No dentro do momento (poesia em tempos pop)

“Em artigo que aqui publiquei em 3 do corrente, afirmei que, tendo cumprido a sua função, a vanguarda acabou. Não cheguei, porém, a explicar que uma das principais razões pelas quais penso assim é que estou convencido de que o feito principal da vanguarda enquanto vanguarda não foi de natureza propriamente estética ou artística, mas cognitiva e, mais precisamente, conceitual. Em outras palavras, não é que, a partir da experiência da vanguarda, a arte tenha ficado melhor do que era, mas que, sobre ela, se aprendeu alguma coisa que não se sabia antes. Deu-se um aprendizado, um progresso cognitivo após o qual se passou a saber algo fundamental, antes não plenamente reconhecido, sobre a natureza da arte.”
Antonio Cicero - Ainda a vanguarda - Folha de S.Paulo - 31/05/2008

É um mérito dizer claramente que a vanguarda já cumpriu o seu papel. Mas seu papel, ao contrário do que afirma Antonio Cícero não foi o de esclarecer o que é a poesia, como se houvesse a verdade ou o Ser da poesia que precisasse ser entendido com mais clareza, ou em aspectos ainda desconhecidos.

O que é a poesia? Creio que o que se entende por poesia (e também por literatura e arte) é uma convenção - coletiva e ‘não intencional’. Não que seja qualquer coisa, mas é como um recorte de sentido que uma sociedade ou cultura faz de seu mundo simbólico (ou simplemenste de seu mundo). É uma maneira de fazer sentido, de organizar os saberes. No Ocidente há um saber estético mais ou menos independente (recortado) dos demais e, dentro deste saber estético, um saber da arte verbal, que hoje chamamos literatura (e poesia, que é um ramo complicado da literatura - complicado pq desde sempre namorou a música e o canto, saindo da órbita do puramente escrito. Se pensarmos bem, mesmo o que entendemos por literatura, como arte verbal escrita, recobre realmente o conto e o romance, pois o teatro também salta da órbita do puro escrito).

Durante muito tempo, talvez desde o renascimento, o que se entende por poesia foi a arte verbal escrita em versos, com uso de figuras de som (rimas, aliterações, assonâncias etc) e de sentido. Outro critério da poesia talvez seja o seu descompromisso com a narrativa (embora ela pudesse ocorrer) e, a partir do romantismo, uma inflexão à subjetividade ou, pelo menos, um descompromisso com a objetividade. Para o Cícero, isto é uma visão redutora da poesia. De fato, a coisa para ser poesia, até o século XIX, deveria seguir certos padrões estéticos bem rígidos.

Mas é aí que o Cícero se equivoca. Não é que a poesia é um troço mais amplo e as pessoas, no passado, não viam ou não entendiam. A questão é que, do renascimento até o século XIX, houve uma certa estabilidade (que começou a ser perturbada neste mesmo sec XIX pelos românticos) no recorte de sentido que se entendia por poesia no Ocidente. E o que se entendia por poesia (o recorte que se fazia) era, de fato, a poesia e não um entendimento equivocado do que era realmente a coisa.

O Cícero poderia contra-argumentar dizendo que no medievo a idéia de poesia era mais ampla (pois envolvia também o canto dos trovadores, a canção) e que os medievais estavam, por isto, mais próximos do conceito verdadeiro de poesia. Eu diria que os medievais tinham outra idéia do que era arte verbal, que recortavam o sentido de modo diferente. E, para eles, isto que chamamos de literatura (conceito com o qual abarcamos os trovadores medievais) não tinha o sentido que lhe damos. O que o Ocidente renascentista fez foi separar a alta cultura da popular e, nesta separação, a canção ficou na cultura popular e o poema escrito se desenvolveu como arte erudita.

O que acontece no modernismo (mas já se prenunciava no romantismo e no simbolismo)? Um a um vão caindo os critérios que definem o que é e o que não é poesia. Por exemplo, as figuras de som e sentido não são mais obrigatórias e recebem um tratamento extremamente flexível, a ponto do Bandeira fazer um poema extraído de uma notícia de jornal. O verso não é mais exigido no poema em prosa (aproximação da poesia com a narrativa e o epigrama). A expressão subjetiva ou a sondagem metafísica que se tornaram um critério de poeticidade no século XIX também são duramente abaladas pelas poesias antilíricas de Drummond e principalmente de Cabral.

