Diversos Afins

30 Novembro 2008

Minha (?) lira cética e realista saiu na Revista Diversos Afins.

PS 1: Tá uma caipirice só neste número da Diversos Afins: além deste que vos escreve, Wesley Peres e Daniela dos Santos estão por lá também – como diriam os dois filhos de Francisco e L&L: de gyn para o mundo!

PS 2: A lira cética e realista faz parte de uma seção do popsia que chamei de antiquário das liras. A maioria dos poemas desta seção é daquele tipo que, depois de terminados, examinados e bem pesados, me pareciam ser muito mais de outros poetas ou épocas do que meus ou de agora. Bloom chamaria isto de angústia da influência, Pound diria que são máscaras/personas, Pessoa evocaria (semi)heterônimos, os membros da ordem concretista diriam que se trata de diluição dos mestre etc etc. Mas não tem jeito, os poetas e as liras do passado nos incomodam, nos cercam, nos impregnam. É pelos antigos, afinal, que nos tornamos escritores e muitas vezes nos damos conta de que o que escrevemos poderia ter sido escrito (e melhor, para nosso desconsolo) por nossos mestres do passado. Pra mim, a coisa se parece muito com o que os espíritas chamam de mediunidade. É como se nosso corpo estivesse possuído pelo espírito dos poetas mortos e, de repente, acabamos de escrever um poema à Drummond, à Bandeira, à Mário. Então dissemos, mas que merda, por que não me deixam em paz? É o tipo de coisa que nos deixa encabulados, apreensivos, afinal queremos ser originais, ter voz própria e não ficar falando pela voz dos mestres, cometendo o pecado concretista da diluição. Ao agrupar estes poemas sob o título de antiquário das liras, resolvi assumir a sina da mediunidade/diluição. Quem sabe assim os espíritos não me deixariam em paz dali em diante? Quanto à lira cética e realista, assim que acabei de escrevê-la, disse a mim mesmo, é Machado de Assis, não o da poesia, mas o da prosa – menos mal, porque ser médium de poesia parnasiana seria o fim da picada, se for pra diluir, pelo menos que seja coisa boa. Era o Machado cético e demolidor da prosa que escrevera o poema, cujos versos finais pareciam recuperar o final desolador do Quincas Borba, com aquelas estrelas tão antipoéticas, se lixando para as dores humanas. Daí o título, uma homenagem ao bruxo do Cosme Velho que infernizou meu teclado (os espíritos andam muito high tech ultimamente, nada de penas ou canetas!). E agora o pessoal da Diversos Afins publica a lira cética e realista numa edição-tributo a Machado de Assis! O editor, Fabrício Brandão, me explicou que resolveu fazer isto porque os textos confluíram para a sua obra. Eu acho que foi coisa arquitetada do além, só pode ser. O bruxo baixou na revista!


diálogos impertinentes 7

28 Novembro 2008

fa – certamente os óculos serão apenas uma passagem

w – como?

fa – haverá máquinas ainda menores e mais integradas ao corpo

w – que máquinas seriam estas?

fa – uma lente ou um implante nos olhos pode funcionar como tela e câmera. no lugar dos fones de ouvido um pequeno auto-falante pode ser implantado próximo ao tímpano

w – e a mosca cibernética, onde se aninharia?

fa – ora, moscas se aninham em qualquer lugar da roupa ou mesmo do corpo. o importante é que ela vai sempre acompanhar e filmar o corpo. mas ela também fará o papel de batedor, poderá filmar coisas e lugares nos quais a pessoa não se encontra. filmar durante o sono. uma pessoa pode ter várias moscas-batedoras

w –  vários olhos-ouvidos

fa – sim, e o audiovisual das câmeras das moscas mais o da câmera acopladas ao olho do corpo ficarão gravados na net como escrita elétrica

w – será uma profusão de audiovisual numa escala inimaginável. se bem q isto já acontece com os celulares de hoje

