A incrível viagem

22 Outubro 2009

Incríveis viagens: colagem de Frederico Martins
Incríveis viagens: colagem de Frederico Martins

Por que esta colagem de Frederico Martins me fascina tanto? Parafraseando Leminski, tem que ter porque? Precisamos, no entanto, arriscar linhas de texto em torno desta questão, por que? Mesmo sabendo que não a responderei, que apenas irei dilatá-la tentando justificar o fascínio…

A base da colagem é a foto de um menino numa janela de uma casa de madeira. A esta foto se interpõe outra, de pássaros (corvos?) voando num céu azul coalhado de nuvens brancas. O menino dorme na janela – sonharia? O artista abre, na vertical da foto, uma dupla janela inusitada: de fato, os pássaros voando aparecem por duas janelas celestes que fendem verticalmente a foto de base. Nas paredes da casa são coladas/abertas esta janela inusitada dos céus e suas aves. São janelas do sonho? O sonho do menino?

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Resposta dos exus a Wesley Peres

9 Outubro 2009

publicado originalmente em 05/10/2009 no vida miúda

Wesley, eu ia responder às suas conversações, mas Franco Átila e Zé Pelota me tomaram o teclado (e o corpo) na hora. Fique com a resposta deles então:

ZP – Caro Wesley, o problema, na verdade, não é estar na moda (nem fora dela). O que me incomoda são os que usam a moda intelectual do lado escuro da força para disfarçar a falta de criatividade do escritor, ou mesmo do leitor.

FA – Para estes, basta vestir a máscara chique de um certo niilismo amoral e demoníaco, citar Nietzsche e a vontade de potência e está pronto: temos um intelectual sofisticado.

ZP – Aliás, este é um bom atributo para tais criaturas, ‘sofisticação’: o máximo que conseguem com a bad moda é serem sofisticados, e só.

FA – O que certamente não é o seu caso Wesley, pois independente de estar ou não na moda do mau/mal, você é um ótimo poeta (e um leitor idem)– se não achasse isto não diria, tenha certeza.

ZP – E se o lado negro da força te dá energia caro Wesley (para nós também ele é o mais farto manjar) esteja certo que você não escreve bem apenas por se render aos seus (des)encantos

FA – Como Jorge de Lima e Murilo Mendes não foram bons poetas apenas por serem carolas.

ZP – O problema são os que pensam que apenas ser mal (ou bonzinho) é o suficiente.

FA – O problema é o cara estar certo de ter achado na maldade/ceticismo/niilismo/amoralismo não apenas uma fonte de energia para a sua criatividade, mas o Santo Graal da boa literatura, seja como escritor ou como leitor/crítico.

ZP – Neste terreno eu prefiro a incerteza: não sei a fórmula do elixir da boa literatura ou da boa arte.

FA – Eu, se soubesse a revelaria a W e recomendaria que ele a envazasse em livro de auto-ajuda.

ZP – W ficaria rico, sem dúvida nenhuma.

FA – E se afirmamos o incerto com tanta firmeza, é porque tivemos o privilégio de estar com Raul Seixas no estranho ritual que ele relata na ‘Pedra do Gênesis’:

“No fundo do oceano existe um baú que guarda o segredo almejado desde a aurora dos tempos por gênios, sábios, alquimistas e conquistadores. Eu conheci esse baú num estranho ritual reservado a poucos. Hoje eu posso enfim revelar que essa busca de séculos foi em vão.”


Conversações com “A vã procura do Santo Graal”

9 Outubro 2009
publicado originalmene no vida miúda em 05/10/2009

de qualquer forma, Wilton, sendo ou não um, vá lá, “modismo pós-modernista”, prefiro mesmo pender para o ser mau, porque, à minha volta, está cheião de gente boazinha, professoral, responsável e eco-responsável etc.

Cada dia acordo de um jeito, e isso é uma espécie de indiferença, mas talvez seja apenas pendular entre pólos múltiplos e assimétricos. Escrevi um texto aí pra falar de estruturalistas e antiestruturalistas, pra dizer que não tenho religião, quando na verdade penso que tenho todas, todas as religiões, múltiplos fetiches e vícios.

Ando cansado das minhas próprias recomendações para mim mesmo. E ando niilista como o diabo rs. E este niilismo, ao invés de me impelir a aguentar tudo, a me compelir a um bom gosto qualquer, tem sido, esse niilismo, a fonte das minhas alegrias. A dissolução tem sido meu objeto transicional, minha felicidade de bolso.

Gente amarga como Cioran (figura pop entre os da moda nau do mal, me incluo entre os desta moda) tem me feito sorrir e não acreditar em nada tem sido minha religião mais constante.

O que não significa que, com isso e por isso, eu tenha me ferrado menos, ou mais.


A vã procura do Santo Graal

3 Outubro 2009

As boas intenções por si só não fazem boa literatura. Mas isto hoje é lugar comum. A moda intelectual agora é ser cínico, politicamente incorreto, provocador, niilista (o niilismo, pensam, é não acreditar em nada e descer o pau à direita e à esquerda, acima e abaixo). O negócio é ser ácido, anti-sentimental, anti-professoral (mas não marginal e sim daquele tipo que dá aulas ao professor, massacrando sua mediocridade). Massacrar, o lance é massacrar o leitor, a sociedade, os bons modos e até a si mesmo, por que não? Que forma estranha de vaidade! O negócio é ter bom gosto, é ser exigente esteticamente, duro consigo e com os outros. E não é mau que esta dureza seja também política, uma política de vida e mesmo social. Talvez o regime político ideal para estes seja o anarquismo, uma espécie de anarquia sem fraternidade nem amor. O negócio intelectual agora é ser cético com o homem, é ser desiludido, mas sem cair na babaquice sentimentalóide do lamento fácil – não, não, seja forte e suporte nossa miséria com altivez. Seja cordial (ou não) nas relações pessoais, mas no ofício de ler e escrever o chique mesmo é ser amoral, agressivo, corrosivo e condenar como fraqueza inaceitável toda e qualquer tentativa de achar ou querer achar valores e sentidos para a arte, a vida e o mundo. O negócio agora é ser mau. No entanto, lamento informar aos demônios da hora que as más intenções e o ‘bom’ gosto exigente também não fazem, por si só, boa literatura.


pós-????????

27 Junho 2009
Desde… talvez desde o renascimento (ou seria desde o barroco?) há, no campo da filosofia e principalmente das artes, a disputa entre modernos e antigos. Donde se pode inferir que desde a aurora capitalista (ou seria moderna?) o problema do novo e seu confronto com as tradições nos angustia a nós, ocidentais: talvez nos definam como homens: estamos sempre às voltas, cada vez mais às voltas com o futuro, ora louvando os novos tempos que virão (utópicos ou revolucionários), ora temendo e amaldiçoando as traições à tradição, à divindade e aos valores (nostálgicos ou reacionários). A poesia moderna segundo Paz, se define exatamente por este paradoxo que ele chama de tradição da ruptura: os poetas modernos evocam a analogia e seu mundo espelhar, fechado e mágico, ao mesmo tempo que desejam a ironia, a história e a revolução do novo: são nostálgicos revolucionários.

Este tempo literário (mas também um tempo artístico em geral), este duplo desejo paradoxal que talvez venha desde a aurora da Europa moderna, que certamente se agudizou no romantismo e extrapolou todos os limites na primeira metade do século XX, esta arte burguesa que tanto se rebelou (nostálgica ou utopicamente) contra a própria burguesia e que nos legou obras e autores maravilhosos, este tempo moderno (num sentido amplo do termo), parece que acabou no pós-guerra. Parece que não existem mais as disputas entre modernos e antigos, entre a mudança e a conservação, entre o movimento e a inércia, o novo e a tradição. Os novos de cada época se chamavam (ou eram pejorativamente chamados) de modernos, em contraposição aos antigos. Agora, os ‘novos’ se intitulam (ou são pejorativamente chamados de pós: pós-modernos, pós-modernistas, pós-metafísicos, pós-literários etc). Em todo caso, a divisão entre o que chamamos de pós-modernos (na falta de nome melhor, mas os modernos eram assim chamados também por falta de nome melhor) e os outros (modernos, modernistas, neoclássicos, marxistas, estruturalistas etc) é de natureza distinta: não se trata mais de disputas dentro de um sistema estético moderno: o campo das artes parece estar se redesenhando de outra forma, de um modo que não há mais a possibilidade de oposição entre o novo e o antigo.

O que houve na segunda metade do século XX, que persiste até hoje e que chamamos de pós-nãoseioquê foi uma mudança na dinâmica das forças do campo estético, um ruptura, ou melhor, um dissolvimento do jogo entre analogia e ironia, ou seja, o fim da tradição da ruptura: se por modernidade aceitarmos a definição de Paz, estamos realmente numa pós-modernidade. Minha intenção aqui não é louvar nem condenar a situação atual deste mundo capitalista e de suas artes em estado de pós-tudo, mas tentar entendê-los. Tenho muitos motivos para condenar a época atual, diria mesmo que tenho razões de sobra para odiá-la (confesso que a odeio deveras). Tenho outro tanto de motivos para farejar nela coisas positivas e principalmente oportunidades para agir sobre ela, para corromper a sua alegria fútil. Nos meus poemas creio que exerço melhor estes movimentos de amor e ódio.

O que preciso, no entanto, é ser um homem de minha época, é aceitá-la em sua integridade. Esta aceitação não é sinônimo de conformismo, mas significa afirmar, com todas as minhas potências: “estou aqui, a situação é esta, vou enfrentá-la como está posta, sem fingir que seja outra”. Preciso me bater contra este mundo, contra o agora, mas é preciso conhecê-lo. Para tal, estou convencido que as ferramentas conceituais ditas modernas não servem ou, como nós, caipiras, costumamos dizer, não dão conta. Não porque as idéias modernas sejam simples ou toscas demais, muito pelo contrário, são admiravelmente complexas e precisas. Ocorre que o campo literário (e artístico) não é mais moderno no sentido que Paz o definiu, então os conceitos feitos para aquele mundo não podem (a não ser por efeito de contraste) nos ajudar a pensar o agora. É necessário forjar ou adaptar outros conceitos para conhecer o hoje com o qual quero me bater – como um guerreiro deve conhecer os meandros de seu inimigo, como o caçador deve dominar os hábitos de sua presa ou como a caça deve saber muito bem das armas e pontos fracos de seu predador.

Se o moderno nos define como homens ocidentais, o advento de algo distinto da modernidade talvez seja o advento de uma outra humanidade (que, no entanto, não parece ser, de forma alguma pós-capitalista, pelo contrário, o que assistimos tem o cheiro terrível de um ultra-capitalismo). Talvez por isto, por esta incerteza das épocas de transições, o nosso desnorteio, nossa falta de chão, ao que parece, mais aguda que a dos modernos. Talvez. Talvezes, talvezes, é preciso se de-bater também com tantos talvezes.

poema: pós-tudo (augusto de campos)

Coragem!

27 Junho 2009
O mundo de Baudelaire era um caos, era assustador. O mundo dos românticos já era. O mundo moderno enfim… Imaginem o mundo do modernismo (o ismo é o sufixo da obsessão: modernismo = moderno obsessivo). Naquelas épocas devia ser um horror ser um bom leitor ou mesmo crítico literário: tantas correntes e contra-correntes, tantos ismos, novas poesias e teorias, os critérios e valores literários se desmanchando e refazendo a mil, tantos e tontos, quanta coisa fervilhando! Salve o Candido que não teve medo de sua época e arriscou acompanhar os autores modernistas: é graças a gente como ele, graças a leituras como as suas que podemos traçar uma linha de sentido (mesmo que para contradizê-la) rumo ao que hoje é o canônico modernismo: imagina, ensinar os andrades na escola, onde já se viu Bilac, os desmedidos primitivos tomando o seu lugar, quem diria! Salve o Candido e os bons leitores de sua época que tiveram a generosidade de deixar seu espírito se esbarrar, tropeçar e cair nos abismos daquela literatura absurda… e fecunda!

Cadê vocês Candidos de hoje, protegidos pelas muralhas de sua cátedra ou pelas barricadas das nostalgias daquela época? O que mais se ouve é: “aquilo sim é que eram épocas, que eram poetas, que era poesia, não se fazem mais drummonds & bandeiras como antigamente, não há mais grandes poetas & poemas”. Mas ora bolas, não é que, na época do modernismo não se dizia o mesmo dos parnasianos? “não se fazem bilacs”: a mesmíssima ladainha choramingas.

Ah bons leitores e aspirantes a… Ah críticos e aspirantes a… ah acadêmicos: ousem cavalgar os bytes, ousem deixar se esbarrar por sua época e pelos escritores que labutam nela. Tenham a coragem de mergulhar no mundo caótico da era dos pós proliferativos, da relatividade absoluta dos critérios e valores literários, éticos e estéticos: quando o valor é relativo, quando não há fundamento, aí mesmo é que há a necessidade de se criar, pesar e examinar cuidadosamente o valor (que se torna obra humana, demasiadamente humana). Tenham coragem de tomar o cálice da escrita do desnorteio, inscrita em (a partir de) uma época pop: poesia em tempos pop – para ela é preciso uma leitura que ouse se bater com o tempo, com o agora, por mais atordoante e movediço que ele seja.

Meus caros acadêmicos cuidadosos, meus caros leitores receiosos, meus caros humanos sedentos do conhecimento anexato que só a arte pode saciar, deixem-se mergulhar nos abismos dos poetas de nosso tempo, que tiveram a coragem de sondar e se deixar afetar por nosso tempo. Separem o joio do trigo, discutam, disputem valores, imbriquem-se no jorro elétrico da arte em bytes. Vocês verão que há fendas luminosas (de tão tenebrosas) abertas no caos por estes artistas de pensamentos, sensações e afeições elétricas. Coragem!


A crítica perversa: Machado e Schwartz

22 Maio 2009

É muito provável que Machado de Assis não gostasse, se fosse vivo, da leitura que Roberto Schwartz fez de sua obra em “Ao vencedor as batatas” e “Um mestre na periferia do capitalismo”. Certamente não gostaria, Machado não apreciaria uma crítica marxista, que traria os seus personagens dos dilemas universais do espírito para as concretudes do materialismo dialético. Machado, embora mestiço de origem pobre, era de mentalidade burguesa, diria mesmo direitista, fundador da Academia Brasileira de Letras e amante das honrarias dos altos círculos sociais de sua época. A crítica corrosiva e demolidora de seus romances, embora se dirigisse a tipos e personagens ‘representativos’ dos homens de sua época, de sua sociedade, certamente tinha por alvo o homem em geral: tratava-se de filosofia e psicologia (ou antropologia) cética e não de crítica social. Se fosse possível isolar o pensador do artista, Machado seria um filósofo, um psicólogo ou um antropólogo do espírito humano e não um crítico da sociedade patrimonialista e das elites do Brasil do século XIX.

Schwartz deturpou esta ‘intenção’ inicial machadiana de revelar, por sob o homem concreto brasileiro a miséria do homem em geral (Machado acreditava que o homem, de qualquer época e lugar, era um ser miserável). Schwartz coloca mais um espelho neste jogo de aparência e verdade: se por trás do homem concreto brasileiro há o espírito humano em geral, este universalismo burguês que se lê como sentido último no romance de Machado ainda oculta outra profundidade que talvez nem mesmo o autor tenha percebido: os conflitos sociais e concretos que movem os homens, cuja natureza se revela radicalmente histórica, mundana. Schwartz, como bom marxista, não crê em espírito humano universal e esta clave de leitura significa, para ele, a aplicação da ideologia burguesa à crítica romanesca: por trás das malezas do mundo tal crítica veria sempre a natureza imperfeita do homem, o que é uma forma de naturalizar e, portanto, aceitar as injustiças e o sofrimento que os homens impõe aos outros homens.