O que as vanguardas fizeram? Elas foram a ponta de lança desta destruição do antigo poético e, muitas vezes, da proposta de reconstrução de uma nova poesia. O que o concretismo quis, em seus momentos mais radicais? Abolir o verso e afirmar que a poesia tinha que ser verbovocovisual. Não conseguiram. O Cícero diz que é porque eles apenas contribuíram para a descoberta de uma face ainda desconhecida da poesia, a visualidade, e que o verso não caiu porque fazia parte da outra face da verdade da poesia. Eu diria o seguinte: os concretistas, no rastro de Mallarmé e Cummings, e relendo com olhos ocidentais a arte ideogrâmica japonesa e chinesa) acrescentaram / criaram (e não desvendaram ou progrediram conceitualmente) uma verdade a mais para o poético: ampliaram a idéia do poético.

O Cícero talvez diria que não aboliram o verso porque ele é um aspecto da verdade ou da natureza da poesia. Eu diria que não aboliram o verso porque a sociedade não aceitou (não desejou) uma idéia de poesia sem verso. E acho que não poderia ter desejado, não porque o verso seja necessário a um conceito transcendental de poesia, mas porque foi necessário ao conceito de poesia do Ocidente do século passado (e talvez ao atual), ao que se desejou como poesia. Só entendendo a coisa poética deste modo, como desejo de poesia é que podemos falar de sua verdade, sua natureza ou seu ser. Mas devemos ressaltar que este ser é um recorte de sentido (coletivo, convencional e não intencional) de uma cultura e época específicas: o Ocidente do século XX.

O que é poesia hoje, no início do século XXI? Neste ponto, creio que Cícero e eu concordaríamos: vai da arte em verso até a canção, por um lado (aproximação com a música). Por outro, vai do verso à poesia visual (aproximação com as artes visuais). Por outro, ainda, vai do verso à performance (aproximação com as artes cênicas). Com relação às mídias, a poesia, transita da escrita para o audiovisual e o digital (que absorve todas elas).

E como ficam a tradição e a vanguarda? Parece-me que elas são, hoje, uma grande sicronia, uma só tradição (que abarca, inclusive, a textualidade de culturas exteriores ao ocidente, como a tradição oral de povos tribais que pôde ser registrada de alguma forma e a escrita ideogrâmica do extremo oriente antigo). Ora, este olhar simpático e aberto para a estética textual de toda a tradição de todos os povos (repito, não só ocidental) e esta abertura a várias fromas de manifestações do poético (verbal, visual, performático, escrito, audiovisual etc) não decorre de uma compreensão melhor do que é poesia, mas sim de uma crise da idéia de poesia. Crise que não é só da poesia ou da literatura, mas de tudo o que se chamou, no ocidente, de Arte, de Alta Cultura. Na verdade, é um pós-crise, uma constatação que acabou de acontecer um cataclismo estético, pois a crise mesmo se deu no modernismo, na primeira metade do século XX.