fa – sim, mas o celular é limitado demais, desajeitado e ainda depende de comandos do corpo para gravar. estamos falando agora de um continuum de gravação, de uma escrita sem fim do dia a dia, apenas disparada pelo corpo da pessoa, mas praticamente sem o seu controle, como as câmeras dos condomínios. aliás mais sem controle ainda: vc pode programar um vôo aleatório pra sua mosca; e se quiser sua câmera-implante poderá filmar o que seus olhos verem

w – esta integração homem-máquina me faz lembrar os borgs de jornada nas estrelas, corpos entre o biológico e cibernético

fa – muita ficção científica de vcs é o vislumbre de seu desejo

w – mas os borgs são monstruosos, inimigos dos humanos

fa – as novas máquinas são sempre horripilantes. elas interferem nos corpos, na maneira como eles se conectam e se distribuem como sistemas. as mais potentes destroem a conformação usual do corpo e o joga em limiares imprevisíveis. elas questionam o ser do corpo. vcs acreditam que o corpo é um organismo simbólico e biológico relativamente estável, mas ele é, na verdade, uma profusão de conexões em contínuo movimento, uma máquina em meio a máquinas materiais e simbólicas. quando o corpo se encontra num limiar de desestruturação, o horror é o afeto mais previsível dos humanos

zp – imagine a potência desta nova máquina da escrita. vc poderá ir à igreja, reuniões, trabalho, escola apenas virtualmente. como os óculos (ou as lentes) cobrem todo o campo visual, poderão ser criados espaços virtuais audiovisuais. a sociedade das prisões do foucault, tipo século xix vai, definitivamente, se transformar na sociedade dos controles que deleuze vislumbrou

w – ainda assim capitalista

fa – capitalista, democrática, cidadã, não estamos falando de utopias e libertações, os corpos ainda serão severamente disciplinados. talvez até com mais rigor. a net é uma ferrenha ferramenta de controle. quando os estados se fundirem a ela, quando os códigos legais e telemáticos completarem sua simbiose, os controles serão infinitamente mais eficazes

zp – será a diretiva borg controlando os corpos-zangões da colméia capitalista-democrática, mas não será uma coletividade racional e igualitária como a dos borgs

w – mas a net também tem hakers, vírus, códigos abertos

fa – sim, haverá outras formas de resistência, formas de guerrilhas, bandidos, terroristas, desconformes, mais ou menos vinculados às disciplinas da normalidade

zp – as máquinas nunca fecham um sistema, nunca constituem um organismo imune, muito menos a hiper-máquina capitalista, que funciona por crises. sempre haverá os escapes, os ataques nômades, as partículas enlouquecidas, delirantes

fa – mas a potência de controle da net será imensa. veja as notas fiscais eletrônicas

w – quê?

fa – nós prestamos muita atenção ao audiovisual da net e nos esquecemos dos números, do poder de cálculo, armazenamento e manipulação de dados da telemática. são estas três potências, aliadas a sua conectividade instantânea, que a tornam uma máquina poderosa.

zp – 90% das tarefas burocráticas do estado ou de uma empresa podem ser executadas por computadores, em muito menos tempo e com muito mais qualidade do que se fossem feitas por humanos

w – sim, quando desenvolvi um sistema de contabilidade, o balancete mensal da empresa ocupava 3 pessoas e levava 1 semana para ser feito. passou a ocupar 1 pessoa e era feito em minutos. depois descobri q se a empresa quisesse podia fechar o balanço todo o dia, sem custo nenhum

fa – mas ainda era preciso lançar os movimentos

w – sim, se houvesse uma venda, a nota fiscal era enviada ao departamento contábil e digitada como lançamento

zp – mas se a venda for feita por meio da net, não é necessário que um funcionário a cadastre no sistema contábil: ela automaticamente vira um evento contábil

fa – todos os eventos de mercado, financeiros, legais, científicos, artísticos e até cotidianos serão on-line, vão receber um registro imediato na net, vão ter uma ou mais grafias elétricas que lhes correspondam

