheço naqueles poemas, não seria mais capaz de escrever coisas assim, que ambicionam ser literatura, grave literatura, alta literatura modernista.

E, no entanto, agora, tenho feito poemas pesados, sem humor, cheios de indagações sobre a vida e a morte, recuperando, sob este aspecto, a atmosfera séria e sufocante de A Tradição travestida e do Ciclo de Jaiara. Mas este retorno à seriedade me parece uma volta toda retorcida, em outra frequência, sem saudades da alta literatura e encharcada (para o bem e para o mal – e para além e aquém deles) do agora pop. Não há mais como ser alta literatura, como almejar ser: o sistema literário definitivamente faliu. A literautra que resta é este exercício subterrâneo de pulsar quase mudo em meio à mídia digital/audiovisual. Não há nem como almejar ser publicado em livro, essa coisa chique de ser escolhido por uma boa editora, que transforma o autor desconhecido em uma espécie de referência potencial. Publicar era como se elevar um pouco acima da massa, da mediania, ganhar visibilidade, chamar a atenção da crítica que, por sua vez, chamaria a atenção do público para o autor.

A coisa hoje não funciona mais nestes moldes. A publicação, mesmo por uma boa editora, não mais referencia e a crítica literária não tem mais voz fora das academias. É neste ambiente sem referências que se escreve. Creio que não devemos escrever com saudades do ambiente modernista, como eu tinha quando escrevia os poemas juvenis do Ciclo de Jaiara, querendo atingir o ponto da alta literatura. A releitura digital d’A Tradição travestida é uma nostalgia disso, mas também já é uma crítica, um distanciamento, como o próprio título indica.

Acredito que o escritor de hoje tem que escrever buscando o máximo, a mais alta excelência, originalidade e rigor que puder atingir, mas não com os critérios ou com vistas a pertencer a um sistema literário (ah Candido, meu bom velhinho, os tempos mudaram), que comportava inventors, masters e dilutors/epígonos, que tinha um público amplo (pelo menos potencialmente) e cujas obras carregavam o peso de representar culturalmente um povo ou sondar as profundezas da alma humana. Este sistema acabou e não se deve escrever para uma coisa que faliu, com saudades de ser ou prenunciar um grande, de uma estrutura cuja topografia permitia a grandeza. Muitos acreditaram que a mestria era uma coisa eterna e universal, mas agora descremos cada vez mais nestes “para sempre” (a fé esta fodida). Há poetas excepcionais, inclusive da canção, mas não são grandes e provavelmente não serão. No pop não há mestres ou, pelo menos, a mestria é uma coisa bem diferente do que era nas Grandes Artes.

A literatura hoje é um nicho pop, um nicho cult, especializado. Não adianta chorar (como eu chorava em A Tradição travestida/Ciclo de Jaiara), ou melhor, até vale a pena chorar, lamentar, rosnar, mas em meio a nosso mundo, à cultura pop, eletrônica, eletropop. Só há possibilidade de se fazer popliteratura, com as matérias e formas da tradição, sim, mas principalmente com as matérias e formas pop. Aliás, a tradição literária, quando recuperada, vem inevitavelmente contaminada (travestida) de pop – vem como imagem chapada, como se fosse uma terrível sincronia (de Homero a Joyce, de Ulisses a Ulisses) exótica, distante de nós no espaço-tempo, letras de milênios luz. Aos que ainda ousam fazer literatura, poesia, só resta escre-ver no momento pop, no dentro do momento. Só assim poderão (talvez) escapar de já nascerem mumificados.


delírio: escuro quase estrela (kitsch)

24 maio 2008

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a melhor visualização deste poema é em tela cheia

para isto, salve o arquivo no seu computador, abra-o e tecle <Ctrl><L>.


ouvindo várias variáveis

21 maio 2008

fanzine

8 maio 2008

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR

Fanzine é uma apresentção de slides.

Sua visualização ideal, portanto, é em TELA CHEIA.

Para isto SALVE o arquivo em seu computador e abra.

LEIAM/VEJAM OUVINDO ROCK!

