De quando eu era um poeta velho II

26 Junho 2008

Moreira Cardoso in A Tradição travestida


De quando eu era um poeta velho

26 Junho 2008

Moreira Cardoso in A tradição travestida


De quando eu fazia poemas de amor

25 Junho 2008

ETERNAL
(Moreira Cardoso in Ciclo de Jaiaira)

Teu dorso louro, desço e teço
As sensações se cruzam
Emergem, jorram resgatadas
Me retorço em imagens que se desfazem lentas
Tantas e dispersas
Brutas
Que abruptamente petrificam bruscas
Todas e diversas, unas
Numa unidade imóvel
Tudo, eterno e infinitamente vasto
Instante
Não dura mais que isto, instável
E imaterial
Nada
Me contorço em chamas
Brumas
Submergem, choram amargos
Poros, soam mares
Sais, salgados ares violentam ventas
Fluidos doces viscos quentes, envolventes
Ventre da manhã
Miragem
Cores e sabores falsos. Gostos, tatos e contatos: mera quimera
Ardências frias, planas
Um jardim etéreo sem espírito
Frio
Teus fios aéreos, sérios
Teus gestos atonais nos ares: danças
Corte de ar em vários
Goles de ares, áreas de cheio e vazio
Cheiros
Preenchidos vácuos de essências e substâncias, várias
Arenas: digladiam-se sentidos
Guerras e guerreiros brutos


De quando eu fazia poemas metafísicos II

24 Junho 2008

Na verdade, este poema (in A Tradição travestida) é concreto- metafísico. Os concretistas achariam um horror o uso da fé da Igreja Construtora para rezar a poesia da Igreja Profunda: trata-se uma diluição imperdoável. Mas ainda gosto deste poema todo cheio de fé. E não creio que a heresia sincrética tenha sido tão grave a ponto de condenar o Moreira Cardoso ao inferno (profundo ou concreto).


De quando eu fazia poemas metafísicos

23 Junho 2008

O LOUCO

Estou fazendo uma revisão no Ciclo de Jaiara. Corrigindo a ortografia e alguns absurdos estéticos. Mas tenho que me conter, senão corto quase tudo. Relendo os primeiros versos do livro, me pergunto como tive a coragem de publicá-los. Por mais que o Moreira Cardoso seja um outro (um eu-outro, ex-eu), ainda assim era esta mão que batia no teclado.

Mas quem sou eu pra ficar cortando ou emendando o Moreira Cardoso? Ele tem lá o seu direito de existir torto, provinciano, ingênuo, crente ou ateu lamentando sua descrença. E depois, é provável que daqui a dez anos eu mesmo (ou um crítico simpático a poetas obscuros) lerei o que faço hoje achando tudo a mesma porcaria.

Em todo caso, há coisas que ainda gosto, ou pelo menos me divertem, como estes dois trechos acima de O louco. O III tem uma sonoridade mordente, de aliteração cerrada e o IV, bom o IV é mesmo uma loucura onírica (eu lia muito Jorge de Lima na época).


No dentro do momento (poesia em tempos pop)

17 Junho 2008

Em artigo que aqui publiquei em 3 do corrente, afirmei que, tendo cumprido a sua função, a vanguarda acabou. Não cheguei, porém, a explicar que uma das principais razões pelas quais penso assim é que estou convencido de que o feito principal da vanguarda enquanto vanguarda não foi de natureza propriamente estética ou artística, mas cognitiva e, mais precisamente, conceitual. Em outras palavras, não é que, a partir da experiência da vanguarda, a arte tenha ficado melhor do que era, mas que, sobre ela, se aprendeu alguma coisa que não se sabia antes. Deu-se um aprendizado, um progresso cognitivo após o qual se passou a saber algo fundamental, antes não plenamente reconhecido, sobre a natureza da arte. (Antonio Cicero – Ainda a vanguarda – Folha de S.Paulo – 31/05/2008).

É um mérito dizer claramente que a vanguarda já cumpriu o seu papel. Mas seu papel, ao contrário do que afirma Antonio Cícero não foi o de esclarecer o que é a poesia, como se houvesse a verdade ou o Ser da poesia que precisasse ser entendido com mais clareza, ou em aspectos ainda desconhecidos.

