Belchior deve ser um constrangimento para os concretistas. Ele os admira, mas não há nada mais contrário ao catecismo concreto (e espólio) que suas canções passionais e engajadas. Se há uma correspondência literária com Belchior, esta só pode a poesia de Ferreira Gullar, seu parceiro de alucinação:
A minha alucinação é suportar o dia a dia
e o meu delírio é experiência com coisas reais.
Benchior em “Alucinação”
Belchior é derramado, transbordante em exclamações e lamúrias, dores e testemunhos, toda a parafernália psicologizante e choramingas que os inventors não perdoam. Caetano, irônico e (auto)crítico quanto à linguagem da canção, é perdoável, admirável, mas Belchior não se distancia, ele se lança demais, se consome em seus artefatos quase como… quase como… um romântico sofrendo de mal do século! (cruz credo ave mallarmia!!)
Mas o que isto importa se Belchior nos deu algumas das melhores canções da década de 70? E uma das linhas de força destas canções é feita justamente do derramamento afetivo, da choramingança desenfreada, do apego ao prosaico da vida e de um certo engajamento de juventude. Por outras palavras, o forte de sua arte é construir uma linguagem própria que deixe a vida próxima penetrar perigosamente nos poros de suas canções. Tanto quanto Gullar, Belchior quer fazer uma canção/poesia suja de vida – daquela vida quase palpável.
Ele ri com um charuto na mão. Era pose para fotografia ou foi apenas o flagra de um riso de artista? Talvez esteja cercado de amigos. Talvez saiba que suas canções serão música ambiente de shoppings e supermencados. Mas por que se importar? Ele ri tão simples, como se houvesse apenas aquele riso franco, uma atmosfera 68 entra 70 adentro, como se o mundo pudesse agora, aquém/além de shoppings e parques temáticos. Ele ri e fuma, quer apenas suportar alucinadamente o dia a dia, alucinadamente, sob a luz do teu cigarro, na cama, teu corpo ruge, brasileiramente linda. Ri como dois amantes e um quarto que se bastam no mundo por um segundo, numa tarde perdida no tempo, ele ri.
Escrito por Wilton Cardoso
Escrito por Wilton Cardoso
Escrito por Wilton Cardoso