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Nova versão: em 09/05/08 este post foi atualizado com uma nova versão do fanzine, com as seguintes alterações:
- Capa;
- poema do slide 5;
- formato: passou de pps para pdf.


no dentro do momento

5 maio 2008

show da morte

28 abril 2008

caros curiosos
louváveis linchadores
respeitáveis repórteres
no centro do picadeiro
a menina morta
gozo na redação
a massa convulsiva esporra
no meio das coxas
da televisão
é sangue mesmo
não é merthiolate
tão emocionante
um assassinato de verdade
e agora eu já vou indo
senão perco a novela
no próximo capítulo
quem matou isabella

A poesia nunca foi uma potência.
Hoje, menos ainda.
O poema pode muito pouco
nestes tempos pop,
mas pode ao menos rosnar.
Ele deve rosnar
sob as engrenagens
que o silenciam.

letra incidental:
metrópole (r. russo)


relâmpago – em tela cheia – 2 slides

23 abril 2008

Cique aqui para baixar.

Obs.: Para uma melhor visualização dos slides (em tela cheia), baixe o arquivo em seu computador e abra-o.


Di(per)versões eletrônicas

14 abril 2008

di(per)versões eletrônicas é uma série de poemas eletrônicos. Foram compostos por Frederico Assunção, Patrícia Martins e Wilton Cardoso. Os poemas são uma colagem digital de textos e imagens escaneadas, trabalhadas no Photoshop. São para ler/ver em tela cheia do computador.

Como o título insinua (diversões, perversões, versões) os poemas são marcados pela impureza. São eletrônicos, mas a partir de textos e imagens do papel. São um choque entre coisas visuais e verbais. Mas também foram concebidos para um choque entre olho e ouvido. Para serem lidos/vistos com trilha sonora.

Então, para uma experiência total de recepção, sugiro que ouçam canções (as que vocês gostarem) durante a navegação.

Divirtam-se. Pervertam-se. Vertam-se

Para baixar:

di(per)versões – alta qualidade de imagem (26,8 MB)

di(per)versões – versão compacta (8,5 MB)


relâmpago

10 abril 2008


eletriCidade

9 abril 2008


plus

9 abril 2008


Entrevista com Franco Átila

5 abril 2008

Publicada na revista Palávoraz n. 2

Como você vê a literatura contemporânea do Brasil?
Mas que pergunta mais fuleira. Você até parece um desses jornalistas de revista literária. É o tipo de pergunta que espera que o entrevistado dê uma de sacerdote, em defesa da santa igreja literária.

Que seja, mas você não respondeu a pergunta…
Eu amo uma certa literatura, alguma coisa de hoje, alguma de ontem, mas a verdade é também estou cansado da literatura, nem um pouco a fim de fazer uma defesa sacerdotal ou cidadã das virtudes da boa literatura, do bom poeta e do bom leitor, da importância de se ler, de lamentar a apatia dos jovens etc etc. Ando ouvindo muita canção ultimamente.

Que tipo de canção?
De tudo, tudo que toca no rádio e na TV eu paro pra ver, mas especialmente o que chamam de MPB e Rock Brasil.

Mas isto é uma revista literária, e considerar a canção como literatura é, no mínimo controverso. Mesmo em se tratando de bons letritas, como Caetano Veloso e Chico Buarque, há pessoas que têm sérias restrições em ler suas letras como poemas.

Suas letras são, de fato, péssimos poemas.

CONTINUA


x-tudo

24 março 2008

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delírio

14 março 2008

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escuro

14 março 2008

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quase

14 março 2008

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estrela

14 março 2008

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impossíveis montanhas

24 janeiro 2008

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transmutar

23 janeiro 2008

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Entrevista com o Zé Pelota

1 novembro 2007

Publicado na edição de novembro/07 da Revista Ruído Branco.

Nesta Neuropop entrevisto um amigo, quase mestre, mais competente que eu, chamado Zé Pelota. Consegui tirá-lo de seu casulo noturno para nos provocar sobre poesia, concretismo, Paulo Leminski e Ferreira Gullar. O entrevistado era para ser o Franco Átila, mas se trata de uma criatura tão complicada e inconstante: às vezes o esperamos até o amanhecer numa esquina desolada e ele não vem ou aparece fugaz, de mau humor, apenas com o intuito desbocado de xingar padres e pastores. Resolvi então chamar o Zé Pelota, não menos imprevisível (o tema, na verdade, era para ser a canção pop), mas pelo menos mais aberto à conversação.

