diálogos impertinentes 9

9 Dezembro 2008

fa – o chip

w – o que tem o chip

fa – o chip é a máquina de vcs

w – a máquina não é a net, a máquina elétrica?

fa – sim, a máquina midiática é a net, assim como a cavalaria era a máquina de guerra no medievo. mas a cavalaria era uma matilha de cavaleiros. a máquina homem-cavalo é que tornou possível a cavalaria, assim como o chip tornou a net possível. a net é uma coletividade de chips

w – o chip é a máquina mínima, uma peça da net

fa – máquina mínima sim, peça não. a net não é uma grande máquina estruturada em peças menores, mas uma profusão de máquinas em matilha, em conexão, como um enxame de abelhas, um bando de lobos, uma galáxia

w – a galáxia de mcluhan

fa – sim, mcluhan intuiu a net e o chip. a convergência de todas as mídias elétricas numa hipermídia telemática: a convergência digital

w – há um outro aspecto a considerar, q é o código digital. é ele q permite a convergência

fa – sim, o código digital, por enquanto binário, 0 e 1, é a forma de convergência de todas as formas de sinais: escritos, audiovisuais, comunicativos. com os sinais analógicos isto não era possível, cada mídia elétrica tinha sua linguagem particular

w – agora tudo é sinal binário

fa – sim, qualquer dado eletrificável (escrita, número, aúdio, imagem etc) ou sinal comunicativo transforma-se em dados e sinais binários que são manipulados com o chip, num volume e velocidade imensos. o código binário é a máquina simbólica (forma do conteúdo) e o chip a máquina física (forma da expressão), mas um não existe sem o outro, um já pressupõe o outro e, no limite, são intercambiáveis. ao se concetarem em rede, os chips se conectam com a net, fazem a net, a hipermáquina de grafia elétrica

w – e os humanos?

fa – qdo falo chip o homem está incluso, como na máquina de guerra medieval, que era um enxame de máquinas homem-cavalo. agora se trata de um enxame de máquinas homem-chip. assim como o cavalo sozinho não era nada para a máquina de guerra, os chips sem o prolongamento do cérebro, dos pulsos neurais, não são nada na net. chip é uma metonímia da máquina cérebro-chip


diálogos impertinentes 8

3 Dezembro 2008

fa – máquinas

w – ah vc. sim máquinas, o q vc quer dizer sobre as máquinas

fa – deleuze e mcluhan nos falam de máquinas. máquinas de escrita. maquinações de escritura

w – o deleuze fala de máquinas, mas desejantes, sociais (estados, igrejas etc) e até mesmo máquinas como as conhecemos, automóveis, computadores, cavalo, o conjunto homem cavalo como máquina de guerra. mas ele não diz nada sobre máquinas de escritura. vc não está querendo é unir o mcluhan e o derrida? o materialismo radical do mcluhan com o conceito filosófico de escritura do derrida?

fa – também, mas as mídias elétricas do mcluhan são máquinas sócio-materiais, máquinas como as que deleuze concebeu. o que importa nas máquinas desejantes, em todas as máquinas afinal, mesmo as mecânicas?

w – o que seria?

fa – a conexão, a co-extensão das máquinas umas nas outras, a infinita imbricação das máquinas formando um inconsciente produtivo, uma sociedade humana e até mesmo infrahumana, natural: a natura como máquinas cosmológicas, geológicas, biológicas e sociais imbricadas: profusão maquinal. a questão para deleuze não é o que é o homem ou o ser, mas a que máquinas (sociais, simbólicas, materiais, de guerra…) vc se conecta como máquina, afinal o corpo é também máquina entre máquinas, que atravessa e é atravessado por máquinas

zp – note bem, não se trata de máquinas dentro de máquinas, de peças de máquinas, mas de um atravessamento incessante, uma profusão infernal de máquinas se interpenetrando e formando uma maquinosfera que não se deixa apreender com as noções de dentro e fora: para as máquinas há somente o fora, o meio, a conexão, o poro, o limar

w – e o q tem a ver mcluhan com isto

fa – digamos q ele focou suas teorias nas máquinas da escrita, ou melhor, nas máquinas simbólicas da linguagem, mas de um modo muito materialista, sem se perguntar pela linguagem em si, mas investigando as formas de conexão físico-químicas com a máquina-corpo. para mcluhan o corpo também é uma mídia, a fala é a primeira mídia cujo conteúdo seria a mente, as ondas cerebrais, o cérebro afinal

