A profecia de McLuhan

23 Abril 2009

Uns tempos atrás a simpática Agnes Arato, estudante de jornalismo, me procurou e perguntou se eu aceitaria responder algumas questões sobre a literatura na internet. O resultado foi uma boa reportagem sobre o assunto, publicada no blog da Agnes:

clique aqui para ler


no papel

30 Outubro 2008

Ultimamente ando criando os poemas direto no computador, mas a ESCreVivência 1111 foi elaborada no papel, pois quando ela quis sair não tinha jeito de ligar o computador pra digitar.

O bom do papel é que a bagunça da criação acaba se transmitindo a ele. A confusão dos riscos e rabiscos são uma espécie de índice (gráfico? grafia?) das vagas mentais de linguagem que se imbricam na convulsão criativa. E a gente nem sabe se a coisa vai prestar. Na maioria das vezes não presta. Mas me disseram (Fred e Jamesson, e eles entendem do riscado) que a 1111 vingou:

(Obs: Para visualizar a segunda imagem num tamanho maior dê um clique nela)


Tia N

18 Outubro 2008

Tia N tinha memória prodigiosa. Certo dia de julho, lembrando de meu aniversário, listou, um por um, dia por dia, os familiares que nasceram no mês. Quando acontecia algo engraçado, gravava na memória o dia e a hora e nunca mais esquecia. E quando relembrava ria como se acabasse de acontecer. Falava, gesticulava e ria sozinha, como se dividisse em duas ou mais pessoas que dialogassem entre si. Gravava os bordões que o Chico Flor repetia todos os dias na rádio Morrinhos. Um dia lembro que achou interessante uma figura de linguagem de uma canção (seria uma assonância, uma rima, uma aliteração?) e a repetiu em seguida, como que para gozá-la novamente. Como era meio cega, tinha um afeto especial pelos sons. Tia N como é que os gatos fazem no telhado? E ela imitava os urros dos bichanos na farra e ria um rô rô rô gostoso e batia uma palma de satisfação se remexendo em sua gordura de comilona insasiável.

Tia N. não gostava de bonecas e era temperamental. Quando nervosa mordia os braços, batia na própria cara, escabeceava a parece (ou emparedava a cabeça?) e fazia pactos com o diabo, já que Deus não resolvia nada mesmo (deixa de ser boba N, bradava a vó). Nos desentendimentos entre seus irmãos e as cunhadas ficava sempre do lado das últimas. Tia N. minha mãe nunca diz pro meu pai quanto dinheiro tem no banco, pode? Rô rô rô, bem feito, não pode dizer mesmo, senão que ele gasta tudo. Frequentava terreiro de umbanda contrariando o catolicismo da família e ninguém lhe passava a perna quando o assunto era dinheiro: esse ela via bem. Era marrenta e generosa, maliciosa e ingênua. Punha apelido nos sobrinhos. Quando aparecia pra dormir ou almoçar dizia, estilosamente como quando imitava os gatos no cio, Niiiidex.

Diziam que era de nascença. Eu, mais estudado, dizia que devia ser algum problema congênito do sistema nervoso como um todo, pois até pra andar havia uma certa dificuldade. Uma anormalidade, um erro genético. Mas era divertida. Sua presença inundava o ambiente com uma estranha atmosfera. Era diferente quando ela estava, outros ventos, outros jeitos de ver, outros pensamentos. Frescor de uma brisa inusitada errando por entre os os cérebros acertados. Errar assim, riscar assim o ambiente, não é a impressão que se deseja… deixar?


T

10 Outubro 2008

É um trapo. Bebe feito um gambá. Baixinho e magriça, voz titubeante, 20 filhos e um montão de netos, largados pelo mundo. Vive com a família do irmão. Um destino que não queremos pra nenhum amigo ou ente querido, um fodido sem grito, sem revolta nenhuma. Um ninguém.

