no papel

30 Outubro 2008

Ultimamente ando criando os poemas direto no computador, mas a ESCreVivência 1111 foi elaborada no papel, pois quando ela quis sair não tinha jeito de ligar o computador pra digitar.

O bom do papel é que a bagunça da criação acaba se transmitindo a ele. A confusão dos riscos e rabiscos são uma espécie de índice (gráfico? grafia?) das vagas mentais de linguagem que se imbricam na convulsão criativa. E a gente nem sabe se a coisa vai prestar. Na maioria das vezes não presta. Mas me disseram (Fred e Jamesson, e eles entendem do riscado) que a 1111 vingou:

(Obs: Para visualizar a segunda imagem num tamanho maior dê um clique nela)


diálogos impertinentes 3

28 Outubro 2008

fa – é o melhor q pode?

w- é

fa – tem que ser mais, gastar mais, gastar-se mais

w – se forçar mais eu piro (ou morro)

fa – é assim mesmo, a coisa é vampira. suga o sumo até o bagaço, nós te avisamos antes de entrar

w – tudo bem, mas tenho pelo menos que parar pra recarregar um pouco

fa – carga teórica ou poética?

w – teórica principalmente. a poética é imprevisível, vem em rajadas aleatórias

fa – a parada não deve ser nem contemplativa nem retrospectiva. apenas tática

w – que seja, é preciso recarregar. os corpos têm limites de energia

fa – é preciso forçar os limites, explodi-los. só há este sentido para o corpo, realizar a sua potência, vc não leu spinoza?

w – sim, nada de almas e verdades profundas para os corpos. mas não se chega à máxima potência em linha reta. às vezes é preciso, parar, recuar, desviar, desligar-se

fa – certo, mas tenha sempre em mente a potência do corpo. o sentido do corpo é a efetivação de toda a sua potência



Tia N

18 Outubro 2008

Tia N tinha memória prodigiosa. Certo dia de julho, lembrando de meu aniversário, listou, um por um, dia por dia, os familiares que nasceram no mês. Quando acontecia algo engraçado, gravava na memória o dia e a hora e nunca mais esquecia. E quando relembrava ria como se acabasse de acontecer. Falava, gesticulava e ria sozinha, como se dividisse em duas ou mais pessoas que dialogassem entre si. Gravava os bordões que o Chico Flor repetia todos os dias na rádio Morrinhos. Um dia lembro que achou interessante uma figura de linguagem de uma canção (seria uma assonância, uma rima, uma aliteração?) e a repetiu em seguida, como que para gozá-la novamente. Como era meio cega, tinha um afeto especial pelos sons. Tia N como é que os gatos fazem no telhado? E ela imitava os urros dos bichanos na farra e ria um rô rô rô gostoso e batia uma palma de satisfação se remexendo em sua gordura de comilona insasiável.

Tia N. não gostava de bonecas e era temperamental. Quando nervosa mordia os braços, batia na própria cara, escabeceava a parece (ou emparedava a cabeça?) e fazia pactos com o diabo, já que Deus não resolvia nada mesmo (deixa de ser boba N, bradava a vó). Nos desentendimentos entre seus irmãos e as cunhadas ficava sempre do lado das últimas. Tia N. minha mãe nunca diz pro meu pai quanto dinheiro tem no banco, pode? Rô rô rô, bem feito, não pode dizer mesmo, senão que ele gasta tudo. Frequentava terreiro de umbanda contrariando o catolicismo da família e ninguém lhe passava a perna quando o assunto era dinheiro: esse ela via bem. Era marrenta e generosa, maliciosa e ingênua. Punha apelido nos sobrinhos. Quando aparecia pra dormir ou almoçar dizia, estilosamente como quando imitava os gatos no cio, Niiiidex.

Diziam que era de nascença. Eu, mais estudado, dizia que devia ser algum problema congênito do sistema nervoso como um todo, pois até pra andar havia uma certa dificuldade. Uma anormalidade, um erro genético. Mas era divertida. Sua presença inundava o ambiente com uma estranha atmosfera. Era diferente quando ela estava, outros ventos, outros jeitos de ver, outros pensamentos. Frescor de uma brisa inusitada errando por entre os os cérebros acertados. Errar assim, riscar assim o ambiente, não é a impressão que se deseja… deixar?


diálogos impertinentes 1

17 Outubro 2008

w – que negócio é este do talento não ser individual?