No limite, poesia é tudo, inclusive arte visual sem nehuma palavra, inclusive arte sonora (música ou articulação vocal) sem o verbal: qualquer estética de relação entre símbolos que o homem possa criar é poesia. Mas o que não é, na prática estética, relação entre símbolos? Então poesia é tudo e é nada, pode ser qualquer arte. É neste ponto de absoluta indefinição que nos encontramos. Convém limitar a poesia ao uso do verbo, da palavra, escrita ou não? Não sei, não creio que seja possível. Sem dúvida a palavra ainda é um ponto de partida para se ter idéia do que é a poesia, mas parece que não é, definitivamente, um ponto de chegada. O problema é que nosso recorte estético (nossa maneira de desejar/perceber a arte) mudou muito de uns tempos pra cá. Os frankfurtianos foram os primeiros a perceber isto com clareza e forjaram o conceito de indútria cultural para explicar o acontecimento. Mas creio que só se começou a perceber a dimenção da coisa na segunda metade no século XX, quanto o terremoto estético acabara de passar. Alguns chamam o momento atual de pós-moderno ou pós-modernismo. Eu gosto de chamar o atual recorte estético de pop. Acho melhor que indústria cultural, porque o conceito dos frankfurtianos implica numa idéia de manipulação que creio ser inadequada, como se as massas fossem manipuladas pela ideologia de uma estância de poder (que detêm a propriedade da indústria cultural). E melhor que pós-moderno porque o termo moderno tem muitas relações (de amor e ódio) com o capitalismo e, definitivamente, não estamos numa era pós-capitalista. Além do que, moderno carrega o sentido do hoje, do atual e uma época pós-moderna poderia dar idéia de uma pós-vida ou pós-terreno, como se vivéssemos num mundo sobrenatural. A modernidade de nosso tempo é o pop.

Como funciona o pop? como ficam as artes da palavra e suas relações com outras artes neste universo? como fica a relação entre arte e capital (entre os dois fluxos)? qual a relação entre o conceito de pop e o de massa? como fica a questão dos valores e do gosto? Há possibilidade de haver uma Grande Arte, em contraposição ao lixo pop? quanto a esta última questão, creio que há fugas do pop, coisas excelentes, produzidas inclusive dentro do universo pop, mas não creio ser possível traçar mais uma linha divisória entre alta e baixa cultura. Antigamente era mais fácil, mesmo porque, esta linha era demarcada também pelo gênero. Por exemplo, no século XIX, se era canção, era cultura popular e pronto. Alta cultura era poema escrito. Se se fazia poema escrito havia chance de ser alta cultura, bem como uma certa clareza de critérios para se identificar se a coisa era boa ou não. Hoje tem gente que ainda insiste nisso, dizendo que canção não é arte que se preze ect e tal. Mas isto é se refugiar em critérios do século passado (aliás do sec. XIX), um recorte de sentido que não funciona mais e, principalmente, não ajuda a entender o presente. Ora, os artistas e os críticos de arte têm que ser homens do seu tempo. Rejeitar a canção e o cinema em bloco (mesmo rejeitar apenas a canção e o cinema comerciais - e o que é, nestas artes, comercial e ‘de arte’?), refjeitar, enfim, o pop, é rejeitar a sua época, a vivência estética de sua época. Antes se rejeitava a cultura popular (que os românticos começaram a resgatar), mas esta atitude tinha um sentido aristocrático, mesmo (aliás principalmente) quando era a burguesia que o fazia: era uma tentativa de enobrecer a alma. Mas nesta época a cultura erudita tinha uma vida própria, dinâmica e com bastante independência (na verdade com domínio) da culura popular. Hoje não há esta divisão clara e os críticos que se refugiam na tradição (mesmo quando incluem nelas as vanguardas) resgatam o passado de uma maneira que não faz mais sentido hoje, como se o modernismo ainda estivesse vivo e atuante. A tradição hoje é esta coisa chapada, sincrônica: tudo à nossa disposição, você pode escolher, fazer o paideuma que quiser. E o que foi feito a uma década já é tradição, entra na sicronia da tradição (veja o rock brasil, já é coisa do passado! “como eram bons aqueles tempos!). É assim que o pop, que as massas fazem e desejam a tradição. É assim que se deve desejar, com esta perda da história e das referências? Talvez não, mas é preciso considerar esta perspectiva pop, entendê-la, sentir sua força, utilizar sua potência. Não há outra maneira, nos encontramos no pop, em tempos pop e é a partir deste momento (do dentro do momento) que que artistas e críticos têm que atuar, mesmo que de maneira crítica, mesmo que recuperando a tradição: é sempre a partir e com vistas ao nosso tempo. Os saudosistas falam muito dos grandes da tradição e lamentam não haver mais mestres. Se há uma lição a se tirar dos bons poetas do passado é a seguinte: todos eles viveram e escreveram intensamente em e para sua época, no dentro de seu momento.

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