w – que negócio é este do talento não ser individual?
fa – isso é coisa do gullar, dizer que o talento é individual. mas ele mesmo se espanta como na frança, na passagem do sec xix para o xx, havia tanto pitor bom. por que na frança e nesta época, por que não em outro tempo e lugar? será que a questão é mesmo individual?
w- é coletivo, depende do contexto, do ambiente artístico?
fa – e o que vc chama de contexto? acho melhor esta outra palavra, ambiente, pq é uma questão de atmosfera, de onda. por exemplo, vamos pegar uma onda pop, uma q vc conhece bem, a do rock brasil. há talentos individuais, claro: renato, cazuza, gessinger, herbert, arnaldo, nando, lobão etc. mas a chave da coisa é a onda rock que se formou, foram as miríades de acontecimentos políticos, econômicos, culturais, sociais, os garotos ouvindo rock inglês em brasília, a penetração tardia do punk rock em sampa, a desilução dos garotos brancos com sua classe média, com a ditadura e até com a democracia, a falta de utopia, a droga deixando de ser uma porta para um mundo alternativo e se tornando um ‘alívio imediato’ autodestrutivo. e, claro, um mercado fonográfico querendo coisas novas, rebeldes, com potencial de virar grana. estes são alguns dos elementos da onda rock dos anos 80, mas quem garantiria que a coisa ia vingar, ia vender, virar culto de massa, magnetismo hipnótico, ou seja, quem garante que ia dar numa onda? ninguém, podia não ter dado em nada e nós não saberíamos de nenhuma dessas individualidades com talento para compor hits pop rocks. eles teriam desistido, tornariam-se compositores de gingles (como muitos fizeram depois), músicos de estúdio, produtores.
w – quer dizer que não depede só do talento individual?
fa – não, não depende. mesmo pq o que é o talento individual? acreditamos que já é uma coisa dada, por deus ou pela genética, um potencial que basta ser desenvolvido. é provável q seja mesmo uma potência, a potência de um corpo, mas tal potência é muito indiferenciada, pode ir pra várias direções ou não ir pra lugar nenhum e depende de tanta coisa pra ela se desenvolver. o que digo é que quando se tem uma onda, uma atmosfera artística extremamente eletrizada, há mais possibilidade de as potências dos corpos se desenvolverem, se multiplicarem. alguns corpos inclusive, só realizam suas potências durante a onda, nem antes nem depois.
w- como foi o caso do paulo ricardo, pra continuarmos no exemplo?
fa – é, o paulo ricardo e o schiavon tbém. o RPM fez aquele primeiro disco sensacional e depois outro mto bom , o quatro coiotes, que ninguém prestou atenção, e se dissolveu. depois foi uma merda, não fizeram mais nada que prestasse. já o lobão, o gessinger e o nando reis continuaram muito criativos. mas quem garante que seriam criativos sem a onda do rock? no mínimo, sua criatividade seria de outra forma, pois até hoje o som deles é uma espécie de prolongamento da onda rock. tem uns que sabem prolongar uma onda para si, mesmo depois que ela acaba. conseguem fazê-la passar por outras atmosferas. para isto é preciso transformar a onda, variá-la infinitamente. mas as atmosferas que ela atravessam também se trasnformam.
w- quer dizer que a atmosfera pop de hoje ainda é transformada pela onda de rock brasil dos anos 80?
fa – e de uma forma muito ativa. é uma composição atmosférica: umas transformam as outras sem cessar. se bem que o que temos hoje não é uma onda, mas uma espécie de mar-asmo pop, povoado de marolas.
w- e na literatura é parecido
fa – é a mesma coisa, não só na literatura, mas na arte em geral e também no pensamento, na economia. pegue a filosofia por exemplo, o nascimento da filosofia. pq na grécia e naquela época? ninguém sabe exatamente: foi uma onda energética de pensamento e até hoje estamos sob seus efeitos.