zp – vão ficar gravados/grafados e poderão ser manipulados de várias maneiras. o evento mercantil da venda de um produto se transforma em eventos financeiro, fiscal e contábil. ele também integrará as estatísticas da empresa e do estado, tudo instantaneamente e sem mediação humana

fa – as gravações/grafias de seu olho ou de suas moscas podem se tornar eventos de toda espécie, podem ser conectadas em máquinas muito diversas: científicas, artísticas, de entretenimento, mercadológicas

zp – e na medida em que o estado ou as organizações se apropriam destes registros, destas grafias, isto lhes dá um imenso poder de controle

fa – mas, como vc disse, isto também não deixa de ser uma proliferação infernal de grafia. um meio fértil para hakers, vírus, desconformes

w – de certa forma é isto q já acontece com as grafias elétricas de hoje, financeiras, tributárias, mas também artísticas, filmes, músicas. são campos de controle estatal e de ganhos de capital, mas também são terrenos férteis para a proliferação das pragas, bandidos, piratas, artistas

zp – é o que sempre aconteceu com a escrita tradicional. a escrita já um meio de reprodutibilidade técnica, como diz o adorno. a tentativa da era metafísica sempre foi a de frear sua potência de simulacro, sua capacidade de disseminação, frear o descontrole da interpretação, controlar a sua capacidade de se conectar infinitamente a outras máquinas, principalmente as marginais: rosa-cruz, maniqueísmo, seitas ou filosofias minotritárias

fa – a tentativa platônica de fazer a escrita dizer a verdade, o ser, de se dobrar ao uno. nós já falamos sobre isto

zp – mas também é o que acontece com a oralidade. a oralidade já é escrita, a mente já é escrita, já é proliferação escritural. a tribo também tenta exercer um certo controle sobre esta proliferação oral, com seus caciques e pajés. mas há sempre o pajé que mora isolado na floresta e constrói suas máquinas mágicas alternativas, subversivas, poderosas, imprevisíveis, temidas

fa – o que estamos falando é de formas de escrita, de modos de grafia, de diferentes máquinas de escritura: oral, mecânica (fônica e ideogrâmica) e elétrica. macluhan foi o primeiro a perceber o problema com agudez, estamos no começo da era elétrica: a era das máquinas elétricas da escrita


diálogos impertinentes 6

21 Novembro 2008

w – estava lendo o alexei bueno ontem. tem boa verve, uma musicalidade mordente, perturbadora. sons e imagens em profusão. cria ambientações estranhas, sombrias, funestas, obscuras, fantasmagóricas…

fa – bolorentas

w – como?

fa – bolor, mofo. o homem é mesmo bom, tem talento, mas faz poesia como no fim do século xix, como um simbolista, um neo-simbolista. pelamordedeus, estamos no século xxi, a metafísica não responde, a grafia se eletrifica e ele criando atmosferas de mistério-romântico-simbolistas, se espantando com os abismos da almahumana, da vida e da morte, fazendo poesia profunda, ah vai

CONTINUA


diálogos impertinentes 5

11 Novembro 2008

w – com os óculos-computadores e uma internet hiper-veloz, estando eu numa sala física, no mundo físico, vou estar simultaneamente no espaço virtual. os dois espaços vão se sobrepor, se interpenetrar

zp – mas eles sempre se interpenetraram

w – antes da internet?