zp – aí entraria o derrida e sua escritura. digamos que todo o trabalho do derrida é em cima das estruturas simbólicas, uma espécie de abordagem nominalista. enquanto mcluhan investiga os suportes materiais da escritura, derrida foca nas suas formas simbólicas

w – mas estas duas abordagens não são inconciliáveis? o próprio mcluhan afirmava que o meio é a mensagem, que investigar a mensagem não levaria a nada

fa – mas quem disse q estamos falando de mensagem ou de conteúdo? derrida não investiga o conteúdo mas a forma simbólica ou, por outras palavras, a forma do conteúdo como diria hjelmslev

zp – e mcluhan investiga a forma da expressão: a máquina material da mídia é a forma da expressão e a máquina simbólica a forma do conteúdo da máquina escritural

fa – no fim das contas este dualismo, forma da expressão e do conteúdo, não existe substancialmente, apenas formalmente, pois são reversíveis. um já pressupõe o outro e, no limite, faz as vezes do outro. mcluhan acaba entrando no campo simbólico e derrida tem que invocar constantemente as várias máquinas de grafia para pensar sua escritura: a fala, a escrita convencional, a mente

w – não disse q vcs queriam unir derrida e mcluhan? deleuze n precisa entrar nesse jogo

fa – ora, deleuze tem a teoria geral das máquinas desejantes. das máquinas simbólicas e materiais, máquinas de guerra e de estado, nômades e sedentárias, biológicas e sociais

zp – não estamos querendo promover um ecumenismo filosófico

w – ah bom! eu já estava estranhando vcs, com estas atitudes tão conciliatórias e benevolentes. mas se não é ecumenismo o q é então?

fa – uma fiação subterrânea anti-metafísica

w – hein?

zp – todo este pensamento das mídias, máquinas e escritura se liga a uma teia maldita da filosofia ocidental, uma teia contra-metafísica que explodiu na segunda metade do século xx

fa – a teia da imanência: a mídia de mcluhan, a máquina de deleuze e a escritura de derrida se conectam e prolongam nas teias do pensamento da imanência, fazem mundos imanentes, nos quais o movimento, a diferença e as multiplicidades são constantes e disseminativos, irredutíveis a qualquer lei, centralidade ou unidade

zp – assim como o discurso de foucault e a escritura de barthes (outros modo de dizer a imanência, outras idéias da escritura)

fa – a ontologia sem o ser, a estrutura sem o centro, a sociedade sem as formações históricas, a mente sem a psique

zp – a-ontologia, a-estrutura, a-historicidade, a-subjetividade, imanência maquínica


diálogos impertinentes 7

28 Novembro 2008

fa – certamente os óculos serão apenas uma passagem

w – como?

fa – haverá máquinas ainda menores e mais integradas ao corpo

w – que máquinas seriam estas?

fa – uma lente ou um implante nos olhos pode funcionar como tela e câmera. no lugar dos fones de ouvido um pequeno auto-falante pode ser implantado próximo ao tímpano

w – e a mosca cibernética, onde se aninharia?

fa – ora, moscas se aninham em qualquer lugar da roupa ou mesmo do corpo. o importante é que ela vai sempre acompanhar e filmar o corpo. mas ela também fará o papel de batedor, poderá filmar coisas e lugares nos quais a pessoa não se encontra. filmar durante o sono. uma pessoa pode ter várias moscas-batedoras

w –  vários olhos-ouvidos

fa – sim, e o audiovisual das câmeras das moscas mais o da câmera acopladas ao olho do corpo ficarão gravados na net como escrita elétrica

w – será uma profusão de audiovisual numa escala inimaginável. se bem q isto já acontece com os celulares de hoje

fa – sim, mas o celular é limitado demais, desajeitado e ainda depende de comandos do corpo para gravar. estamos falando agora de um continuum de gravação, de uma escrita sem fim do dia a dia, apenas disparada pelo corpo da pessoa, mas praticamente sem o seu controle, como as câmeras dos condomínios. aliás mais sem controle ainda: vc pode programar um vôo aleatório pra sua mosca; e se quiser sua câmera-implante poderá filmar o que seus olhos verem