O que é a poesia? Creio que o que se entende por poesia (e também por literatura e arte) é uma convenção – coletiva e ‘não intencional’. Não que seja qualquer coisa, mas é como um recorte de sentido que uma sociedade ou cultura faz de seu mundo simbólico (ou simplemenste de seu mundo). É uma maneira de fazer sentido, de organizar os saberes. No Ocidente há um saber estético mais ou menos independente (recortado) dos demais e, dentro deste saber estético, um saber da arte verbal, que hoje chamamos literatura (e poesia, que é um ramo complicado da literatura – complicado pq desde sempre namorou a música e o canto, saindo da órbita do puramente escrito. Se pensarmos bem, mesmo o que entendemos por literatura, como arte verbal escrita, recobre realmente o conto e o romance, pois o teatro também salta da órbita do puro escrito).

Durante muito tempo, talvez desde o renascimento, o que se entende por poesia foi a arte verbal escrita em versos, com uso de figuras de som (rimas, aliterações, assonâncias etc) e de sentido. Outro critério da poesia talvez seja o seu descompromisso com a narrativa (embora ela pudesse ocorrer) e, a partir do romantismo, uma inflexão à subjetividade ou, pelo menos, um descompromisso com a objetividade. Para o Cícero, isto é uma visão redutora da poesia. De fato, a coisa para ser poesia, até o século XIX, deveria seguir certos padrões estéticos bem rígidos.

Mas é aí que o Cícero se equivoca. Não é que a poesia é um troço mais amplo e as pessoas, no passado, não viam ou não entendiam. A questão é que, do renascimento até o século XIX, houve uma certa estabilidade (que começou a ser perturbada neste mesmo sec XIX pelos românticos) no recorte de sentido que se entendia por poesia no Ocidente. E o que se entendia por poesia (o recorte que se fazia) era, de fato, a poesia e não um entendimento equivocado do que era realmente a coisa.

O Cícero poderia contra-argumentar dizendo que no medievo a idéia de poesia era mais ampla (pois envolvia também o canto dos trovadores, a canção) e que os medievais estavam, por isto, mais próximos do conceito verdadeiro de poesia. Eu diria que os medievais tinham outra idéia do que era arte verbal, que recortavam o sentido de modo diferente. E, para eles, isto que chamamos de literatura (conceito com o qual abarcamos os trovadores medievais) não tinha o sentido que lhe damos. O que o Ocidente renascentista fez foi separar a alta cultura da popular e, nesta separação, a canção ficou na cultura popular e o poema escrito se desenvolveu como arte erudita.

O que acontece no modernismo (mas já se prenunciava no romantismo e no simbolismo)? Um a um vão caindo os critérios que definem o que é e o que não é poesia. Por exemplo, as figuras de som e sentido não são mais obrigatórias e recebem um tratamento extremamente flexível, a ponto do Bandeira fazer um poema extraído de uma notícia de jornal. O verso não é mais exigido no poema em prosa (aproximação da poesia com a narrativa e o epigrama). A expressão subjetiva ou a sondagem metafísica que se tornaram um critério de poeticidade no século XIX também são duramente abaladas pelas poesias antilíricas de Drummond e principalmente de Cabral.

O que as vanguardas fizeram? Elas foram a ponta de lança desta destruição do antigo poético e, muitas vezes, da proposta de reconstrução de uma nova poesia. O que o concretismo quis, em seus momentos mais radicais? Abolir o verso e afirmar que a poesia tinha que ser verbovocovisual. Não conseguiram. O Cícero diz que é porque eles apenas contribuíram para a descoberta de uma face ainda desconhecida da poesia, a visualidade, e que o verso não caiu porque fazia parte da outra face da verdade da poesia. Eu diria o seguinte: os concretistas, no rastro de Mallarmé e Cummings, e relendo com olhos ocidentais a arte ideogrâmica japonesa e chinesa) acrescentaram / criaram (e não desvendaram ou progrediram conceitualmente) uma verdade a mais para o poético: ampliaram a idéia do poético.

O Cícero talvez diria que não aboliram o verso porque ele é um aspecto da verdade ou da natureza da poesia. Eu diria que não aboliram o verso porque a sociedade não aceitou (não desejou) uma idéia de poesia sem verso. E acho que não poderia ter desejado, não porque o verso seja necessário a um conceito transcendental de poesia, mas porque foi necessário ao conceito de poesia do Ocidente do século passado (e talvez ao atual), ao que se desejou como poesia. Só entendendo a coisa poética deste modo, como desejo de poesia é que podemos falar de sua verdade, sua natureza ou seu ser. Mas devemos ressaltar que este ser é um recorte de sentido (coletivo, convencional e não intencional) de uma cultura e época específicas: o Ocidente do século XX.

