É muito provável que Machado de Assis não gostasse, se fosse vivo, da leitura que Roberto Schwartz fez de sua obra em “Ao vencedor as batatas” e “Um mestre na periferia do capitalismo”. Certamente não gostaria, Machado não apreciaria uma crítica marxista, que traria os seus personagens dos dilemas universais do espírito para as concretudes do materialismo dialético. Machado, embora mestiço de origem pobre, era de mentalidade burguesa, diria mesmo direitista, fundador da Academia Brasileira de Letras e amante das honrarias dos altos círculos sociais de sua época. A crítica corrosiva e demolidora de seus romances, embora se dirigisse a tipos e personagens ‘representativos’ dos homens de sua época, de sua sociedade, certamente tinha por alvo o homem em geral: tratava-se de filosofia e psicologia (ou antropologia) cética e não de crítica social. Se fosse possível isolar o pensador do artista, Machado seria um filósofo, um psicólogo ou um antropólogo do espírito humano e não um crítico da sociedade patrimonialista e das elites do Brasil do século XIX.
Schwartz deturpou esta ‘intenção’ inicial machadiana de revelar, por sob o homem concreto brasileiro a miséria do homem em geral (Machado acreditava que o homem, de qualquer época e lugar, era um ser miserável). Schwartz coloca mais um espelho neste jogo de aparência e verdade: se por trás do homem concreto brasileiro há o espírito humano em geral, este universalismo burguês que se lê como sentido último no romance de Machado ainda oculta outra profundidade que talvez nem mesmo o autor tenha percebido: os conflitos sociais e concretos que movem os homens, cuja natureza se revela radicalmente histórica, mundana. Schwartz, como bom marxista, não crê em espírito humano universal e esta clave de leitura significa, para ele, a aplicação da ideologia burguesa à crítica romanesca: por trás das malezas do mundo tal crítica veria sempre a natureza imperfeita do homem, o que é uma forma de naturalizar e, portanto, aceitar as injustiças e o sofrimento que os homens impõe aos outros homens.
Por trás da expressão da natureza (imperfeita) do espírito humano (o sentido mais profundo que uma crítica burguesa encontraria nos romances de Machado) Schwartz flagra o interesse e o conflito social como motores da ação humana na obra de Machado, que expressaria, em última análise, o homem como construção histórica numa sociedade escravocrata e profundamente desigual, ainda pré-capitalista e dominada a ferro e fogo (literalmente, no caso dos escravos) por uma pequena elite que vive de rendas e/ou da monocultura de exportação: nada de espírito universal, trata-se de homens concretos numa dada época e lugar. Em vez da essência do ser humano universal, Schwartz lê estruturas sociais historicamente determinadas.
A crítica de Schwartz não deixa de ser uma subversão, uma leitura contra o autor ou, pelo menos, contra o que se convencionou achar o que era o autor. Trata-se, como diz Deleuze, de enrabar o autor e fazê-lo parir uma monstruosidade, ou seja, fazer sua obra dizer o que certamente não se queria (mas em literatura isto é uma dádiva, é a fecundidade infinita da obra). De certa forma, não é esta a relação entre a obra do próprio Machado com a dos românticos (especialmente José de Alencar), desejosos de exprimir o genuinamente pátrio? O romance de Machado, a partir de ‘Memórias Póstumas’, não deixa de ser uma crítica subversora do nosso romance romântico, fazendo a narrativa dizer como e o que não se queria: Machado não fora acusado de ser inglês demais?
Mas esta leitura perversa, contra o autor, contra a doxa (mesmo a dos sábios) não seria a melhor? Não seria a única que importa?