Por trás da expressão da natureza (imperfeita) do espírito humano (o sentido mais profundo que uma crítica burguesa encontraria nos romances de Machado) Schwartz flagra o interesse e o conflito social como motores da ação humana na obra de Machado, que expressaria, em última análise, o homem como construção histórica numa sociedade escravocrata e profundamente desigual, ainda pré-capitalista e dominada a ferro e fogo (literalmente, no caso dos escravos) por uma pequena elite que vive de rendas e/ou da monocultura de exportação: nada de espírito universal, trata-se de homens concretos numa dada época e lugar. Em vez da essência do ser humano universal, Schwartz lê estruturas sociais historicamente determinadas.

A crítica de Schwartz não deixa de ser uma subversão, uma leitura contra o autor ou, pelo menos, contra o que se convencionou achar o que era o autor. Trata-se, como diz Deleuze, de enrabar o autor e fazê-lo parir uma monstruosidade, ou seja, fazer sua obra dizer o que certamente não se queria (mas em literatura isto é uma dádiva, é a fecundidade infinita da obra). De certa forma, não é esta a relação entre a obra do próprio Machado com a dos românticos (especialmente José de Alencar), desejosos de exprimir o genuinamente pátrio? O romance de Machado, a partir de ‘Memórias Póstumas’, não deixa de ser uma crítica subversora do nosso romance romântico, fazendo a narrativa dizer como e o que não se queria: Machado não fora acusado de ser inglês demais?

Mas esta leitura perversa, contra o autor, contra a doxa (mesmo a dos sábios) não seria a melhor? Não seria a única que importa?


Dos moribundos

13 Maio 2009

Cada vez que entro numa loja de CDs (ou na seção especializada de um supermercado) sinto que estou entrando numa coisa mais próxima de um museu do que de um comércio. A venda de CDs novos, sem dúvida nenhuma, vai acabar, já está acabando: só os sebos sobreviverão, para aficcionados. O destino da música, vendida ou pirateada, é a internet.

A mesma sensação de cemitério anda me acometendo, com menos intensidade, quando entro numa livraria ou quando recebo convite para lançamento de livros. Editoras de livros de papel andam me cheirando a doentes terminais. Talvez a sobrevida dos livros impressos seja maior que a dos CDs – que certamente desaparecerão em breve. Mas quando olho a internet e a possibilidade que ela oferece de acesso a toda escrita do mundo em alguns cliques, quando vejo os novos readers cada vez mais se aproximando dos livros de papel em conforto e portabilidade, mais me convenço que o livro de papel está com os dias contados. E, com ele, toda uma lógica do mercado editorial, da confecção à distribuição, e toda uma maneira de ler: talvez a própria idéia de livro se altere ante o incessante fluxo de grafia (escrita e audiovisual) da internet. Como ficará a literatura num meio totalmente eletrônico? Um meio em que a escrita não se torna obsoleta, mas que seguramente está se tornando secundária em relação a imagens e sons. No máximo, a escrita terá primazia apenas em nichos específicos, como nas humanidades, pois até as notícias e bate-papos tendem a se tornar audiovisuais.

No caso da poesia, a internet está se transformando num terreno fértil para manifestações líricas que extrapolam a escrita verbal, como a poesia falada, a canção, a poesia visual (com e sem movimento), o rap etc. A poesia escrita, strictu sensu, já divide e terá que dividir ainda mais espaço com estas formas de poesia marginalizadas e desprezadas pela cultura erudita. Certamente ainda haverá espaço para a poesia escrita, pois embora a escrita verbal esteja se tornando uma mídia secundária na internet, não há sinal de que vá ser abandonada: há regiões dos saberes em que ela é indispensável. A questão é saber como fica a arte da palavra escrita (literatura) neste novo espaço. Não sei responder, mas é ilusão acreditar que a relativa estabilidade de que o campo litarário gozou, de Homero à primeira metade do século XX, persistirá. As regras do jogo literário e suas conexões com a sociedade já estão mudando substancialmente, pelo menos desde meados do século passado, e creio que mudará mais.

De alguma forma, os escritores têm que apreender estas mudanças que estão ocorrendo no campo das mídias e de sua arte, têm que dar sentido e valor a elas, tornando-as legíveis e incorporando-as em seu ofício. O artista precisa (pelo menos tentar) saber onde pisa.


Puxando as felpas: um poema de Wesley Peres

28 Abril 2009

Procuro, como G. H., procuro, intransitivamente.
E não acho, e o que me escapa, me conduz
—  não me conduz-para, me conduz.
Procuro a fórmula precisa, exata,
para dizer o nome do que não é nome:
o mioloconcretoinvisível
o que sustenta a nervura nevrálgica,
o casulo que não resultará
em borboleta sequer.

Procuro a coisa morta
— que pulsa que pulsa que pulsa —,
como um solsempelemcarneviva.

Procuro a janela para o fora da vida,
isto é: o cerne da vida,
isto é: o vago vazio das vagas,
a anemnemônica aliteração anômala,
vazia,
autofagia nossa de cada dia,
pão solar-sonoro,
que nos causa

o desejo de nomear
os inumeráveis alvéolos da morte.

(Wesley Peres)

Não se pode dizer que um texto é bom em si, estruturalmente ou ontologicamente. Digamos que um texto, qualquer texto, deixa felpas. Se elas permitem que sejam puxadas, quer dizer, se deixam-se proliferar, ou ainda, se os leitores deste texto necessitam prolongá-lo, ecoá-lo por torção e distorção, então dizemos que um texto é fecundo, que se deixa fecundar por e com outros textos e pessoas. Os textos são feitos de gatilhos, são corpos impregnados de gatilhos e assim também são os corpos dos homens. Gatilhos existem para serem disparados e quando eles o são dizemos que os corpos se imbricam: é a própria fecundação. Tentemos puxar algumas felpas do texto acima, de modo aleatório e parcial (totalizações parciais de sentido).

Procuro a janela para o fora da vida, [1]
isto é: o cerne da vida, [2]
isto é: o vago vazio das vagas, [3]
a anemnemônica aliteração anômala, [4]
vazia, [5]

O cerne da vida está no seu fora. Que fora seria este? O fora dos organismos, o fora da temporalidade? Pois a vida se dá em organismo limitados no tempo. Aparece aqui o signo do infinito espacial e temporal fora da organização espaço-temporal dos organismos. “o vago vazio das vagas” alude ao mar imenso e aleatório de repetições e diferenças ilimitadas. Este fora remete também ao caos, no qual as formas pulsam precárias e desaparecem antes de qualquer fixação. O fora da vida é o caos infinito? Atentemos ao trabalho fonético do trecho, principalmente o aliterativo, para o qual o texto chama a atenção do leitor. O fonema v de vida se repete em vago, vazio e vagas no verso [3] e em vazia no verso [5]. Palavras que são signos da ausência e da indiferenciação e que, pelo trabalho aliterativo ecoam estes sentidos em vida. O “vago, vazio das vagas”, pelo arranjo sintático é sinônimo de “cerne da vida” e pelo arranjo fonético impregna materialmente a palavra de “vida” de de vacuidade e indiferenciação. É uma saturação de som e sentido que atinge, inclusive, a palavra fora (cerne da vida) e cujo /f/ é, como o /v/ uma labiodental. O núcleo da vida é, paradoxalmente, o anti-núcleo por excelência, isto é, o seu fora, indiferenciado, ausente, caótico e infinito. É ainda a repetição inconsciente (ou esquecida, ou esquecida ante da lembrança) e fora do normal, desviante, diferida. É o que se repete fora da normalidade e do apreensível e como diferença no caos infinito. O verso quatro evoca o acaso no caos, pois o acaso se vincula à anomalia e ao não apreensível. Mais uma vez a aliteração aludida se faz materialmente em todo o trecho. Por um lado as nasais /n/ e /m/ proliferam nos versos  [1], [3] e [4]. Por outro os flepes /r/ e /l/ se repetem nos versos [1] e [4]. Os flepes e as nasais se agrupam ao lado da anomalia, no verso [4], enquanto as labiodentais parecem se aglutinar no terceiro verso, no qual o caos disforme é afirmado. E ambos são, pelo arranjo sintático do poema, sinônimos da vida. A palavra fora parece fazer a junção destes dois grupos de fonemas, reunindo um flepe /r/ e uma labiodental /f/. É no fora que a vida pulsa.

Este fora seria a morte? Sim, a resposta já está dada no poema, antes e depois deste trecho. Por que não falamos logo da morte, tentando levar a interpretação para o caos e o acaso? Talvez porque a morte seja uma resposta paradoxal demais (um bloqueio abrupto demais às passagens/conexões da interpretação) para dizer que abriga o cerne da vida. Então tentamos vê-la pulsando e tentando se diferenciar (fixar) nas miríades de vagas caóticas que o poema evoca no trecho que separamos. Dizer que a vida está na morte não quer dizer que esteja além da morte, num sentido sagrado. Não é isto que queremos extrair do poema. Queremos extrair o que há, na morte, de circulação de fluxos contínuos de desejo indiferenciados que, por um acaso (mágico?) se diferenciam em vida limitada no tempo-espaço. Uma vida que, apesar de limitada ainda se deixa penetrar desses fluxos indiferenciados, pois o ser vivente é como se fosse uma estabilização provisória numa atmosfera caótica, ele mesmo é uma atmosfera particular e relativamente ordenada (turbilhão) em meio à indiferenciação atmosférica. É como se o organismo fosse uma corpo atmosférico com uma pressão e densidade específicos que se afirma por algum tempo nas vagas vazias de forma e sentido, em jogo contínuo com estas vagas, indicando que entre o fora indiferenciado e o dentro do corpo não existem limites claros e permanentes, ou seja, o corpo é todo poros ou, pra usarmos uma palavra do poema, janelas. O que se deseja no e pelo poema é se aproximar destas janelas e se deixar atravessar pela vida enquanto limiar entre caos indiferenciado e corpo precariamente individuado neste caos.

Ler assim tem a vantagem de prescindirmos do ser e do sujeito. Eles são estruturas, às vezes, fixas demais e o poema dispõe suas felpas de modo que possamos dispensá-los para a sua leitura. Ler assim permite-nos que atinjamos o desejo em sua materialidade imediata, sem, no entanto, que a magia seja posta de lado. Muito pelo contrário, pois a mistério permanece mais radicalmente na medida em que as verdades (do ser, do sujeito), em que a significação da vida, em suma, não é nem mesmo adiada como utopia ou privilégio de uma outra dimensão da vida. Ela, a vida, é simplesmente a presença icognoscível que se tenta nomear (e tenta se nomear):

o desejo de nomear
os inumeráveis alvéolos da morte.

O poema é a busca desta nomeação, a busca da própria vida. Nomeá-la é mais um lance para fixá-la em meio às vagas de caos. O movimento do poema (de todo texto, em úlima análise) é de diferenciação em meio ao caos dos códigos. Estes são signos do apreensível, da gnose, mas quem lida com seu tecido sabe que suas dobras são como as “vagas vazias” do fora da vida. Em última análise os códigos diferenciam a partir do mesmo mundo em que a vida se fixa e o fora desta e o daqueles formam um mesmo continuum de caos. O texto também diz respeito à fixação do poema no caos dos códigos, num movimento análogo e remissivo à estabilização precária da vida.

O poema, ao seu final, diz, de viés, o infinito, ao se referir aos “inumeráveis alvéolos da morte”, explicitando, no momento chave de um final sintetizador, a pluralidade em que a vida está imersa. A vida está em perspectiva com o inumerável inapreensível. É um poema refratário a fechamentos em sua abordagem da vida, como coisa e como nome. Talvez esteja além, ou aquém, de uma apreensão crítica que o classifique no que chamaríamos de lirismo subjetivo-ontológico, que privilegia os problemas do sujeito e do ser, embora esta talvez seja sua matriz longínqua. Outra possibilidade de o apreender seria através de uma crítica que privilegiasse a construção de linguagem e neste caso o crítico poderia facilmente argumentar que o efeito do poema decorre do seu rigor lingüístico, do qual o cerrado jogo entre som e sentido seria uma amostra. Mas nem o rigor ontológico-subjetivo, nem o rigor de linguagem e nem mesmo um sincretismo ou dialética de ambos, explicam um poema e suas “qualidades intrínsecas”. São fixações (neuroses) da crítica que necessita de suportes/crenças para se prender. Um texto artístico é como a vida (é um tipo de vida e este poema que ora lemos faz alusão a isto) e sua apreensão é da ordem da intransitividade, como a busca que se empreende no poema:

Procuro, como G. H., procuro, intransitivamente.
E não acho, e o que me escapa, me conduz

A busca do crítico talvez seja mais fecunda quando se imbrica com a do poeta e se torne apenas mais um ato de nomear o inominável, um feixe a mais no enfeixamento incongruente e contínuo dos códigos e da vida.


Diversos Afins

30 Novembro 2008

Minha (?) lira cética e realista saiu na Revista Diversos Afins.

PS 1: Tá uma caipirice só neste número da Diversos Afins: além deste que vos escreve, Wesley Peres e Daniela dos Santos estão por lá também – como diriam os dois filhos de Francisco e L&L: de gyn para o mundo!

PS 2: A lira cética e realista faz parte de uma seção do popsia que chamei de antiquário das liras. A maioria dos poemas desta seção é daquele tipo que, depois de terminados, examinados e bem pesados, me pareciam ser muito mais de outros poetas ou épocas do que meus ou de agora. Bloom chamaria isto de angústia da influência, Pound diria que são máscaras/personas, Pessoa evocaria (semi)heterônimos, os membros da ordem concretista diriam que se trata de diluição dos mestre etc etc. Mas não tem jeito, os poetas e as liras do passado nos incomodam, nos cercam, nos impregnam. É pelos antigos, afinal, que nos tornamos escritores e muitas vezes nos damos conta de que o que escrevemos poderia ter sido escrito (e melhor, para nosso desconsolo) por nossos mestres do passado. Pra mim, a coisa se parece muito com o que os espíritas chamam de mediunidade. É como se nosso corpo estivesse possuído pelo espírito dos poetas mortos e, de repente, acabamos de escrever um poema à Drummond, à Bandeira, à Mário. Então dissemos, mas que merda, por que não me deixam em paz? É o tipo de coisa que nos deixa encabulados, apreensivos, afinal queremos ser originais, ter voz própria e não ficar falando pela voz dos mestres, cometendo o pecado concretista da diluição. Ao agrupar estes poemas sob o título de antiquário das liras, resolvi assumir a sina da mediunidade/diluição. Quem sabe assim os espíritos não me deixariam em paz dali em diante? Quanto à lira cética e realista, assim que acabei de escrevê-la, disse a mim mesmo, é Machado de Assis, não o da poesia, mas o da prosa – menos mal, porque ser médium de poesia parnasiana seria o fim da picada, se for pra diluir, pelo menos que seja coisa boa. Era o Machado cético e demolidor da prosa que escrevera o poema, cujos versos finais pareciam recuperar o final desolador do Quincas Borba, com aquelas estrelas tão antipoéticas, se lixando para as dores humanas. Daí o título, uma homenagem ao bruxo do Cosme Velho que infernizou meu teclado (os espíritos andam muito high tech ultimamente, nada de penas ou canetas!). E agora o pessoal da Diversos Afins publica a lira cética e realista numa edição-tributo a Machado de Assis! O editor, Fabrício Brandão, me explicou que resolveu fazer isto porque os textos confluíram para a sua obra. Eu acho que foi coisa arquitetada do além, só pode ser. O bruxo baixou na revista!


abandonar todas as posições

1 Novembro 2008

Quando fiz o “escreviver” pensei que ele finalizava o processo de escrita visual dos móbiles, pois não tinha nada a ver com suas telas-poemas: foi escrito no bloco de notas e assim permaneceu, versos alinhados à esquerda, limpos de qualquer visualidade. Pensei que depois do “escreviver” ia passar um bom tempo sem fazer poesia. Seria um poema único, não se parecia com nada antes nem se pareceria com o que viria, se viesse. Mas acabou por ser um prenúncio das ESCreVivências. Vá entender a poesia.

Agora, fuçando na minha pasta temp (de temporários), descubro um texto que poderia ser também o prenúncio das ESCreVivências. Mas ele foi escrito em janeiro de 2007 (pelo menos é a data do arquivo do Word). Nesta época eu estava escrevendo o popsia e ainda não tinha começado os móbiles. O tal texto seria também um prenúncio deste?

