Belchior

31 Julho 2006

Belchior deve ser um constrangimento para os concretistas. Ele os admira, mas não há nada mais contrário ao catecismo concreto (e espólio) que suas canções passionais e engajadas. Se há uma correspondência literária com Belchior, esta só pode a poesia de Ferreira Gullar, seu parceiro de alucinação:

A minha alucinação é suportar o dia a dia
e o meu delírio é experiência com coisas reais.
Benchior em “Alucinação”

Belchior é derramado, transbordante em exclamações e lamúrias, dores e testemunhos, toda a parafernália psicologizante e choramingas que os inventors não perdoam. Caetano, irônico e (auto)crítico quanto à linguagem da canção, é perdoável, admirável, mas Belchior não se distancia, ele se lança demais, se consome em seus artefatos quase como… quase como… um romântico sofrendo de mal do século! (cruz credo ave mallarmia!!)

Mas o que isto importa se Belchior nos deu algumas das melhores canções da década de 70? E uma das linhas de força destas canções é feita justamente do derramamento afetivo, da choramingança desenfreada, do apego ao prosaico da vida e de um certo engajamento de juventude. Por outras palavras, o forte de sua arte é construir uma linguagem própria que deixe a vida próxima penetrar perigosamente nos poros de suas canções. Tanto quanto Gullar, Belchior quer fazer uma canção/poesia suja de vida – daquela vida quase palpável.

Ele ri com um charuto na mão. Era pose para fotografia ou foi apenas o flagra de um riso de artista? Talvez esteja cercado de amigos. Talvez saiba que suas canções serão música ambiente de shoppings e supermencados. Mas por que se importar? Ele ri tão simples, como se houvesse apenas aquele riso franco, uma atmosfera 68 entra 70 adentro, como se o mundo pudesse agora, aquém/além de shoppings e parques temáticos. Ele ri e fuma, quer apenas suportar alucinadamente o dia a dia, alucinadamente, sob a luz do teu cigarro, na cama, teu corpo ruge, brasileiramente linda. Ri como dois amantes e um quarto que se bastam no mundo por um segundo, numa tarde perdida no tempo, ele ri.


É preciso saber gritar

25 Julho 2006

A canção não é música (no sentido estrito da coisa) nem sua letra é um poema. Ela é uma poesia, tão boa quanto a escrita, mas só o é enquanto cantada: se o poema é a coisa escrita que espera a leitura, a canção é a coisa gravada que espera a audição. Luiz Tatit diz, com razão, que, na canção, a entonação do canto deriva da fala e não da música: por isto a coisa não é ópera, na qual a voz é um instrumento a mais.

Às vezes se grita na canção, mas não de qualquer jeito, pois é preciso imbricar os gritos com a instrumentação e os sentidos da letra, como em “Metrolpole”:

Metrópole
Letra: Renato Russo
Música: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha/ Marcelo Bonfá

“É sangue mesmo, não é mertiolate.”
E todos querem ver
E comentar a novidade.

“É tão emocionante um acidente de verdade.”
Estão todos satisfeitos
Com o sucesso do desastre:

“-Vai passar na televisão.”

“Por gentileza, aguarde um momento.
Sem carteirinha, não tem atendimento
Carteira de trabalho assinada, sim senhor.
Olha o tumulto: façam fila por favor.”

“-Todos com a documentação”

“-Quem não tem senha, não tem lugar marcado.
Eu sinto muito, mas já passa do horário.
Entendo seu problema mas não posso resolver:
É contra o regulamento, esta bem aqui, pode ver.”

Ordens são ordens.

“-Em todo caso já temos sua ficha.
Só falta o recibo comprovando residência.
P’ra limpar todo esse sangue, chamei a faxineira
E agora eu já vou indo senão eu perco a novela

E eu não quero ficar na mão.”

Como poema, esta letra seria de uma igenuidade rasteira, mas cantada, ou melhor, gritada como Renato Russo faz, ela se torna uma poesia dura como (e contra) a cidade grande.

Ao gritar violentamente a letra, é como se a voz do cantor explorasse e explicitasse a violência da linguagem cotidiana e bem educada das metrópoles. Atente-se ao penúltimo verso, no qual a palavra novela é gritada de forma grutural, associando à frase cotidiana uma violência insuspeitada. Em contraponto com os gritos há quatro orações isoladas, cantadas repetidamente em tom suave e monocórdio, uma espécie de racionalidade educada, mas fria e insensível e que se torna tão ou mais violenta que as palavras gritadas. Desta racionalidade monocórdia, talvez o verso mais representativo seja “ordens são ordens”, expressão de uma sociedade na qual a regra é lavar as mãos.