w – esta integração homem-máquina me faz lembrar os borgs de jornada nas estrelas, corpos entre o biológico e cibernético

fa – muita ficção científica de vcs é o vislumbre de seu desejo

w – mas os borgs são monstruosos, inimigos dos humanos

fa – as novas máquinas são sempre horripilantes. elas interferem nos corpos, na maneira como eles se conectam e se distribuem como sistemas. as mais potentes destroem a conformação usual do corpo e o joga em limiares imprevisíveis. elas questionam o ser do corpo. vcs acreditam que o corpo é um organismo simbólico e biológico relativamente estável, mas ele é, na verdade, uma profusão de conexões em contínuo movimento, uma máquina em meio a máquinas materiais e simbólicas. quando o corpo se encontra num limiar de desestruturação, o horror é o afeto mais previsível dos humanos

zp – imagine a potência desta nova máquina da escrita. vc poderá ir à igreja, reuniões, trabalho, escola apenas virtualmente. como os óculos (ou as lentes) cobrem todo o campo visual, poderão ser criados espaços virtuais audiovisuais. a sociedade das prisões do foucault, tipo século xix vai, definitivamente, se transformar na sociedade dos controles que deleuze vislumbrou

w – ainda assim capitalista

fa – capitalista, democrática, cidadã, não estamos falando de utopias e libertações, os corpos ainda serão severamente disciplinados. talvez até com mais rigor. a net é uma ferrenha ferramenta de controle. quando os estados se fundirem a ela, quando os códigos legais e telemáticos completarem sua simbiose, os controles serão infinitamente mais eficazes

zp – será a diretiva borg controlando os corpos-zangões da colméia capitalista-democrática, mas não será uma coletividade racional e igualitária como a dos borgs

w – mas a net também tem hakers, vírus, códigos abertos

fa – sim, haverá outras formas de resistência, formas de guerrilhas, bandidos, terroristas, desconformes, mais ou menos vinculados às disciplinas da normalidade

zp – as máquinas nunca fecham um sistema, nunca constituem um organismo imune, muito menos a hiper-máquina capitalista, que funciona por crises. sempre haverá os escapes, os ataques nômades, as partículas enlouquecidas, delirantes

fa – mas a potência de controle da net será imensa. veja as notas fiscais eletrônicas

w – quê?

fa – nós prestamos muita atenção ao audiovisual da net e nos esquecemos dos números, do poder de cálculo, armazenamento e manipulação de dados da telemática. são estas três potências, aliadas a sua conectividade instantânea, que a tornam uma máquina poderosa.

zp – 90% das tarefas burocráticas do estado ou de uma empresa podem ser executadas por computadores, em muito menos tempo e com muito mais qualidade do que se fossem feitas por humanos

w – sim, quando desenvolvi um sistema de contabilidade, o balancete mensal da empresa ocupava 3 pessoas e levava 1 semana para ser feito. passou a ocupar 1 pessoa e era feito em minutos. depois descobri q se a empresa quisesse podia fechar o balanço todo o dia, sem custo nenhum

fa – mas ainda era preciso lançar os movimentos

w – sim, se houvesse uma venda, a nota fiscal era enviada ao departamento contábil e digitada como lançamento

zp – mas se a venda for feita por meio da net, não é necessário que um funcionário a cadastre no sistema contábil: ela automaticamente vira um evento contábil

fa – todos os eventos de mercado, financeiros, legais, científicos, artísticos e até cotidianos serão on-line, vão receber um registro imediato na net, vão ter uma ou mais grafias elétricas que lhes correspondam

zp – vão ficar gravados/grafados e poderão ser manipulados de várias maneiras. o evento mercantil da venda de um produto se transforma em eventos financeiro, fiscal e contábil. ele também integrará as estatísticas da empresa e do estado, tudo instantaneamente e sem mediação humana

fa – as gravações/grafias de seu olho ou de suas moscas podem se tornar eventos de toda espécie, podem ser conectadas em máquinas muito diversas: científicas, artísticas, de entretenimento, mercadológicas

zp – e na medida em que o estado ou as organizações se apropriam destes registros, destas grafias, isto lhes dá um imenso poder de controle

fa – mas, como vc disse, isto também não deixa de ser uma proliferação infernal de grafia. um meio fértil para hakers, vírus, desconformes