Em todo caso, foi por estes tempos que desisti definitivamente de querer publicar no papel, na verdade, de querer ter a chancela de editoras e ficar mesmo no submundo do submundo do submundo. Explico: poesia publicada na net, fora do circuito oficial das editoras, é o submundo da poesia que é o submundo da literatura que é um submundo das artes nestes tempos pop-audiovisuais.

E também foi por estes tempos que creio ter atingido uma certa maturidade poética: o popsia (e seu par em prosa, o tratactus marginale) talvez seja meu primeiro livro esteticamente consistente — agora se presta, caro internauta, já é outro papo — prestar, em poesia, é difícil pra cacete — é muito mais difícil que ser consistente.

Já escrefalei demais, putaquepariu que mania de escrever pelos cotovelos. Vamos ao texto feito no começo de 2007 (e que, pelo jeito, sinaliza o começo de muita coisa mais) e que deveria ser o único rabisco deste post:

abandonar todas as posições de uma guerra que já não é minha – lançar no mundo - abandonar as ambições de sair do anonimato - ser mais uma voz misturada - mais um corpo entre tantosentrar noutra luta - é preciso um caminhoum destino - traçar um destino - com o que se tem - não escrever mais - ou pelo menos não como antes – escrever ler para viver - encontrar outros modos de vida outra vida outra cidade outras – vias

***

P.S. Já que estou escrevendo pelos cotovelos mesmo, não custa dar uma nota. Eu gosto do Gessinger pra caramba, este poema que o diga. E  agora o cara parece que deu de abandonar todas as posições também. Ele tá fazendo música e jogando na net, pra baixar de graça. E uma música delicada, intimista, acústica, em duo (com Duca Leindecker). A quem interessar possa, clique aqui pra conferir.


Entrevista para O Popular

16 Outubro 2008

Íntegra da entrevista concedida por e-mail a Rogério Borges, que saiu editada no jornal O Popular de 19/10/2008.


Você disponibiliza em seu site e-books e nunca publicou, segundo minhas informações, um livro em papel. Explique esta preferência pelo meio virtual.

No início (por volta de 2002), não era bem uma preferência, mas um misto de preguiça e timidez de correr atrás de uma editora. Eu tinha dois livros prontos, Ciclo de Jaiara e Marjnau, mas para publicá-los não sabia nem por onde começar, não tinha idéia a quem recorrer. Então a internet, que tinha acabado de explodir no país, foi a alternativa mais cômoda. Fiquei fascinado com o alcance virtualmente infinito de net, além do seu caráter aberto e anárquico. Abri um site chamado Naumarginal e disponibilizei estas duas obras virtuais para serem baixadas gratuitamente. Mas ainda queria publicar em papel. Só de uns dois anos pra cá me convenci que o livro impresso não é um suporte necessário, principalmente pra poesia, que quase sempre é lida de forma seletiva e fragmentária, o que pode muito bem ser feito na tela do computador. Aliás, muitos de meus livros de poesia, como o Marjnau, são feitos para serem lidos no computador, em tela cheia.

Você considera que está mais fácil publicar livros hoje em dia?

Acho que sim, há muitas editoras médias e pequenas, algumas especializadas em literatura, e mesmo uma edição por conta do autor não sai tão cara assim. É claro que ainda é difícil e é preciso batalhar muito, mas parece que o ambiente editorial no país, da década de 80 pra trás, era bem mais concentrado e fechado.

Com mais pessoas publicando suas obras, há queda de qualidade na produção? Faltam filtros?

Se há facilidade de publicação certamente sairá muita porcaria. A internet talvez seja o exemplo mais radical, pois qualquer um pode publicar o que quiser, e não apenas em forma de texto, mas também de som e imagem. E quase tudo que se publica é muito ruim. Mas acho melhor assim, deixar publicar tudo e filtrar depois que todo mundo tiver acesso. Com o mercado dominado por poucas editoras era o contrário: alguns poucos filtravam antes o que todo mundo teria acesso depois. Era uma espécie de ditadura textual. E quem garante que os critérios destes poucos eram realmente bons? Na literatura mesmo sempre houve muita igrejinha, conluio de um círculo de escritores com uma editora: nem sempre a qualidade prevalecia na hora de publicar.

Muitos disseram que a internet seria o atestado de óbito dos livros em papel. No entanto, ela serviu de meio para o aparecimento de novos autores que fazem relativo sucesso nas prateleiras das livrarias. Este chega a ser um paradoxo?

Creio que a internet vai acabar matando o livro: ela é uma espécie de profecia do McLuhan. Ele falava de TV, rádio e telefone como mídias elétricas que absorveriam as mídias antigas, entre elas a escrita. Mas no fundo estava intuindo a internet e é ela que vai absorver o mundo do texto, mais cedo ou mais tarde.

A demora em substituir o livro impresso acontece porque se trata de uma tecnologia muito boa, desde o seu nascimento, com Gutemberb. E ainda não se inventou um dispositivo eletrônico de leitura que una as vantagens do livro (leitura confortável, portabilidade e possibilidade de anotar e grifar) e da internet, que é basicamente a possibilidade de ter toda a escrita do mundo a um clique. Mas vão acabar inventado esta tecnologia (a Sony já parece ter um aparelho razoálvel), porque esta possibilidade de ter a biblioteca total num único dispositivo de leitura é muito, mas muito sedutora mesmo.

Conte um pouco de sua trajetória como escritor e qual é a procura de pessoas querendo mostrar textos inéditos em seu site.

Como todo mundo, comecei a escrever na adolescência, mas nunca fui de mostrar meus poemas. Não os mostrava pra ninguém, um pouco por timidez e também por duvidar de sua qualidade. E não estava errado, acho que muitos poemas de meu primeiro livro, o Ciclo de Jaiara são impublicáveis, apesar de eu tê-los publicado. Então minha estréia pública foi mesmo na internet, a partir do zero: eu não fazia parte de nenhum círculo literário até 2002, quando lancei meu primeiro site. Na verdade não era um escritor, porque a gente só é escritor quando alguém nos lê. Aos poucos algumas pessoas foram descobrindo meus textos e hoje circulo numa espécie de underground do meio literário de Goiânia e da internet. Na verdade circulo no underground do underground, pois a literatura no mundo pop da atualidade já é uma espécie de circuito cultural clandestino e eu circulo no submundo deste submundo: uma clandestinidade ao quadrado.

Quanto ao meu blog atual, o minutos de feitiçaria, ele é muito autoral, não tem este caráter de divulgação literária. As pessoas não me contactam para publicar seus textos no blog, elas vão lá com o intuito de ler o que escrevo. Acho admirável o pessoal que faz sites e blogs pra divulgar outros poetas, principalmente os novos que não têm muita visibiliade ainda, mas eu não tenho pique pra isto: escrever já me toma quase toda a energia criativa


De quando eu fazia poemas metafísicos II

24 Junho 2008

Na verdade, este poema (in A Tradição travestida) é concreto- metafísico. Os concretistas achariam um horror o uso da fé da Igreja Construtora para rezar a poesia da Igreja Profunda: trata-se uma diluição imperdoável. Mas ainda gosto deste poema todo cheio de fé. E não creio que a heresia sincrética tenha sido tão grave a ponto de condenar o Moreira Cardoso ao inferno (profundo ou concreto).


De quando eu fazia poemas metafísicos

23 Junho 2008

O LOUCO

Estou fazendo uma revisão no Ciclo de Jaiara. Corrigindo a ortografia e alguns absurdos estéticos. Mas tenho que me conter, senão corto quase tudo. Relendo os primeiros versos do livro, me pergunto como tive a coragem de publicá-los. Por mais que o Moreira Cardoso seja um outro (um eu-outro, ex-eu), ainda assim era esta mão que batia no teclado.

Mas quem sou eu pra ficar cortando ou emendando o Moreira Cardoso? Ele tem lá o seu direito de existir torto, provinciano, ingênuo, crente ou ateu lamentando sua descrença. E depois, é provável que daqui a dez anos eu mesmo (ou um crítico simpático a poetas obscuros) lerei o que faço hoje achando tudo a mesma porcaria.

Em todo caso, há coisas que ainda gosto, ou pelo menos me divertem, como estes dois trechos acima de O louco. O III tem uma sonoridade mordente, de aliteração cerrada e o IV, bom o IV é mesmo uma loucura onírica (eu lia muito Jorge de Lima na época).


No dentro do momento (poesia em tempos pop)

17 Junho 2008

Em artigo que aqui publiquei em 3 do corrente, afirmei que, tendo cumprido a sua função, a vanguarda acabou. Não cheguei, porém, a explicar que uma das principais razões pelas quais penso assim é que estou convencido de que o feito principal da vanguarda enquanto vanguarda não foi de natureza propriamente estética ou artística, mas cognitiva e, mais precisamente, conceitual. Em outras palavras, não é que, a partir da experiência da vanguarda, a arte tenha ficado melhor do que era, mas que, sobre ela, se aprendeu alguma coisa que não se sabia antes. Deu-se um aprendizado, um progresso cognitivo após o qual se passou a saber algo fundamental, antes não plenamente reconhecido, sobre a natureza da arte. (Antonio Cicero – Ainda a vanguarda – Folha de S.Paulo – 31/05/2008).

É um mérito dizer claramente que a vanguarda já cumpriu o seu papel. Mas seu papel, ao contrário do que afirma Antonio Cícero não foi o de esclarecer o que é a poesia, como se houvesse a verdade ou o Ser da poesia que precisasse ser entendido com mais clareza, ou em aspectos ainda desconhecidos.

O que é a poesia? Creio que o que se entende por poesia (e também por literatura e arte) é uma convenção – coletiva e ‘não intencional’. Não que seja qualquer coisa, mas é como um recorte de sentido que uma sociedade ou cultura faz de seu mundo simbólico (ou simplemenste de seu mundo). É uma maneira de fazer sentido, de organizar os saberes. No Ocidente há um saber estético mais ou menos independente (recortado) dos demais e, dentro deste saber estético, um saber da arte verbal, que hoje chamamos literatura (e poesia, que é um ramo complicado da literatura – complicado pq desde sempre namorou a música e o canto, saindo da órbita do puramente escrito. Se pensarmos bem, mesmo o que entendemos por literatura, como arte verbal escrita, recobre realmente o conto e o romance, pois o teatro também salta da órbita do puro escrito).

Durante muito tempo, talvez desde o renascimento, o que se entende por poesia foi a arte verbal escrita em versos, com uso de figuras de som (rimas, aliterações, assonâncias etc) e de sentido. Outro critério da poesia talvez seja o seu descompromisso com a narrativa (embora ela pudesse ocorrer) e, a partir do romantismo, uma inflexão à subjetividade ou, pelo menos, um descompromisso com a objetividade. Para o Cícero, isto é uma visão redutora da poesia. De fato, a coisa para ser poesia, até o século XIX, deveria seguir certos padrões estéticos bem rígidos.

Mas é aí que o Cícero se equivoca. Não é que a poesia é um troço mais amplo e as pessoas, no passado, não viam ou não entendiam. A questão é que, do renascimento até o século XIX, houve uma certa estabilidade (que começou a ser perturbada neste mesmo sec XIX pelos românticos) no recorte de sentido que se entendia por poesia no Ocidente. E o que se entendia por poesia (o recorte que se fazia) era, de fato, a poesia e não um entendimento equivocado do que era realmente a coisa.

O Cícero poderia contra-argumentar dizendo que no medievo a idéia de poesia era mais ampla (pois envolvia também o canto dos trovadores, a canção) e que os medievais estavam, por isto, mais próximos do conceito verdadeiro de poesia. Eu diria que os medievais tinham outra idéia do que era arte verbal, que recortavam o sentido de modo diferente. E, para eles, isto que chamamos de literatura (conceito com o qual abarcamos os trovadores medievais) não tinha o sentido que lhe damos. O que o Ocidente renascentista fez foi separar a alta cultura da popular e, nesta separação, a canção ficou na cultura popular e o poema escrito se desenvolveu como arte erudita.

O que acontece no modernismo (mas já se prenunciava no romantismo e no simbolismo)? Um a um vão caindo os critérios que definem o que é e o que não é poesia. Por exemplo, as figuras de som e sentido não são mais obrigatórias e recebem um tratamento extremamente flexível, a ponto do Bandeira fazer um poema extraído de uma notícia de jornal. O verso não é mais exigido no poema em prosa (aproximação da poesia com a narrativa e o epigrama). A expressão subjetiva ou a sondagem metafísica que se tornaram um critério de poeticidade no século XIX também são duramente abaladas pelas poesias antilíricas de Drummond e principalmente de Cabral.

O que as vanguardas fizeram? Elas foram a ponta de lança desta destruição do antigo poético e, muitas vezes, da proposta de reconstrução de uma nova poesia. O que o concretismo quis, em seus momentos mais radicais? Abolir o verso e afirmar que a poesia tinha que ser verbovocovisual. Não conseguiram. O Cícero diz que é porque eles apenas contribuíram para a descoberta de uma face ainda desconhecida da poesia, a visualidade, e que o verso não caiu porque fazia parte da outra face da verdade da poesia. Eu diria o seguinte: os concretistas, no rastro de Mallarmé e Cummings, e relendo com olhos ocidentais a arte ideogrâmica japonesa e chinesa) acrescentaram / criaram (e não desvendaram ou progrediram conceitualmente) uma verdade a mais para o poético: ampliaram a idéia do poético.

O Cícero talvez diria que não aboliram o verso porque ele é um aspecto da verdade ou da natureza da poesia. Eu diria que não aboliram o verso porque a sociedade não aceitou (não desejou) uma idéia de poesia sem verso. E acho que não poderia ter desejado, não porque o verso seja necessário a um conceito transcendental de poesia, mas porque foi necessário ao conceito de poesia do Ocidente do século passado (e talvez ao atual), ao que se desejou como poesia. Só entendendo a coisa poética deste modo, como desejo de poesia é que podemos falar de sua verdade, sua natureza ou seu ser. Mas devemos ressaltar que este ser é um recorte de sentido (coletivo, convencional e não intencional) de uma cultura e época específicas: o Ocidente do século XX.

O que é poesia hoje, no início do século XXI? Neste ponto, creio que Cícero e eu concordaríamos: vai da arte em verso até a canção, por um lado (aproximação com a música). Por outro, vai do verso à poesia visual (aproximação com as artes visuais). Por outro, ainda, vai do verso à performance (aproximação com as artes cênicas). Com relação às mídias, a poesia, transita da escrita para o audiovisual e o digital (que absorve todas elas).

E como ficam a tradição e a vanguarda? Parece-me que elas são, hoje, uma grande sicronia, uma só tradição (que abarca, inclusive, a textualidade de culturas exteriores ao ocidente, como a tradição oral de povos tribais que pôde ser registrada de alguma forma e a escrita ideogrâmica do extremo oriente antigo). Ora, este olhar simpático e aberto para a estética textual de toda a tradição de todos os povos (repito, não só ocidental) e esta abertura a várias fromas de manifestações do poético (verbal, visual, performático, escrito, audiovisual etc) não decorre de uma compreensão melhor do que é poesia, mas sim de uma crise da idéia de poesia. Crise que não é só da poesia ou da literatura, mas de tudo o que se chamou, no ocidente, de Arte, de Alta Cultura. Na verdade, é um pós-crise, uma constatação que acabou de acontecer um cataclismo estético, pois a crise mesmo se deu no modernismo, na primeira metade do século XX.

