Não quero nada fácil mais. Já há muitos poemas fáceis. Nada de melodias, nada de metafísicas disfarçadas de moderno. Nada, inclusive, de moderno. Não é uma questão de fazer literatura difícil, indecifrável, grunir “leitor hipócrita”, não se trata mais disso. Qualquer coisa que se escreva quase ninguém (tendendo a ninguém) lê mesmo, ou lê apenas por obrigação, para passar no vestibular, fazer a prova… Os poetas de hoje são os músicos pop, Lobão, Gessinger, Belchior etc: transe ácido. A poesia escrita é mendicância, o resto do resto e a arte da escrita, que hoje é apenas uma mídia de apoio das mídias elétricas, é uma arte zumbi, morta-viva. O poeta não é um espadachim, um herói, um sacerdote ou um outsider, a ele resta a vida e a visada do maltrapilho, o ninguém do ninguém.
Por isto é necessária uma poesia áspera, inculta, alquebrada, murmurante, asquerosa. É esta a poesia, é aí que se deve megulhar. Os poemas ainda estão cheios demais de nação, de sujeitos, de objetos, de abismos e cumes, de cotidianos, de nostalgia, de rebeldia, de mistérios, de decifrações, de cerebrarismos, de hermetismos, de verdades perdidas, de fragmentos da unidade. Só há fragmentos de coisa alguma, só há perdição sob a perdição, camadas e camadas de errância, nenhuma verdade ao fundo.
É preciso tentar este asco, estes cacos órfãos de vaso, esta virulência maltrapilha. Será difícil, talvez impossível, atingir. Se atingido, seria ainda poesia, arte? Em todo o caso é o que resta fazer, chega de poemas literários.
Comentário de 27/09/08: este texto é uma espécie de prenúncio/projeto dos móbiles.
Escrito por Wilton Cardoso
Escrito por Wilton Cardoso
Escrito por Wilton Cardoso