ex-littera

28 Setembro 2007

Não quero nada fácil mais. Já há muitos poemas fáceis. Nada de melodias, nada de metafísicas disfarçadas de moderno. Nada, inclusive, de moderno. Não é uma questão de fazer literatura difícil, indecifrável, grunir “leitor hipócrita”, não se trata mais disso. Qualquer coisa que se escreva quase ninguém (tendendo a ninguém) lê mesmo, ou lê apenas por obrigação, para passar no vestibular, fazer a prova… Os poetas de hoje são os músicos pop, Lobão, Gessinger, Belchior etc: transe ácido. A poesia escrita é mendicância, o resto do resto e a arte da escrita, que hoje é apenas uma mídia de apoio das mídias elétricas, é uma arte zumbi, morta-viva. O poeta não é um espadachim, um herói, um sacerdote ou um outsider, a ele resta a vida e a visada do maltrapilho, o ninguém do ninguém.

Por isto é necessária uma poesia áspera, inculta, alquebrada, murmurante, asquerosa. É esta a poesia, é aí que se deve megulhar. Os poemas ainda estão cheios demais de nação, de sujeitos, de objetos, de abismos e cumes, de cotidianos, de nostalgia, de rebeldia, de mistérios, de decifrações, de cerebrarismos, de hermetismos, de verdades perdidas, de fragmentos da unidade. Só há fragmentos de coisa alguma, só há perdição sob a perdição, camadas e camadas de errância, nenhuma verdade ao fundo.

É preciso tentar este asco, estes cacos órfãos de vaso, esta virulência maltrapilha. Será difícil, talvez impossível, atingir. Se atingido, seria ainda poesia, arte? Em todo o caso é o que resta fazer, chega de poemas literários.

Comentário de 27/09/08: este texto é uma espécie de prenúncio/projeto dos móbiles.


sol(o) furioso

28 Setembro 2007

sol-o.JPG


os nervos do nirvana

26 Setembro 2007

eles não são ninguém
nem bandidos, nem pastores, nem o gado
atingiram o (improvável) nirvana pop
são trapos
(f. átila)

palavras desperdiçam o tempo
dormindo ao relento
jogadas ao vento
vagabundas à procura de prazer barato
debochadas de tudo
que se diz
riscos de giz na calçada
dão-se ao silêncio inaudível
na zoeira infinita das ruas
elétricas
não dizem nada
mendigos murmuram esmola
numa língua desconhecida
sacolas farfalham
entre trancos de motores
uma canção qualquer risca o ar
reciclando amores de sempre
pulsos por fios e ares
sonhos à velocidade da luz
sirenes e alarmes
mendigos infestam calçadas
cantando num ritmo mudo


psicografias leminskianas

13 Setembro 2007

psicografia nº 1

a vida está por um fio
a vida está sempre por um fio
a vida, na verdade, é um fio
pronto pra se romper
pronto pra irromper

(a vida é um caso
de proliferação dos acasos)

é a canção mais violenta
que se pode
e explode em lava e pode
no entanto
a violeta mais delicada
colhida no seu riso
(ou na sua lágrima)

inferno
paraíso
a qual explosão
levará seu pavio?

psicografia nº 2

músicos, pintores
vivem em outro mundo
sons formas e cores
(que só a si se dizem
e nos dizem tudo)
coisas que não sei
mal sei palavras
palavras
elas não dizem nada
dizer
é tudo que podem

toda psicografia é uma diluição caro internauta
do leminski, então, nem se fala
logo ele, uma diluição extra-rarefeita do concreto
não estranhe então esse sabor de nuvem imperfeita
não pergunte pela moral da forma
nuvem que se preze é de moral duvidosa


fast food (renato russo)

1 Setembro 2007

Publicado na edição de setembro/07 da Revista Ruído Branco.

A vida, o amor, a morte, a realidade:
— tudo agora virou fast food.
(Francisco Carvalho)

Tudo é fast food, caro Renato, inclusive você, servido pela Globo num jantar à meia noite, como um exu. E mesmo assim me comovi. Você sabia o que queria, em que mundo você estava, as forças que te moviam, que nos moviam naqueles anos 80?

Você apaixonado por outro rapaz, tímido, drogado. Eu te escutava fascinado, apaixonado pelas meninas sem me declarar, mergulhado na adolescência rica em hormônios e pobre em palavras. A sua música foi a trilha sonora de minha (de muita) adolescência. Adolescência… A adolescência é um filme americano, cheia de clichês, como o rock.

Éramos, eu você, uns ingênuos, a sua arte era ingênua e pobre: canções para alimentar a histeria das garotas e o caixa das gravadoras. Canções revoltadas e doídas, toscas, barulhentas, sentimentais. Que forças moviam os donos das gravadoras, os empresários, os produtores, os descobridores de talentos, os fãs… Os fãs (eu junto) que te amaram desesperadamente! Um amor meio mórbido, desses que se alimentam da dor e da morte do amado que tomba ressequido. Como você tombou Renato. Estes vampiros. O rock é um fast food sanguinolento: o corpo dos roqueiros no palco, no altar, como num sacrifício maia.

Crescemos, não somos mais uma legião de ingênuos, Renato. Casamos, criamos filhos, pagamos as contas, planejamos o futuro, aprendemos com o passado, trabalhamos dia após dia, incansáveis. Não temos mais ilusões nem somos melancólicos. Se tais coisas nos acometem, há sempre um psiquiatra de plantão com um antidepressivo na mão. E logo nos curamos. Não temos tempo.

Lembramos de você (e de nós, porque se trata de nós, tão jovens) como um velho recorda que havia doçura quando criança, sem precisar bem o gosto dessa lembrança esfumaçada e passageira. Recordamos por alguns minutos, ternos e noturnos, antes do sono baixar em nossos corpos cansados: único momento em que os trabalhos e a TV e todo o barulho do mundo se calam no corpo. Não temos mais todo o tempo do mundo, Renato.

E mesmo assim, em meio a esta zoeira elétrica que nos infesta a cidade, quando vislumbro a sua voz dilacerada (pobre música), algo que foge se acende tênue neste corpo frágil de carbono.

(Ainda resta um fiapo de sentimentalismo perdido numa sinapse qualquer do corpo, Renato. Mas isto também é fast food.)