No limite, poesia é tudo, inclusive arte visual sem nehuma palavra, inclusive arte sonora (música ou articulação vocal) sem o verbal: qualquer estética de relação entre símbolos que o homem possa criar é poesia. Mas o que não é, na prática estética, relação entre símbolos? Então poesia é tudo e é nada, pode ser qualquer arte. É neste ponto de absoluta indefinição que nos encontramos. Convém limitar a poesia ao uso do verbo, da palavra, escrita ou não? Não sei, não creio que seja possível. Sem dúvida a palavra ainda é um ponto de partida para se ter idéia do que é a poesia, mas parece que não é, definitivamente, um ponto de chegada. O problema é que nosso recorte estético (nossa maneira de desejar/perceber a arte) mudou muito de uns tempos pra cá. Os frankfurtianos foram os primeiros a perceber isto com clareza e forjaram o conceito de indútria cultural para explicar o acontecimento. Mas creio que só se começou a perceber a dimenção da coisa na segunda metade no século XX, quanto o terremoto estético acabara de passar. Alguns chamam o momento atual de pós-moderno ou pós-modernismo. Eu gosto de chamar o atual recorte estético de pop. Acho melhor que indústria cultural, porque o conceito dos frankfurtianos implica numa idéia de manipulação que creio ser inadequada, como se as massas fossem manipuladas pela ideologia de uma estância de poder (que detêm a propriedade da indústria cultural). E melhor que pós-moderno porque o termo moderno tem muitas relações (de amor e ódio) com o capitalismo e, definitivamente, não estamos numa era pós-capitalista. Além do que, moderno carrega o sentido do hoje, do atual e uma época pós-moderna poderia dar idéia de uma pós-vida ou pós-terreno, como se vivéssemos num mundo sobrenatural. A modernidade de nosso tempo é o pop.

Como funciona o pop? como ficam as artes da palavra e suas relações com outras artes neste universo? como fica a relação entre arte e capital (entre os dois fluxos)? qual a relação entre o conceito de pop e o de massa? como fica a questão dos valores e do gosto? Há possibilidade de haver uma Grande Arte, em contraposição ao lixo pop? quanto a esta última questão, creio que há fugas do pop, coisas excelentes, produzidas inclusive dentro do universo pop, mas não creio ser possível traçar mais uma linha divisória entre alta e baixa cultura. Antigamente era mais fácil, mesmo porque, esta linha era demarcada também pelo gênero. Por exemplo, no século XIX, se era canção, era cultura popular e pronto. Alta cultura era poema escrito. Se se fazia poema escrito havia chance de ser alta cultura, bem como uma certa clareza de critérios para se identificar se a coisa era boa ou não. Hoje tem gente que ainda insiste nisso, dizendo que canção não é arte que se preze ect e tal. Mas isto é se refugiar em critérios do século passado (aliás do sec. XIX), um recorte de sentido que não funciona mais e, principalmente, não ajuda a entender o presente. Ora, os artistas e os críticos de arte têm que ser homens do seu tempo. Rejeitar a canção e o cinema em bloco (mesmo rejeitar apenas a canção e o cinema comerciais – e o que é, nestas artes, comercial e ‘de arte’?), refjeitar, enfim, o pop, é rejeitar a sua época, a vivência estética de sua época. Antes se rejeitava a cultura popular (que os românticos começaram a resgatar), mas esta atitude tinha um sentido aristocrático, mesmo (aliás principalmente) quando era a burguesia que o fazia: era uma tentativa de enobrecer a alma. Mas nesta época a cultura erudita tinha uma vida própria, dinâmica e com bastante independência (na verdade com domínio) da culura popular. Hoje não há esta divisão clara e os críticos que se refugiam na tradição (mesmo quando incluem nelas as vanguardas) resgatam o passado de uma maneira que não faz mais sentido hoje, como se o modernismo ainda estivesse vivo e atuante. A tradição hoje é esta coisa chapada, sincrônica: tudo à nossa disposição, você pode escolher, fazer o paideuma que quiser. E o que foi feito a uma década já é tradição, entra na sicronia da tradição (veja o rock brasil, já é coisa do passado! “como eram bons aqueles tempos!). É assim que o pop, que as massas fazem e desejam a tradição. É assim que se deve desejar, com esta perda da história e das referências? Talvez não, mas é preciso considerar esta perspectiva pop, entendê-la, sentir sua força, utilizar sua potência. Não há outra maneira, nos encontramos no pop, em tempos pop e é a partir deste momento (do dentro do momento) que que artistas e críticos têm que atuar, mesmo que de maneira crítica, mesmo que recuperando a tradição: é sempre a partir e com vistas ao nosso tempo. Os saudosistas falam muito dos grandes da tradição e lamentam não haver mais mestres. Se há uma lição a se tirar dos bons poetas do passado é a seguinte: todos eles viveram e escreveram intensamente em e para sua época, no dentro de seu momento.


De quando eu fazia sonetos

6 Junho 2008

Árido imóvil

Depois d’um longo nada eis-me pronto,
Entre o tirano bafo do porão
E os cômodos medidos que não são.
No quase do precário eis-me assombro.

O grande tumor negro sob o chão,
Toneladas sem fim sobre os meus ombros
De vidro. Mito: escombros do entressolho.
Além do lento nunca o talvez não…

Animalesca fome de Absoluto,
Ausente vulto insinuado além
Da silhueta de um Acaso, Deus

Precário, reticente e resoluto
Contra o ninguém de mim. Algo ou alguém
Se esgueira pelos vãos do vento… Eu!?

Na verdade, de quando eu queria saber fazer. Depois que fiz os sonetos dos Sete Motivos da Árvore e este, percebi que estava prestes a conseguir. Aí parei, perdi o interesse, não me lembro bem a causa. Mas por que saber fazer sonetos? Por que fazê-los? Acho que eu pensava que pra fazer poemas sem medida era preciso saber as medidas da tradição: saber pôr a mesa para ter autoridade ao virar a mesa.

Um poeta que nasce e cresce no interior de Goiás e tem muito pouco contato com a cultura das metrópoles (a não ser por meio da TV, mass media) respira ainda os vestígios da ARP (atmosfera romântico parnasiana) que persistiu nos rincões do país muito tempo depois da explosão modernista. Eu diria mesmo que a ARP absorveu o modernismo e que ainda na década de 70, nós, caipiras, respirávamos sua atmosfera cultural. O Drummond é que sabe bem dessas coisas da província, da solidão estética das províncias, de como o isolamento limita o artista e sua a arte, mas também de como a distância possibilita uma perspectiva crítica da cultura cosmopolita do centro, que quase nunca consegue ver suas próprias fragilidades. Neste aspecto, quem está na periferia é sempre mais atento às fraquezas, já que sua estética é, pelos desígnios de seu provincianismo, ‘naturalmente’ frágil.

A (má) consciência da fragilidade, do provincianismo, da inferioridade e a consequente luta, quase sempre inglória, pela superação das limitações é um problema permanente do artista das periferias, “enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz.” Hoje é bem provável esta correlação de forças literárias entre centro e periferia tenha mudado, pois a situação da literatura na sociedade mudou radicalmente no pós-guerra, embora a consciência desta mudança pareça se dar somente mais recentemente, talvez a partir da década de 80. E foi justamente nesta década e na seguinte que me formei como poeta, escrevendo compulsivamente numa solidão inacreditável, em completo silêncio, sem contato com nenhum círculo literário (nem local, nem exterior, como pude suportar este isolamento?). Daí certamente decorre muito da ingenuidade estética do Círculo de Jaiara.

Fins de 80 e início 90: lá estava o Moreira Cardoso, jovem, mentalmente um protótipo de poeta provinciano, impregnado de formas e afetos romântico-parnasianos, lutando para atingir o modernismo, devorando Concretismo & Jorge de Lima & Drummond & Bandeira & Pessoa & Simbolistas & todos os mestres que pudesse, fazendo poemas de feição simbolista, moderno-simbolista, concretista, tentando o coloquial, o diabo. O Moreira Cardoso do Ciclo de Jaiara é uma condensação conturbada (e, quase sempre, de má qualidade) da história literária brasileira, do romantismo ao modernismo. Querendo ser gente grande na literatura, querendo bater o poeta federal, mas exatamnete aí, nestas décadas, ele tomava consciência de que esta oposição entre província e centro literário já não fazia mais sentido, a própria literatura parecia não fazer mais sentido na sociedade das mídias audiovisuais: Drummond, o último grande poeta nacional morrera, Cabral morreria após e, depois deles não haveria mais nenhum grande, nenhum poeta federal: de sistema estruturado a literatura se transforma em estilhaços (todo em traste).

Lá estava o Moreira Cardoso, pronto, finalmente pronto para tentar fazer alta literatura. Se ia realmente ser boa ou não, é como dizia o Paz, dependeria do seu tino, força e sorte, mas pelo menos ele estava pronto para tentar: as partes menos piores do Ciclo de Jaiara (Vagar, Interlúdio, Poslúdio) mostravam que ele podia tentar e, finalmente, ele saberia fazer sonetos de forma exímia, mesmo que não os fizesse. Mas pra quê? Este árduo e silencioso aprendizado parece ter sido em vão, a poesia, neste formato modernista, e mesmo concretista (que é um dos limites extremos do modernismo) parecia não dizer nada a ninguém, não fazer mais sentido no mundo eletropop da TV, da canção, do cinema e da recém chegada internet.

Acho que foi por isto que nunca publiquei Árido imovil. E nunca mais fiz sonetos. Foi uma espécie de reconhecimento do sem sentido de um soneto, mesmo em moldes modernistas. Do sem sentido da literatura como sistema, do sem sentido da luta de um poeta provinciano querendo superar suas limitações para tentar fazer alta literatura. Formar-se como poeta, a partir da província, sempre foi uma tarefa inglória, mas pelo menos havia um caminho bem definido a seguir, um sistema que colocava o poeta caipira à margem, mas mostrava, com clareza, o reluzente centro a ser atingido e a maneira de atingi-lo: apesar de sua posição desprivilegiada o poeta provinciano encontrava-se, pelo menos, num sistema estável.

A trajetória do Moreira Cardoso é bastante curiosa. Enquanto se formava como poeta, o sistema literário já estava falido há muito tempo, mas ele (e parece que quase ninguém) tinha ainda consciência disso. Na década de 90, quando estava finalmente pronto para tentar ser poeta literário, encontrar para si um lugar no sistema (epígono que seja), tentar Ser enfim, ele descobre que no mundo pop a literatura se estilhaçou. Que fazer?

De um aprendizado não conseguimos nos desfazer, por mais inútil que seja. A saída, pelo menos para o Moreria Cardoso foi morrer como ‘poeta para alta literatura’ e renascer como Zé Pelota, este exu que guiou o natimorto e seus trastes literários pelos caminhos da infopoesia, do poema em tela cheia, da visualidade pop (que é um concretismo diluído). O Zé Pelota ensinou o Moreira Cardoso a não ter medo da diluição, mais ainda, a saber que poderia haver um rigor na diluição, um rigor de margem (margem que nada tinha a ver com a situação de marginalidade provinciana do sistema literário).

E, talvez o mais importante, ensinou ao Moreira a não rejeitar o mundo pop em bloco, se refugiando nas altas esferas da erudição, a não reprimir o seu gosto pela canção e pelo cinema comercial, e sim extrair deles suas potências massivas e tentar cavalgá-las, transmutá-las em potências literárias, fazendo-as beirar/beijar a margem. Enfim, o Zé Pelota ensinou que se a igreja literária e sua fé tinham ruído, que seus sacerdotes bradavam altissonantes para um auditório vazio, havia ainda os bruxos habitando as margens da aldeia, incógnitos, sem igreja, sem ambições de ter nem pastorear o gado, murmurando suas magias aos raros visitantes que os procuravam em seus covis. Se o Moreira Cardoso, agora Wilton Cardoso, fará algo que preste com esta lição inestimável, já é outra história…

Esclarecimentos: Moreira Cardoso é como eu assinava os poemas do Ciclo de Jaiara e Zé Pelota é uma espécie de pseudônimo que (co)assina o Marjnau.


As potências da literatura (ainda não me reconheço)

3 Junho 2008

Sobre o post “Não me reconheço”, André de Leones fez um curto, mas instigante comentário:

“A literatura hoje é um nicho pop, um nicho cult, especializado.”
Eu acho que sempre foi, rs.

Que diz respeito ao fato de a literatura sempre ter sido uma arte cultivada (no sentido de ser vivenciada com intensidade) por muito poucas pessoas. Realmente, parece que a vivência da literatura foi, em todas as épocas, um nicho pra poucos leitores. Mas como dizem os especialistas em direito, isso era “de fato”, pois “de direito” a literatura foi, do século XVIII iluminista até o início do século XX, um projeto para todos, um conhecimento considerado imprescindível para a boa formação do ser humano civilizado: as grandes artes em geral e a literatura em particular era uma espécie de pedra de toque do humanismo e de seu irmão, o iluminismo. Por isto havia, na arte, a figura do pedante, que fingia conhecer as obras a fundo, para ser aceito nos círculos sociais mais sofisticados. Havia esta necessidade, esta pressão para ser culto, principalmente quando se tinha algum dinheiro (ou pelo menos alguma educação formal).

Hoje a literatura é um nicho pop de fato, mas também de direito, pois não existe mais a pressão social para se ler: as “pessoas inteligentes” nestes tempos pop não se sentem obrigadas a ler boa literatura, embora esta possa ser uma de suas opções. Elas preferem o cinema e a canção, em seu ramo cult: cinema europeu, MPB, jazz. Preferem? Ou são preferidas? Será que controlamos, efetivamente, nossas preferências? Esta é a questão do desejo: desejo que nos povoa, nos induz e nos pressiona em direção a um gosto e a um gozo. O desejo pela literatura sempre povoou, de fato, bem poucos, mas exercia um poder, uma sedução sobre muitos. Hoje o poder/fascínio sobre as massas (sejam elas cult ou populares) é exercido pelo cinema e pela canção.

Foi uma perda para a literatura, sim, pois ela deixou de ser uma potência de direito, mas, por outro, lado, houve um ganho em leveza, pois agora ela está livre do peso de ser “a enobrecedora das almas” ou a “manifestação mais alta do espírito de um povo”, livre, enfim do peso de Ser. Mas o escritor ainda escreve para todo mundo, qual artista não o faz? Grafar/gravar é sempre deixar um rastro para todos, para qualquer um. No entanto ele sabe que, institucionalmente, nem mais de direito sua arte tem a potência das massas e poucos, de fato, a lerão. E, principalmente, poucos terão vontade, se sentirão instigados ou pressionados a ler. Mas esta escrita ainda poderá (e deve fazê-lo) despertar nestes poucos a potência das massas, atingir o “todo mundo” de seu raro leitor, pois cada um de nós é atravessado por “todo mundo”, povoado pelos desejos de toda a sociedade.

De fato e de direito, é apenas dessa maneira esquiva e subterrânea que a literatura atinge, hoje, seu ponto massivo e extrapola para “todo o mundo”. Ela atinge todo o cosmo social, mas não por ser uma potência universal, prescrita/imposta pelos sábios, que pressionariam o gosto geral para o “bom gosto da alta cultura”. A literatura agora é uma virulência, local, diferencial: contaminação de vizinhança, trocas celulares que afetam o corpo imperceptivelmente. A sua potência é da invisibilidade quase absoluta, sombra que se esgueira nas trevas, vampira.


Não me reconheço

28 Maio 2008

Relendo A Tradição travestida (que é uma releitura visual de alguns poemas, entre graves e ingênuos, do Ciclo de Jaiara), tenho uma sensação estranha: não me reconheço naqueles poemas, não seria mais capaz de escrever coisas assim, que ambicionam ser literatura, grave literatura, alta literatura modernista.

E, no entanto, agora, tenho feito poemas pesados, sem humor, cheios de indagações sobre a vida e a morte, recuperando, sob este aspecto, a atmosfera séria e sufocante de A Tradição travestida e do Ciclo de Jaiara. Mas este retorno à seriedade me parece uma volta toda retorcida, em outra frequência, sem saudades da alta literatura e encharcada (para o bem e para o mal – e para além e aquém deles) do agora pop. Não há mais como ser alta literatura, como almejar ser: o sistema literário definitivamente faliu. A literautra que resta é este exercício subterrâneo de pulsar quase mudo em meio à mídia digital/audiovisual. Não há nem como almejar ser publicado em livro, essa coisa chique de ser escolhido por uma boa editora, que transforma o autor desconhecido em uma espécie de referência potencial. Publicar era como se elevar um pouco acima da massa, da mediania, ganhar visibilidade, chamar a atenção da crítica que, por sua vez, chamaria a atenção do público para o autor.