O que é poesia hoje, no início do século XXI? Neste ponto, creio que Cícero e eu concordaríamos: vai da arte em verso até a canção, por um lado (aproximação com a música). Por outro, vai do verso à poesia visual (aproximação com as artes visuais). Por outro, ainda, vai do verso à performance (aproximação com as artes cênicas). Com relação às mídias, a poesia, transita da escrita para o audiovisual e o digital (que absorve todas elas).

E como ficam a tradição e a vanguarda? Parece-me que elas são, hoje, uma grande sicronia, uma só tradição (que abarca, inclusive, a textualidade de culturas exteriores ao ocidente, como a tradição oral de povos tribais que pôde ser registrada de alguma forma e a escrita ideogrâmica do extremo oriente antigo). Ora, este olhar simpático e aberto para a estética textual de toda a tradição de todos os povos (repito, não só ocidental) e esta abertura a várias fromas de manifestações do poético (verbal, visual, performático, escrito, audiovisual etc) não decorre de uma compreensão melhor do que é poesia, mas sim de uma crise da idéia de poesia. Crise que não é só da poesia ou da literatura, mas de tudo o que se chamou, no ocidente, de Arte, de Alta Cultura. Na verdade, é um pós-crise, uma constatação que acabou de acontecer um cataclismo estético, pois a crise mesmo se deu no modernismo, na primeira metade do século XX.

No limite, poesia é tudo, inclusive arte visual sem nehuma palavra, inclusive arte sonora (música ou articulação vocal) sem o verbal: qualquer estética de relação entre símbolos que o homem possa criar é poesia. Mas o que não é, na prática estética, relação entre símbolos? Então poesia é tudo e é nada, pode ser qualquer arte. É neste ponto de absoluta indefinição que nos encontramos. Convém limitar a poesia ao uso do verbo, da palavra, escrita ou não? Não sei, não creio que seja possível. Sem dúvida a palavra ainda é um ponto de partida para se ter idéia do que é a poesia, mas parece que não é, definitivamente, um ponto de chegada. O problema é que nosso recorte estético (nossa maneira de desejar/perceber a arte) mudou muito de uns tempos pra cá. Os frankfurtianos foram os primeiros a perceber isto com clareza e forjaram o conceito de indútria cultural para explicar o acontecimento. Mas creio que só se começou a perceber a dimenção da coisa na segunda metade no século XX, quanto o terremoto estético acabara de passar. Alguns chamam o momento atual de pós-moderno ou pós-modernismo. Eu gosto de chamar o atual recorte estético de pop. Acho melhor que indústria cultural, porque o conceito dos frankfurtianos implica numa idéia de manipulação que creio ser inadequada, como se as massas fossem manipuladas pela ideologia de uma estância de poder (que detêm a propriedade da indústria cultural). E melhor que pós-moderno porque o termo moderno tem muitas relações (de amor e ódio) com o capitalismo e, definitivamente, não estamos numa era pós-capitalista. Além do que, moderno carrega o sentido do hoje, do atual e uma época pós-moderna poderia dar idéia de uma pós-vida ou pós-terreno, como se vivéssemos num mundo sobrenatural. A modernidade de nosso tempo é o pop.