w – de certa forma é isto q já acontece com as grafias elétricas de hoje, financeiras, tributárias, mas também artísticas, filmes, músicas. são campos de controle estatal e de ganhos de capital, mas também são terrenos férteis para a proliferação das pragas, bandidos, piratas, artistas

zp – é o que sempre aconteceu com a escrita tradicional. a escrita já um meio de reprodutibilidade técnica, como diz o adorno. a tentativa da era metafísica sempre foi a de frear sua potência de simulacro, sua capacidade de disseminação, frear o descontrole da interpretação, controlar a sua capacidade de se conectar infinitamente a outras máquinas, principalmente as marginais: rosa-cruz, maniqueísmo, seitas ou filosofias minotritárias

fa – a tentativa platônica de fazer a escrita dizer a verdade, o ser, de se dobrar ao uno. nós já falamos sobre isto

zp – mas também é o que acontece com a oralidade. a oralidade já é escrita, a mente já é escrita, já é proliferação escritural. a tribo também tenta exercer um certo controle sobre esta proliferação oral, com seus caciques e pajés. mas há sempre o pajé que mora isolado na floresta e constrói suas máquinas mágicas alternativas, subversivas, poderosas, imprevisíveis, temidas

fa – o que estamos falando é de formas de escrita, de modos de grafia, de diferentes máquinas de escritura: oral, mecânica (fônica e ideogrâmica) e elétrica. macluhan foi o primeiro a perceber o problema com agudez, estamos no começo da era elétrica: a era das máquinas elétricas da escrita


diálogos impertinentes 6

21 Novembro 2008

w – estava lendo o alexei bueno ontem. tem boa verve, uma musicalidade mordente, perturbadora. sons e imagens em profusão. cria ambientações estranhas, sombrias, funestas, obscuras, fantasmagóricas…

fa – bolorentas

w – como?

fa – bolor, mofo. o homem é mesmo bom, tem talento, mas faz poesia como no fim do século xix, como um simbolista, um neo-simbolista. pelamordedeus, estamos no século xxi, a metafísica não responde, a grafia se eletrifica e ele criando atmosferas de mistério-romântico-simbolistas, se espantando com os abismos da almahumana, da vida e da morte, fazendo poesia profunda, ah vai

CONTINUA


diálogos impertinentes 5

11 Novembro 2008

w – com os óculos-computadores e uma internet hiper-veloz, estando eu numa sala física, no mundo físico, vou estar simultaneamente no espaço virtual. os dois espaços vão se sobrepor, se interpenetrar

zp – mas eles sempre se interpenetraram

w – antes da internet?

zp – o mundo da religião, do mito, da ciência, do faz de conta e mesmo das histórias ‘reais’, dos acontecimentos ‘reais’, o mundo que significa, que faz sentido, o mundo que os antropólogos chamam de cultura, já é este espaço q vc chama de virtual

fa – ele existe desde q o homem é homem. aliás, é o humano. é o que define vocês como homens. é a única coisa q existe pra vocês, como meio. a natureza, vcs podem desejá-la, sonhar estar em meio a ela, mas a natura é impenetrável pra vocês: o seu mundo é a cultura, a cidade, desde q vcs existem

zp – e a cultura, a cidade-cultura é o virtual, é a sala virtual de que vc está falando

w – quer dizer q a net não representa nenhuma novidade

zp – não é isto que dissemos. a net é a nova máquina da escrita. a nova maneira técnica de grafar o virtual. é a sua cidade elétrica

fa – grafar no sentido de fazer, de desdobrar, de obrar a cidade. vcs sempre grafaram a cidade, mesmo nas culturas q vcs chamam de primitivas, nas quais a grafia principal era voz e o pensamento e a cidade-cultura se fazia pela narrativa oral, pelo mito. era pelo mito que o mundo se escrevia. depois passa a ser a escrita hieroglífica, ideogrâmica ou fonológica: época do império em lugar da aldeia, dos sacerdotes de estado em vez dos feiticeiros da tribo, da metafísica do ser em vez da magia totêmica, da hierarquia burocrática em vez dos códigos de alianças.

