Não sei se é preciso haver mestres. Maiores poetas, maiores santos – uma incongruência maiores santos, uma vez que santos buscam a humildade. Poetas líricos também não vasculham o chão à procura dos tesouros do cisco, mesmo quando falam em galáxias? Poetas vivem no mundo da lua, mas a lua deles não tem distinção de eloquência nem motores de foguetes intergalácticos. Não é que se resignam: voam na resignação. Digo porque sou poeta, e nem a maior, nem grande e nem mesmo excelente. Devo estar até abaixo da crítica, mas sou.
Ninguém saberá daquela aranha e sua teia tecida com amor no canto da repartição (se bem que eu sei, mas eu saber é o mesmo que ninguém), com tanto amor que se basta em si e não tem nem precisão de dizer pra todo mundo. Mesmo porque todo mundo está no trampo e sem tempo, e quem vai reparar o amor com que a aranha tece e espera o alimento, a vida e a morte? Só estas funcionárias de repartição que não têm o que fazer (ou têm e postergam) e ficam sonhando de poetas sonhando ciscos de vida: sonhos de aranha armando seu circo de arame aéreo, incógnito ardor.
O maior amor do mundo foi entre o bêbado e a funcionária pública que só fazia bater carimbos, se amaram tanto e loucamente que nem Dante e sua Beatriz puderam. E foi aqui, junto a nós, nesta rua qualquer além da janela, no boteco da esquina, rodeados de putas pobres que cobram baratinho, no último círculo do inferno – mas era também o paraíso, e as putas tinham asas de anjo e auréolas, tudo muito kitsch (como são as putas pobres), mas tudo estranhamente lírico (como são as putas pobres). Mas eram casados cada um pro seu lado, um com a bebida e a outra com o marido – que não a tratava mal o pobre diabo e era bom pai de sua ninhada e tinha mesmo uns carinhos doces para ela apesar da sua eterna barriga de sete meses, a careca e a boca meia mal feita que nem boca de bode, mas ela também não era lá grandes coisas da beleza e da magreza.
Não podiam, cada qual sua noiva e cada qual sua cruz que tinham de carregar depois do momento em que se cruzaram e se viram e tocaram poro e poro e nunca se esqueceram… Os dois embriagados para sempre um do outro, quem dera para ele o vício fosse apenas a pinga, e para ela a rotina funcionária, como sempre havia sido até ali – e morreriam felizes para sempre. Mas não, tinha de haver aquele momento, aquele repente sem motivo do acaso em que o inseto resolve passear sua ínfima vida nos cantos do mundo e cai na teia e nunca mais se livra e é devorado de desejo, apavorado. Uma linha de voo se encontra com a linha pegajosa do amor. E as parcas riem…
O maior amor do mundo foi um pequeno caso de fios de vidas sem meadas atravessando e embaraçando corpos miseráveis que nem sabiam porque existiam ali, se amando feito gatos no telhado. E o nó que se desata só… com a morte, e mesmo assim sobra um fantasma, tecendo teias de éter no vazio, que nem poesia. E ninguém nunca soube e se soubesse não haveria de acreditar.