fa – certamente os óculos serão apenas uma passagem
w – como?
fa – haverá máquinas ainda menores e mais integradas ao corpo
w – que máquinas seriam estas?
fa – uma lente ou um implante nos olhos pode funcionar como tela e câmera. no lugar dos fones de ouvido um pequeno auto-falante pode ser implantado próximo ao tímpano
w – e a mosca cibernética, onde se aninharia?
fa – ora, moscas se aninham em qualquer lugar da roupa ou mesmo do corpo. o importante é que ela vai sempre acompanhar e filmar o corpo. mas ela também fará o papel de batedor, poderá filmar coisas e lugares nos quais a pessoa não se encontra. filmar durante o sono. uma pessoa pode ter várias moscas-batedoras
w – vários olhos-ouvidos
fa – sim, e o audiovisual das câmeras das moscas mais o da câmera acopladas ao olho do corpo ficarão gravados na net como escrita elétrica
w – será uma profusão de audiovisual numa escala inimaginável. se bem q isto já acontece com os celulares de hoje
fa – sim, mas o celular é limitado demais, desajeitado e ainda depende de comandos do corpo para gravar. estamos falando agora de um continuum de gravação, de uma escrita sem fim do dia a dia, apenas disparada pelo corpo da pessoa, mas praticamente sem o seu controle, como as câmeras dos condomínios. aliás mais sem controle ainda: vc pode programar um vôo aleatório pra sua mosca; e se quiser sua câmera-implante poderá filmar o que seus olhos verem
w – esta integração homem-máquina me faz lembrar os borgs de jornada nas estrelas, corpos entre o biológico e cibernético
fa – muita ficção científica de vcs é o vislumbre de seu desejo
w – mas os borgs são monstruosos, inimigos dos humanos
fa – as novas máquinas são sempre horripilantes. elas interferem nos corpos, na maneira como eles se conectam e se distribuem como sistemas. as mais potentes destroem a conformação usual do corpo e o joga em limiares imprevisíveis. elas questionam o ser do corpo. vcs acreditam que o corpo é um organismo simbólico e biológico relativamente estável, mas ele é, na verdade, uma profusão de conexões em contínuo movimento, uma máquina em meio a máquinas materiais e simbólicas. quando o corpo se encontra num limiar de desestruturação, o horror é o afeto mais previsível dos humanos
zp – imagine a potência desta nova máquina da escrita. vc poderá ir à igreja, reuniões, trabalho, escola apenas virtualmente. como os óculos (ou as lentes) cobrem todo o campo visual, poderão ser criados espaços virtuais audiovisuais. a sociedade das prisões do foucault, tipo século xix vai, definitivamente, se transformar na sociedade dos controles que deleuze vislumbrou
w – ainda assim capitalista
fa – capitalista, democrática, cidadã, não estamos falando de utopias e libertações, os corpos ainda serão severamente disciplinados. talvez até com mais rigor. a net é uma ferrenha ferramenta de controle. quando os estados se fundirem a ela, quando os códigos legais e telemáticos completarem sua simbiose, os controles serão infinitamente mais eficazes
zp – será a diretiva borg controlando os corpos-zangões da colméia capitalista-democrática, mas não será uma coletividade racional e igualitária como a dos borgs
w – mas a net também tem hakers, vírus, códigos abertos
fa – sim, haverá outras formas de resistência, formas de guerrilhas, bandidos, terroristas, desconformes, mais ou menos vinculados às disciplinas da normalidade
zp – as máquinas nunca fecham um sistema, nunca constituem um organismo imune, muito menos a hiper-máquina capitalista, que funciona por crises. sempre haverá os escapes, os ataques nômades, as partículas enlouquecidas, delirantes
fa – mas a potência de controle da net será imensa. veja as notas fiscais eletrônicas
w – quê?
fa – nós prestamos muita atenção ao audiovisual da net e nos esquecemos dos números, do poder de cálculo, armazenamento e manipulação de dados da telemática. são estas três potências, aliadas a sua conectividade instantânea, que a tornam uma máquina poderosa.
zp – 90% das tarefas burocráticas do estado ou de uma empresa podem ser executadas por computadores, em muito menos tempo e com muito mais qualidade do que se fossem feitas por humanos
w – sim, quando desenvolvi um sistema de contabilidade, o balancete mensal da empresa ocupava 3 pessoas e levava 1 semana para ser feito. passou a ocupar 1 pessoa e era feito em minutos. depois descobri q se a empresa quisesse podia fechar o balanço todo o dia, sem custo nenhum
fa – mas ainda era preciso lançar os movimentos
w – sim, se houvesse uma venda, a nota fiscal era enviada ao departamento contábil e digitada como lançamento
zp – mas se a venda for feita por meio da net, não é necessário que um funcionário a cadastre no sistema contábil: ela automaticamente vira um evento contábil
fa – todos os eventos de mercado, financeiros, legais, científicos, artísticos e até cotidianos serão on-line, vão receber um registro imediato na net, vão ter uma ou mais grafias elétricas que lhes correspondam
zp – vão ficar gravados/grafados e poderão ser manipulados de várias maneiras. o evento mercantil da venda de um produto se transforma em eventos financeiro, fiscal e contábil. ele também integrará as estatísticas da empresa e do estado, tudo instantaneamente e sem mediação humana
fa – as gravações/grafias de seu olho ou de suas moscas podem se tornar eventos de toda espécie, podem ser conectadas em máquinas muito diversas: científicas, artísticas, de entretenimento, mercadológicas
zp – e na medida em que o estado ou as organizações se apropriam destes registros, destas grafias, isto lhes dá um imenso poder de controle
fa – mas, como vc disse, isto também não deixa de ser uma proliferação infernal de grafia. um meio fértil para hakers, vírus, desconformes
w – de certa forma é isto q já acontece com as grafias elétricas de hoje, financeiras, tributárias, mas também artísticas, filmes, músicas. são campos de controle estatal e de ganhos de capital, mas também são terrenos férteis para a proliferação das pragas, bandidos, piratas, artistas
zp – é o que sempre aconteceu com a escrita tradicional. a escrita já um meio de reprodutibilidade técnica, como diz o adorno. a tentativa da era metafísica sempre foi a de frear sua potência de simulacro, sua capacidade de disseminação, frear o descontrole da interpretação, controlar a sua capacidade de se conectar infinitamente a outras máquinas, principalmente as marginais: rosa-cruz, maniqueísmo, seitas ou filosofias minotritárias
fa – a tentativa platônica de fazer a escrita dizer a verdade, o ser, de se dobrar ao uno. nós já falamos sobre isto
zp – mas também é o que acontece com a oralidade. a oralidade já é escrita, a mente já é escrita, já é proliferação escritural. a tribo também tenta exercer um certo controle sobre esta proliferação oral, com seus caciques e pajés. mas há sempre o pajé que mora isolado na floresta e constrói suas máquinas mágicas alternativas, subversivas, poderosas, imprevisíveis, temidas
fa – o que estamos falando é de formas de escrita, de modos de grafia, de diferentes máquinas de escritura: oral, mecânica (fônica e ideogrâmica) e elétrica. macluhan foi o primeiro a perceber o problema com agudez, estamos no começo da era elétrica: a era das máquinas elétricas da escrita