É uma longa entrevista, regrada a charutos e goles de cachaça, mas acho que valeu a pena. Para mim, pelo menos, foi uma madrugada muito produtiva.

Quem conhece o Tratactus Marginale, logo verá que nosso entrevistado o escreveu comigo – o outro autor é o Átila. Mas nem Zé e nem Átila aceitaram que seus nomes constassem na obra como autores. Talvez porque o livro não estivesse à altura deles. Mas desconfio que seja por não entenderem esta vaidade que sentimos em nos apropriar de um texto, marcando-o com nosso nome. Desconfio ainda que esta ausência de vaidade não signifique humildade, longe disso. Trata-se, antes, de um fascinante e perigoso comportamento aristocrata: creio que se sentem tão acima de nós, que pouco se importam com o juízo que fazemos deles. Vamos ouvi-lo então, mas com o devido cuidado que tais vozes inspiram.

Cá estamos

Cá estamos

Então, você me prometeu falar sobre o Rock Brasil e a Tropicália, mas quer começar pela poesia, pelos acontecimentos na poesia brasileira a partir de 50.

Na verdade, talvez possamos, certamente podemos, fazer um percurso que passa da poesia à canção, um zigue-zague em que uma interfere parcialmente na outra, afinal de contas a Bossa Nova e a Tropicália têm uma estranha relação com os concretistas. Mas o que eu queria era tentar colocar o concretismo num campo de tensão, como eles mesmos se colocam, mas de forma inadequada.

Que campo?

Digamos que o Haroldo de Campos tenha definido (em algum artigo ou nota que não me lembro mais) como um campo poético que se estende entre dois pólos: uma poesia de expressão e outra de estruturação. A poesia como expressão do ser, do sujeito, dos afetos, da alma ou do espírito seria a poesia lírica propriamente dita, que domina a literatura de língua portuguesa e a brasileira desde o Romantismo, e mesmo o Modernismo não teria conseguido afrontá-la. Para Haroldo, apenas Oswald de Andrade se insurgiu radicalmente contra ela no início do movimento. Esta poesia seria verborrágica (a diarréia cabralina), sentimental, choramingas e nada tem a dizer à nossa época. O que não deixa de ser uma boa provocação.

Este seria o pólo subjetivo do campo poético…

É, subjetivo ou afetivo, sentimental, lírico, prosaico (no pior sentido do termo) sem inventividade nem fecundidade, pois não responderia aos dilemas da época. Se bem que estes termos todos não são uma boa palavra, o termo adequado seria profundo, uma poesia de sondagem das profundezas, dos abismos do que quer que seja, ser, sujeito, alma coletiva, o diabo… Contudo, não se pode esquecer que muita poesia boa foi feita aí nessa tendência, ou pelo menos interpretada como profunda, como a Invenção de Orfeu, por exemplo, e mesmo um poeta que os concretistas admiravam, como o Mário Faustino, tendia para as profundezas: era uma espécie de poeta aristocrata…

CONTINUA


brilhantina

25 outubro 2007

brilhantina.jpg


móbile

17 outubro 2007

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a gosma do cosmo

8 outubro 2007

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ruído azul

3 outubro 2007

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antenas pop

1 outubro 2007

Publicado na edição de outubro/07 da Revista Ruído Branco.

oh meu bem, você não sabia?
o mundo é uma disneylândia
z.p.

As torres estão plantadas. Francisco quer se suicidar aos 17 e sua mãe não sabe, bêbada demais. João gasta todo o dinheiro de pedreiro com maconha e putas enquanto a mulher vegeta à toa na casa da mãe, com preguiça de levar na escola o Chico, que cresce analfabeto. Sua irmã Maria engravida adolescente no banco de um gol roubado ao som de Wanessa Camargo. As torres estão plantadas, indiferentes ao turbilhão de sonhos — que circulam nelas.

