Por que esta colagem de Frederico Martins me fascina tanto? Parafraseando Leminski, tem que ter porque? Precisamos, no entanto, arriscar linhas de texto em torno desta questão, por que? Mesmo sabendo que não a responderei, que apenas irei dilatá-la tentando justificar o fascínio…
A base da colagem é a foto de um menino numa janela de uma casa de madeira. A esta foto se interpõe outra, de pássaros (corvos?) voando num céu azul coalhado de nuvens brancas. O menino dorme na janela – sonharia? O artista abre, na vertical da foto, uma dupla janela inusitada: de fato, os pássaros voando aparecem por duas janelas celestes que fendem verticalmente a foto de base. Nas paredes da casa são coladas/abertas esta janela inusitada dos céus e suas aves. São janelas do sonho? O sonho do menino?
publicado originalmente em 05/10/2009 no vida miúda
Wesley, eu ia responder às suas conversações, mas Franco Átila e Zé Pelota me tomaram o teclado (e o corpo) na hora. Fique com a resposta deles então:
ZP – Caro Wesley, o problema, na verdade, não é estar na moda (nem fora dela). O que me incomoda são os que usam a moda intelectual do lado escuro da força para disfarçar a falta de criatividade do escritor, ou mesmo do leitor.
FA – Para estes, basta vestir a máscara chique de um certo niilismo amoral e demoníaco, citar Nietzsche e a vontade de potência e está pronto: temos um intelectual sofisticado.
ZP – Aliás, este é um bom atributo para tais criaturas, ‘sofisticação’: o máximo que conseguem com a bad moda é serem sofisticados, e só.
FA – O que certamente não é o seu caso Wesley, pois independente de estar ou não na moda do mau/mal, você é um ótimo poeta (e um leitor idem)– se não achasse isto não diria, tenha certeza.
ZP – E se o lado negro da força te dá energia caro Wesley (para nós também ele é o mais farto manjar) esteja certo que você não escreve bem apenas por se render aos seus (des)encantos
FA – Como Jorge de Lima e Murilo Mendes não foram bons poetas apenas por serem carolas.
ZP – O problema são os que pensam que apenas ser mal (ou bonzinho) é o suficiente.
FA – O problema é o cara estar certo de ter achado na maldade/ceticismo/niilismo/amoralismo não apenas uma fonte de energia para a sua criatividade, mas o Santo Graal da boa literatura, seja como escritor ou como leitor/crítico.
ZP – Neste terreno eu prefiro a incerteza: não sei a fórmula do elixir da boa literatura ou da boa arte.
FA – Eu, se soubesse a revelaria a W e recomendaria que ele a envazasse em livro de auto-ajuda.
ZP – W ficaria rico, sem dúvida nenhuma.
FA – E se afirmamos o incerto com tanta firmeza, é porque tivemos o privilégio de estar com Raul Seixas no estranho ritual que ele relata na ‘Pedra do Gênesis’:
“No fundo do oceano existe um baú que guarda o segredo almejado desde a aurora dos tempos por gênios, sábios, alquimistas e conquistadores. Eu conheci esse baú num estranho ritual reservado a poucos. Hoje eu posso enfim revelar que essa busca de séculos foi em vão.”
publicado originalmene no vida miúda em 05/10/2009
de qualquer forma, Wilton, sendo ou não um, vá lá, “modismo pós-modernista”, prefiro mesmo pender para o ser mau, porque, à minha volta, está cheião de gente boazinha, professoral, responsável e eco-responsável etc.
Cada dia acordo de um jeito, e isso é uma espécie de indiferença, mas talvez seja apenas pendular entre pólos múltiplos e assimétricos. Escrevi um texto aí pra falar de estruturalistas e antiestruturalistas, pra dizer que não tenho religião, quando na verdade penso que tenho todas, todas as religiões, múltiplos fetiches e vícios.
Ando cansado das minhas próprias recomendações para mim mesmo. E ando niilista como o diabo rs. E este niilismo, ao invés de me impelir a aguentar tudo, a me compelir a um bom gosto qualquer, tem sido, esse niilismo, a fonte das minhas alegrias. A dissolução tem sido meu objeto transicional, minha felicidade de bolso.
Gente amarga como Cioran (figura pop entre os da moda nau do mal, me incluo entre os desta moda) tem me feito sorrir e não acreditar em nada tem sido minha religião mais constante.
O que não significa que, com isso e por isso, eu tenha me ferrado menos, ou mais.
As boas intenções por si só não fazem boa literatura. Mas isto hoje é lugar comum. A moda intelectual agora é ser cínico, politicamente incorreto, provocador, niilista (o niilismo, pensam, é não acreditar em nada e descer o pau à direita e à esquerda, acima e abaixo). O negócio é ser ácido, anti-sentimental, anti-professoral (mas não marginal e sim daquele tipo que dá aulas ao professor, massacrando sua mediocridade). Massacrar, o lance é massacrar o leitor, a sociedade, os bons modos e até a si mesmo, por que não? Que forma estranha de vaidade! O negócio é ter bom gosto, é ser exigente esteticamente, duro consigo e com os outros. E não é mau que esta dureza seja também política, uma política de vida e mesmo social. Talvez o regime político ideal para estes seja o anarquismo, uma espécie de anarquia sem fraternidade nem amor. O negócio intelectual agora é ser cético com o homem, é ser desiludido, mas sem cair na babaquice sentimentalóide do lamento fácil – não, não, seja forte e suporte nossa miséria com altivez. Seja cordial (ou não) nas relações pessoais, mas no ofício de ler e escrever o chique mesmo é ser amoral, agressivo, corrosivo e condenar como fraqueza inaceitável toda e qualquer tentativa de achar ou querer achar valores e sentidos para a arte, a vida e o mundo. O negócio agora é ser mau. No entanto, lamento informar aos demônios da hora que as más intenções e o ‘bom’ gosto exigente também não fazem, por si só, boa literatura.