Entrevista com o Zé Pelota

1 Novembro 2007

Publicado na edição de novembro/07 da Revista Ruído Branco.

Nesta Neuropop entrevisto um amigo, quase mestre, mais competente que eu, chamado Zé Pelota. Consegui tirá-lo de seu casulo noturno para nos provocar sobre poesia, concretismo, Paulo Leminski e Ferreira Gullar. O entrevistado era para ser o Franco Átila, mas se trata de uma criatura tão complicada e inconstante: às vezes o esperamos até o amanhecer numa esquina desolada e ele não vem ou aparece fugaz, de mau humor, apenas com o intuito desbocado de xingar padres e pastores. Resolvi então chamar o Zé Pelota, não menos imprevisível (o tema, na verdade, era para ser a canção pop), mas pelo menos mais aberto à conversação.

É uma longa entrevista, regrada a charutos e goles de cachaça, mas acho que valeu a pena. Para mim, pelo menos, foi uma madrugada muito produtiva.

Quem conhece o Tratactus Marginale, logo verá que nosso entrevistado o escreveu comigo – o outro autor é o Átila. Mas nem Zé e nem Átila aceitaram que seus nomes constassem na obra como autores. Talvez porque o livro não estivesse à altura deles. Mas desconfio que seja por não entenderem esta vaidade que sentimos em nos apropriar de um texto, marcando-o com nosso nome. Desconfio ainda que esta ausência de vaidade não signifique humildade, longe disso. Trata-se, antes, de um fascinante e perigoso comportamento aristocrata: creio que se sentem tão acima de nós, que pouco se importam com o juízo que fazemos deles. Vamos ouvi-lo então, mas com o devido cuidado que tais vozes inspiram.

Cá estamos

Cá estamos

Então, você me prometeu falar sobre o Rock Brasil e a Tropicália, mas quer começar pela poesia, pelos acontecimentos na poesia brasileira a partir de 50.

Na verdade, talvez possamos, certamente podemos, fazer um percurso que passa da poesia à canção, um zigue-zague em que uma interfere parcialmente na outra, afinal de contas a Bossa Nova e a Tropicália têm uma estranha relação com os concretistas. Mas o que eu queria era tentar colocar o concretismo num campo de tensão, como eles mesmos se colocam, mas de forma inadequada.

Que campo?

Digamos que o Haroldo de Campos tenha definido (em algum artigo ou nota que não me lembro mais) como um campo poético que se estende entre dois pólos: uma poesia de expressão e outra de estruturação. A poesia como expressão do ser, do sujeito, dos afetos, da alma ou do espírito seria a poesia lírica propriamente dita, que domina a literatura de língua portuguesa e a brasileira desde o Romantismo, e mesmo o Modernismo não teria conseguido afrontá-la. Para Haroldo, apenas Oswald de Andrade se insurgiu radicalmente contra ela no início do movimento. Esta poesia seria verborrágica (a diarréia cabralina), sentimental, choramingas e nada tem a dizer à nossa época. O que não deixa de ser uma boa provocação.

Este seria o pólo subjetivo do campo poético…

É, subjetivo ou afetivo, sentimental, lírico, prosaico (no pior sentido do termo) sem inventividade nem fecundidade, pois não responderia aos dilemas da época. Se bem que estes termos todos não são uma boa palavra, o termo adequado seria profundo, uma poesia de sondagem das profundezas, dos abismos do que quer que seja, ser, sujeito, alma coletiva, o diabo… Contudo, não se pode esquecer que muita poesia boa foi feita aí nessa tendência, ou pelo menos interpretada como profunda, como a Invenção de Orfeu, por exemplo, e mesmo um poeta que os concretistas admiravam, como o Mário Faustino, tendia para as profundezas: era uma espécie de poeta aristocrata…

CONTINUA