Este tempo literário (mas também um tempo artístico em geral), este duplo desejo paradoxal que talvez venha desde a aurora da Europa moderna, que certamente se agudizou no romantismo e extrapolou todos os limites na primeira metade do século XX, esta arte burguesa que tanto se rebelou (nostálgica ou utopicamente) contra a própria burguesia e que nos legou obras e autores maravilhosos, este tempo moderno (num sentido amplo do termo), parece que acabou no pós-guerra. Parece que não existem mais as disputas entre modernos e antigos, entre a mudança e a conservação, entre o movimento e a inércia, o novo e a tradição. Os novos de cada época se chamavam (ou eram pejorativamente chamados) de modernos, em contraposição aos antigos. Agora, os ‘novos’ se intitulam (ou são pejorativamente chamados de pós: pós-modernos, pós-modernistas, pós-metafísicos, pós-literários etc). Em todo caso, a divisão entre o que chamamos de pós-modernos (na falta de nome melhor, mas os modernos eram assim chamados também por falta de nome melhor) e os outros (modernos, modernistas, neoclássicos, marxistas, estruturalistas etc) é de natureza distinta: não se trata mais de disputas dentro de um sistema estético moderno: o campo das artes parece estar se redesenhando de outra forma, de um modo que não há mais a possibilidade de oposição entre o novo e o antigo.
O que houve na segunda metade do século XX, que persiste até hoje e que chamamos de pós-nãoseioquê foi uma mudança na dinâmica das forças do campo estético, um ruptura, ou melhor, um dissolvimento do jogo entre analogia e ironia, ou seja, o fim da tradição da ruptura: se por modernidade aceitarmos a definição de Paz, estamos realmente numa pós-modernidade. Minha intenção aqui não é louvar nem condenar a situação atual deste mundo capitalista e de suas artes em estado de pós-tudo, mas tentar entendê-los. Tenho muitos motivos para condenar a época atual, diria mesmo que tenho razões de sobra para odiá-la (confesso que a odeio deveras). Tenho outro tanto de motivos para farejar nela coisas positivas e principalmente oportunidades para agir sobre ela, para corromper a sua alegria fútil. Nos meus poemas creio que exerço melhor estes movimentos de amor e ódio.
O que preciso, no entanto, é ser um homem de minha época, é aceitá-la em sua integridade. Esta aceitação não é sinônimo de conformismo, mas significa afirmar, com todas as minhas potências: “estou aqui, a situação é esta, vou enfrentá-la como está posta, sem fingir que seja outra”. Preciso me bater contra este mundo, contra o agora, mas é preciso conhecê-lo. Para tal, estou convencido que as ferramentas conceituais ditas modernas não servem ou, como nós, caipiras, costumamos dizer, não dão conta. Não porque as idéias modernas sejam simples ou toscas demais, muito pelo contrário, são admiravelmente complexas e precisas. Ocorre que o campo literário (e artístico) não é mais moderno no sentido que Paz o definiu, então os conceitos feitos para aquele mundo não podem (a não ser por efeito de contraste) nos ajudar a pensar o agora. É necessário forjar ou adaptar outros conceitos para conhecer o hoje com o qual quero me bater – como um guerreiro deve conhecer os meandros de seu inimigo, como o caçador deve dominar os hábitos de sua presa ou como a caça deve saber muito bem das armas e pontos fracos de seu predador.
Se o moderno nos define como homens ocidentais, o advento de algo distinto da modernidade talvez seja o advento de uma outra humanidade (que, no entanto, não parece ser, de forma alguma pós-capitalista, pelo contrário, o que assistimos tem o cheiro terrível de um ultra-capitalismo). Talvez por isto, por esta incerteza das épocas de transições, o nosso desnorteio, nossa falta de chão, ao que parece, mais aguda que a dos modernos. Talvez. Talvezes, talvezes, é preciso se de-bater também com tantos talvezes.

Escrito por Wilton Cardoso
Escrito por Wilton Cardoso