Árido imóvil
Depois d’um longo nada eis-me pronto,
Entre o tirano bafo do porão
E os cômodos medidos que não são.
No quase do precário eis-me assombro.
O grande tumor negro sob o chão,
Toneladas sem fim sobre os meus ombros
De vidro. Mito: escombros do entressolho.
Além do lento nunca o talvez não…
Animalesca fome de Absoluto,
Ausente vulto insinuado além
Da silhueta de um Acaso, Deus
Precário, reticente e resoluto
Contra o ninguém de mim. Algo ou alguém
Se esgueira pelos vãos do vento… Eu!?
Na verdade, de quando eu queria saber fazer. Depois que fiz os sonetos dos Sete Motivos da Árvore e este, percebi que estava prestes a conseguir. Aí parei, perdi o interesse, não me lembro bem a causa. Mas por que saber fazer sonetos? Por que fazê-los? Acho que eu pensava que pra fazer poemas sem medida era preciso saber as medidas da tradição: saber pôr a mesa para ter autoridade ao virar a mesa.
Um poeta que nasce e cresce no interior de Goiás e tem muito pouco contato com a cultura das metrópoles (a não ser por meio da TV, mass media) respira ainda os vestígios da ARP (atmosfera romântico parnasiana) que persistiu nos rincões do país muito tempo depois da explosão modernista. Eu diria mesmo que a ARP absorveu o modernismo e que ainda na década de 70, nós, caipiras, respirávamos sua atmosfera cultural. O Drummond é que sabe bem dessas coisas da província, da solidão estética das províncias, de como o isolamento limita o artista e sua a arte, mas também de como a distância possibilita uma perspectiva crítica da cultura cosmopolita do centro, que quase nunca consegue ver suas próprias fragilidades. Neste aspecto, quem está na periferia é sempre mais atento às fraquezas, já que sua estética é, pelos desígnios de seu provincianismo, ‘naturalmente’ frágil.
A (má) consciência da fragilidade, do provincianismo, da inferioridade e a consequente luta, quase sempre inglória, pela superação das limitações é um problema permanente do artista das periferias, “enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz.” Hoje é bem provável esta correlação de forças literárias entre centro e periferia tenha mudado, pois a situação da literatura na sociedade mudou radicalmente no pós-guerra, embora a consciência desta mudança pareça se dar somente mais recentemente, talvez a partir da década de 80. E foi justamente nesta década e na seguinte que me formei como poeta, escrevendo compulsivamente numa solidão inacreditável, em completo silêncio, sem contato com nenhum círculo literário (nem local, nem exterior, como pude suportar este isolamento?). Daí certamente decorre muito da ingenuidade estética do Círculo de Jaiara.
Fins de 80 e início 90: lá estava o Moreira Cardoso, jovem, mentalmente um protótipo de poeta provinciano, impregnado de formas e afetos romântico-parnasianos, lutando para atingir o modernismo, devorando Concretismo & Jorge de Lima & Drummond & Bandeira & Pessoa & Simbolistas & todos os mestres que pudesse, fazendo poemas de feição simbolista, moderno-simbolista, concretista, tentando o coloquial, o diabo. O Moreira Cardoso do Ciclo de Jaiara é uma condensação conturbada (e, quase sempre, de má qualidade) da história literária brasileira, do romantismo ao modernismo. Querendo ser gente grande na literatura, querendo bater o poeta federal, mas exatamnete aí, nestas décadas, ele tomava consciência de que esta oposição entre província e centro literário já não fazia mais sentido, a própria literatura parecia não fazer mais sentido na sociedade das mídias audiovisuais: Drummond, o último grande poeta nacional morrera, Cabral morreria após e, depois deles não haveria mais nenhum grande, nenhum poeta federal: de sistema estruturado a literatura se transforma em estilhaços (todo em traste).
Lá estava o Moreira Cardoso, pronto, finalmente pronto para tentar fazer alta literatura. Se ia realmente ser boa ou não, é como dizia o Paz, dependeria do seu tino, força e sorte, mas pelo menos ele estava pronto para tentar: as partes menos piores do Ciclo de Jaiara (Vagar, Interlúdio, Poslúdio) mostravam que ele podia tentar e, finalmente, ele saberia fazer sonetos de forma exímia, mesmo que não os fizesse. Mas pra quê? Este árduo e silencioso aprendizado parece ter sido em vão, a poesia, neste formato modernista, e mesmo concretista (que é um dos limites extremos do modernismo) parecia não dizer nada a ninguém, não fazer mais sentido no mundo eletropop da TV, da canção, do cinema e da recém chegada internet.
Acho que foi por isto que nunca publiquei Árido imovil. E nunca mais fiz sonetos. Foi uma espécie de reconhecimento do sem sentido de um soneto, mesmo em moldes modernistas. Do sem sentido da literatura como sistema, do sem sentido da luta de um poeta provinciano querendo superar suas limitações para tentar fazer alta literatura. Formar-se como poeta, a partir da província, sempre foi uma tarefa inglória, mas pelo menos havia um caminho bem definido a seguir, um sistema que colocava o poeta caipira à margem, mas mostrava, com clareza, o reluzente centro a ser atingido e a maneira de atingi-lo: apesar de sua posição desprivilegiada o poeta provinciano encontrava-se, pelo menos, num sistema estável.
A trajetória do Moreira Cardoso é bastante curiosa. Enquanto se formava como poeta, o sistema literário já estava falido há muito tempo, mas ele (e parece que quase ninguém) tinha ainda consciência disso. Na década de 90, quando estava finalmente pronto para tentar ser poeta literário, encontrar para si um lugar no sistema (epígono que seja), tentar Ser enfim, ele descobre que no mundo pop a literatura se estilhaçou. Que fazer?
De um aprendizado não conseguimos nos desfazer, por mais inútil que seja. A saída, pelo menos para o Moreria Cardoso foi morrer como ‘poeta para alta literatura’ e renascer como Zé Pelota, este exu que guiou o natimorto e seus trastes literários pelos caminhos da infopoesia, do poema em tela cheia, da visualidade pop (que é um concretismo diluído). O Zé Pelota ensinou o Moreira Cardoso a não ter medo da diluição, mais ainda, a saber que poderia haver um rigor na diluição, um rigor de margem (margem que nada tinha a ver com a situação de marginalidade provinciana do sistema literário).
E, talvez o mais importante, ensinou ao Moreira a não rejeitar o mundo pop em bloco, se refugiando nas altas esferas da erudição, a não reprimir o seu gosto pela canção e pelo cinema comercial, e sim extrair deles suas potências massivas e tentar cavalgá-las, transmutá-las em potências literárias, fazendo-as beirar/beijar a margem. Enfim, o Zé Pelota ensinou que se a igreja literária e sua fé tinham ruído, que seus sacerdotes bradavam altissonantes para um auditório vazio, havia ainda os bruxos habitando as margens da aldeia, incógnitos, sem igreja, sem ambições de ter nem pastorear o gado, murmurando suas magias aos raros visitantes que os procuravam em seus covis. Se o Moreira Cardoso, agora Wilton Cardoso, fará algo que preste com esta lição inestimável, já é outra história…
Esclarecimentos: Moreira Cardoso é como eu assinava os poemas do Ciclo de Jaiara e Zé Pelota é uma espécie de pseudônimo que (co)assina o Marjnau.