O Estado tem mais ou menos a idade da escrita, 5 ou 6 mil anos. A era da escrita é também a dos impérios e parece ter durado até agora. O Estado precisa da escrita para funcionar (contabilizar datas, impostos, posses, comunicar, guardar dados etc). Mas nunca, nem no estado democrático, a informação escrita dos estados e das grandes empresas e organizações (espécies de estados transnacionais) foi totalmente aberta. Muito pelo contrário, a informação escrita sempre foi firmemente controlada e filtrada, inclusive com a ajuda da imprensa e de seus proprietários. E a escrita facilitava isto, pois sua disseminação pressupunha toda uma logística que ia da produção da informação, passando por sua impressão, até a distribuição. Tal logística pressupunha hierarquias e exigia poder financeiro e político para funcionar – por outras palavras, a imprensa tradicional era fácil de se controlar. Mais que isto, o controle da imprensa, seja o exercido pelo estado, seja pelos proprietários, ou por ambos, era intrínseco a ela. As tensões que sempre existiam entre imprensa (escrita, televisiva, radiofônica) e governos eram tensões dentro do controlado jogo de poder midiático.
Com a internet isto parece estar se rompendo. E o meio ajuda. A internet é uma espécie de escrita também, que grava conteúdos verbais, sonoros e visuais, mas diferentemente da escrita tradicional não há necessidade de grande estruturas empresariais para a difusão de conteúdos na rede. Para se conseguir informação sempre bastou um punhado de espiões que conhecessem o terreno. Na escrita tradicional estes espiões não tinham meios para difundir tais informações, pois todos os veículos de imprensa estavam dentro do sistema de controle: o máximo que os donos e editores de jornais faziam eram chantagear os governos com seu poder de fogo informacional, mas eles sabiam que nunca deveriam ultrapassar certos limites pois, ao fim e ao cabo, o estado sempre poderia arruinar um jornal. Com a internet este empecilho acaba, pois se um espião tem a informação, basta postá-la na internet e ela já está impressa e distribuída para todo o mundo, sem custos e sem possibilidade de bloqueio da informação, pois ela se propaga de forma virótica: depois de publicada a informação, cada computador da rede (cada cd, pendrive, hd etc) é, potencialmente, um suporte de gravação e uma fonte para sua reprodução.
Isto significa que, em potência, a internet pode acabar com os segredos dos estados nacionais, das grandes empresas e de qualquer outra grande organização. Toda grande organização necessita de segredos de estado que devem ficar restritos a um pequeno número de pessoas. Normalmente tais segredos são incompatíveis com os princípios ou a moral democrática – são, portanto, inconfessáveis, como o assassinato brutal de civis iraquianos por tropas americanas. A Wikileaks é um punhado de espiões (gente de dentro dos esquemas) e hackers que encontraram as pessoas e o meio para tornar tais segredos públicos, de forma irreversível. A Wikileaks é o desenvolvimento da potência da internet lá onde ela assombra o estado e as grandes organizações (multinacionais, bancos, igrejas): na quebra do “segredo de estado” e na ruptura dos controles da informação. Trata-se certamente de um dos maiores desafios que o estado (e qualquer agenciamento social que se organize como ele) já enfrentou. E como o capitalismo se organiza por meio de estados e grandes corporações, talvez o que se prenuncia seja uma nova sacudida no capital.