Devíamos ter piedade. Há quem reze por ele. E de fato parece que caminha para a auto-aniquilação. Mas num certo sentido é difícil se deixar, assim, abandonado de si, corpo ao léu, tecido às traças. É uma férrea disciplina a do caminho mais fácil. Meu pai tinha uma olaria e a gente vigiava o fogo 3 dias e 3 noites. Fazia frio e então gente bebia. Foi aí que você aprendeu a beber T.? Foi. Outro dia me disse que chegou a F. e o chamou de baixinho. Rimos, são os dois mais tampinhas da repartição. Eu disse que quando tinha o Tota ele podia tirar um sarro dele. O  Tota não passava de 1,5. Rimos.

Há uma rua aqui perto do serviço. Não há residências. De um lado um muro mal cuidado e do outro construções do Estado, abandonadas. É uma desolação só, uma rua desbotada, sem ninguém a hora nenhuma. Aliás, nela é sempre hora nenhuma. Gostaria de ver o T. caminhando nesta rua. Ninguém em hora nenhuma, trapo sobre ruína: composição limpa, rigorosa, despojada.

É muito difícil chegar, como T., a ponto de ninguém. Nós sempre somos alguém, chefe de alguém, dono do nariz ou pelo menos pau mandado. T. também tem chefe e trabalho mas é como se não tivesse de tão inútil. Se não fosse do Estado estaria na rua há muito tempo (seria uma tragédia rápida). Mas T. é uma tragédia lenta, definhando seu ninguém aos poucos, comedidamente. É difícil andar assim desprendido de amarras. A inércia absoluta é uma prática rigorosa. Nós não conseguimos. Somos um emaranhado de amarras. Sempre nos mexemos e as amarras nos apertam mais, peixes se debatendo na rede. Estamos cada vez mais presos a nossas funções predestinadas. Difícil ser um merda, um ínfimo fio de merda num rio de merda. Seria preciso, antes, fazer um mundo de merda, um cosmo de excrementos em que nos evacuamos de nós, das teias que nos fazem nós, indissolúveis. Raramente transbordamos ao trapo.


B

10 Outubro 2008

Tem uma fixação por contar. Ontem me contava da nova caixa d’água que a empresa vai instalar. Tem 30m de altura, 3,18 m de diâmetro, toda cilíndrica. Estava sendo soldada no local. Chapa de aço de 3,8 mm de espessura que fazia um barulho metálico quando recebia pequenas batidas com as mãos. Informações do pessoal que estava montando. Mas eu disse, ô B, é muito alta, um edifício de 10 andares, será que eles não estavam zoando? Mas ele conferiu todas as medidas com sua trena, que sempre traz no carro.

B. não se preocupa com questões de engenharia. É em alguns detalhes que ele se fixa. Uns detalhes que para o engenehiro e os soldadores são apenas dados técnicos para o serviço ficar bem feito. E o serviço bem feito é apenas um outro dado para a renumeração. Mas para B. estes dados minuciosos e desgarrados do contexto técnico e financeiro é que são importantes, diria mesmo mágicos: uma espécie de canto de sereia.

Outro dia B. me dizia do material da película. Antes era nitrato e incendiava. É mesmo B. eu vi naquele filme, Cinema Paradiso, o incêncio. Pois é seu Wilton, depois passou a ser celulóide, que não é inflamável. Fiquei amigo do projetista de cinema seu Wilton: cada quadro tem 22mm X 18mm, medi com a régua. Me explicou o mecanismo de projeção, as lentes o som, os rolos de filme etc.

Eu gosto destas conversas com B. Entro nelas, opino sobre os detalhes, peço mais explicações. Poderia dizer sou piedoso. Nada mais equivocado. Esta perspectiva sobre o mundo, este mundo de B. realmente me fascina. Não consigo montar um mundo assim para mim, por mais que tente. O mais próximo que posso é quando faço poesia, mas viver mergulhado num mundo de detalhes desconexos de seu contexto normal não consigo.

B. recompõe as minúcias de sua percepção em outro contexto, muito difícil para nós. Nós fazemos o mundo igual, mundo de todo mundo. Ele faz outro mundo, não “o seu mundo”, não se trata de um mundo íntimo, só seu. Não, é também o mundo de todo mundo, mas por outro viés, como que pelo transvesso. Ele faz mundo, e pronto.