A coisa hoje não funciona mais nestes moldes. A publicação, mesmo por uma boa editora, não mais referencia e a crítica literária não tem mais voz fora das academias. É neste ambiente sem referências que se escreve. Creio que não devemos escrever com saudades do ambiente modernista, como eu tinha quando escrevia os poemas juvenis do Ciclo de Jaiara, querendo atingir o ponto da alta literatura. A releitura digital d’A Tradição travestida é uma nostalgia disso, mas também já é uma crítica, um distanciamento, como o próprio título indica.

Acredito que o escritor de hoje tem que escrever buscando o máximo, a mais alta excelência, originalidade e rigor que puder atingir, mas não com os critérios ou com vistas a pertencer a um sistema literário (ah Candido, meu bom velhinho, os tempos mudaram), que comportava inventors, masters e dilutors/epígonos, que tinha um público amplo (pelo menos potencialmente) e cujas obras carregavam o peso de representar culturalmente um povo ou sondar as profundezas da alma humana. Este sistema acabou e não se deve escrever para uma coisa que faliu, com saudades de ser ou prenunciar um grande, de uma estrutura cuja topografia permitia a grandeza. Muitos acreditaram que a mestria era uma coisa eterna e universal, mas agora descremos cada vez mais nestes “para sempre” (a fé esta fodida). Há poetas excepcionais, inclusive da canção, mas não são grandes e provavelmente não serão. No pop não há mestres ou, pelo menos, a mestria é uma coisa bem diferente do que era nas Grandes Artes.

A literatura hoje é um nicho pop, um nicho cult, especializado. Não adianta chorar (como eu chorava em A Tradição travestida/Ciclo de Jaiara), ou melhor, até vale a pena chorar, lamentar, rosnar, mas em meio a nosso mundo, à cultura pop, eletrônica, eletropop. Só há possibilidade de se fazer popliteratura, com as matérias e formas da tradição, sim, mas principalmente com as matérias e formas pop. Aliás, a tradição literária, quando recuperada, vem inevitavelmente contaminada (travestida) de pop – vem como imagem chapada, como se fosse uma terrível sincronia (de Homero a Joyce, de Ulisses a Ulisses) exótica, distante de nós no espaço-tempo, letras de milênios luz. Aos que ainda ousam fazer literatura, poesia, só resta escre-ver no momento pop, no dentro do momento. Só assim poderão (talvez) escapar de já nascerem mumificados.


Entrevista com Franco Átila

5 Abril 2008

Publicada na revista Palávoraz n. 2

Como você vê a literatura contemporânea do Brasil?
Mas que pergunta mais fuleira. Você até parece um desses jornalistas de revista literária. É o tipo de pergunta que espera que o entrevistado dê uma de sacerdote, em defesa da santa igreja literária.

Que seja, mas você não respondeu a pergunta…
Eu amo uma certa literatura, alguma coisa de hoje, alguma de ontem, mas a verdade é também estou cansado da literatura, nem um pouco a fim de fazer uma defesa sacerdotal ou cidadã das virtudes da boa literatura, do bom poeta e do bom leitor, da importância de se ler, de lamentar a apatia dos jovens etc etc. Ando ouvindo muita canção ultimamente.

Que tipo de canção?
De tudo, tudo que toca no rádio e na TV eu paro pra ver, mas especialmente o que chamam de MPB e Rock Brasil.

Mas isto é uma revista literária, e considerar a canção como literatura é, no mínimo controverso. Mesmo em se tratando de bons letritas, como Caetano Veloso e Chico Buarque, há pessoas que têm sérias restrições em ler suas letras como poemas.

Suas letras são, de fato, péssimos poemas.

CONTINUA


Entrevista com o Zé Pelota

1 Novembro 2007

Publicado na edição de novembro/07 da Revista Ruído Branco.

Nesta Neuropop entrevisto um amigo, quase mestre, mais competente que eu, chamado Zé Pelota. Consegui tirá-lo de seu casulo noturno para nos provocar sobre poesia, concretismo, Paulo Leminski e Ferreira Gullar. O entrevistado era para ser o Franco Átila, mas se trata de uma criatura tão complicada e inconstante: às vezes o esperamos até o amanhecer numa esquina desolada e ele não vem ou aparece fugaz, de mau humor, apenas com o intuito desbocado de xingar padres e pastores. Resolvi então chamar o Zé Pelota, não menos imprevisível (o tema, na verdade, era para ser a canção pop), mas pelo menos mais aberto à conversação.

É uma longa entrevista, regrada a charutos e goles de cachaça, mas acho que valeu a pena. Para mim, pelo menos, foi uma madrugada muito produtiva.

Quem conhece o Tratactus Marginale, logo verá que nosso entrevistado o escreveu comigo – o outro autor é o Átila. Mas nem Zé e nem Átila aceitaram que seus nomes constassem na obra como autores. Talvez porque o livro não estivesse à altura deles. Mas desconfio que seja por não entenderem esta vaidade que sentimos em nos apropriar de um texto, marcando-o com nosso nome. Desconfio ainda que esta ausência de vaidade não signifique humildade, longe disso. Trata-se, antes, de um fascinante e perigoso comportamento aristocrata: creio que se sentem tão acima de nós, que pouco se importam com o juízo que fazemos deles. Vamos ouvi-lo então, mas com o devido cuidado que tais vozes inspiram.

Cá estamos

Cá estamos

Então, você me prometeu falar sobre o Rock Brasil e a Tropicália, mas quer começar pela poesia, pelos acontecimentos na poesia brasileira a partir de 50.

Na verdade, talvez possamos, certamente podemos, fazer um percurso que passa da poesia à canção, um zigue-zague em que uma interfere parcialmente na outra, afinal de contas a Bossa Nova e a Tropicália têm uma estranha relação com os concretistas. Mas o que eu queria era tentar colocar o concretismo num campo de tensão, como eles mesmos se colocam, mas de forma inadequada.

Que campo?

Digamos que o Haroldo de Campos tenha definido (em algum artigo ou nota que não me lembro mais) como um campo poético que se estende entre dois pólos: uma poesia de expressão e outra de estruturação. A poesia como expressão do ser, do sujeito, dos afetos, da alma ou do espírito seria a poesia lírica propriamente dita, que domina a literatura de língua portuguesa e a brasileira desde o Romantismo, e mesmo o Modernismo não teria conseguido afrontá-la. Para Haroldo, apenas Oswald de Andrade se insurgiu radicalmente contra ela no início do movimento. Esta poesia seria verborrágica (a diarréia cabralina), sentimental, choramingas e nada tem a dizer à nossa época. O que não deixa de ser uma boa provocação.

Este seria o pólo subjetivo do campo poético…

É, subjetivo ou afetivo, sentimental, lírico, prosaico (no pior sentido do termo) sem inventividade nem fecundidade, pois não responderia aos dilemas da época. Se bem que estes termos todos não são uma boa palavra, o termo adequado seria profundo, uma poesia de sondagem das profundezas, dos abismos do que quer que seja, ser, sujeito, alma coletiva, o diabo… Contudo, não se pode esquecer que muita poesia boa foi feita aí nessa tendência, ou pelo menos interpretada como profunda, como a Invenção de Orfeu, por exemplo, e mesmo um poeta que os concretistas admiravam, como o Mário Faustino, tendia para as profundezas: era uma espécie de poeta aristocrata…

CONTINUA


antenas pop

1 Outubro 2007

Publicado na edição de outubro/07 da Revista Ruído Branco.

oh meu bem, você não sabia?
o mundo é uma disneylândia
z.p.

As torres estão plantadas. Francisco quer se suicidar aos 17 e sua mãe não sabe, bêbada demais. João gasta todo o dinheiro de pedreiro com maconha e putas enquanto a mulher vegeta à toa na casa da mãe, com preguiça de levar na escola o Chico, que cresce analfabeto. Sua irmã Maria engravida adolescente no banco de um gol roubado ao som de Wanessa Camargo. As torres estão plantadas, indiferentes ao turbilhão de sonhos — que circulam nelas.

Há lixo demais na cidade, latas, garrafas, fraldas cagadas, novelas, pilhas velhas, camargos, faustões, cartazes, catarses, trocadilhos, segundas intenções. Há material demais para um artista pop e há, sobretudo, lixo humano descartado nas margens, homens-trapo com sonhos vagabundos. Que sonho não seria vagabundo? Que homem, nesta cidade, não seria maltrapilho?

O homem rural era enraizado, dizem. Sua cultura era uma raiz, um chão de valores, costumes, gostos, arte, trabalho, ao qual ele se prendia sem muita dúvida. O homem culto, civilizado, também se enraizava na alta cultura, nos bons modos, na aura aristocrática. A classe média não, ela é pobre em raízes, não há nada que a prenda, bóia a procura de cultura. Por isto ela expropria a cultura popular, estropia a erudita e pare o pop, a cultura-flor-sem-haste, a ultra-superfície e, no entanto, a classe média quer raiz todo o tempo, ela multiplica as igrejas, os livros de auto-ajuda, os exoterismos, os hábitos salutares, a disciplina asceta, a saúde atlética, os comedimentos, a família, ela familiariza tudo. Ela estabelece o horizonte do homem demarcado de sonhos razoáveis, um horizonte móvel e, no entanto, desejando a paz das certezas, que nunca vêm.

Caro Dr. Savóia, o que é necessário para que nos tornemos um país desenvolvido, sem tantas desigualdades?

É preciso estabelecer um plano sério de educação integral, principalmente para os filhos das famílias de baixa renda, muito suscetíveis à desestruturação de seu núcleo familiar, por problemas de ordens diversas, como alcoolismo, doença, desemprego. Conjugada à educação integral, faz-se necessário toda uma rede de proteção social, inclusive para a capacitação de adultos para o mercado de trabalho. Conjugando, ainda, estes esforços sociais com o crescimento econômico, menos financista e mais atento ao setor produtivo, poderemos nos tornar um país realmente desenvolvido, no qual não haja miséria, as pessoas tenham conforto e longevidade e sejam verdadeiramente cidadãs.

A Europa, o Japão, os EUA, a classe média em massa, a massa, o Pop. Amamos o pop. Queremos o pop. É a única coisa que nos resta, a utopia possível, vida longa e confortável, o sentido da vida, o menor sofrimento, o mal menor, o Pop.

Bruno & Marrone cantam mais um sucesso no Gugu. Xuxa toda manhã. Fátima leva um pacote de maconha para um cliente de seu namorado, os pastores pregam, catadores de lixo riscam o asfalto puxando carroças de roda de bicicleta, putas e travestis ganham o seu e todos sonham com o último sucesso do cinema americano.

Imagine um troço que bóia, um troço de sonho que bóia no real, ou ainda um troço real feito de sonhos boiando no caos da existência, no caos de uma cidade. Alguma coisa que só tem movimento, velocidade, circulações, rasuras, ruínas e ranhuras. Algo do qual a verdade passa longe, embora a vontade de verdade seja a sua força motriz, como se a verdade fosse o canto da sereia. Um troço mais audiovisual que escrito, encharcado de dinheiro até a saturação de seu tecido esponjoso, impregnado de desejos. O Pop.

Tudo é pop, tudo que a boca-olho-ouvido pode é pop, rock, punk, cult, mpb, nicho pop. Os fragmentos. O pop são os cacos de vaso nenhum. Os sonhos brotam mortos. Proliferam um bafo pestilento e sedutor. Em nome da democracia, da cidadania. Os críticos denunciam. A crítica é pop, a política, a escrita, deus, o diabo, a consciência, a ciência, a arte, o esporte. O mesmo hálito pop. Sopro de vida ao pó. Francisco é um vagabundo. João é um viciado. Maria é ninfomaníaca. As antenas estão plantadas.


ex-littera

28 Setembro 2007

Não quero nada fácil mais. Já há muitos poemas fáceis. Nada de melodias, nada de metafísicas disfarçadas de moderno. Nada, inclusive, de moderno. Não é uma questão de fazer literatura difícil, indecifrável, grunir “leitor hipócrita”, não se trata mais disso. Qualquer coisa que se escreva quase ninguém (tendendo a ninguém) lê mesmo, ou lê apenas por obrigação, para passar no vestibular, fazer a prova… Os poetas de hoje são os músicos pop, Lobão, Gessinger, Belchior etc: transe ácido. A poesia escrita é mendicância, o resto do resto e a arte da escrita, que hoje é apenas uma mídia de apoio das mídias elétricas, é uma arte zumbi, morta-viva. O poeta não é um espadachim, um herói, um sacerdote ou um outsider, a ele resta a vida e a visada do maltrapilho, o ninguém do ninguém.

Por isto é necessária uma poesia áspera, inculta, alquebrada, murmurante, asquerosa. É esta a poesia, é aí que se deve megulhar. Os poemas ainda estão cheios demais de nação, de sujeitos, de objetos, de abismos e cumes, de cotidianos, de nostalgia, de rebeldia, de mistérios, de decifrações, de cerebrarismos, de hermetismos, de verdades perdidas, de fragmentos da unidade. Só há fragmentos de coisa alguma, só há perdição sob a perdição, camadas e camadas de errância, nenhuma verdade ao fundo.

É preciso tentar este asco, estes cacos órfãos de vaso, esta virulência maltrapilha. Será difícil, talvez impossível, atingir. Se atingido, seria ainda poesia, arte? Em todo o caso é o que resta fazer, chega de poemas literários.

Comentário de 27/09/08: este texto é uma espécie de prenúncio/projeto dos móbiles.


fast food (renato russo)

1 Setembro 2007

Publicado na edição de setembro/07 da Revista Ruído Branco.

A vida, o amor, a morte, a realidade:
— tudo agora virou fast food.
(Francisco Carvalho)

Tudo é fast food, caro Renato, inclusive você, servido pela Globo num jantar à meia noite, como um exu. E mesmo assim me comovi. Você sabia o que queria, em que mundo você estava, as forças que te moviam, que nos moviam naqueles anos 80?

Você apaixonado por outro rapaz, tímido, drogado. Eu te escutava fascinado, apaixonado pelas meninas sem me declarar, mergulhado na adolescência rica em hormônios e pobre em palavras. A sua música foi a trilha sonora de minha (de muita) adolescência. Adolescência… A adolescência é um filme americano, cheia de clichês, como o rock.

Éramos, eu você, uns ingênuos, a sua arte era ingênua e pobre: canções para alimentar a histeria das garotas e o caixa das gravadoras. Canções revoltadas e doídas, toscas, barulhentas, sentimentais. Que forças moviam os donos das gravadoras, os empresários, os produtores, os descobridores de talentos, os fãs… Os fãs (eu junto) que te amaram desesperadamente! Um amor meio mórbido, desses que se alimentam da dor e da morte do amado que tomba ressequido. Como você tombou Renato. Estes vampiros. O rock é um fast food sanguinolento: o corpo dos roqueiros no palco, no altar, como num sacrifício maia.

Crescemos, não somos mais uma legião de ingênuos, Renato. Casamos, criamos filhos, pagamos as contas, planejamos o futuro, aprendemos com o passado, trabalhamos dia após dia, incansáveis. Não temos mais ilusões nem somos melancólicos. Se tais coisas nos acometem, há sempre um psiquiatra de plantão com um antidepressivo na mão. E logo nos curamos. Não temos tempo.

Lembramos de você (e de nós, porque se trata de nós, tão jovens) como um velho recorda que havia doçura quando criança, sem precisar bem o gosto dessa lembrança esfumaçada e passageira. Recordamos por alguns minutos, ternos e noturnos, antes do sono baixar em nossos corpos cansados: único momento em que os trabalhos e a TV e todo o barulho do mundo se calam no corpo. Não temos mais todo o tempo do mundo, Renato.

E mesmo assim, em meio a esta zoeira elétrica que nos infesta a cidade, quando vislumbro a sua voz dilacerada (pobre música), algo que foge se acende tênue neste corpo frágil de carbono.

(Ainda resta um fiapo de sentimentalismo perdido numa sinapse qualquer do corpo, Renato. Mas isto também é fast food.)


