diálogos impertinentes 9

9 Dezembro 2008

fa – o chip

w – o que tem o chip

fa – o chip é a máquina de vcs

w – a máquina não é a net, a máquina elétrica?

fa – sim, a máquina midiática é a net, assim como a cavalaria era a máquina de guerra no medievo. mas a cavalaria era uma matilha de cavaleiros. a máquina homem-cavalo é que tornou possível a cavalaria, assim como o chip tornou a net possível. a net é uma coletividade de chips

w – o chip é a máquina mínima, uma peça da net

fa – máquina mínima sim, peça não. a net não é uma grande máquina estruturada em peças menores, mas uma profusão de máquinas em matilha, em conexão, como um enxame de abelhas, um bando de lobos, uma galáxia

w – a galáxia de mcluhan

fa – sim, mcluhan intuiu a net e o chip. a convergência de todas as mídias elétricas numa hipermídia telemática: a convergência digital

w – há um outro aspecto a considerar, q é o código digital. é ele q permite a convergência

fa – sim, o código digital, por enquanto binário, 0 e 1, é a forma de convergência de todas as formas de sinais: escritos, audiovisuais, comunicativos. com os sinais analógicos isto não era possível, cada mídia elétrica tinha sua linguagem particular

w – agora tudo é sinal binário

fa – sim, qualquer dado eletrificável (escrita, número, aúdio, imagem etc) ou sinal comunicativo transforma-se em dados e sinais binários que são manipulados com o chip, num volume e velocidade imensos. o código binário é a máquina simbólica (forma do conteúdo) e o chip a máquina física (forma da expressão), mas um não existe sem o outro, um já pressupõe o outro e, no limite, são intercambiáveis. ao se concetarem em rede, os chips se conectam com a net, fazem a net, a hipermáquina de grafia elétrica

w – e os humanos?

fa – qdo falo chip o homem está incluso, como na máquina de guerra medieval, que era um enxame de máquinas homem-cavalo. agora se trata de um enxame de máquinas homem-chip. assim como o cavalo sozinho não era nada para a máquina de guerra, os chips sem o prolongamento do cérebro, dos pulsos neurais, não são nada na net. chip é uma metonímia da máquina cérebro-chip


diálogos impertinentes 8

3 Dezembro 2008

fa – máquinas

w – ah vc. sim máquinas, o q vc quer dizer sobre as máquinas

fa – deleuze e mcluhan nos falam de máquinas. máquinas de escrita. maquinações de escritura

w – o deleuze fala de máquinas, mas desejantes, sociais (estados, igrejas etc) e até mesmo máquinas como as conhecemos, automóveis, computadores, cavalo, o conjunto homem cavalo como máquina de guerra. mas ele não diz nada sobre máquinas de escritura. vc não está querendo é unir o mcluhan e o derrida? o materialismo radical do mcluhan com o conceito filosófico de escritura do derrida?

fa – também, mas as mídias elétricas do mcluhan são máquinas sócio-materiais, máquinas como as que deleuze concebeu. o que importa nas máquinas desejantes, em todas as máquinas afinal, mesmo as mecânicas?

w – o que seria?

fa – a conexão, a co-extensão das máquinas umas nas outras, a infinita imbricação das máquinas formando um inconsciente produtivo, uma sociedade humana e até mesmo infrahumana, natural: a natura como máquinas cosmológicas, geológicas, biológicas e sociais imbricadas: profusão maquinal. a questão para deleuze não é o que é o homem ou o ser, mas a que máquinas (sociais, simbólicas, materiais, de guerra…) vc se conecta como máquina, afinal o corpo é também máquina entre máquinas, que atravessa e é atravessado por máquinas

zp – note bem, não se trata de máquinas dentro de máquinas, de peças de máquinas, mas de um atravessamento incessante, uma profusão infernal de máquinas se interpenetrando e formando uma maquinosfera que não se deixa apreender com as noções de dentro e fora: para as máquinas há somente o fora, o meio, a conexão, o poro, o limar

w – e o q tem a ver mcluhan com isto

fa – digamos q ele focou suas teorias nas máquinas da escrita, ou melhor, nas máquinas simbólicas da linguagem, mas de um modo muito materialista, sem se perguntar pela linguagem em si, mas investigando as formas de conexão físico-químicas com a máquina-corpo. para mcluhan o corpo também é uma mídia, a fala é a primeira mídia cujo conteúdo seria a mente, as ondas cerebrais, o cérebro afinal

zp – aí entraria o derrida e sua escritura. digamos que todo o trabalho do derrida é em cima das estruturas simbólicas, uma espécie de abordagem nominalista. enquanto mcluhan investiga os suportes materiais da escritura, derrida foca nas suas formas simbólicas

w – mas estas duas abordagens não são inconciliáveis? o próprio mcluhan afirmava que o meio é a mensagem, que investigar a mensagem não levaria a nada

fa – mas quem disse q estamos falando de mensagem ou de conteúdo? derrida não investiga o conteúdo mas a forma simbólica ou, por outras palavras, a forma do conteúdo como diria hjelmslev

zp – e mcluhan investiga a forma da expressão: a máquina material da mídia é a forma da expressão e a máquina simbólica a forma do conteúdo da máquina escritural

fa – no fim das contas este dualismo, forma da expressão e do conteúdo, não existe substancialmente, apenas formalmente, pois são reversíveis. um já pressupõe o outro e, no limite, faz as vezes do outro. mcluhan acaba entrando no campo simbólico e derrida tem que invocar constantemente as várias máquinas de grafia para pensar sua escritura: a fala, a escrita convencional, a mente

w – não disse q vcs queriam unir derrida e mcluhan? deleuze n precisa entrar nesse jogo

fa – ora, deleuze tem a teoria geral das máquinas desejantes. das máquinas simbólicas e materiais, máquinas de guerra e de estado, nômades e sedentárias, biológicas e sociais

zp – não estamos querendo promover um ecumenismo filosófico

w – ah bom! eu já estava estranhando vcs, com estas atitudes tão conciliatórias e benevolentes. mas se não é ecumenismo o q é então?

fa – uma fiação subterrânea anti-metafísica

w – hein?

zp – todo este pensamento das mídias, máquinas e escritura se liga a uma teia maldita da filosofia ocidental, uma teia contra-metafísica que explodiu na segunda metade do século xx

fa – a teia da imanência: a mídia de mcluhan, a máquina de deleuze e a escritura de derrida se conectam e prolongam nas teias do pensamento da imanência, fazem mundos imanentes, nos quais o movimento, a diferença e as multiplicidades são constantes e disseminativos, irredutíveis a qualquer lei, centralidade ou unidade

zp – assim como o discurso de foucault e a escritura de barthes (outros modo de dizer a imanência, outras idéias da escritura)

fa – a ontologia sem o ser, a estrutura sem o centro, a sociedade sem as formações históricas, a mente sem a psique

zp – a-ontologia, a-estrutura, a-historicidade, a-subjetividade, imanência maquínica