fa – isso é coisa do gullar, dizer que o talento é individual. mas ele mesmo se espanta como na frança, na passagem do sec xix para o xx, havia tanto pitor bom. por que na frança e nesta época, por que não em outro tempo e lugar? será que a questão é mesmo individual?

w- é coletivo, depende do contexto, do ambiente artístico?

fa – e o que vc chama de contexto? acho melhor esta outra palavra, ambiente, pq é uma questão de atmosfera, de onda. por exemplo, vamos pegar uma onda pop, uma q vc conhece bem, a do rock brasil. há talentos individuais, claro: renato, cazuza, gessinger, herbert, arnaldo, nando, lobão etc. mas a chave da coisa é a onda rock que se formou, foram as miríades de acontecimentos políticos, econômicos, culturais, sociais, os garotos ouvindo rock inglês em brasília, a penetração tardia do punk rock em sampa, a desilução dos garotos brancos com sua classe média, com a ditadura e até com a democracia, a falta de utopia, a droga deixando de ser uma porta para um mundo alternativo e se tornando um ‘alívio imediato’ autodestrutivo. e, claro, um mercado fonográfico querendo coisas novas, rebeldes, com potencial de virar grana. estes são alguns dos elementos da onda rock dos anos 80, mas quem garantiria que a coisa ia vingar, ia vender, virar culto de massa, magnetismo hipnótico, ou seja, quem garante que ia dar numa onda? ninguém, podia não ter dado em nada e nós não saberíamos de nenhuma dessas individualidades com talento para compor hits pop rocks. eles teriam desistido, tornariam-se compositores de gingles (como muitos fizeram depois), músicos de estúdio, produtores.

w – quer dizer que não depede só do talento individual?

fa – não, não depende. mesmo pq o que é o talento individual? acreditamos que já é uma coisa dada, por deus ou pela genética, um potencial que basta ser desenvolvido. é provável q seja mesmo uma potência, a potência de um corpo, mas tal potência é muito indiferenciada, pode ir pra várias direções ou não ir pra lugar nenhum e depende de tanta coisa pra ela se desenvolver. o que digo é que quando se tem uma onda, uma atmosfera artística extremamente eletrizada, há mais possibilidade de as potências dos corpos se desenvolverem, se multiplicarem. alguns corpos inclusive, só realizam suas potências durante a onda, nem antes nem depois.

w- como foi o caso do paulo ricardo, pra continuarmos no exemplo?

fa – é, o paulo ricardo e o schiavon tbém. o RPM fez aquele primeiro disco sensacional e depois outro mto bom , o quatro coiotes, que ninguém prestou atenção, e se dissolveu. depois foi uma merda, não fizeram mais nada que prestasse. já o lobão, o gessinger e o nando reis continuaram muito criativos. mas quem garante que seriam criativos sem a onda do rock? no mínimo, sua criatividade seria de outra forma, pois até hoje o som deles é uma espécie de prolongamento da onda rock. tem uns que sabem prolongar uma onda para si, mesmo depois que ela acaba. conseguem fazê-la passar por outras atmosferas. para isto é preciso transformar a onda, variá-la infinitamente. mas as atmosferas que ela atravessam também se trasnformam.

w- quer dizer que a atmosfera pop de hoje ainda é transformada pela onda de rock brasil dos anos 80?

fa – e de uma forma muito ativa. é uma composição atmosférica: umas transformam as outras sem cessar. se bem que o que temos hoje não é uma onda, mas uma espécie de mar-asmo pop, povoado de marolas.

w- e na literatura é parecido

fa – é a mesma coisa, não só na literatura, mas na arte em geral e também no pensamento, na economia. pegue a filosofia por exemplo, o nascimento da filosofia. pq na grécia e naquela época? ninguém sabe exatamente: foi uma onda energética de pensamento e até hoje estamos sob seus efeitos.


Entrevista para O Popular

16 Outubro 2008

Íntegra da entrevista concedida por e-mail a Rogério Borges, que saiu editada no jornal O Popular de 19/10/2008.


Você disponibiliza em seu site e-books e nunca publicou, segundo minhas informações, um livro em papel. Explique esta preferência pelo meio virtual.