Como funciona o pop? como ficam as artes da palavra e suas relações com outras artes neste universo? como fica a relação entre arte e capital (entre os dois fluxos)? qual a relação entre o conceito de pop e o de massa? como fica a questão dos valores e do gosto? Há possibilidade de haver uma Grande Arte, em contraposição ao lixo pop? quanto a esta última questão, creio que há fugas do pop, coisas excelentes, produzidas inclusive dentro do universo pop, mas não creio ser possível traçar mais uma linha divisória entre alta e baixa cultura. Antigamente era mais fácil, mesmo porque, esta linha era demarcada também pelo gênero. Por exemplo, no século XIX, se era canção, era cultura popular e pronto. Alta cultura era poema escrito. Se se fazia poema escrito havia chance de ser alta cultura, bem como uma certa clareza de critérios para se identificar se a coisa era boa ou não. Hoje tem gente que ainda insiste nisso, dizendo que canção não é arte que se preze ect e tal. Mas isto é se refugiar em critérios do século passado (aliás do sec. XIX), um recorte de sentido que não funciona mais e, principalmente, não ajuda a entender o presente. Ora, os artistas e os críticos de arte têm que ser homens do seu tempo. Rejeitar a canção e o cinema em bloco (mesmo rejeitar apenas a canção e o cinema comerciais – e o que é, nestas artes, comercial e ‘de arte’?), refjeitar, enfim, o pop, é rejeitar a sua época, a vivência estética de sua época. Antes se rejeitava a cultura popular (que os românticos começaram a resgatar), mas esta atitude tinha um sentido aristocrático, mesmo (aliás principalmente) quando era a burguesia que o fazia: era uma tentativa de enobrecer a alma. Mas nesta época a cultura erudita tinha uma vida própria, dinâmica e com bastante independência (na verdade com domínio) da culura popular. Hoje não há esta divisão clara e os críticos que se refugiam na tradição (mesmo quando incluem nelas as vanguardas) resgatam o passado de uma maneira que não faz mais sentido hoje, como se o modernismo ainda estivesse vivo e atuante. A tradição hoje é esta coisa chapada, sincrônica: tudo à nossa disposição, você pode escolher, fazer o paideuma que quiser. E o que foi feito a uma década já é tradição, entra na sicronia da tradição (veja o rock brasil, já é coisa do passado! “como eram bons aqueles tempos!). É assim que o pop, que as massas fazem e desejam a tradição. É assim que se deve desejar, com esta perda da história e das referências? Talvez não, mas é preciso considerar esta perspectiva pop, entendê-la, sentir sua força, utilizar sua potência. Não há outra maneira, nos encontramos no pop, em tempos pop e é a partir deste momento (do dentro do momento) que que artistas e críticos têm que atuar, mesmo que de maneira crítica, mesmo que recuperando a tradição: é sempre a partir e com vistas ao nosso tempo. Os saudosistas falam muito dos grandes da tradição e lamentam não haver mais mestres. Se há uma lição a se tirar dos bons poetas do passado é a seguinte: todos eles viveram e escreveram intensamente em e para sua época, no dentro de seu momento.


De quando eu fazia sonetos

6 Junho 2008

Árido imóvil

Depois d’um longo nada eis-me pronto,
Entre o tirano bafo do porão
E os cômodos medidos que não são.
No quase do precário eis-me assombro.

O grande tumor negro sob o chão,
Toneladas sem fim sobre os meus ombros
De vidro. Mito: escombros do entressolho.
Além do lento nunca o talvez não…

Animalesca fome de Absoluto,
Ausente vulto insinuado além
Da silhueta de um Acaso, Deus

Precário, reticente e resoluto
Contra o ninguém de mim. Algo ou alguém
Se esgueira pelos vãos do vento… Eu!?

Na verdade, de quando eu queria saber fazer. Depois que fiz os sonetos dos Sete Motivos da Árvore e este, percebi que estava prestes a conseguir. Aí parei, perdi o interesse, não me lembro bem a causa. Mas por que saber fazer sonetos? Por que fazê-los? Acho que eu pensava que pra fazer poemas sem medida era preciso saber as medidas da tradição: saber pôr a mesa para ter autoridade ao virar a mesa.

Um poeta que nasce e cresce no interior de Goiás e tem muito pouco contato com a cultura das metrópoles (a não ser por meio da TV, mass media) respira ainda os vestígios da ARP (atmosfera romântico parnasiana) que persistiu nos rincões do país muito tempo depois da explosão modernista. Eu diria mesmo que a ARP absorveu o modernismo e que ainda na década de 70, nós, caipiras, respirávamos sua atmosfera cultural. O Drummond é que sabe bem dessas coisas da província, da solidão estética das províncias, de como o isolamento limita o artista e sua a arte, mas também de como a distância possibilita uma perspectiva crítica da cultura cosmopolita do centro, que quase nunca consegue ver suas próprias fragilidades. Neste aspecto, quem está na periferia é sempre mais atento às fraquezas, já que sua estética é, pelos desígnios de seu provincianismo, ‘naturalmente’ frágil.

