Procuro, como G. H., procuro, intransitivamente.
E não acho, e o que me escapa, me conduz
— não me conduz-para, me conduz.
Procuro a fórmula precisa, exata,
para dizer o nome do que não é nome:
o mioloconcretoinvisível
o que sustenta a nervura nevrálgica,
o casulo que não resultará
em borboleta sequer.
Procuro a coisa morta
— que pulsa que pulsa que pulsa —,
como um solsempelemcarneviva.
Procuro a janela para o fora da vida,
isto é: o cerne da vida,
isto é: o vago vazio das vagas,
a anemnemônica aliteração anômala,
vazia,
autofagia nossa de cada dia,
pão solar-sonoro,
que nos causa
o desejo de nomear
os inumeráveis alvéolos da morte.
(Wesley Peres)
Não se pode dizer que um texto é bom em si, estruturalmente ou ontologicamente. Digamos que um texto, qualquer texto, deixa felpas. Se elas permitem que sejam puxadas, quer dizer, se deixam-se proliferar, ou ainda, se os leitores deste texto necessitam prolongá-lo, ecoá-lo por torção e distorção, então dizemos que um texto é fecundo, que se deixa fecundar por e com outros textos e pessoas. Os textos são feitos de gatilhos, são corpos impregnados de gatilhos e assim também são os corpos dos homens. Gatilhos existem para serem disparados e quando eles o são dizemos que os corpos se imbricam: é a própria fecundação. Tentemos puxar algumas felpas do texto acima, de modo aleatório e parcial (totalizações parciais de sentido).
Procuro a janela para o fora da vida, [1]
isto é: o cerne da vida, [2]
isto é: o vago vazio das vagas, [3]
a anemnemônica aliteração anômala, [4]
vazia, [5]
O cerne da vida está no seu fora. Que fora seria este? O fora dos organismos, o fora da temporalidade? Pois a vida se dá em organismo limitados no tempo. Aparece aqui o signo do infinito espacial e temporal fora da organização espaço-temporal dos organismos. “o vago vazio das vagas” alude ao mar imenso e aleatório de repetições e diferenças ilimitadas. Este fora remete também ao caos, no qual as formas pulsam precárias e desaparecem antes de qualquer fixação. O fora da vida é o caos infinito? Atentemos ao trabalho fonético do trecho, principalmente o aliterativo, para o qual o texto chama a atenção do leitor. O fonema v de vida se repete em vago, vazio e vagas no verso [3] e em vazia no verso [5]. Palavras que são signos da ausência e da indiferenciação e que, pelo trabalho aliterativo ecoam estes sentidos em vida. O “vago, vazio das vagas”, pelo arranjo sintático é sinônimo de “cerne da vida” e pelo arranjo fonético impregna materialmente a palavra de “vida” de de vacuidade e indiferenciação. É uma saturação de som e sentido que atinge, inclusive, a palavra fora (cerne da vida) e cujo /f/ é, como o /v/ uma labiodental. O núcleo da vida é, paradoxalmente, o anti-núcleo por excelência, isto é, o seu fora, indiferenciado, ausente, caótico e infinito. É ainda a repetição inconsciente (ou esquecida, ou esquecida ante da lembrança) e fora do normal, desviante, diferida. É o que se repete fora da normalidade e do apreensível e como diferença no caos infinito. O verso quatro evoca o acaso no caos, pois o acaso se vincula à anomalia e ao não apreensível. Mais uma vez a aliteração aludida se faz materialmente em todo o trecho. Por um lado as nasais /n/ e /m/ proliferam nos versos [1], [3] e [4]. Por outro os flepes /r/ e /l/ se repetem nos versos [1] e [4]. Os flepes e as nasais se agrupam ao lado da anomalia, no verso [4], enquanto as labiodentais parecem se aglutinar no terceiro verso, no qual o caos disforme é afirmado. E ambos são, pelo arranjo sintático do poema, sinônimos da vida. A palavra fora parece fazer a junção destes dois grupos de fonemas, reunindo um flepe /r/ e uma labiodental /f/. É no fora que a vida pulsa.