No início (por volta de 2002), não era bem uma preferência, mas um misto de preguiça e timidez de correr atrás de uma editora. Eu tinha dois livros prontos, Ciclo de Jaiara e Marjnau, mas para publicá-los não sabia nem por onde começar, não tinha idéia a quem recorrer. Então a internet, que tinha acabado de explodir no país, foi a alternativa mais cômoda. Fiquei fascinado com o alcance virtualmente infinito de net, além do seu caráter aberto e anárquico. Abri um site chamado Naumarginal e disponibilizei estas duas obras virtuais para serem baixadas gratuitamente. Mas ainda queria publicar em papel. Só de uns dois anos pra cá me convenci que o livro impresso não é um suporte necessário, principalmente pra poesia, que quase sempre é lida de forma seletiva e fragmentária, o que pode muito bem ser feito na tela do computador. Aliás, muitos de meus livros de poesia, como o Marjnau, são feitos para serem lidos no computador, em tela cheia.

Você considera que está mais fácil publicar livros hoje em dia?

Acho que sim, há muitas editoras médias e pequenas, algumas especializadas em literatura, e mesmo uma edição por conta do autor não sai tão cara assim. É claro que ainda é difícil e é preciso batalhar muito, mas parece que o ambiente editorial no país, da década de 80 pra trás, era bem mais concentrado e fechado.

Com mais pessoas publicando suas obras, há queda de qualidade na produção? Faltam filtros?

Se há facilidade de publicação certamente sairá muita porcaria. A internet talvez seja o exemplo mais radical, pois qualquer um pode publicar o que quiser, e não apenas em forma de texto, mas também de som e imagem. E quase tudo que se publica é muito ruim. Mas acho melhor assim, deixar publicar tudo e filtrar depois que todo mundo tiver acesso. Com o mercado dominado por poucas editoras era o contrário: alguns poucos filtravam antes o que todo mundo teria acesso depois. Era uma espécie de ditadura textual. E quem garante que os critérios destes poucos eram realmente bons? Na literatura mesmo sempre houve muita igrejinha, conluio de um círculo de escritores com uma editora: nem sempre a qualidade prevalecia na hora de publicar.

Muitos disseram que a internet seria o atestado de óbito dos livros em papel. No entanto, ela serviu de meio para o aparecimento de novos autores que fazem relativo sucesso nas prateleiras das livrarias. Este chega a ser um paradoxo?

Creio que a internet vai acabar matando o livro: ela é uma espécie de profecia do McLuhan. Ele falava de TV, rádio e telefone como mídias elétricas que absorveriam as mídias antigas, entre elas a escrita. Mas no fundo estava intuindo a internet e é ela que vai absorver o mundo do texto, mais cedo ou mais tarde.

A demora em substituir o livro impresso acontece porque se trata de uma tecnologia muito boa, desde o seu nascimento, com Gutemberb. E ainda não se inventou um dispositivo eletrônico de leitura que una as vantagens do livro (leitura confortável, portabilidade e possibilidade de anotar e grifar) e da internet, que é basicamente a possibilidade de ter toda a escrita do mundo a um clique. Mas vão acabar inventado esta tecnologia (a Sony já parece ter um aparelho razoálvel), porque esta possibilidade de ter a biblioteca total num único dispositivo de leitura é muito, mas muito sedutora mesmo.

Conte um pouco de sua trajetória como escritor e qual é a procura de pessoas querendo mostrar textos inéditos em seu site.

Como todo mundo, comecei a escrever na adolescência, mas nunca fui de mostrar meus poemas. Não os mostrava pra ninguém, um pouco por timidez e também por duvidar de sua qualidade. E não estava errado, acho que muitos poemas de meu primeiro livro, o Ciclo de Jaiara são impublicáveis, apesar de eu tê-los publicado. Então minha estréia pública foi mesmo na internet, a partir do zero: eu não fazia parte de nenhum círculo literário até 2002, quando lancei meu primeiro site. Na verdade não era um escritor, porque a gente só é escritor quando alguém nos lê. Aos poucos algumas pessoas foram descobrindo meus textos e hoje circulo numa espécie de underground do meio literário de Goiânia e da internet. Na verdade circulo no underground do underground, pois a literatura no mundo pop da atualidade já é uma espécie de circuito cultural clandestino e eu circulo no submundo deste submundo: uma clandestinidade ao quadrado.

Quanto ao meu blog atual, o minutos de feitiçaria, ele é muito autoral, não tem este caráter de divulgação literária. As pessoas não me contactam para publicar seus textos no blog, elas vão lá com o intuito de ler o que escrevo. Acho admirável o pessoal que faz sites e blogs pra divulgar outros poetas, principalmente os novos que não têm muita visibiliade ainda, mas eu não tenho pique pra isto: escrever já me toma quase toda a energia criativa


T

10 Outubro 2008

É um trapo. Bebe feito um gambá. Baixinho e magriça, voz titubeante, 20 filhos e um montão de netos, largados pelo mundo. Vive com a família do irmão. Um destino que não queremos pra nenhum amigo ou ente querido, um fodido sem grito, sem revolta nenhuma. Um ninguém.

