Íntegra da entrevista concedida por e-mail a Rogério Borges, que saiu editada no jornal O Popular de 19/10/2008.
Você disponibiliza em seu site e-books e nunca publicou, segundo minhas informações, um livro em papel. Explique esta preferência pelo meio virtual.
No início (por volta de 2002), não era bem uma preferência, mas um misto de preguiça e timidez de correr atrás de uma editora. Eu tinha dois livros prontos, Ciclo de Jaiara e Marjnau, mas para publicá-los não sabia nem por onde começar, não tinha idéia a quem recorrer. Então a internet, que tinha acabado de explodir no país, foi a alternativa mais cômoda. Fiquei fascinado com o alcance virtualmente infinito de net, além do seu caráter aberto e anárquico. Abri um site chamado Naumarginal e disponibilizei estas duas obras virtuais para serem baixadas gratuitamente. Mas ainda queria publicar em papel. Só de uns dois anos pra cá me convenci que o livro impresso não é um suporte necessário, principalmente pra poesia, que quase sempre é lida de forma seletiva e fragmentária, o que pode muito bem ser feito na tela do computador. Aliás, muitos de meus livros de poesia, como o Marjnau, são feitos para serem lidos no computador, em tela cheia.
Você considera que está mais fácil publicar livros hoje em dia?
Acho que sim, há muitas editoras médias e pequenas, algumas especializadas em literatura, e mesmo uma edição por conta do autor não sai tão cara assim. É claro que ainda é difícil e é preciso batalhar muito, mas parece que o ambiente editorial no país, da década de 80 pra trás, era bem mais concentrado e fechado.
Com mais pessoas publicando suas obras, há queda de qualidade na produção? Faltam filtros?
Se há facilidade de publicação certamente sairá muita porcaria. A internet talvez seja o exemplo mais radical, pois qualquer um pode publicar o que quiser, e não apenas em forma de texto, mas também de som e imagem. E quase tudo que se publica é muito ruim. Mas acho melhor assim, deixar publicar tudo e filtrar depois que todo mundo tiver acesso. Com o mercado dominado por poucas editoras era o contrário: alguns poucos filtravam antes o que todo mundo teria acesso depois. Era uma espécie de ditadura textual. E quem garante que os critérios destes poucos eram realmente bons? Na literatura mesmo sempre houve muita igrejinha, conluio de um círculo de escritores com uma editora: nem sempre a qualidade prevalecia na hora de publicar.
Muitos disseram que a internet seria o atestado de óbito dos livros em papel. No entanto, ela serviu de meio para o aparecimento de novos autores que fazem relativo sucesso nas prateleiras das livrarias. Este chega a ser um paradoxo?
Creio que a internet vai acabar matando o livro: ela é uma espécie de profecia do McLuhan. Ele falava de TV, rádio e telefone como mídias elétricas que absorveriam as mídias antigas, entre elas a escrita. Mas no fundo estava intuindo a internet e é ela que vai absorver o mundo do texto, mais cedo ou mais tarde.
A demora em substituir o livro impresso acontece porque se trata de uma tecnologia muito boa, desde o seu nascimento, com Gutemberb. E ainda não se inventou um dispositivo eletrônico de leitura que una as vantagens do livro (leitura confortável, portabilidade e possibilidade de anotar e grifar) e da internet, que é basicamente a possibilidade de ter toda a escrita do mundo a um clique. Mas vão acabar inventado esta tecnologia (a Sony já parece ter um aparelho razoálvel), porque esta possibilidade de ter a biblioteca total num único dispositivo de leitura é muito, mas muito sedutora mesmo.
Conte um pouco de sua trajetória como escritor e qual é a procura de pessoas querendo mostrar textos inéditos em seu site.
Como todo mundo, comecei a escrever na adolescência, mas nunca fui de mostrar meus poemas. Não os mostrava pra ninguém, um pouco por timidez e também por duvidar de sua qualidade. E não estava errado, acho que muitos poemas de meu primeiro livro, o Ciclo de Jaiara são impublicáveis, apesar de eu tê-los publicado. Então minha estréia pública foi mesmo na internet, a partir do zero: eu não fazia parte de nenhum círculo literário até 2002, quando lancei meu primeiro site. Na verdade não era um escritor, porque a gente só é escritor quando alguém nos lê. Aos poucos algumas pessoas foram descobrindo meus textos e hoje circulo numa espécie de underground do meio literário de Goiânia e da internet. Na verdade circulo no underground do underground, pois a literatura no mundo pop da atualidade já é uma espécie de circuito cultural clandestino e eu circulo no submundo deste submundo: uma clandestinidade ao quadrado.
Quanto ao meu blog atual, o minutos de feitiçaria, ele é muito autoral, não tem este caráter de divulgação literária. As pessoas não me contactam para publicar seus textos no blog, elas vão lá com o intuito de ler o que escrevo. Acho admirável o pessoal que faz sites e blogs pra divulgar outros poetas, principalmente os novos que não têm muita visibiliade ainda, mas eu não tenho pique pra isto: escrever já me toma quase toda a energia criativa