zp – agora há uma nova mudança de máquina escritural. vcs têm uma nova escrita, a net, grafia elétrica que se liga diretamente aos pulsos neurais

w – quer dizer que não há duas cidades? mas claramente eu percebo um mundo da net, global (aldeia global), virtual, com bilhões de humanos e esta cidade em que estou, localizada no espaço, material, com no máximo alguns milhões de pessoas

zp – operacionalmente há estes dois espaços. mas sempre houve, desde os primitivos. havia uma aldeia física, povoada por algumas dezenas ou centenas de corpos. por outro lado havia a cidade dos mitos, que normalmente estendia sua textura pluriforme a muitas aldeias: às vezes duas aldeias não se conheciam, nunca tinham ouvido falar uma da outra, mas partilhava o mesmo tecido mítico, a mesma escritura, a mesma grafia virtual: as duas aldeias físicas povoavam a mesma aldeia virtual

fa – o que importa é q estes dois espaços se imbricam e se interferem o tempo todo. um não existe sem o outro. um se faz por meio do outro. e quando se muda a grafia da cidade/aldeia, quando se muda a máquina da escrita o que acontece é que se está num limiar de mutação que atinge todas as outras máquinas, sejam elas sociais ou físicas. os desejos mudam

zp – é importante entender esta questão do limiar, pois não é a máquina da escrita que provoca, do nada, as mudanças das outras máquinas. não é assim, como se tudo começasse a partir de uma nova máquina da escrita trazida do céu. as máquinas nunca são origem, originárias, nunca começam nem terminam nada. elas mediam o tempo todo. é sempre uma maquinaria infernal, uma fábrica, um parque de fábricas roncando suas máquinas inumeráveis. a escrita elétrica, principalmente a net, não é um começo, mas um limiar, um ponto de inflexão importante. ela já era prenunciada, já se engendrava num campo de desejo, como potência de outras maquinarias capitalistas: na máquina científica pós-renascentista, por exemplo. a ciência talvez tenha sido o primeiro campo no qual se desejou domar a eletricidade: vontade de engatar a máquina de conhecimento no fluxo de elétrons da natura, vontade de controle sobre a energia do raio. segunda onda prometeica: primeiro o fogo, depois a eletricidade.

fa – depois da ciência, houve a disposição burguesa de fazer dinheiro com o conhecimento científico da eletricidade, de criar tecnologias para movimentar suas fábricas, para estabelecer uma comunicação mais ágil por meio do telégrafo

zp – a vontade dos artistas de fazerem novas máquinas de arte com a eletricidade: cinema, rádio, vitrola: pré-história pop

fa – a oportunidade que esta nova arte abria para novos negócios. a apropriação burguesa da arte da escrita elétrica: rádio-novela, Hollywood, gravadoras

zp – a vontade militar de fazer novas máquinas de guerra utilizando o poder motriz e comunicativo da eletricidade

fa – o movimento não pára, este fluxos de desejo desaguam na net. e ela vai engendrar e possibilitar outras máquinas, outros desejos. vai proliferar novas conexões que nem nós, sobre-humanos, sabemos predizer


diálogos impertinentes 4

6 Novembro 2008

fa – então os óculos serão o meio de contato

w – hein?

fa – vc sabe muito bem q posso ler o movimento dos desejos presentes e combiná-los com as máquinas em desenvolvimento muito melhor q qq humano. o prognóstico é uma derivação deste exercício.

w – q prognóstico? e q troço é este de óculos?

fa – a net é a nova escrita de vcs. mas agora trata-se de uma escrita elétrica, conectável a seus impulsos neurológicos

w – grande coisa, isso o mcluhan já disse a respeito das mídias elétricas

fa – exato. a net é uma síntese e superação de todas as mídias elétricas, mas ainda é muito lenta e desajeitada pra vcs.

w – e…

fa – vcs querem q a net responda a seus olhos e ouvidos na mesma velocidade do mundo ‘real’. querem uma interação audiovisual instantânea. pra isto a net tem q ficar mais rápida, tão rápida quando o telefone e a tv. só q o telefone não tem imagem e a tv é uma via de mão única: do emissor ao receptor. vcs querem a vantagem dos dois: a interatividade do telefone e as imagens da tv.

w – isto está muito próximo: a rapidez da net cresce exponencialmente

fa – sim. e a escrita convencional irá definitivamente para segundo plano. para coisas muito específicas, como artigos de ciências humanas por exemplo. até as notícias serão gravadas.

w – a escrita tem a vantagem de ser silenciosa. às vezes queremos falar em silêncio com outra pessoa.