Devíamos ter piedade. Há quem reze por ele. E de fato parece que caminha para a auto-aniquilação. Mas num certo sentido é difícil se deixar, assim, abandonado de si, corpo ao léu, tecido às traças. É uma férrea disciplina a do caminho mais fácil. Meu pai tinha uma olaria e a gente vigiava o fogo 3 dias e 3 noites. Fazia frio e então gente bebia. Foi aí que você aprendeu a beber T.? Foi. Outro dia me disse que chegou a F. e o chamou de baixinho. Rimos, são os dois mais tampinhas da repartição. Eu disse que quando tinha o Tota ele podia tirar um sarro dele. O  Tota não passava de 1,5. Rimos.

Há uma rua aqui perto do serviço. Não há residências. De um lado um muro mal cuidado e do outro construções do Estado, abandonadas. É uma desolação só, uma rua desbotada, sem ninguém a hora nenhuma. Aliás, nela é sempre hora nenhuma. Gostaria de ver o T. caminhando nesta rua. Ninguém em hora nenhuma, trapo sobre ruína: composição limpa, rigorosa, despojada.

É muito difícil chegar, como T., a ponto de ninguém. Nós sempre somos alguém, chefe de alguém, dono do nariz ou pelo menos pau mandado. T. também tem chefe e trabalho mas é como se não tivesse de tão inútil. Se não fosse do Estado estaria na rua há muito tempo (seria uma tragédia rápida). Mas T. é uma tragédia lenta, definhando seu ninguém aos poucos, comedidamente. É difícil andar assim desprendido de amarras. A inércia absoluta é uma prática rigorosa. Nós não conseguimos. Somos um emaranhado de amarras. Sempre nos mexemos e as amarras nos apertam mais, peixes se debatendo na rede. Estamos cada vez mais presos a nossas funções predestinadas. Difícil ser um merda, um ínfimo fio de merda num rio de merda. Seria preciso, antes, fazer um mundo de merda, um cosmo de excrementos em que nos evacuamos de nós, das teias que nos fazem nós, indissolúveis. Raramente transbordamos ao trapo.


B

10 Outubro 2008

Tem uma fixação por contar. Ontem me contava da nova caixa d’água que a empresa vai instalar. Tem 30m de altura, 3,18 m de diâmetro, toda cilíndrica. Estava sendo soldada no local. Chapa de aço de 3,8 mm de espessura que fazia um barulho metálico quando recebia pequenas batidas com as mãos. Informações do pessoal que estava montando. Mas eu disse, ô B, é muito alta, um edifício de 10 andares, será que eles não estavam zoando? Mas ele conferiu todas as medidas com sua trena, que sempre traz no carro.

B. não se preocupa com questões de engenharia. É em alguns detalhes que ele se fixa. Uns detalhes que para o engenehiro e os soldadores são apenas dados técnicos para o serviço ficar bem feito. E o serviço bem feito é apenas um outro dado para a renumeração. Mas para B. estes dados minuciosos e desgarrados do contexto técnico e financeiro é que são importantes, diria mesmo mágicos: uma espécie de canto de sereia.

Outro dia B. me dizia do material da película. Antes era nitrato e incendiava. É mesmo B. eu vi naquele filme, Cinema Paradiso, o incêncio. Pois é seu Wilton, depois passou a ser celulóide, que não é inflamável. Fiquei amigo do projetista de cinema seu Wilton: cada quadro tem 22mm X 18mm, medi com a régua. Me explicou o mecanismo de projeção, as lentes o som, os rolos de filme etc.

Eu gosto destas conversas com B. Entro nelas, opino sobre os detalhes, peço mais explicações. Poderia dizer sou piedoso. Nada mais equivocado. Esta perspectiva sobre o mundo, este mundo de B. realmente me fascina. Não consigo montar um mundo assim para mim, por mais que tente. O mais próximo que posso é quando faço poesia, mas viver mergulhado num mundo de detalhes desconexos de seu contexto normal não consigo.

B. recompõe as minúcias de sua percepção em outro contexto, muito difícil para nós. Nós fazemos o mundo igual, mundo de todo mundo. Ele faz outro mundo, não “o seu mundo”, não se trata de um mundo íntimo, só seu. Não, é também o mundo de todo mundo, mas por outro viés, como que pelo transvesso. Ele faz mundo, e pronto.