Este fora seria a morte? Sim, a resposta já está dada no poema, antes e depois deste trecho. Por que não falamos logo da morte, tentando levar a interpretação para o caos e o acaso? Talvez porque a morte seja uma resposta paradoxal demais (um bloqueio abrupto demais às passagens/conexões da interpretação) para dizer que abriga o cerne da vida. Então tentamos vê-la pulsando e tentando se diferenciar (fixar) nas miríades de vagas caóticas que o poema evoca no trecho que separamos. Dizer que a vida está na morte não quer dizer que esteja além da morte, num sentido sagrado. Não é isto que queremos extrair do poema. Queremos extrair o que há, na morte, de circulação de fluxos contínuos de desejo indiferenciados que, por um acaso (mágico?) se diferenciam em vida limitada no tempo-espaço. Uma vida que, apesar de limitada ainda se deixa penetrar desses fluxos indiferenciados, pois o ser vivente é como se fosse uma estabilização provisória numa atmosfera caótica, ele mesmo é uma atmosfera particular e relativamente ordenada (turbilhão) em meio à indiferenciação atmosférica. É como se o organismo fosse uma corpo atmosférico com uma pressão e densidade específicos que se afirma por algum tempo nas vagas vazias de forma e sentido, em jogo contínuo com estas vagas, indicando que entre o fora indiferenciado e o dentro do corpo não existem limites claros e permanentes, ou seja, o corpo é todo poros ou, pra usarmos uma palavra do poema, janelas. O que se deseja no e pelo poema é se aproximar destas janelas e se deixar atravessar pela vida enquanto limiar entre caos indiferenciado e corpo precariamente individuado neste caos.
Ler assim tem a vantagem de prescindirmos do ser e do sujeito. Eles são estruturas, às vezes, fixas demais e o poema dispõe suas felpas de modo que possamos dispensá-los para a sua leitura. Ler assim permite-nos que atinjamos o desejo em sua materialidade imediata, sem, no entanto, que a magia seja posta de lado. Muito pelo contrário, pois a mistério permanece mais radicalmente na medida em que as verdades (do ser, do sujeito), em que a significação da vida, em suma, não é nem mesmo adiada como utopia ou privilégio de uma outra dimensão da vida. Ela, a vida, é simplesmente a presença icognoscível que se tenta nomear (e tenta se nomear):
o desejo de nomear
os inumeráveis alvéolos da morte.
O poema é a busca desta nomeação, a busca da própria vida. Nomeá-la é mais um lance para fixá-la em meio às vagas de caos. O movimento do poema (de todo texto, em úlima análise) é de diferenciação em meio ao caos dos códigos. Estes são signos do apreensível, da gnose, mas quem lida com seu tecido sabe que suas dobras são como as “vagas vazias” do fora da vida. Em última análise os códigos diferenciam a partir do mesmo mundo em que a vida se fixa e o fora desta e o daqueles formam um mesmo continuum de caos. O texto também diz respeito à fixação do poema no caos dos códigos, num movimento análogo e remissivo à estabilização precária da vida.
O poema, ao seu final, diz, de viés, o infinito, ao se referir aos “inumeráveis alvéolos da morte”, explicitando, no momento chave de um final sintetizador, a pluralidade em que a vida está imersa. A vida está em perspectiva com o inumerável inapreensível. É um poema refratário a fechamentos em sua abordagem da vida, como coisa e como nome. Talvez esteja além, ou aquém, de uma apreensão crítica que o classifique no que chamaríamos de lirismo subjetivo-ontológico, que privilegia os problemas do sujeito e do ser, embora esta talvez seja sua matriz longínqua. Outra possibilidade de o apreender seria através de uma crítica que privilegiasse a construção de linguagem e neste caso o crítico poderia facilmente argumentar que o efeito do poema decorre do seu rigor lingüístico, do qual o cerrado jogo entre som e sentido seria uma amostra. Mas nem o rigor ontológico-subjetivo, nem o rigor de linguagem e nem mesmo um sincretismo ou dialética de ambos, explicam um poema e suas “qualidades intrínsecas”. São fixações (neuroses) da crítica que necessita de suportes/crenças para se prender. Um texto artístico é como a vida (é um tipo de vida e este poema que ora lemos faz alusão a isto) e sua apreensão é da ordem da intransitividade, como a busca que se empreende no poema:
Procuro, como G. H., procuro, intransitivamente.
E não acho, e o que me escapa, me conduz
A busca do crítico talvez seja mais fecunda quando se imbrica com a do poeta e se torne apenas mais um ato de nomear o inominável, um feixe a mais no enfeixamento incongruente e contínuo dos códigos e da vida.
Escrito por Wilton Cardoso
Escrito por Wilton Cardoso