Há lixo demais na cidade, latas, garrafas, fraldas cagadas, novelas, pilhas velhas, camargos, faustões, cartazes, catarses, trocadilhos, segundas intenções. Há material demais para um artista pop e há, sobretudo, lixo humano descartado nas margens, homens-trapo com sonhos vagabundos. Que sonho não seria vagabundo? Que homem, nesta cidade, não seria maltrapilho?

O homem rural era enraizado, dizem. Sua cultura era uma raiz, um chão de valores, costumes, gostos, arte, trabalho, ao qual ele se prendia sem muita dúvida. O homem culto, civilizado, também se enraizava na alta cultura, nos bons modos, na aura aristocrática. A classe média não, ela é pobre em raízes, não há nada que a prenda, bóia a procura de cultura. Por isto ela expropria a cultura popular, estropia a erudita e pare o pop, a cultura-flor-sem-haste, a ultra-superfície e, no entanto, a classe média quer raiz todo o tempo, ela multiplica as igrejas, os livros de auto-ajuda, os exoterismos, os hábitos salutares, a disciplina asceta, a saúde atlética, os comedimentos, a família, ela familiariza tudo. Ela estabelece o horizonte do homem demarcado de sonhos razoáveis, um horizonte móvel e, no entanto, desejando a paz das certezas, que nunca vêm.

Caro Dr. Savóia, o que é necessário para que nos tornemos um país desenvolvido, sem tantas desigualdades?

É preciso estabelecer um plano sério de educação integral, principalmente para os filhos das famílias de baixa renda, muito suscetíveis à desestruturação de seu núcleo familiar, por problemas de ordens diversas, como alcoolismo, doença, desemprego. Conjugada à educação integral, faz-se necessário toda uma rede de proteção social, inclusive para a capacitação de adultos para o mercado de trabalho. Conjugando, ainda, estes esforços sociais com o crescimento econômico, menos financista e mais atento ao setor produtivo, poderemos nos tornar um país realmente desenvolvido, no qual não haja miséria, as pessoas tenham conforto e longevidade e sejam verdadeiramente cidadãs.

A Europa, o Japão, os EUA, a classe média em massa, a massa, o Pop. Amamos o pop. Queremos o pop. É a única coisa que nos resta, a utopia possível, vida longa e confortável, o sentido da vida, o menor sofrimento, o mal menor, o Pop.

Bruno & Marrone cantam mais um sucesso no Gugu. Xuxa toda manhã. Fátima leva um pacote de maconha para um cliente de seu namorado, os pastores pregam, catadores de lixo riscam o asfalto puxando carroças de roda de bicicleta, putas e travestis ganham o seu e todos sonham com o último sucesso do cinema americano.

Imagine um troço que bóia, um troço de sonho que bóia no real, ou ainda um troço real feito de sonhos boiando no caos da existência, no caos de uma cidade. Alguma coisa que só tem movimento, velocidade, circulações, rasuras, ruínas e ranhuras. Algo do qual a verdade passa longe, embora a vontade de verdade seja a sua força motriz, como se a verdade fosse o canto da sereia. Um troço mais audiovisual que escrito, encharcado de dinheiro até a saturação de seu tecido esponjoso, impregnado de desejos. O Pop.

Tudo é pop, tudo que a boca-olho-ouvido pode é pop, rock, punk, cult, mpb, nicho pop. Os fragmentos. O pop são os cacos de vaso nenhum. Os sonhos brotam mortos. Proliferam um bafo pestilento e sedutor. Em nome da democracia, da cidadania. Os críticos denunciam. A crítica é pop, a política, a escrita, deus, o diabo, a consciência, a ciência, a arte, o esporte. O mesmo hálito pop. Sopro de vida ao pó. Francisco é um vagabundo. João é um viciado. Maria é ninfomaníaca. As antenas estão plantadas.


