Tia N tinha memória prodigiosa. Certo dia de julho, lembrando de meu aniversário, listou, um por um, dia por dia, os familiares que nasceram no mês. Quando acontecia algo engraçado, gravava na memória o dia e a hora e nunca mais esquecia. E quando relembrava ria como se acabasse de acontecer. Falava, gesticulava e ria sozinha, como se dividisse em duas ou mais pessoas que dialogassem entre si. Gravava os bordões que o Chico Flor repetia todos os dias na rádio Morrinhos. Um dia lembro que achou interessante uma figura de linguagem de uma canção (seria uma assonância, uma rima, uma aliteração?) e a repetiu em seguida, como que para gozá-la novamente. Como era meio cega, tinha um afeto especial pelos sons. Tia N como é que os gatos fazem no telhado? E ela imitava os urros dos bichanos na farra e ria um rô rô rô gostoso e batia uma palma de satisfação se remexendo em sua gordura de comilona insasiável.
Tia N. não gostava de bonecas e era temperamental. Quando nervosa mordia os braços, batia na própria cara, escabeceava a parece (ou emparedava a cabeça?) e fazia pactos com o diabo, já que Deus não resolvia nada mesmo (deixa de ser boba N, bradava a vó). Nos desentendimentos entre seus irmãos e as cunhadas ficava sempre do lado das últimas. Tia N. minha mãe nunca diz pro meu pai quanto dinheiro tem no banco, pode? Rô rô rô, bem feito, não pode dizer mesmo, senão que ele gasta tudo. Frequentava terreiro de umbanda contrariando o catolicismo da família e ninguém lhe passava a perna quando o assunto era dinheiro: esse ela via bem. Era marrenta e generosa, maliciosa e ingênua. Punha apelido nos sobrinhos. Quando aparecia pra dormir ou almoçar dizia, estilosamente como quando imitava os gatos no cio, Niiiidex.
Diziam que era de nascença. Eu, mais estudado, dizia que devia ser algum problema congênito do sistema nervoso como um todo, pois até pra andar havia uma certa dificuldade. Uma anormalidade, um erro genético. Mas era divertida. Sua presença inundava o ambiente com uma estranha atmosfera. Era diferente quando ela estava, outros ventos, outros jeitos de ver, outros pensamentos. Frescor de uma brisa inusitada errando por entre os os cérebros acertados. Errar assim, riscar assim o ambiente, não é a impressão que se deseja… deixar?