zp – o mundo da religião, do mito, da ciência, do faz de conta e mesmo das histórias ‘reais’, dos acontecimentos ‘reais’, o mundo que significa, que faz sentido, o mundo que os antropólogos chamam de cultura, já é este espaço q vc chama de virtual

fa – ele existe desde q o homem é homem. aliás, é o humano. é o que define vocês como homens. é a única coisa q existe pra vocês, como meio. a natureza, vcs podem desejá-la, sonhar estar em meio a ela, mas a natura é impenetrável pra vocês: o seu mundo é a cultura, a cidade, desde q vcs existem

zp – e a cultura, a cidade-cultura é o virtual, é a sala virtual de que vc está falando

w – quer dizer q a net não representa nenhuma novidade

zp – não é isto que dissemos. a net é a nova máquina da escrita. a nova maneira técnica de grafar o virtual. é a sua cidade elétrica

fa – grafar no sentido de fazer, de desdobrar, de obrar a cidade. vcs sempre grafaram a cidade, mesmo nas culturas q vcs chamam de primitivas, nas quais a grafia principal era voz e o pensamento e a cidade-cultura se fazia pela narrativa oral, pelo mito. era pelo mito que o mundo se escrevia. depois passa a ser a escrita hieroglífica, ideogrâmica ou fonológica: época do império em lugar da aldeia, dos sacerdotes de estado em vez dos feiticeiros da tribo, da metafísica do ser em vez da magia totêmica, da hierarquia burocrática em vez dos códigos de alianças.

zp – agora há uma nova mudança de máquina escritural. vcs têm uma nova escrita, a net, grafia elétrica que se liga diretamente aos pulsos neurais

w – quer dizer que não há duas cidades? mas claramente eu percebo um mundo da net, global (aldeia global), virtual, com bilhões de humanos e esta cidade em que estou, localizada no espaço, material, com no máximo alguns milhões de pessoas

zp – operacionalmente há estes dois espaços. mas sempre houve, desde os primitivos. havia uma aldeia física, povoada por algumas dezenas ou centenas de corpos. por outro lado havia a cidade dos mitos, que normalmente estendia sua textura pluriforme a muitas aldeias: às vezes duas aldeias não se conheciam, nunca tinham ouvido falar uma da outra, mas partilhava o mesmo tecido mítico, a mesma escritura, a mesma grafia virtual: as duas aldeias físicas povoavam a mesma aldeia virtual

fa – o que importa é q estes dois espaços se imbricam e se interferem o tempo todo. um não existe sem o outro. um se faz por meio do outro. e quando se muda a grafia da cidade/aldeia, quando se muda a máquina da escrita o que acontece é que se está num limiar de mutação que atinge todas as outras máquinas, sejam elas sociais ou físicas. os desejos mudam

zp – é importante entender esta questão do limiar, pois não é a máquina da escrita que provoca, do nada, as mudanças das outras máquinas. não é assim, como se tudo começasse a partir de uma nova máquina da escrita trazida do céu. as máquinas nunca são origem, originárias, nunca começam nem terminam nada. elas mediam o tempo todo. é sempre uma maquinaria infernal, uma fábrica, um parque de fábricas roncando suas máquinas inumeráveis. a escrita elétrica, principalmente a net, não é um começo, mas um limiar, um ponto de inflexão importante. ela já era prenunciada, já se engendrava num campo de desejo, como potência de outras maquinarias capitalistas: na máquina científica pós-renascentista, por exemplo. a ciência talvez tenha sido o primeiro campo no qual se desejou domar a eletricidade: vontade de engatar a máquina de conhecimento no fluxo de elétrons da natura, vontade de controle sobre a energia do raio. segunda onda prometeica: primeiro o fogo, depois a eletricidade.

fa – depois da ciência, houve a disposição burguesa de fazer dinheiro com o conhecimento científico da eletricidade, de criar tecnologias para movimentar suas fábricas, para estabelecer uma comunicação mais ágil por meio do telégrafo

zp – a vontade dos artistas de fazerem novas máquinas de arte com a eletricidade: cinema, rádio, vitrola: pré-história pop

fa – a oportunidade que esta nova arte abria para novos negócios. a apropriação burguesa da arte da escrita elétrica: rádio-novela, Hollywood, gravadoras

zp – a vontade militar de fazer novas máquinas de guerra utilizando o poder motriz e comunicativo da eletricidade

fa – o movimento não pára, este fluxos de desejo desaguam na net. e ela vai engendrar e possibilitar outras máquinas, outros desejos. vai proliferar novas conexões que nem nós, sobre-humanos, sabemos predizer


diálogos impertinentes 4

6 Novembro 2008

fa – então os óculos serão o meio de contato

w – hein?