ex-littera

28 setembro 2007

Não quero nada fácil mais. Já há muitos poemas fáceis. Nada de melodias, nada de metafísicas disfarçadas de moderno. Nada, inclusive, de moderno. Não é uma questão de fazer literatura difícil, indecifrável, grunir “leitor hipócrita”, não se trata mais disso. Qualquer coisa que se escreva quase ninguém (tendendo a ninguém) lê mesmo, ou lê apenas por obrigação, para passar no vestibular, fazer a prova… Os poetas de hoje são os músicos pop, Lobão, Gessinger, Belchior etc: transe ácido. A poesia escrita é mendicância, o resto do resto e a arte da escrita, que hoje é apenas uma mídia de apoio das mídias elétricas, é uma arte zumbi, morta-viva. O poeta não é um espadachim, um herói, um sacerdote ou um outsider, a ele resta a vida e a visada do maltrapilho, o ninguém do ninguém.

Por isto é necessária uma poesia áspera, inculta, alquebrada, murmurante, asquerosa. É esta a poesia, é aí que se deve megulhar. Os poemas ainda estão cheios demais de nação, de sujeitos, de objetos, de abismos e cumes, de cotidianos, de nostalgia, de rebeldia, de mistérios, de decifrações, de cerebrarismos, de hermetismos, de verdades perdidas, de fragmentos da unidade. Só há fragmentos de coisa alguma, só há perdição sob a perdição, camadas e camadas de errância, nenhuma verdade ao fundo.

É preciso tentar este asco, estes cacos órfãos de vaso, esta virulência maltrapilha. Será difícil, talvez impossível, atingir. Se atingido, seria ainda poesia, arte? Em todo o caso é o que resta fazer, chega de poemas literários.

Comentário de 27/09/08: este texto é uma espécie de prenúncio/projeto dos móbiles.


sol(o) furioso

28 setembro 2007

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os nervos do nirvana

26 setembro 2007

eles não são ninguém
nem bandidos, nem pastores, nem o gado
atingiram o (improvável) nirvana pop
são trapos
(f. átila)

palavras desperdiçam o tempo
dormindo ao relento
jogadas ao vento
vagabundas à procura de prazer barato
debochadas de tudo
que se diz
riscos de giz na calçada
dão-se ao silêncio inaudível
na zoeira infinita das ruas
elétricas
não dizem nada
mendigos murmuram esmola
numa língua desconhecida
sacolas farfalham
entre trancos de motores
uma canção qualquer risca o ar
reciclando amores de sempre
pulsos por fios e ares
sonhos à velocidade da luz
sirenes e alarmes
mendigos infestam calçadas
cantando num ritmo mudo


psicografias leminskianas

13 setembro 2007

psicografia nº 1

a vida está por um fio
a vida está sempre por um fio
a vida, na verdade, é um fio
pronto pra se romper
pronto pra irromper

(a vida é um caso
de proliferação dos acasos)

é a canção mais violenta
que se pode
e explode em lava e pode
no entanto
a violeta mais delicada
colhida no seu riso
(ou na sua lágrima)

inferno
paraíso
a qual explosão
levará seu pavio?

psicografia nº 2

músicos, pintores
vivem em outro mundo
sons formas e cores
(que só a si se dizem
e nos dizem tudo)
coisas que não sei
mal sei palavras
palavras
elas não dizem nada
dizer
é tudo que podem

toda psicografia é uma diluição caro internauta
do leminski, então, nem se fala
logo ele, uma diluição extra-rarefeita do concreto
não estranhe então esse sabor de nuvem imperfeita
não pergunte pela moral da forma
nuvem que se preze é de moral duvidosa


fast food (renato russo)

1 setembro 2007

Publicado na edição de setembro/07 da Revista Ruído Branco.

A vida, o amor, a morte, a realidade:
— tudo agora virou fast food.
(Francisco Carvalho)

Tudo é fast food, caro Renato, inclusive você, servido pela Globo num jantar à meia noite, como um exu. E mesmo assim me comovi. Você sabia o que queria, em que mundo você estava, as forças que te moviam, que nos moviam naqueles anos 80?

Você apaixonado por outro rapaz, tímido, drogado. Eu te escutava fascinado, apaixonado pelas meninas sem me declarar, mergulhado na adolescência rica em hormônios e pobre em palavras. A sua música foi a trilha sonora de minha (de muita) adolescência. Adolescência… A adolescência é um filme americano, cheia de clichês, como o rock.