A (má) consciência da fragilidade, do provincianismo, da inferioridade e a consequente luta, quase sempre inglória, pela superação das limitações é um problema permanente do artista das periferias, “enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz.” Hoje é bem provável esta correlação de forças literárias entre centro e periferia tenha mudado, pois a situação da literatura na sociedade mudou radicalmente no pós-guerra, embora a consciência desta mudança pareça se dar somente mais recentemente, talvez a partir da década de 80. E foi justamente nesta década e na seguinte que me formei como poeta, escrevendo compulsivamente numa solidão inacreditável, em completo silêncio, sem contato com nenhum círculo literário (nem local, nem exterior, como pude suportar este isolamento?). Daí certamente decorre muito da ingenuidade estética do Círculo de Jaiara.

Fins de 80 e início 90: lá estava o Moreira Cardoso, jovem, mentalmente um protótipo de poeta provinciano, impregnado de formas e afetos romântico-parnasianos, lutando para atingir o modernismo, devorando Concretismo & Jorge de Lima & Drummond & Bandeira & Pessoa & Simbolistas & todos os mestres que pudesse, fazendo poemas de feição simbolista, moderno-simbolista, concretista, tentando o coloquial, o diabo. O Moreira Cardoso do Ciclo de Jaiara é uma condensação conturbada (e, quase sempre, de má qualidade) da história literária brasileira, do romantismo ao modernismo. Querendo ser gente grande na literatura, querendo bater o poeta federal, mas exatamnete aí, nestas décadas, ele tomava consciência de que esta oposição entre província e centro literário já não fazia mais sentido, a própria literatura parecia não fazer mais sentido na sociedade das mídias audiovisuais: Drummond, o último grande poeta nacional morrera, Cabral morreria após e, depois deles não haveria mais nenhum grande, nenhum poeta federal: de sistema estruturado a literatura se transforma em estilhaços (todo em traste).

Lá estava o Moreira Cardoso, pronto, finalmente pronto para tentar fazer alta literatura. Se ia realmente ser boa ou não, é como dizia o Paz, dependeria do seu tino, força e sorte, mas pelo menos ele estava pronto para tentar: as partes menos piores do Ciclo de Jaiara (Vagar, Interlúdio, Poslúdio) mostravam que ele podia tentar e, finalmente, ele saberia fazer sonetos de forma exímia, mesmo que não os fizesse. Mas pra quê? Este árduo e silencioso aprendizado parece ter sido em vão, a poesia, neste formato modernista, e mesmo concretista (que é um dos limites extremos do modernismo) parecia não dizer nada a ninguém, não fazer mais sentido no mundo eletropop da TV, da canção, do cinema e da recém chegada internet.

Acho que foi por isto que nunca publiquei Árido imovil. E nunca mais fiz sonetos. Foi uma espécie de reconhecimento do sem sentido de um soneto, mesmo em moldes modernistas. Do sem sentido da literatura como sistema, do sem sentido da luta de um poeta provinciano querendo superar suas limitações para tentar fazer alta literatura. Formar-se como poeta, a partir da província, sempre foi uma tarefa inglória, mas pelo menos havia um caminho bem definido a seguir, um sistema que colocava o poeta caipira à margem, mas mostrava, com clareza, o reluzente centro a ser atingido e a maneira de atingi-lo: apesar de sua posição desprivilegiada o poeta provinciano encontrava-se, pelo menos, num sistema estável.

A trajetória do Moreira Cardoso é bastante curiosa. Enquanto se formava como poeta, o sistema literário já estava falido há muito tempo, mas ele (e parece que quase ninguém) tinha ainda consciência disso. Na década de 90, quando estava finalmente pronto para tentar ser poeta literário, encontrar para si um lugar no sistema (epígono que seja), tentar Ser enfim, ele descobre que no mundo pop a literatura se estilhaçou. Que fazer?

De um aprendizado não conseguimos nos desfazer, por mais inútil que seja. A saída, pelo menos para o Moreria Cardoso foi morrer como ‘poeta para alta literatura’ e renascer como Zé Pelota, este exu que guiou o natimorto e seus trastes literários pelos caminhos da infopoesia, do poema em tela cheia, da visualidade pop (que é um concretismo diluído). O Zé Pelota ensinou o Moreira Cardoso a não ter medo da diluição, mais ainda, a saber que poderia haver um rigor na diluição, um rigor de margem (margem que nada tinha a ver com a situação de marginalidade provinciana do sistema literário).