fa – ora, já existem tecnologias que leem o pensamento. na verdade leem as ondas cerebrais da fala: já se pode conversar com outras pessoas e comandar um computador em completo silêncio

w – ah sim

fa – outro problema da net é q ela é muito desajeitada. o computador é uma máquina grande demais, tem problemas de energia.

w – mas o laptop pode ser levado pra todo lugar e as baterias são cada vez melhores.

fa – vc não está entendendo. vcs querem uma simbiose completa homem-máquina, uma fusão mente-net

w – ?

fa – um óculos…

w – ah sim, os óculos-computadores

fa – nanotecnologia: um óculos será um computador mais potente que qq micro existente hoje em dia.

w – as lentes serão a tela

fa – sim, os segundos olhos do corpo. mas os óculos terão também um fone de ouvido, um microfone e uma câmera embutidos. toda a comunicação que funciona por ondas luminosas ou sonoras se dará por meio dos óculos.

w – o microfone certamente será esta máquina de ler a mente

fa – sim, a leitora de onda cerebrais da fala

w – e a câmera? como poderei ser filmado a partir de meus óculos computacionais? que eu saiba ainda se precisa de alguma distância para ser filmado.

fa – uma mosca

w – que?

fa – uma mosca cibernética aninhada nos óculos. ela voará à sua frente e te filmará. nanotecnologia.

w – estou num ambiente real, digamos, uma sala. ao mesmo tempo vou estar num ambiente virtual da net, vendo, sendo visto, ouvindo, ‘falando’ com a mesma naturalidade e instantaneidade do mundo real?

fa – é isto q vcs desejam. e suas máquinas já permitem isto. é o que vcs vão fazer.

w – e adeus escrita.

fa – se vc fala destes sinais gráficos fonológicos ou ideogrâmicos, sim. ela vai estar limitada a regiões restritas de sua cultura. mas a net não deixa de ser outra grafia, outra escrita.

w – como assim?

fa – que m. vc não leu o derrida? a fala, a vida q se fala, a vida que se significa (a vida q se vive afinal) já é escrita, escritura, cultura. o cérebro, a memória, já procede por escrituração: a mente é uma escritura.

w – sim, e daí

fa – daí que esta grafia q vc chama de escrita, a escrita convencional, é ‘apenas’ uma tecnologia da escritura. claro q é uma tecnologia importante: ela representou uma inflexão capital na vida de vcs: é só com a máquina da escrita q a máquina do estado e as metafísicas são possíveis.

w – a net seria outra escrita?

fa – sim. a net (na verdade o q mcluhan chama de mídias elétricas) é outra tecnologia, outra máquina de grafia: outro modo da escritura. ela tem o poder de interação instantânea da comunicação ‘real’ e, ao mesmo, tempo, o poder de reprodutibilidade da escrita: vc pode gravar os acontecimentos (verbais, visuais, auditivos) da net e manipulá-los depois, como se manipula um livro. e como no mundo ‘real’, na net você vai poder estabelecer uma comunicação audiovisual instantânea com as pessoas.

w – um poder imenso

fa – sim, máquina muito potente a net. na verdade, todas as máquinas de escrita são muito poderosas. há cerca de três milênios, quando a escrita tradicional se consolidou em alguns lugares do globo, o mundo de vcs se transformou radicalmente. as máquinas estatal, literária, judaico-cristã e filosófica só puderam existir com a escrita fônica ou ideogrâmica. as novas máquinas criam novos homens e engendram outras máquinas e formas de conexão/relação. a partir da grafia elétrica da net outras máquinas sociais serão possíveis. a máquina pop é só o começo. vcs estão num limiar imprevisível


diálogos impertinentes 3

28 Outubro 2008

fa – é o melhor q pode?

w- é

fa – tem que ser mais, gastar mais, gastar-se mais

w – se forçar mais eu piro (ou morro)

fa – é assim mesmo, a coisa é vampira. suga o sumo até o bagaço, nós te avisamos antes de entrar

w – tudo bem, mas tenho pelo menos que parar pra recarregar um pouco

fa – carga teórica ou poética?

w – teórica principalmente. a poética é imprevisível, vem em rajadas aleatórias

fa – a parada não deve ser nem contemplativa nem retrospectiva. apenas tática

w – que seja, é preciso recarregar. os corpos têm limites de energia

fa – é preciso forçar os limites, explodi-los. só há este sentido para o corpo, realizar a sua potência, vc não leu spinoza?