Éramos, eu você, uns ingênuos, a sua arte era ingênua e pobre: canções para alimentar a histeria das garotas e o caixa das gravadoras. Canções revoltadas e doídas, toscas, barulhentas, sentimentais. Que forças moviam os donos das gravadoras, os empresários, os produtores, os descobridores de talentos, os fãs… Os fãs (eu junto) que te amaram desesperadamente! Um amor meio mórbido, desses que se alimentam da dor e da morte do amado que tomba ressequido. Como você tombou Renato. Estes vampiros. O rock é um fast food sanguinolento: o corpo dos roqueiros no palco, no altar, como num sacrifício maia.

Crescemos, não somos mais uma legião de ingênuos, Renato. Casamos, criamos filhos, pagamos as contas, planejamos o futuro, aprendemos com o passado, trabalhamos dia após dia, incansáveis. Não temos mais ilusões nem somos melancólicos. Se tais coisas nos acometem, há sempre um psiquiatra de plantão com um antidepressivo na mão. E logo nos curamos. Não temos tempo.

Lembramos de você (e de nós, porque se trata de nós, tão jovens) como um velho recorda que havia doçura quando criança, sem precisar bem o gosto dessa lembrança esfumaçada e passageira. Recordamos por alguns minutos, ternos e noturnos, antes do sono baixar em nossos corpos cansados: único momento em que os trabalhos e a TV e todo o barulho do mundo se calam no corpo. Não temos mais todo o tempo do mundo, Renato.

E mesmo assim, em meio a esta zoeira elétrica que nos infesta a cidade, quando vislumbro a sua voz dilacerada (pobre música), algo que foge se acende tênue neste corpo frágil de carbono.

(Ainda resta um fiapo de sentimentalismo perdido numa sinapse qualquer do corpo, Renato. Mas isto também é fast food.)


Rock Brasil (BRrock)

1 julho 2007

Publicado na edição de julho/07 da Revista Ruído Branco.


quando a tristeza é sempre o ponto de partida (rr)

não vai haver amor neste mundo nunca mais (mn)

pra que votar? (lb)

há muita grana atrás de uma canção (hg)


O Rock Brasil (BRock), do ponto de vista da energia liberada, é algo sem precedentes na história da cultura pop no Brasil. Apenas a Jovem Guarda se aproxima do poderio magnético do BRock, mas Roberto Carlos & Cia são criancinhas diante de sua eficácia (comercial e afetiva) pop.

***

O BRock é uma estética do rancor. Os roqueiros são moralistas imorais. Eles não querem o Brasil dividido entre a maioria pobre e uma minoria, rica ou classe média. Mas também não querem o desenvolvimento, se este significar que quase toda a população se torne classe média, democrática, cidadã, trabalhadora. Eles odeiam a sua vida classe média.

***

A sombria transição de Jango para a ditadura foi marcada, esteticamente, por uma efusiva atividade da cultura pop brasileira: Cinema Novo, Tropicalismo, Teatro Oficina, Bossa Nova, Festivais de MPB, CPC (e, mais tarde, em 70, a poesia e o cinema marginais). Em todas elas, a marca da utopia, o diálogo com a contracultura (hippies, oriente, minorias, drogas), a liberação das energias anarquistas do desejo, a possibilidade de um mundo livre de poderes centrais, por fora e contra os mercados: sonhos e delírios, fluxos de desejo contra fluxos de capital, contra o cerceamento dos fluxos pelo Estado, pelo mercado e até mesmo pela psique, pela alma. Em quase todas estas estéticas pairava a sombra dos ditadores e do impasse político (como em Terra em Transe), mas não havia paralisia, havia esperança, utopia. Os impasses eram colocados como muros a serem ultrapassados, pois havia alternativas fora dos termos em que eles eram postos. Por mais desencanto que houvesse em Glauber e em Chico, havia um encanto revolucionário que corria ao lado, pronto a ser liberado.