Trata-se de um novo mundo para o brasileiro da década de 80, egresso de uma cutura interiorana e rural. Um mundo individualista, calculado e impessoal, povoado de gerentes e funcionários e permeado por regulamentos, rotinas e entretenimento. Um modo de vida urbano que se quer desenvolvido.

Esta canção é uma poesia-porrada, que emerge da vida urbana e interage, tensa e brutamente, com ela. Uma poesia tecida de gritos violentos e agônicos, mas bem gritada.


Aliens & Borgs

21 Julho 2006

Nenhum povo que tenha entrado em contato com a civilização ocidental, do séc. XV pra cá, saiu imune a este contato. Todas passaram a ter no Ocidente o seu horizonte inevitável – desejado ou esconjurado. As sociedades capitalistas são como corpos contagiosos para as outras culturas.

Os aliens dos filmes Alien e os borgs de Jornada nas estrelas são uma espécie de metáfora do capitalismo ocidental e seu poder de desestruturar e incorporar a identidade do outro contra a sua vontade. Aliens e borgs são extra-terrestres terríveis que incorporam (pelo contato físico) os seres humanos para a sua espécie. A única solução para tal ameaça é o extermínio dos alienígenas e é este o objetivo da Ten. Ripley em relação aos aliens e do Cap. Picard quanto aos borgs.

Em termos de horror, o cálculo e a frieza dos borgs talvez superem a violência sanguinária e instintiva dos aliens, que são antes uma espécie que uma civilização: a monstruosidade civilizada é sempre mais horrível que a animalesca. Os povos “bárbaros” e “primitivos” que tiveram contatos imediatos com o os colonos e exploradores ocidentais que o digam.


A seita secreta

21 Julho 2006

A poesia de hoje está nos blogs, uma forma fácil e sem custos para publicá-la. Há uma rede de blogs poéticos na net: você entra em um e, a partir dos links que ele te oferece vai conhecendo outros e assim sucessivamente. O blog (e o site) foi a solução para se atingir o público leitor da poesia, pequeno e disperso.

O blog é uma forma de publicar que também vem de encontro com o modo de interação entre literatura e sociedade hoje em dia. A literatura é muito mais uma seita secreta para iniciados que uma igreja católica para todos. É secreta não porque suas bruxarias sejam feitas em segredo, mas porque, para entendê-las, para se conectar com elas, é preciso uma disposição de espírito (pra usar um termo antigo) pra coisa. Esta disposição exige, além de simpatia, uma certa aplicação num aprendizado ao mesmo tempo técnico e sensível, de longo prazo (a vida toda). Poucos sentem atração/desejo por este duro aprendizado escrito.

Talvez a literatura sempre tenha sido assim: de e para poucos. Mas ela tinha uma ambição iluminista de ser para todos e as pessoas alfabetizadas sentiam a pressão de dever ler a boa literatura. Hoje as pessoas não mais se sentem coagidas a lê-la. Apenas artistas e especialistas em texto a lêem. As pessoas em geral buscam satisfazer seus desejos de poesia na canção pop e os de narrativa na TV e no cinema.

Só os escritores (poetas, narradores e críticos) parecem não perceber o caráter incontornável da literatura atual: o de seita secreta, restrita a iniciados. Quando percebem (porque é óbvio demais) não aceitam o fato e colocam a culpa no subdesenvolvimento, nas elites, na nossa falta de cultura – como se no Primeiro Mundo a situação fosse diferente. Os escritores ainda têm o sonho iluminista de uma igreja católica literária – católico aqui, no sentido de universal. Colocam-se como os apóstolos da literatura.

Para os escritores, aceitar que o texto literário seja para poucos seria incorrer num elitismo inaceitável. Seria concentrar injustamente uma riqueza que deveria ser distribuída a todos. Eles acreditam que a literatura é um bem necessário às pessoas em geral, que as enriquece e as salva. Talvez ela realmente salve os iniciados que, sem dúvida, precisam dela, assim como o feiticeiro e seus aprendizes têm na bruxaria uma prática vital para eles. Como o cientista não pode viver sem a ciência e nem o artesão sem o artesanato. Como algmas pessoas não concebem sua vida sem o rock, outras sem a música sertaneja, outras sem a MPB… O fato de os iniciados terem sido salvos pela literatura não quer dizer que todos o sejam.

A literatura não é uma riqueza absoluta e os que detêm este conhecimento não formam um grupo de privilegiados. O iniciado em literatura, seja leitor ou escritor, não é melhor ou pior que os outros homens.


O feiticeiro

19 Julho 2006

O feiticeiro não é um sábio, mas um explorador do caos e do incerto. É o espírito de margem que se apossa das pessoas.