w – sim, nada de almas e verdades profundas para os corpos. mas não se chega à máxima potência em linha reta. às vezes é preciso, parar, recuar, desviar, desligar-se

fa – certo, mas tenha sempre em mente a potência do corpo. o sentido do corpo é a efetivação de toda a sua potência



diálogos impertinentes 1

17 Outubro 2008

w – que negócio é este do talento não ser individual?

fa – isso é coisa do gullar, dizer que o talento é individual. mas ele mesmo se espanta como na frança, na passagem do sec xix para o xx, havia tanto pitor bom. por que na frança e nesta época, por que não em outro tempo e lugar? será que a questão é mesmo individual?

w- é coletivo, depende do contexto, do ambiente artístico?

fa – e o que vc chama de contexto? acho melhor esta outra palavra, ambiente, pq é uma questão de atmosfera, de onda. por exemplo, vamos pegar uma onda pop, uma q vc conhece bem, a do rock brasil. há talentos individuais, claro: renato, cazuza, gessinger, herbert, arnaldo, nando, lobão etc. mas a chave da coisa é a onda rock que se formou, foram as miríades de acontecimentos políticos, econômicos, culturais, sociais, os garotos ouvindo rock inglês em brasília, a penetração tardia do punk rock em sampa, a desilução dos garotos brancos com sua classe média, com a ditadura e até com a democracia, a falta de utopia, a droga deixando de ser uma porta para um mundo alternativo e se tornando um ‘alívio imediato’ autodestrutivo. e, claro, um mercado fonográfico querendo coisas novas, rebeldes, com potencial de virar grana. estes são alguns dos elementos da onda rock dos anos 80, mas quem garantiria que a coisa ia vingar, ia vender, virar culto de massa, magnetismo hipnótico, ou seja, quem garante que ia dar numa onda? ninguém, podia não ter dado em nada e nós não saberíamos de nenhuma dessas individualidades com talento para compor hits pop rocks. eles teriam desistido, tornariam-se compositores de gingles (como muitos fizeram depois), músicos de estúdio, produtores.

w – quer dizer que não depede só do talento individual?

fa – não, não depende. mesmo pq o que é o talento individual? acreditamos que já é uma coisa dada, por deus ou pela genética, um potencial que basta ser desenvolvido. é provável q seja mesmo uma potência, a potência de um corpo, mas tal potência é muito indiferenciada, pode ir pra várias direções ou não ir pra lugar nenhum e depende de tanta coisa pra ela se desenvolver. o que digo é que quando se tem uma onda, uma atmosfera artística extremamente eletrizada, há mais possibilidade de as potências dos corpos se desenvolverem, se multiplicarem. alguns corpos inclusive, só realizam suas potências durante a onda, nem antes nem depois.

w- como foi o caso do paulo ricardo, pra continuarmos no exemplo?

fa – é, o paulo ricardo e o schiavon tbém. o RPM fez aquele primeiro disco sensacional e depois outro mto bom , o quatro coiotes, que ninguém prestou atenção, e se dissolveu. depois foi uma merda, não fizeram mais nada que prestasse. já o lobão, o gessinger e o nando reis continuaram muito criativos. mas quem garante que seriam criativos sem a onda do rock? no mínimo, sua criatividade seria de outra forma, pois até hoje o som deles é uma espécie de prolongamento da onda rock. tem uns que sabem prolongar uma onda para si, mesmo depois que ela acaba. conseguem fazê-la passar por outras atmosferas. para isto é preciso transformar a onda, variá-la infinitamente. mas as atmosferas que ela atravessam também se trasnformam.

w- quer dizer que a atmosfera pop de hoje ainda é transformada pela onda de rock brasil dos anos 80?

fa – e de uma forma muito ativa. é uma composição atmosférica: umas transformam as outras sem cessar. se bem que o que temos hoje não é uma onda, mas uma espécie de mar-asmo pop, povoado de marolas.

w- e na literatura é parecido

fa – é a mesma coisa, não só na literatura, mas na arte em geral e também no pensamento, na economia. pegue a filosofia por exemplo, o nascimento da filosofia. pq na grécia e naquela época? ninguém sabe exatamente: foi uma onda energética de pensamento e até hoje estamos sob seus efeitos.