***

A transição da ditadura para a democracia na década de 80 deveria ser um momento luminoso na vida brasileira. E, efetivamente, o movimento das “diretas já” parecia indicar a retomada da esperança perdida durante os mais de vinte anos de repressão militar. A guerra fria esmaecia com o lento colapso do império soviético (o engodo revolucionário soviético), o mundo parecia caminhar para a libertação do terror atômico e o Brasil do terror político. No entanto, não havia nenhuma utopia, nenhuma alternativa, ou melhor, para os países pobres sobravam duas alternativas: a disciplina social cidadã e mercadológica que levaria ao desenvolvimento nos moldes do Primeiro Mundo (o primado da classe média) ou a continuação do obscurantismo subdesenvolvido, da miséria material, invejando e desejando o conforto da vida classe média. Os roqueiros não gostavam de nenhuma das duas alternativas: era um impasse. E eles não vislumbravam nenhuma saída para ele. Estavam presos nos próprios termos do impasse, nenhuma fuga construtiva parecia possível, restava-lhes um niilismo resignado. Tornaram-se rancorosos, melancólicos, moralistas sem moral, auto-destrutivos, aidéticos drogados, sombrios. Ou então foram tomados por uma alegria frívola e burguesa, como Kid Abelha e Léo Jaime, como boa parte da música dos Paralamas e Titãs em sua fase inicial e mais recente.

***

A face alegre do BRock não tinha muito a ver com a alegria tropicalista, solta e debochada, a alegria não burguesa de liberação dos sentidos, o riso contracultural do artista sem lenço e sem documento contra a sisudez da tradição, família e propriedade, o riso antipuritano e carnavalesco do malandro. A alegria dos roqueiros de 80 foi o prolongamento do riso classe média da Jovem Guarda, mas uma continuidade mais profissional, mais bem medida, inserida num aparelho de mercado infinitamente mais eficaz. Era o prenúncio da alegria do axé, da música sertaneja urbana, do pagode, aquele riso e aquela sensualidade que os agentes do mercado descobrem nas margens bárbaras da sociedade (sons afro de Salvador, música caipira, samba do morro), testa nacionalmente e, se “pegar”, transforma em produção industrial, em onda de música-mercado.

Mas quem são estes agentes de mercado que descobrem o som bruto das periferias, adestram-no para uma alegria estéril de propaganda de cerveja e o trazem para o centro, ecoando-o depois por toda a sociedade? A imagem que vem imediatamente à cabeça é a do produtor cínico da gravadora, o homem do mercado que corrompe aos artistas da periferia. Mas o próprio artista da periferia já está corrompido e em suas veias estéticas já corre o sangue do capital, o desejo de sucesso, a vontade de transmutar o som bruto de seu grupo, de sua região, de sua periferia, em hit, em sonoridade capaz de aglutinar e magnetizar as massas em torno dele. O artista já é um agente de mercado. Mas não só o artista. Não são os artistas mal intencionados em comunhão com o produtor cínico que constituem os agentes de mercado que, por sua vez, manipulam as massas ingênuas, impondo-lhes os clichês musicais. Do lado das massas há um desejo pelos clichês, um vontade de serem magnetizadas pelos ídolos, enrabadas pelos agentes, as massas querem o alegria estéril da canção comercial, querem cultuar o perfeição do hit, a capacidade do artista de produzi-los ano a ano: elas querem ser demarcadas pelos agentes, elas são os demarcados: as massas magnetizadas também são cínicas.

A tarefa dos agentes, então, não é a de enganar as massas, de impor a elas as canções-clichês, mas de verificar quais canções-clichês se ligam melhor ao desejo das massas, como elas querem ser enrabadas (pelo axé, pelo sertanejo, pelo rock oba oba, pelo pagode?).