Rock Brasil (BRrock)

1 Julho 2007

Publicado na edição de julho/07 da Revista Ruído Branco.


quando a tristeza é sempre o ponto de partida (rr)

não vai haver amor neste mundo nunca mais (mn)

pra que votar? (lb)

há muita grana atrás de uma canção (hg)


O Rock Brasil (BRock), do ponto de vista da energia liberada, é algo sem precedentes na história da cultura pop no Brasil. Apenas a Jovem Guarda se aproxima do poderio magnético do BRock, mas Roberto Carlos & Cia são criancinhas diante de sua eficácia (comercial e afetiva) pop.

***

O BRock é uma estética do rancor. Os roqueiros são moralistas imorais. Eles não querem o Brasil dividido entre a maioria pobre e uma minoria, rica ou classe média. Mas também não querem o desenvolvimento, se este significar que quase toda a população se torne classe média, democrática, cidadã, trabalhadora. Eles odeiam a sua vida classe média.

***

A sombria transição de Jango para a ditadura foi marcada, esteticamente, por uma efusiva atividade da cultura pop brasileira: Cinema Novo, Tropicalismo, Teatro Oficina, Bossa Nova, Festivais de MPB, CPC (e, mais tarde, em 70, a poesia e o cinema marginais). Em todas elas, a marca da utopia, o diálogo com a contracultura (hippies, oriente, minorias, drogas), a liberação das energias anarquistas do desejo, a possibilidade de um mundo livre de poderes centrais, por fora e contra os mercados: sonhos e delírios, fluxos de desejo contra fluxos de capital, contra o cerceamento dos fluxos pelo Estado, pelo mercado e até mesmo pela psique, pela alma. Em quase todas estas estéticas pairava a sombra dos ditadores e do impasse político (como em Terra em Transe), mas não havia paralisia, havia esperança, utopia. Os impasses eram colocados como muros a serem ultrapassados, pois havia alternativas fora dos termos em que eles eram postos. Por mais desencanto que houvesse em Glauber e em Chico, havia um encanto revolucionário que corria ao lado, pronto a ser liberado.

***

A transição da ditadura para a democracia na década de 80 deveria ser um momento luminoso na vida brasileira. E, efetivamente, o movimento das “diretas já” parecia indicar a retomada da esperança perdida durante os mais de vinte anos de repressão militar. A guerra fria esmaecia com o lento colapso do império soviético (o engodo revolucionário soviético), o mundo parecia caminhar para a libertação do terror atômico e o Brasil do terror político. No entanto, não havia nenhuma utopia, nenhuma alternativa, ou melhor, para os países pobres sobravam duas alternativas: a disciplina social cidadã e mercadológica que levaria ao desenvolvimento nos moldes do Primeiro Mundo (o primado da classe média) ou a continuação do obscurantismo subdesenvolvido, da miséria material, invejando e desejando o conforto da vida classe média. Os roqueiros não gostavam de nenhuma das duas alternativas: era um impasse. E eles não vislumbravam nenhuma saída para ele. Estavam presos nos próprios termos do impasse, nenhuma fuga construtiva parecia possível, restava-lhes um niilismo resignado. Tornaram-se rancorosos, melancólicos, moralistas sem moral, auto-destrutivos, aidéticos drogados, sombrios. Ou então foram tomados por uma alegria frívola e burguesa, como Kid Abelha e Léo Jaime, como boa parte da música dos Paralamas e Titãs em sua fase inicial e mais recente.

***

A face alegre do BRock não tinha muito a ver com a alegria tropicalista, solta e debochada, a alegria não burguesa de liberação dos sentidos, o riso contracultural do artista sem lenço e sem documento contra a sisudez da tradição, família e propriedade, o riso antipuritano e carnavalesco do malandro. A alegria dos roqueiros de 80 foi o prolongamento do riso classe média da Jovem Guarda, mas uma continuidade mais profissional, mais bem medida, inserida num aparelho de mercado infinitamente mais eficaz. Era o prenúncio da alegria do axé, da música sertaneja urbana, do pagode, aquele riso e aquela sensualidade que os agentes do mercado descobrem nas margens bárbaras da sociedade (sons afro de Salvador, música caipira, samba do morro), testa nacionalmente e, se “pegar”, transforma em produção industrial, em onda de música-mercado.

Mas quem são estes agentes de mercado que descobrem o som bruto das periferias, adestram-no para uma alegria estéril de propaganda de cerveja e o trazem para o centro, ecoando-o depois por toda a sociedade? A imagem que vem imediatamente à cabeça é a do produtor cínico da gravadora, o homem do mercado que corrompe aos artistas da periferia. Mas o próprio artista da periferia já está corrompido e em suas veias estéticas já corre o sangue do capital, o desejo de sucesso, a vontade de transmutar o som bruto de seu grupo, de sua região, de sua periferia, em hit, em sonoridade capaz de aglutinar e magnetizar as massas em torno dele. O artista já é um agente de mercado. Mas não só o artista. Não são os artistas mal intencionados em comunhão com o produtor cínico que constituem os agentes de mercado que, por sua vez, manipulam as massas ingênuas, impondo-lhes os clichês musicais. Do lado das massas há um desejo pelos clichês, um vontade de serem magnetizadas pelos ídolos, enrabadas pelos agentes, as massas querem o alegria estéril da canção comercial, querem cultuar o perfeição do hit, a capacidade do artista de produzi-los ano a ano: elas querem ser demarcadas pelos agentes, elas são os demarcados: as massas magnetizadas também são cínicas.

A tarefa dos agentes, então, não é a de enganar as massas, de impor a elas as canções-clichês, mas de verificar quais canções-clichês se ligam melhor ao desejo das massas, como elas querem ser enrabadas (pelo axé, pelo sertanejo, pelo rock oba oba, pelo pagode?).

***

A face sombria do BRock percebeu isto também, esta face frívola e mercadológica do próprio rock, e se tornou mais sombria ainda, mais triste e niilista, mais auto-destrutiva. Pois esta alegria frívola era a ponte para a absorção da revolta na máquina de mercado, para a transformação da ingenuidade adolescente e dos devires negro e mulher do rock na seriedade profissional do macho adulto branco, tudo o que os roqueiros esconjuravam. Toda a eficácia técnica e comercial que eles odiavam e da qual fugiam desesperadamente com o seu som tosco e ingênuo era reposta pelo mercado da música, pela música como mercado, que absorvia o rock pelo seu lado alegre e frívolo. E mais, que tornava o modelo comercial do BRock um protótipo para futuras ondas sonoras que viriam: sertanejo, pagode, axé, funk carioca etc.

E a face sombria do rock se sentia cada vez mais impotente, cada vez mais sombria e rancorosa. Restava-lhe a morte, seja consubstanciada na morte física dos roqueiros que a levaram ao extremo patético (a morte de Renato Russo e de Cazuza), seja a morte da rebeldia em bandas como o Paralamas, Titãs e RPM/Paulo Ricardo, que aderiram de vez à alegria frívola, seja o caminho para a clandestinidade musical, longe da mídia, caminho de Lobão e de Humberto Gessinger (o abandono das massas por meio de uma morte midiática, que se torna a passagem para uma vida criativa clandestina).

***

O agente, o capitalista que corre nas veias dos produtores, dos músicos, dos homens de negócios das mídias, enraba as massas, é verdade (como também é verdade que elas gostam de ser enrabadas). Eles executam um admirável trabalho no campo da canção, uma coisa perfeccionista de uma eficácia crescente: na execução de shows cada vez mais pirotécnicos, na composição de hits estrondosos, na distribuição, na gravação. A indústria cultural elevada a estado de arte gerencial. Por que fazem isto? Pela fama, pela vida confortável que o dinheiro pode lhes dar, pelo prazer de se sentir no centro do vórtice musical das massas, pelo interesse, enfim? Sim, fazem pelo interesse, porque querem estar por cima, porque querem dominar, enriquecer. Mas há algo mais, algo mais decisivo. Há também um prazer em fazer bem feito, o amor desinteressado, não pela canção em si, mas por este mecanismo músico-mercantil, pela máquina da indústria cultural, um prazer em atingir a perfeição dentro dos padrões desta máquina ou, como diz Deleuze no Antiédipo “um amor desinteressado pela máquina social pela forma de poder e pelo grau desenvolvimento por si mesmos (…) Uma espécie de arte pela arte na libido, um certo gosto pelo trabalho bem feito, cada um no seu devido lugar, o banqueiro, o chui, o soldado, o tecnocrata, o burocrata, e porque não o operário, o sindicalista…” e também o roqueiro, o pagodeiro, o público, o produtor, o capitalista da mídia. É aí que Deleuze diz, com razão, que o próprio capitalista, o próprio agente não trabalha apenas para o seu interesse, mas principalmente para perpetuar a máquina capitalista, trabalha para o desejo da máquina, sente prazer em ser uma peça dela, em ser enrabado por ela tanto quanto as massas o sentem. Agentes e demarcados, artistas, produtores, capitalistas, massas, são peças trabalhando, com alegria, volúpia e eficácia para a máquina da indústria cultural, para o mercado pop.

***

E a face sombria do rock fica cada vez mais degradada, mais vazia, ela não deseja mais nada que não seja o vazio. A energia adolescente, negra, feminina do rock se debate melancólica e niilista ou se transmuta em alegria frívola conectada na máquina de mercado. A face sombria do rock converte toda a sua juventude, negritude e feminilidade em desejo de morte e se torna máquina de auto-aniquilação. Sua única alternativa é a clandestinidade: passar despercebida das massas, descobrir uma nova energia nas sombras, nas sobras, nos escombros de uma sociedade sem utopias.

***

A alegria frívola do rock é uma ponte para o mercado, para o iê iê iê classe média das propagandas de televisão e o prenúncio das ondas do sertanejo, axé e pagode. Mas sua revolta rancorosa e melancólica também é um excelente negócio, pois ela constitui o nicho próprio do rock, uma tristeza européia que permeia os adolescentes de classe média brasileiros. Não é à toa que a banda das bandas do BRock é a Legião Urbana de Renato Russo com sua atmosfera cinzenta, sua vontade de morrer, sua rebeldia que se debate no vazio.


Guerra nas estrelas

1 Junho 2007

Publicado na edição de junho/07 da Revista Ruído Branco.

A economia mítica

Em Guerra nas Estrelas, os Cavaleiros Jedi remetem, ao mesmo tempo ao homem santo e ao herói. O conhecimento da força torna o Jedi um sábio extremo e um guerreiro virtuoso, características centrais de um e de outro, respectivamente. A habilidade com o sabre de luz, usado de forma precisa, implacável e impassível, remetem ao samurai, ao cavaleiro de capa e espada medieval, ao espadachim e ao cowboy. A capacidade de pressentimento do futuro imediato e distante, de manipulação da força para mover objetos à distância e, nos casos mais extremos como em Yoda, de emissão de raios mortais contra o inimigo, remetem aos bruxos e sábios budistas e yogues. A estes dois últimos os Jedi se assemelham ainda pelo papel da meditação em seu conhecimento do sagrado. O altruísmo, ascetismo e castidade remetem à disciplina extrema dos yogues e monges budistas e cristãos.

Os personagens centrais dos filmes, por sua vez, são um composto de personagens míticos do ocidente e oriente. Yoda é principalmente uma espécie de sábio maior, um misto de mestre yogue, Dalai Lama e Papa: trata-se de um quase santo e dentre os viventes (já que não se trata de um humano) é o que mais conhece a força. Mas é também um poderoso guerreiro e um espadachim inigualável, pois o conhecimento da força proporciona, ao mesmo tempo, sabedoria e belicosidade, embora, nele, a primeira seja o elemento predominante: é mais um homem santo que um herói. Obi-Wan é sua contra-parte, pois é um sábio, sem dúvida, mas trata-se, antes de tudo, de um guerreiro, um homem de ação, decidido e, não raro, bem humorado, um composto de cowboy, espadachim e samurai. O personagem central, Anakim Skywalker, o que, segundo a profecia, traria equilíbrio à força, já está em outro plano, o do herói mítico, o mortal superior a todos os outros ou o semideus, com um pé na mortalidade e outro na divindade. Neste aspecto, Anakim e seu filho, Luke Skywalker, remetem diretamente aos heróis gregos sofredores Hércules e Prometeu. Mas também aos sábios supremos, homens-deuses, como Buda e Cristo, que rearranjam o equilíbrio sagrado do mundo.

Sem dúvida, Guerra nas Estrelas é uma narrativa mítica, não só pela compilação de mitos de várias épocas e culturas, mas inclusive por sua estrutura, ou seja, pelo modo como amalgama esta variedade. Numa entrevista sobre o filme, George Lucas diz que, como na poesia, o filme rima as cenas, ou seja, há recorrência de fatos que remetem a outros, analogias entre acontecimentos (e entre coisas). E ele tem razão. Por exemplo, em duas cenas capitais da história (talvez as cenas centrais) acontece esta circularidade analógica entre os eventos que caracteriza o mito. Na primeira cena, no episódio III, Anakim impede o poderoso Mace Windu de matar Papatine, selando o destino do primeiro como Sith (o anti-Jedi do lado escuro da força) e do segundo como déspota da Galáxia, que passará de república democrática a império despótico. Na segunda cena, ocorrida no fim do último episódio, o mesmo Anakim (agora Darth Vader), salva seu filho Luke Skywalker, matando o mesmo Imperador cuja vida ele salvara no episódio III, o que faz Anakim se redimir e retornar para o lado luminoso da Força (mesmo depois de morto), determinando o fim do Império e a volta da república. Não só os acontecimentos são análogos, mas também as circunstâncias. Em ambos os casos Anakim assiste a agonia das vítimas de fora da luta, mas perto o bastante para nela interferir e salvá-las, se quiser. E em ambos os casos ele decide intervir e impedir o assassinato, e ambas as vezes por amor: quando salva Palpatine ele o faz por amor a Padmé e por amor a seu filho impede o mesmo Palpatine de matá-lo,na segunda cena. O mesmo amor passional (condenável num Jedi, pois implica no medo da perda, caminho para o lado obscuro da Força) que o arrasta para o lado obscuro da Força, paradoxalmente o faz retornar para o caminho Jedi. Outra característica mítica da narrativa é a composição das personagens, cujas ações são uma espécie desdobramento de disposições arquetípicas suas. Ao contrário do romance, no qual o herói é o resultado de suas peripécias (o desdobramento das ações resultam no sujeito formado), no mito, as peripécias são o desdobrar de disposições iniciais pré-formadas ou potenciais: no mito o herói não aprende como no romance tradicional que quase sempre é uma narrativa de formação. Assim, Yoda é o sábio e sua performance durante a saga será principalmente de atos de sapiência, como a de Obi Wan será de heroísmo. Neste aspecto, Anakim se compõe de arquétipos conflitantes, pois se ele é o herói salvador por excelência, também o habita a figura do traidor: Anakim é, ao mesmo tempo, Jesus e Judas. Talvez este seja o sentido da profecia do escolhido que trará equilíbrio à força, não o que os Jedi lhes dava de eliminar os Sith, mas o de transitar nos dois lados da força. Neste sentido, Anakim remete aos deuses ambíguos, como Hermes, o mensageiro astucioso, que transita entre o mundo terreno (baixo) e o celestial (elevado): o Exu do candomblé também faz o mesmo percurso.

A despeito da utilização do tesouro mítico de várias culturas, Guerra nas Estrelas acomoda-os no maniqueísmo da Força, uma potência abstrata que governa a vida no universo. No entanto, trata-se de um maniqueísmo muito particular, pois embora haja diferença efetiva entre os lados obscuro (mal) e luminoso (bem) da força, trata-se de dois pólos de uma mesma substância abstrata, ou seja, embora seja clara a diferença entre bem e mal, eles se distribuem numa escala contínua: daí o medo e o amor passional ser uma espécie de limiar entre os pólos, pois são sentimentos que misturam altruísmo e ódio, situados nos extremos opostos da força. Tal maniqueísmo não comporta, então, o bem e o mal absolutos, e muito menos a personificação destes pólos em seres como Deus e Diabo, pois suas polaridades são reversíveis (veja-se o trânsito de Anakin, do bem para o mal e novamente ao bem). Esta reversibilidade de um princípio vital supremo, abstrato e impessoal, recupera tradições religiosas orientais, como o taoísmo, com sua dualidade yin/yang, e principalmente o budismo, no qual o jogo entre a iluminação e a obscuridade é análogo ao do filme.