fa – vc sabe muito bem q posso ler o movimento dos desejos presentes e combiná-los com as máquinas em desenvolvimento muito melhor q qq humano. o prognóstico é uma derivação deste exercício.

w – q prognóstico? e q troço é este de óculos?

fa – a net é a nova escrita de vcs. mas agora trata-se de uma escrita elétrica, conectável a seus impulsos neurológicos

w – grande coisa, isso o mcluhan já disse a respeito das mídias elétricas

fa – exato. a net é uma síntese e superação de todas as mídias elétricas, mas ainda é muito lenta e desajeitada pra vcs.

w – e…

fa – vcs querem q a net responda a seus olhos e ouvidos na mesma velocidade do mundo ‘real’. querem uma interação audiovisual instantânea. pra isto a net tem q ficar mais rápida, tão rápida quando o telefone e a tv. só q o telefone não tem imagem e a tv é uma via de mão única: do emissor ao receptor. vcs querem a vantagem dos dois: a interatividade do telefone e as imagens da tv.

w – isto está muito próximo: a rapidez da net cresce exponencialmente

fa – sim. e a escrita convencional irá definitivamente para segundo plano. para coisas muito específicas, como artigos de ciências humanas por exemplo. até as notícias serão gravadas.

w – a escrita tem a vantagem de ser silenciosa. às vezes queremos falar em silêncio com outra pessoa.

fa – ora, já existem tecnologias que leem o pensamento. na verdade leem as ondas cerebrais da fala: já se pode conversar com outras pessoas e comandar um computador em completo silêncio

w – ah sim

fa – outro problema da net é q ela é muito desajeitada. o computador é uma máquina grande demais, tem problemas de energia.

w – mas o laptop pode ser levado pra todo lugar e as baterias são cada vez melhores.

fa – vc não está entendendo. vcs querem uma simbiose completa homem-máquina, uma fusão mente-net

w – ?

fa – um óculos…

w – ah sim, os óculos-computadores

fa – nanotecnologia: um óculos será um computador mais potente que qq micro existente hoje em dia.

w – as lentes serão a tela

fa – sim, os segundos olhos do corpo. mas os óculos terão também um fone de ouvido, um microfone e uma câmera embutidos. toda a comunicação que funciona por ondas luminosas ou sonoras se dará por meio dos óculos.

w – o microfone certamente será esta máquina de ler a mente

fa – sim, a leitora de onda cerebrais da fala

w – e a câmera? como poderei ser filmado a partir de meus óculos computacionais? que eu saiba ainda se precisa de alguma distância para ser filmado.

fa – uma mosca

w – que?

fa – uma mosca cibernética aninhada nos óculos. ela voará à sua frente e te filmará. nanotecnologia.

w – estou num ambiente real, digamos, uma sala. ao mesmo tempo vou estar num ambiente virtual da net, vendo, sendo visto, ouvindo, ‘falando’ com a mesma naturalidade e instantaneidade do mundo real?

fa – é isto q vcs desejam. e suas máquinas já permitem isto. é o que vcs vão fazer.

w – e adeus escrita.

fa – se vc fala destes sinais gráficos fonológicos ou ideogrâmicos, sim. ela vai estar limitada a regiões restritas de sua cultura. mas a net não deixa de ser outra grafia, outra escrita.

w – como assim?

fa – que m. vc não leu o derrida? a fala, a vida q se fala, a vida que se significa (a vida q se vive afinal) já é escrita, escritura, cultura. o cérebro, a memória, já procede por escrituração: a mente é uma escritura.

w – sim, e daí

fa – daí que esta grafia q vc chama de escrita, a escrita convencional, é ‘apenas’ uma tecnologia da escritura. claro q é uma tecnologia importante: ela representou uma inflexão capital na vida de vcs: é só com a máquina da escrita q a máquina do estado e as metafísicas são possíveis.