***

A face sombria do BRock percebeu isto também, esta face frívola e mercadológica do próprio rock, e se tornou mais sombria ainda, mais triste e niilista, mais auto-destrutiva. Pois esta alegria frívola era a ponte para a absorção da revolta na máquina de mercado, para a transformação da ingenuidade adolescente e dos devires negro e mulher do rock na seriedade profissional do macho adulto branco, tudo o que os roqueiros esconjuravam. Toda a eficácia técnica e comercial que eles odiavam e da qual fugiam desesperadamente com o seu som tosco e ingênuo era reposta pelo mercado da música, pela música como mercado, que absorvia o rock pelo seu lado alegre e frívolo. E mais, que tornava o modelo comercial do BRock um protótipo para futuras ondas sonoras que viriam: sertanejo, pagode, axé, funk carioca etc.

E a face sombria do rock se sentia cada vez mais impotente, cada vez mais sombria e rancorosa. Restava-lhe a morte, seja consubstanciada na morte física dos roqueiros que a levaram ao extremo patético (a morte de Renato Russo e de Cazuza), seja a morte da rebeldia em bandas como o Paralamas, Titãs e RPM/Paulo Ricardo, que aderiram de vez à alegria frívola, seja o caminho para a clandestinidade musical, longe da mídia, caminho de Lobão e de Humberto Gessinger (o abandono das massas por meio de uma morte midiática, que se torna a passagem para uma vida criativa clandestina).

***

O agente, o capitalista que corre nas veias dos produtores, dos músicos, dos homens de negócios das mídias, enraba as massas, é verdade (como também é verdade que elas gostam de ser enrabadas). Eles executam um admirável trabalho no campo da canção, uma coisa perfeccionista de uma eficácia crescente: na execução de shows cada vez mais pirotécnicos, na composição de hits estrondosos, na distribuição, na gravação. A indústria cultural elevada a estado de arte gerencial. Por que fazem isto? Pela fama, pela vida confortável que o dinheiro pode lhes dar, pelo prazer de se sentir no centro do vórtice musical das massas, pelo interesse, enfim? Sim, fazem pelo interesse, porque querem estar por cima, porque querem dominar, enriquecer. Mas há algo mais, algo mais decisivo. Há também um prazer em fazer bem feito, o amor desinteressado, não pela canção em si, mas por este mecanismo músico-mercantil, pela máquina da indústria cultural, um prazer em atingir a perfeição dentro dos padrões desta máquina ou, como diz Deleuze no Antiédipo “um amor desinteressado pela máquina social pela forma de poder e pelo grau desenvolvimento por si mesmos (…) Uma espécie de arte pela arte na libido, um certo gosto pelo trabalho bem feito, cada um no seu devido lugar, o banqueiro, o chui, o soldado, o tecnocrata, o burocrata, e porque não o operário, o sindicalista…” e também o roqueiro, o pagodeiro, o público, o produtor, o capitalista da mídia. É aí que Deleuze diz, com razão, que o próprio capitalista, o próprio agente não trabalha apenas para o seu interesse, mas principalmente para perpetuar a máquina capitalista, trabalha para o desejo da máquina, sente prazer em ser uma peça dela, em ser enrabado por ela tanto quanto as massas o sentem. Agentes e demarcados, artistas, produtores, capitalistas, massas, são peças trabalhando, com alegria, volúpia e eficácia para a máquina da indústria cultural, para o mercado pop.

***

E a face sombria do rock fica cada vez mais degradada, mais vazia, ela não deseja mais nada que não seja o vazio. A energia adolescente, negra, feminina do rock se debate melancólica e niilista ou se transmuta em alegria frívola conectada na máquina de mercado. A face sombria do rock converte toda a sua juventude, negritude e feminilidade em desejo de morte e se torna máquina de auto-aniquilação. Sua única alternativa é a clandestinidade: passar despercebida das massas, descobrir uma nova energia nas sombras, nas sobras, nos escombros de uma sociedade sem utopias.

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A alegria frívola do rock é uma ponte para o mercado, para o iê iê iê classe média das propagandas de televisão e o prenúncio das ondas do sertanejo, axé e pagode. Mas sua revolta rancorosa e melancólica também é um excelente negócio, pois ela constitui o nicho próprio do rock, uma tristeza européia que permeia os adolescentes de classe média brasileiros. Não é à toa que a banda das bandas do BRock é a Legião Urbana de Renato Russo com sua atmosfera cinzenta, sua vontade de morrer, sua rebeldia que se debate no vazio.