Épica do capitalismo

Guerra nas Estrelas, a princípio, parece sintetizar mitos e religiões de várias culturas numa fábula mítica extremamente bem armada, projetando-os num futuro (embora a introdução advirta o espectador que a história se passa “numa galáxia distante, a muito tempo atrás”, trata-se obviamente do tempo por vir) extremamente avançado tecnologicamente. O arcaísmo (mito) e futurismo (ficção científica) extremos da saga dos Skywalker explicariam duplamente o fascínio que o filme exerce sobre uma multidão de pessoas, pois nele se casa o poder intemporal do mito com a paixão do homem moderno pelo futuro que é, nos dizeres de Octavio Paz, o tempo por excelência da modernidade.

Tal explicação reforçaria a idéia de universalidade do mito, cuja dispersão em mitos particulares através da história e das culturas, seria, nada mais nada menos que a atualização de uma matriz mítica universal do homem, seja esta matriz a abstrata estrutura simbólica que o estruturalismo antropológico tanto procurou, seja o substrato arquetípico inscrito na alma do homem em geral, como quis Jung. A bem sucedida síntese mítico-religiosa de Guerra nas Estrelas seria um indício (ou até uma prova, para os mais entusiasmados) do quanto os mitos das mais variadas culturas dialogam e, no seu substrato mais profundo, são análogos. Dessa analogia geral dos mitos decorre a sua universalidade, que é também a do homem. Até mesmo nossa a paixão pelo futuro, que a ficção científica exprime com tanto sucesso, não deixa de ser uma vertente mítica constituinte do homem (o fogo de Prometeu, a nova fé de Jesus), que o Ocidente teria atualizado com mais insistência e vigor que as outras culturas.

No entanto, talvez não haja apenas a síntese mítica em Guerra nas Estrelas. O procedimento estético do filme, aliás, parece ser o que Deleuze e Guattari chamam,em seu Antiédipo, de descodificação dos fluxos. O que no passado e nas várias culturas eram sinônimos de constituição fundamental dos homens, ou seja, o que codificava e perfazia essencialmente o seu ser, perde sua constituição original e seu caráter fundador (descodificação) e é recodificado no fluxo-geral da fábula. Mas esta recodificação não dá mais aos mitos (ou ao mito) o caráter de fundação que ele possuía nas fábulas originais: no filme, o prazer da fábula subjuga o seu poder sagrado. Se este ainda se manifesta no filme, é como potência segunda, como eco ou sombra de sua substancialidade original.

O mais intrigante, porém, é que em Guerra nas Estrelas, esta primazia do prazer da fábula, que ocorre por meio da descodificação mítica (de resto, muito comum no cinema comercial norte-americano, principalmente na ficção científica), encontra-se expressa no interior da própria fábula, na figura da Força, um fluxo contínuo, abstrato, polarizado e até mesmo mensurável (na forma de contagem de midi-chlorians), que descodifica, absorve e recodifica, na economia estética do filme, os mitos mais variados. Tal descodificador geral dos mitos remete ao movimento do descodificador geral dos fluxos na sociedade capitalista, o capital, fluxo de todos os fluxos, que vai permitir ao Ocidente a modulação e absorção das outras culturas (do outro) em seu incessante movimento despido de pontos absolutos de apoio (ser ou mito fundador) mas que, no entanto não prescinde destes mesmos pontos de apoio, mas relativizados. Assim,o estado, no capitalismo não é simbolicamente calcado num poder divino (lei absoluta de deus), mas no estado de direito, ou seja, num corpo leis, móvel e laico. A Força em Guerra nas Estrelas necessita que a mitologia e seus heróis subsistam, como o capitalismo precisa do Estado, mas sob os rigores do seu continuum abstrato e polarizado.

Talvez o fascínio de Guerra nas Estrelas esteja não em seu arcaísmo ou futurismo, mas exatamente em sua extrema atualidade, em sua engenhosidade em efetuar, na economia interna do filmeverdana (na Força), o movimento de descodificação geral dos fluxos que, ao mesmo tempo que preserva a sombra (ou eco) das substâncias originais que descodifica, as recodifica sob outro regime. Então, o sucesso do filme estaria em representar ou refletir o funcionamento estrutural do capital em nossa sociedade? As idéias de representação, reflexo, ou mesmo refração não são um bom ponto de partida, pois supõem, por um lado, um real representado (e mais verdadeiro ou pelo menos verificável empiricamente) e, por outro, sua representação simbólica, a obra estética, produto de segunda mão, derivado da realidade: a arte como metáfora, conotação ou forma que se move sobre o fundo de verdade do real.

Esta idéia da obra como representação, que vê na sua estrutura estética uma denotação (inclusive em suas versões sutis de refração, distorção ou contraposição) das estruturas sociais historicamente formadas permeia uma certa crítica de matiz sociológico, não raro de formação marxista, que ressalta o vínculo entre arte e sociedade. O mito, nesta perspectiva, representaria, em sua estrutura narrativa, as relações de uma dada sociedade em um momento específico de sua história. Esta perspectiva tem a vantagem de evitar a interpretação universalista dos mitos, principalmente em sua tendência de ver em cada mitologia particular a atualização de um tesouro arquetípico primordial, universal e transcendental: tal tesouro seria, portanto, a expressão de uma suposta essência do homem. A desvantagem desta perspectiva mais sociológica é a de insistir na idéia de que o estético (simbólico) representa o social (de base material) historicamente formado, numa espécie de separação cristã entre corpo (real social) e alma (representação estética), valorizando, ao contrário do cristianismo, o material.

Portanto, dizer que a descodificação dos mitos que Guerra nas Estrelas promove em sua estrutura estética corresponde ao processo de descodificação geral dos fluxos que o capitalismo (ou a modernidade) promove, não significa que a Força representa, na economia estética do filme, o papel que o capital desempenha na economia (material e simbólica) da ‘sociedade real’. Talvez seja melhor colocar a coisa em termos de desejo, de organização (ou formação) do desejo numa dada sociedade. O capitalismo procede por uma incessante descodificação e recodificação dos fluxos, para os quais não há origem nem fim fixos (nem princípio, nem finalidade). O capital, nesta perspectiva, não é o real representável, mas uma espécie de (des)limite de descodificação de todos os fluxos, não a medida de todas as coisas, mas o fluxo que desloca todos os limites estabelecidos, o limiar a partir do qual os outros fluxos do desejo (de trabalho, de fé, de arte etc) serão descodificados e não mais se cristalizarão em torno de qualquer absoluto, embora haja cristalizações precárias (relativas) de fluxos: identidades individuais, regionais, nacionais, religiosas, estéticas: o indivíduo e as tribos do mundo atual.

O deslocamento dos mitos que Guerra nas Estrelas faz com tanta eficácia, descodificando e recodificando-os no fluxo abstrato da Força é, não a representação do ‘real da sociedade capitalista’, mas uma efetivação não menos real da descodificação capitalista. O fato desta efetivação se dar no plano simbólico não quer dizer que ela seja a representação de uma matéria original, ou seja, o filme (qualquer filme ou narrativa) não é uma forma estética derivada de uma forma histórica primeira, mas ambas as formas são co-ocorrentes e primeiras no mesmo espaço social. A forma da arte não é filha das formações sociais, mas ambas são órfãs e sua relação, menos que de causalidade ou eugenia, é de interferência recíproca, como se as cadeias simbólicas e materiais da sociedade estivessem numa situação de entrelace contínuo e assimétrico, violando-se mutuamente.

O facínio que a síntese de mitos que Guerra nas Estrelas exerce não significa que nós, ocidentais ou ocidentalizados, participamos de uma “universalidade mítica”, ou seja, o gosto pela mitogia não revela nossa universalidade. Ao contrário, este gosto é a efetivação de uma particularidade da cultura ocidental, que é a ambição cosmopolita de síntese de todos os mitos, a ânsia por compilar e digerir todas as tradições, crenças e mitologias. As outras culturas se conformam (na verdade, se comprometem) com os mitos de sua tradição específica e, quando muito, estabelecem um universal a partir de suas raízes particulares, enquanto nossa sociedade sem mitos de origem não cessa de compilá-los, deslocá-los e relançá-los, não raro em busca de uma matriz abstrata de todos eles na esperança nostálgica de uma refundação da origem, própria das religiões atuais e de algum pensamento, como o junguiano.

Por outro lado, o mito, combinado com o enredo folhetinesco e o futurismo cientificista, não funcionam como ideologia, ou seja, não são estratégias de ocultação de “significados nada inocentes” do filme, tais como um certo pendor aristocrático dos heróis (naturalmente melhores que os outros mortais) estranhamente misturado com a valorização da democracia (uma falsa liberdade?) ou a tendência maniqueísta que tanto interessaria ao imperialismo norte-americano, ávido por divisões claras entre o bem e o mal. De fato, tais sentidos circulam no filme, o que não significa que sejam a sua verdade oculta que se impõe pela ludibriação dos espectadores. Esta interpretação apenas repõe o maniqueísmo de maneira invertida, considerando ruim o que a obra apresentaria como positivo.

O fato destes sentidos e valores padrões (bem x mal, superioridade aristocrática e poderes sobrenaturais do herói) circularem na economia estética de um filme não o torna, por si só, nem bom nem ruim. Se eles circulam perpassados pela ironia, como em “Beleza americana” e “O Show de Truman” por exemplo, para permanecermos no cinema comercial norte-americano, os filmes podem se salvar esteticamente, pelo efeito de distanciamento e auto-estranhamento cultural. É claro que na maioria do cinemão americano estes sentidos tornam-se clichês repetitivos, fórmulas a serem aplicadas quase que mecanicamente e com mínimas variações. O clichê na arte de massa é uma repetição de padrões relativamente (e apenas relativamente) estáveis, previsíveis e desejáveis (pela maioria) de valores e significados ou, por outras palavras, é o próprio processo de recodificação se efetuando, recompondo identidades e sistemas bem marcados para os fluxos descodificados. Faz parte do clichê não apenas significados e valores que circulam no filme comercial (e da novela televisiva), mas também seu andamento folhetinesto, com um enredo marcado de quiprocós e revelações, numa combinação que, quando bem manejada pelo cineasta, resulta na garantia de uma grande audiência e, em consequência, uma não menos alta rentabilidade financeira.

Mas o caso da ficção científica é particular, pois mesmo que o heroísmo e o maniqueísmo apareçam sem o distanciamento crítico, em filmes como Guerra nas Estrelas, Matrix, Alien e Exterminador do futuro, mesmo ao espectador mais exigente parece que o clichê repetido soa com um sentido à mais, como se o próprio clichê remetesse a algo que o ultrapassasse enquanto tal (a mesma sensação que se tem com os melhores faroestes).

Talvez esta sensação de transbordamento de sentido ocorra porque estes filmes sejam a épica de nossa cultura. De fato, tal como a épica das outras culturas, em Guerra nas Estrelas estamos diante dos limites máximos de nosso tempo-espaço. Espacialmente, o palco é a galáxia, a maior unidade espacial imaginável. Temporalmente, ao contrário da épica antiga, que buscava o tempo mais remoto possível (a fundação do povo), o filme de ficção científica comercial busca o futuro verossímel e imaginável o mais distante possível – no sentido de que ainda possamos nos reconhecer nele, ou ainda, em que nossos clichês ainda valham. O Ocidente não procura o sentido na sua origem e nem no seu destino final (como no cristianismo e no judaísmo), mas no limite de seu devir, o limite da duração no qual ele ainda pode se reconhecer, pois num regime de descodificação geral de fluxos, as origens e fins não são limites absolutos, mas relativos, a serem deslocados e absorsivos. Por isto, ao contrário do homem das outras culturas, o ocidental não acredita piamente no conteúdo mítico de suas épicas, embora possa lhe perpassar a crença difusa de que alguma verdade universal esteja sendo dita metaforicamente (esteja conotada) pela narrativa, numa espécie de interpretação (não especializada é claro) universalista do mito. Na formação da épica do ocidente não pode haver, de fato, um absoluto em que acreditar, pois o movimento geral do capitalismo, em todas as suas dimensões (estética, política, econômica, técnica) é exatamente o do deslocamento de todo e qualquer absoluto, tornando-o relativo. Não que este deslocamento resulte numa perda total de pontos de referência (valores), muito pelo contrário, pois o estabelecimento de clichês como valores relativamente estáveis é uma força centrípeta necessária ao equilíbrio tenso do regime de descodificação dos fluxos. Mas a épica de tal regime teria também que efetuar, de uma perspectiva estética, tal deslocamento do absoluto. Neste aspecto, a Força como continuum abstrato, reversível e mensurável desempenha, em Guerra nas Estrelas, o papel de descodificador geral dos fluxos míticos-religiosos, para recodificá-los depois em clichês estéticos maniqueístas e heróicos que tanto apreciamos (desejamos). A épica não representa uma cultura, mas ela (e a religião) diz às pessoas de uma cultura o que elas são, porque o são, de onde vieram e qual o seu destino, ela é um explicador final para a falta de explicações últimas da existência. A épica do ocidente não pode nos dar tais certezas, mas ela (de)marca o estado atual e o movimento possível da descodifacação, ou seja, ela nos diz de nossa identidade relativa (nossos clichês) enquanto ocidentais e especula, na duração futura, os limites desta identidade, o quanto os fluxos (não só os tecnológicos, mas também os políticos, econômicos, morais etc) podem ser descodificados sem que deixemos de nos reconhecer como ocidentais.

Daí os clichês, em Guerra nas Estrelas, apesar de circularem no filme de modo ingênuo, ou seja, sem o distanciamento da ironia, darem a sensação de se ultrapassarem a si mesmos. De certo modo, esta ultrapassagem efetivamente se dá, pois a épica, em sentido estrito, não é o espaço narrativo do questionamento dos valores e sentidos cristalizados, mas de sua afirmação simples, pura e grandiosa, que é o que acontece na obra de George Lucas. O fato do filme ser arte de massa (magnética e contagiosa), feita no Estado central do capitalismo e estar enredada no jogo do mercado ‘até a alma’ (é claramente cinema comercial) não lhe tira as prerrogativas épicas. Ao contrário, tais características extra-estéticas até reforçam o seu caráter de épica que, em qualquer sociedade, é um produto simbólico umbilicalmente ligado a seus modos dominantes de produção e reprodução materiais e imateriais, além de estar em estreita sintonia com o gosto, o pensamento, os afetos e valores comuns do povo. Por outras palavras, a épica efetua brutalmente as formações de desejo que constituem a maioria (ou as centralidades) de uma cultura. Ela é de uma beleza infante: infantil e bélica, ingênua e monstruosa.



Conto turístico

1 Maio 2007

Publicado na edição de maio/07 da Revista Ruído Branco.

O turista que foi a Caldas Novas 15 anos atrás e voltou somente agora seria tomado de estupor diante da fúria de demolição e construção que se apossou da cidade. Casas de comércio, prédios, clubes, bairros e fortunas, tudo é some aparece de súbito e a cidade cresce exponencialmente, em população, riqueza e extensão. Em Caldas Novas, quase nada se preserva e quem caminha hoje por suas ruas, daqui alguns meses verá que muitas lojas fecharam, outras abriram e outras ainda se modificaram, do mesmo modo que as pessoas raramente se fixam por muito tempo em um trabalho: a obsolescência e a descartabilidade são as leis da cidade.

A Cidade de Goiás certamente não deixou de crescer nestes últimos 15 anos, mas há um permanente esforço de conservação de seu patrimônio histórico, seja ele simbólico (tradições) ou material (construções). Este esforço se dá por dois motivos que se auto-alimentam: uma consciência coletiva e cidadã de preservação da memória do estado e do país; e porque o turismo do qual a economia da cidade depende cada vez mais necessita desta conservação.