E, talvez o mais importante, ensinou ao Moreira a não rejeitar o mundo pop em bloco, se refugiando nas altas esferas da erudição, a não reprimir o seu gosto pela canção e pelo cinema comercial, e sim extrair deles suas potências massivas e tentar cavalgá-las, transmutá-las em potências literárias, fazendo-as beirar/beijar a margem. Enfim, o Zé Pelota ensinou que se a igreja literária e sua fé tinham ruído, que seus sacerdotes bradavam altissonantes para um auditório vazio, havia ainda os bruxos habitando as margens da aldeia, incógnitos, sem igreja, sem ambições de ter nem pastorear o gado, murmurando suas magias aos raros visitantes que os procuravam em seus covis. Se o Moreira Cardoso, agora Wilton Cardoso, fará algo que preste com esta lição inestimável, já é outra história…

Esclarecimentos: Moreira Cardoso é como eu assinava os poemas do Ciclo de Jaiara e Zé Pelota é uma espécie de pseudônimo que (co)assina o Marjnau.


As potências da literatura (ainda não me reconheço)

3 Junho 2008

Sobre o post “Não me reconheço”, André de Leones fez um curto, mas instigante comentário:

“A literatura hoje é um nicho pop, um nicho cult, especializado.”
Eu acho que sempre foi, rs.

Que diz respeito ao fato de a literatura sempre ter sido uma arte cultivada (no sentido de ser vivenciada com intensidade) por muito poucas pessoas. Realmente, parece que a vivência da literatura foi, em todas as épocas, um nicho pra poucos leitores. Mas como dizem os especialistas em direito, isso era “de fato”, pois “de direito” a literatura foi, do século XVIII iluminista até o início do século XX, um projeto para todos, um conhecimento considerado imprescindível para a boa formação do ser humano civilizado: as grandes artes em geral e a literatura em particular era uma espécie de pedra de toque do humanismo e de seu irmão, o iluminismo. Por isto havia, na arte, a figura do pedante, que fingia conhecer as obras a fundo, para ser aceito nos círculos sociais mais sofisticados. Havia esta necessidade, esta pressão para ser culto, principalmente quando se tinha algum dinheiro (ou pelo menos alguma educação formal).

Hoje a literatura é um nicho pop de fato, mas também de direito, pois não existe mais a pressão social para se ler: as “pessoas inteligentes” nestes tempos pop não se sentem obrigadas a ler boa literatura, embora esta possa ser uma de suas opções. Elas preferem o cinema e a canção, em seu ramo cult: cinema europeu, MPB, jazz. Preferem? Ou são preferidas? Será que controlamos, efetivamente, nossas preferências? Esta é a questão do desejo: desejo que nos povoa, nos induz e nos pressiona em direção a um gosto e a um gozo. O desejo pela literatura sempre povoou, de fato, bem poucos, mas exercia um poder, uma sedução sobre muitos. Hoje o poder/fascínio sobre as massas (sejam elas cult ou populares) é exercido pelo cinema e pela canção.

Foi uma perda para a literatura, sim, pois ela deixou de ser uma potência de direito, mas, por outro, lado, houve um ganho em leveza, pois agora ela está livre do peso de ser “a enobrecedora das almas” ou a “manifestação mais alta do espírito de um povo”, livre, enfim do peso de Ser. Mas o escritor ainda escreve para todo mundo, qual artista não o faz? Grafar/gravar é sempre deixar um rastro para todos, para qualquer um. No entanto ele sabe que, institucionalmente, nem mais de direito sua arte tem a potência das massas e poucos, de fato, a lerão. E, principalmente, poucos terão vontade, se sentirão instigados ou pressionados a ler. Mas esta escrita ainda poderá (e deve fazê-lo) despertar nestes poucos a potência das massas, atingir o “todo mundo” de seu raro leitor, pois cada um de nós é atravessado por “todo mundo”, povoado pelos desejos de toda a sociedade.

De fato e de direito, é apenas dessa maneira esquiva e subterrânea que a literatura atinge, hoje, seu ponto massivo e extrapola para “todo o mundo”. Ela atinge todo o cosmo social, mas não por ser uma potência universal, prescrita/imposta pelos sábios, que pressionariam o gosto geral para o “bom gosto da alta cultura”. A literatura agora é uma virulência, local, diferencial: contaminação de vizinhança, trocas celulares que afetam o corpo imperceptivelmente. A sua potência é da invisibilidade quase absoluta, sombra que se esgueira nas trevas, vampira.