OBRA COMPLETA

26 Setembro 2008

Juntei minha obra completa, prosa e poesia até 2008, num só arquivo compactado (39,4 Mb):

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MÓBILES

2 Julho 2008

E-book de poesia para ser lido em tela cheia no computador:

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Mais móbiles: poemas que fazem parte, mas não cabem no formato do e-book:

no dentro do momento (introdução alternativa)

ouvindo várias variáveis

popdélico

Baixar todos: download do e-book mais os textos acima reunidos num só arquivo compactado.

Ouvir sol(o)furioso: Os móbiles não são versos, mas blocos verbais esburacados. Sol(o)furioso foi o primeiro poema escrito neste formato. É uma espécie de gatilho/potência que disparou os outros. Esta declamação foi gravada em outubro/07.

Ouvir a gosma do cosmo: outra declamação (suja) de um poema do e-book.

Poetas incorporados (na letra e/ou no espírito da coisa): Ataíde & Alexandre; Augusto de Campos; Belchior; Caetano Veloso; Camisa de Vênus; Concretistas; E A Poe; Engenheiros do Hawaii; Ferreira Gullar; Franco Átila; Gal Costa; Hanói-Hanói; Ira!; Leandro & Leonardo & Odair José; Legião Urbana; Lobão; Manuel Bandeira; Marina Lima; Milionário & José Rico; Olavo Bilac; Paralamas do Sucesso; Paulo Leminski; Raul Seixas; RPM; Titãs; Tropicalistas; Zé Ramalho.


De quando eu era um poeta velho II

26 Junho 2008

Moreira Cardoso in A Tradição travestida


De quando eu era um poeta velho

26 Junho 2008

Moreira Cardoso in A tradição travestida


De quando eu fazia poemas de amor

25 Junho 2008

ETERNAL
(Moreira Cardoso in Ciclo de Jaiaira)

Teu dorso louro, desço e teço
As sensações se cruzam
Emergem, jorram resgatadas
Me retorço em imagens que se desfazem lentas
Tantas e dispersas
Brutas
Que abruptamente petrificam bruscas
Todas e diversas, unas
Numa unidade imóvel
Tudo, eterno e infinitamente vasto
Instante
Não dura mais que isto, instável
E imaterial
Nada
Me contorço em chamas
Brumas
Submergem, choram amargos
Poros, soam mares
Sais, salgados ares violentam ventas
Fluidos doces viscos quentes, envolventes
Ventre da manhã
Miragem
Cores e sabores falsos. Gostos, tatos e contatos: mera quimera
Ardências frias, planas
Um jardim etéreo sem espírito
Frio
Teus fios aéreos, sérios
Teus gestos atonais nos ares: danças
Corte de ar em vários
Goles de ares, áreas de cheio e vazio
Cheiros
Preenchidos vácuos de essências e substâncias, várias
Arenas: digladiam-se sentidos
Guerras e guerreiros brutos


popdélico

29 Maio 2008

delírio: escuro quase estrela (kitsch)

24 Maio 2008

CLIQUE AQUI PARA LER/VER

a melhor visualização deste poema é em tela cheia

para isto, salve o arquivo no seu computador, abra-o e tecle <Ctrl><L>.


ouvindo várias variáveis

21 Maio 2008

fanzine

8 Maio 2008

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR

Fanzine é uma apresentção de slides.

Sua visualização ideal, portanto, é em TELA CHEIA.

Para isto SALVE o arquivo em seu computador e abra.

LEIAM/VEJAM OUVINDO ROCK!

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Nova versão: em 09/05/08 este post foi atualizado com uma nova versão do fanzine, com as seguintes alterações:
- Capa;
- poema do slide 5;
- formato: passou de pps para pdf.


no dentro do momento

5 Maio 2008

show da morte

28 Abril 2008

caros curiosos
louváveis linchadores
respeitáveis repórteres
no centro do picadeiro
a menina morta
gozo na redação
a massa convulsiva esporra
no meio das coxas
da televisão
é sangue mesmo
não é merthiolate
tão emocionante
um assassinato de verdade
e agora eu já vou indo
senão perco a novela
no próximo capítulo
quem matou isabella

A poesia nunca foi uma potência.
Hoje, menos ainda.
O poema pode muito pouco
nestes tempos pop,
mas pode ao menos rosnar.
Ele deve rosnar
sob as engrenagens
que o silenciam.

letra incidental:
metrópole (r. russo)


relâmpago – em tela cheia – 2 slides

23 Abril 2008

Cique aqui para baixar.

