Dos moribundos

Cada vez que entro numa loja de CDs (ou na seção especializada de um supermercado) sinto que estou entrando numa coisa mais próxima de um museu do que de um comércio. A venda de CDs novos, sem dúvida nenhuma, vai acabar, já está acabando: só os sebos sobreviverão, para aficcionados. O destino da música, vendida ou pirateada, é a internet.

A mesma sensação de cemitério anda me acometendo, com menos intensidade, quando entro numa livraria ou quando recebo convite para lançamento de livros. Editoras de livros de papel andam me cheirando a doentes terminais. Talvez a sobrevida dos livros impressos seja maior que a dos CDs – que certamente desaparecerão em breve. Mas quando olho a internet e a possibilidade que ela oferece de acesso a toda escrita do mundo em alguns cliques, quando vejo os novos readers cada vez mais se aproximando dos livros de papel em conforto e portabilidade, mais me convenço que o livro de papel está com os dias contados. E, com ele, toda uma lógica do mercado editorial, da confecção à distribuição, e toda uma maneira de ler: talvez a própria idéia de livro se altere ante o incessante fluxo de grafia (escrita e audiovisual) da internet. Como ficará a literatura num meio totalmente eletrônico? Um meio em que a escrita não se torna obsoleta, mas que seguramente está se tornando secundária em relação a imagens e sons. No máximo, a escrita terá primazia apenas em nichos específicos, como nas humanidades, pois até as notícias e bate-papos tendem a se tornar audiovisuais.

No caso da poesia, a internet está se transformando num terreno fértil para manifestações líricas que extrapolam a escrita verbal, como a poesia falada, a canção, a poesia visual (com e sem movimento), o rap etc. A poesia escrita, strictu sensu, já divide e terá que dividir ainda mais espaço com estas formas de poesia marginalizadas e desprezadas pela cultura erudita. Certamente ainda haverá espaço para a poesia escrita, pois embora a escrita verbal esteja se tornando uma mídia secundária na internet, não há sinal de que vá ser abandonada: há regiões dos saberes em que ela é indispensável. A questão é saber como fica a arte da palavra escrita (literatura) neste novo espaço. Não sei responder, mas é ilusão acreditar que a relativa estabilidade de que o campo litarário gozou, de Homero à primeira metade do século XX, persistirá. As regras do jogo literário e suas conexões com a sociedade já estão mudando substancialmente, pelo menos desde meados do século passado, e creio que mudará mais.

De alguma forma, os escritores têm que apreender estas mudanças que estão ocorrendo no campo das mídias e de sua arte, têm que dar sentido e valor a elas, tornando-as legíveis e incorporando-as em seu ofício. O artista precisa (pelo menos tentar) saber onde pisa.