w – a net seria outra escrita?

fa – sim. a net (na verdade o q mcluhan chama de mídias elétricas) é outra tecnologia, outra máquina de grafia: outro modo da escritura. ela tem o poder de interação instantânea da comunicação ‘real’ e, ao mesmo, tempo, o poder de reprodutibilidade da escrita: vc pode gravar os acontecimentos (verbais, visuais, auditivos) da net e manipulá-los depois, como se manipula um livro. e como no mundo ‘real’, na net você vai poder estabelecer uma comunicação audiovisual instantânea com as pessoas.

w – um poder imenso

fa – sim, máquina muito potente a net. na verdade, todas as máquinas de escrita são muito poderosas. há cerca de três milênios, quando a escrita tradicional se consolidou em alguns lugares do globo, o mundo de vcs se transformou radicalmente. as máquinas estatal, literária, judaico-cristã e filosófica só puderam existir com a escrita fônica ou ideogrâmica. as novas máquinas criam novos homens e engendram outras máquinas e formas de conexão/relação. a partir da grafia elétrica da net outras máquinas sociais serão possíveis. a máquina pop é só o começo. vcs estão num limiar imprevisível


abandonar todas as posições

1 Novembro 2008

Quando fiz o “escreviver” pensei que ele finalizava o processo de escrita visual dos móbiles, pois não tinha nada a ver com suas telas-poemas: foi escrito no bloco de notas e assim permaneceu, versos alinhados à esquerda, limpos de qualquer visualidade. Pensei que depois do “escreviver” ia passar um bom tempo sem fazer poesia. Seria um poema único, não se parecia com nada antes nem se pareceria com o que viria, se viesse. Mas acabou por ser um prenúncio das ESCreVivências. Vá entender a poesia.

Agora, fuçando na minha pasta temp (de temporários), descubro um texto que poderia ser também o prenúncio das ESCreVivências. Mas ele foi escrito em janeiro de 2007 (pelo menos é a data do arquivo do Word). Nesta época eu estava escrevendo o popsia e ainda não tinha começado os móbiles. O tal texto seria também um prenúncio deste?

Em todo caso, foi por estes tempos que desisti definitivamente de querer publicar no papel, na verdade, de querer ter a chancela de editoras e ficar mesmo no submundo do submundo do submundo. Explico: poesia publicada na net, fora do circuito oficial das editoras, é o submundo da poesia que é o submundo da literatura que é um submundo das artes nestes tempos pop-audiovisuais.

E também foi por estes tempos que creio ter atingido uma certa maturidade poética: o popsia (e seu par em prosa, o tratactus marginale) talvez seja meu primeiro livro esteticamente consistente — agora se presta, caro internauta, já é outro papo — prestar, em poesia, é difícil pra cacete — é muito mais difícil que ser consistente.

Já escrefalei demais, putaquepariu que mania de escrever pelos cotovelos. Vamos ao texto feito no começo de 2007 (e que, pelo jeito, sinaliza o começo de muita coisa mais) e que deveria ser o único rabisco deste post:

abandonar todas as posições de uma guerra que já não é minha – lançar no mundo - abandonar as ambições de sair do anonimato - ser mais uma voz misturada - mais um corpo entre tantosentrar noutra luta - é preciso um caminhoum destino - traçar um destino - com o que se tem - não escrever mais - ou pelo menos não como antes – escrever ler para viver - encontrar outros modos de vida outra vida outra cidade outras – vias

***

P.S. Já que estou escrevendo pelos cotovelos mesmo, não custa dar uma nota. Eu gosto do Gessinger pra caramba, este poema que o diga. E  agora o cara parece que deu de abandonar todas as posições também. Ele tá fazendo música e jogando na net, pra baixar de graça. E uma música delicada, intimista, acústica, em duo (com Duca Leindecker). A quem interessar possa, clique aqui pra conferir.