Obs.: Para uma melhor visualização dos slides (em tela cheia), baixe o arquivo em seu computador e abra-o.


Di(per)versões eletrônicas

14 Abril 2008

di(per)versões eletrônicas é uma série de poemas eletrônicos. Foram compostos por Frederico Assunção, Patrícia Martins e Wilton Cardoso. Os poemas são uma colagem digital de textos e imagens escaneadas, trabalhadas no Photoshop. São para ler/ver em tela cheia do computador.

Como o título insinua (diversões, perversões, versões) os poemas são marcados pela impureza. São eletrônicos, mas a partir de textos e imagens do papel. São um choque entre coisas visuais e verbais. Mas também foram concebidos para um choque entre olho e ouvido. Para serem lidos/vistos com trilha sonora.

Então, para uma experiência total de recepção, sugiro que ouçam canções (as que vocês gostarem) durante a navegação.

Divirtam-se. Pervertam-se. Vertam-se

Para baixar:

di(per)versões – alta qualidade de imagem (26,8 MB)

di(per)versões – versão compacta (8,5 MB)


relâmpago

10 Abril 2008


eletriCidade

9 Abril 2008


plus

9 Abril 2008


x-tudo

24 Março 2008

x-tudo.jpg


delírio

14 Março 2008

delirio.jpg


escuro

14 Março 2008

escuro.jpg


quase

14 Março 2008

quase.jpg


estrela

14 Março 2008

estrela.jpg


impossíveis montanhas

24 Janeiro 2008

impossiveis-montanhas.jpg


transmutar

23 Janeiro 2008

transmutar.jpg


brilhantina

25 Outubro 2007

brilhantina.jpg


móbile

17 Outubro 2007

mobile.jpg


a gosma do cosmo

8 Outubro 2007

gosmadocosmo.JPG


ruído azul

3 Outubro 2007

azul2.jpg


sol(o) furioso

28 Setembro 2007

sol-o.JPG


os nervos do nirvana

26 Setembro 2007

eles não são ninguém
nem bandidos, nem pastores, nem o gado
atingiram o (improvável) nirvana pop
são trapos
(f. átila)

palavras desperdiçam o tempo
dormindo ao relento
jogadas ao vento
vagabundas à procura de prazer barato
debochadas de tudo
que se diz
riscos de giz na calçada
dão-se ao silêncio inaudível
na zoeira infinita das ruas
elétricas
não dizem nada
mendigos murmuram esmola
numa língua desconhecida
sacolas farfalham
entre trancos de motores
uma canção qualquer risca o ar
reciclando amores de sempre
pulsos por fios e ares
sonhos à velocidade da luz
sirenes e alarmes
mendigos infestam calçadas
cantando num ritmo mudo


psicografias leminskianas

13 Setembro 2007

psicografia nº 1

a vida está por um fio
a vida está sempre por um fio
a vida, na verdade, é um fio
pronto pra se romper
pronto pra irromper

(a vida é um caso
de proliferação dos acasos)

é a canção mais violenta
que se pode
e explode em lava e pode
no entanto
a violeta mais delicada
colhida no seu riso
(ou na sua lágrima)

inferno
paraíso
a qual explosão
levará seu pavio?

psicografia nº 2

músicos, pintores
vivem em outro mundo
sons formas e cores
(que só a si se dizem
e nos dizem tudo)
coisas que não sei
mal sei palavras
palavras
elas não dizem nada
dizer
é tudo que podem

toda psicografia é uma diluição caro internauta
do leminski, então, nem se fala
logo ele, uma diluição extra-rarefeita do concreto
não estranhe então esse sabor de nuvem imperfeita
não pergunte pela moral da forma
nuvem que se preze é de moral duvidosa