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Caldas Novas é uma cidade balneário muito particular, pois as pessoas não a procuram apenas por conta do poder terapêutico de suas águas termais. Se assim fosse, o perfil de seu turista seria o idoso. Mas ela é freqüentada por pessoas de todas as idades. Suas águas quentes exercem uma espécie de fascínio que atrai de crianças a velhos, passando pelos jovens. Aliás, com estes acontece um fenômeno de massa muito comum (como nas praias) no qual um amontoado juvenil atrai mais pessoas e assim sucessivamente num efeito bola de neve, a ponto de, no carnaval, a cidade ter problemas por conta de excesso de turistas.

Esta bola de neve juvenil tem características muito peculiares, pois é feita de jovens em trajes de banho e em estado festivo, não raro regrado à cerveja. Caldas Novas é a cidade dos corpos em transe: Hidra, Baco e Vênus. Mas o fio condutor desta tríade é Hidra, que se compõe com os corpos desnudos à procura de amor e embriaguez, é a água, este elemento primeiro e anterior que, em forma de piscinas termais, fascina e atrai a massa turista para o seu corpo informe.

Na Cidade de Goiás há um outro clima, mais cult e alternativo. O atrativo é a tradição rude e brutal dos ocupantes antigos de Goiás. Esta tradição se transfigura numa atmosfera que atrai uma “população mais consciente da importância da memória”. É claro que há também Baco, Vênus e até mesmo Hidra, pois nos arredores da cidade, no Rio Vermelho ou no Bacalhau, os jovens se encontram em trajes de banho e os corpos se mostram e se desejam como em Caldas Novas. Aqui também há o fenômeno bola de neve, mas o elemento condutor é a história, ou melhor, a história paralisada na forma de conservação dos prédios antigos e algumas tradições, como a procissão do fogaréu e dos doces caseiros.

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Tanto em uma como em outra cidade ocorre ainda um curioso fenômeno. O chamado turismo ecológico, propiciado principalmente por duas serras, a de Caldas, um esplêndido platô a oeste de Caldas Novas e a não menos impressionante Serra Dourada, nas cercanias da Cidade de Goiás. Aqui, outro elemento ancestral atrai o turista: a Natureza.

Outra coisa comum a ambas as cidades (na verdade a todos os locais turísticos) é a presença maciça da canção popular, seja em shows, nas margens das piscinas e córregos onde os corpos se banham ou na noite de bares e boates. O ar das cidades turísticas é saturado da canção de sucesso (sertaneja, axé, dance, rock) ou, em menor grau, alternativa (mpb, samba, caipira). São as massas turistas em conexão com Orfeu (Orfeu-pop), o que não deixa de ser uma espécie de embriaguez.

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O elemento-chave, de fascínio, o que atrai as pessoas numa cidade turística é, em geral, um fenômeno de margem. Algo que se encontra à margem da sociedade e que, normalmente, não teria uma serventia imediata para o cotidiano das pessoas, estados e empresas: águas termais, praias, tradição histórica, natureza preservada. A estes elementos-chave juntam-se outras coisas marginais, que circulam na sociedade, mas de forma clandestina ou camuflada, tais como o corpo desnudo e os entorpecentes, ou na forma de entretenimento para encher as horas ociosas, caso da canção (a poesia de agora). Enfim são coisas ociosas e marginais para a economia das sociedades. E talvez por isto mesmo sejam atraentes para as pessoas: os fluxos de margens são um fascínio para os fluxos que circulam no interior do sistema, pois implicam no seu limite, além do qual se desdobram riscos e mistérios cuja exploração é o exercício de uma ousada liberdade das regras e hierarquias sistêmicas: o fascínio da viagem, da ida que talvez não tenha retorno ou da qual se retorna outro.

Por outro lado, se as sociedades atuais dispõem desses lugares (geográficos ou sociais) ociosos, as pessoas de classe média ou alta, que se encontram num estágio de “desenvolvimento” (mesmo em países ditos subdesenvolvidos), dispõem, em maior ou menor grau, de momentos ociosos, que vão do descanso diário até as férias, passando pelo fim de semana. Isso sem falar nas pessoas que tem boa parte ou quase todo o seu tempo ocioso, como os jovens, crianças e os velhos. Esta também é uma duração de margem, na qual o corpo das pessoas não tem o que fazer de produtivo, mas que, mesmo para os que trabalham, deve existir, sob pena da queda de sua produtividade.

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O turismo promove e explora o encontro dessas duas ociosidades (ou margens), o tempo livre das pessoas e os lugares geográficos e sociais não produtivos, transformando o ocioso em produtivo. Este encontro é efetivado pelo deslocamento espacial, pela tour, a viagem de recreio.

A grande descoberta do turismo é que qualquer ociosidade pode ser produtiva, o descanso e os lugares imprestáveis podem render. Como a ociosidade (seja a das pessoas, seja a dos lugares) é margem, isto implica em trazê-la para o interior do sistema, em sistematizá-la, ou seja, em domesticar o que ela tem de perigoso e incerto e convertê-la em normalidade. Assim, a viagem de turismo não é mais um risco, nem de morte para o corpo, nem de transformá-lo de tal forma que ele retorne outro – desestruturação do corpo. O turista não explora territórios de risco, mas trafega por lugares demarcados. Assim, os elementos de margem, ligados de uma forma ou de outra ao transe, à ancestralidade e à indiferenciação, tais como água, natureza, tradição, corpo, entorpecentes, são demarcados e depurados de seus riscos e incertezas. Há, no turismo, uma racionalização destes elementos e do tempo ocioso, assim como da viagem. Todos são cercados de planejamentos e garantias para que o corpo retorne ileso, não apenas do ponto de vista de sua saúde, mas de sua identidade: o turismo não implica numa viagem para o outro, mas de um deslocamento de uma identidade sobre um espaço previamente segmentado: movimento de um fluxo demarcado subjetivo sobre um fluxo demarcado objetivo, sendo ambos internos à sociedade capitalista.

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Talvez a Cidade de Goiás (e o turismo histórico e ecológico em geral) possa parecer menos vinculada a esta domesticação dos fluxos e proporcione, de alguma forma, um encontro com o outro. Talvez porque paire no ar uma atmosfera cult, porque haja, ao lado da ambição, uma consciência cidadã de preservação da memória coletiva. Mas o fato é que a demarcação que ela sofre, por parte do estado e do capital, não difere muito, em natureza, da de Caldas Novas. Do ponto de vista da racionalização turística, a reforma e a preservação do patrimônio histórico (uma espécie de congelamento da duração) não difere muito da incessante demolição e reconstrução por que passa Caldas Novas. Em ambos os casos, trata-se de uma espécie de cenografia, uma montagem de cenários para que se possa passear e, no passeio, vivenciar o espetáculo: o turista como ator, como papel social previamente estabelecido, escrito (é claro que não se trata da escrita de um autor consciente e maquiavélico, mas da formação de um desejo de massa, inscrição social).

Neste sentido, se quisermos encontrar o lugar turístico por excelência ou, para os que gostam de essências, a natureza do turismo, não se deve procurar em cidades “reais”, como Caldas Novas, Goiás, Porto Seguro ou Rio de Janeiro, por mais voltadas ao turismo que elas sejam, mas na cidade-espetáculo que é o parque temático. O aparecimento deste se deu após a consolidação do turismo como atividade econômica, mas ele sempre foi o horizonte de todos os lugares turísticos, uma espécie de modelo a ser perseguido: quanto mais próximo da extrema demarcação de um parque temático, mais próximo da perfeição turística.

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A atmosfera cult e a consciência cidadã das cidades históricas não levam necessariamente ao outro da margem porque elas mesmas são incorporadas no espetáculo geral do turismo, formando um nicho específico que vai atrair certo fluxo de turistas, mais alternativo, mais consciente. Ainda assim, não deixa de ser um fenômeno de massa e de internalização das margens: o cult é um lugar no sistema.

A memória conservada nestes lugares, destoante e, de início, improdutiva para as sociedades modernas, exercem grande poder de atração sobre as pessoas, pois funcionam, entre outras coisas, como ressonância de uma identidade coletiva e pretérita em conexão com o sujeito presente. Trata-se de uma ponte entre tradição e presente que une (e unifica) sujeito e coletividade: há sempre um (pre)sentimento do sagrado nos lugares antigos. O turismo promove a ligação do tempo livre das pessoas com este poderoso fluxo de desejo da memória coletiva, sob o regime de outro fluxo, o de capital, tornando produtiva a contemplação da memória.

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É provável que o turismo das águas, principalmente a praia, seja o mais dinâmico dos turismos, do ponto de vista econômico. E sempre que há água, há corpos quase desnudos e a promessa da sexualidade. Mas estes lugares turísticos não se configuram pelo sexo livre ou pela facilidade de relacionamentos, os quais seguem as mesmas restrições e padrões morais de outros lugares. Talvez haja apenas um aumento na prostituição, por conta da maior circulação de dinheiro livre para a diversão. Trata-se de um fenômeno parecido com o do capital, cujo excesso em determinado lugar ou atividade não implica em facilidade para consegui-lo.

A cidade cujo turismo se baseia nas águas tem estes dois excessos que se entrelaçam: o de capital e o de sensualidade. A água (das piscinas termais, do rio, da praia) dispara o processo turístico que, por sua vez, agrega sensualidade e capital. Estes dois últimos elementos alimentam duas bolas-de-neve complementares. Por um lado, os corpos atraem mais corpos que, por sua vez, exigem mais investimentos em infra-estrutura. O capital atrai mais capital e mão de obra (corpos para o trabalho e não para o ócio). Então ela se povoa maciçamente de um fluxo de trabalhadores, turistas e capital: indústria do turismo. Mas a este excesso dos fluxos de sensualidade e capital corresponde a dificuldade dos corpos em satisfazer seu desejo por eles, pois da mesma forma que o capital é escasso à massa trabalhadora, o encontro sexual é difícil à imensa maioria dos turistas.

No turismo das águas a acumulação de fluxos (de capital, de sensualidade) exerce um fascínio sobre os corpos, atraindo-os massivamente, pois estes, no capitalismo, necessitam de complemento de fluxos (a falta constitui o corpo – no caso do turismo histórico a falta se liga à memória e identidade). Mas, apesar de sua abundância, a circulação desses fluxos sofre uma severa disciplina que os torna escassos para a massa dos corpos e, como em qualquer lugar, muito poucas pessoas se satisfazem, mantendo ativo o processo da falta que movimenta, seja a economia da sensualidade, seja a do capital.

Assim, o erotismo que na revolução contracultural se configurava como uma espécie de arma contra o capitalismo sofre, no turismo das águas, o mesmo processo de acumulação e escassez do fluxo de capital, sem que os corpos quase desnudos necessitem modificar sua moralidade se lançando a uma sexualidade que a contracultura chamava de livre, desprendidas da “boa moral”. O que implica na preservação da identidade que os corpos ganham no interior do sistema. Mesmo quando há encontros sexuais, ele tende a ser no interior dos limites da sociedade. O transe sexual não se configura como passagem para a margem, a libido não atinge o outro sistêmico como queria a utopia contracultural. Se pensarmos nos corpos pelos quais circulam a libido, isto quer dizer que eles continuam demarcados e submetidos à rígida disciplina sensual da sociedade: trata-se de uma Vênus domesticada.

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Que tipo de texto faço nesta coluna? Eis uma pergunta que eu deveria responder na primeira edição da Ruído Branco. Mas eu mesmo não sabia o que seria, embora soubesse que falaria um dia de turismo, de canção, de outros fenômenos do pop e do entretenimento, além de alguma coisa de literatura e pensamento. Mas o que faço? Ensaios, epigramas? O que me ocorre mais imediatamente é a ficção, contos. Faço, neste espaço, contos, narrativas, mas sem fábulas, compostas somente de digressões. É o mesmo trabalho digressivo de um narrador, o mesmo gesto de observação e registro, o mesmo mapeamento, mais olfativo e manual que visual e auditivo: tateios da mente. São contos que perderam a história.

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e agora zé

literatura acabou

contracultura

é a favor

utopia rodou

pé na estrada é turismo

ismo nenhum sobrou

todo sonho so

çobrou

e agora zé

que fazer do que resta

da festa

que que eu faço com o agora


POP: algumas idéias

1 Abril 2007
Publicado na edição de abril/07 da Revista Ruído Branco.

O que até o século XIX os intelectuais chamavam de cultura ou arte no ocidente era claramente dividido em duas: a alta e a popular. Os frankfurtianos no início de século XX mostraram como esta divisão tradicional estava se desfazendo em favor do que eles chamaram de indústria cultural. Havia três facetas importantes na indústria cultural. Primeiro, do ponto de vista tecnológico, ela se baseava numa nova mídia que podemos chamar de elétrica, ou audiovisual, a partir da qual se constituíram as novas artes do século XX: rádio, cinema, TV. De certo modo, a informática hoje é uma espécie de síntese e evolução técnica dessas mídias audiovisuais. Segundo, do ponto de vista econômico, a indústria cultural se constituía como extensão imediata do capital: do modo de produção ao consumo, ela estava imersa no ambiente do mercado. Terceiro, do ponto de vista dos fluxos estéticos que ela reordenava, a divisão entre alta cultura e cultura popular foi se desfazendo a passos largos. Na verdade, a própria cultura popular foi sendo minada em sua profusão de identidades e a alta cultura, que se construiu como universal, foram sendo absorvidas nos processos parciais da arte de massa.

O processo do pop provavelmente começou a se efetivar em fins do séc. XIX e início do XX, mas certamente ele dominou a cena estética na segunda metade do século XX. O período estético que conhecemos como modernismo foi, na verdade, o último e magnífico suspiro da Grande Arte como recorte estético ainda discernível. Depois, o campo estético se modificou radical e irreversivelmente, de tal modo que, se pudéssemos fotografar três momentos estéticos do ocidente, por exemplo, a década de 70, meados do século XIX e início do século XVI, é bem possível que encontraremos mais semelhanças entre estes dois últimos do que entre o primeiro e o segundo que, no entanto, são praticamente vizinhos no tempo.

Quando o rock surgiu, no início da hegemonia pop, a reação cristã a ele foi de imediato repúdio: em sua essência, acreditavam padres, pastores e fiéis, o rock era demoníaco e a única reação possível era o repúdio. Esta também era a crença dos roqueiros, que se queriam, a si e a sua música, alternativos por natureza. Mas, num determinado momento, os cristãos perceberam a inessencialidade do pop e, em conseqüência, do rock. O anticristo não é um dado intrínseco (ser) do rock, a ponto de, caso este elemento seja retirado, não seja possível satisfazer as sensibilidades roqueiras: tudo no rock, como em qualquer fenômeno pop, é intercambiável: o que se faz são derivativas, não a partir do rock, mas com o rock. No pop, nada parte de nada, nada se inicia de algum lugar ou ser, mas sempre se varia em meio: trata-se de um ambiente movediço, no qual os fluxos não se enovelam num ser, mas em vórtices precários, prontos a se dissipar: a descartabilidade e a obsolescência são inerentes ao pop.

A resistência no pop implica, em primeiro lugar, no reconhecimento da impossibilidade de volta das essências, da nobreza, do ser. Inclusive na literatura não é mais possível a existência de espaços de nobreza espiritual. Não há mais como fundar Estados literários (a última tentativa, no Brasil, foi o concretismo), com seus mestres e hierarquias, não há mais como afirmar um espaço estético purificado, separado e superior ao pop, um espaço cuja ascensão a ele garantiria, por si, o enobrecimento espiritual, pois o desejo não circula mais assim, o estético não funciona, não tem mais este recorte. O cinema e a canção nunca tentaram estas coisas, pois já nasceram pop. É necessário partir do pop, mesmo a literatura e as outras outrora ‘grandes artes’. Tentar, a partir de seu ambiente, uma fuga, atingir o bruxo fora dos vórtices, como aconteceu no tropicalismo, em algumas manifestações do rock brasil, como o fez Leminski e muita poesia marginal. Para a resistência é preciso todo o exercício de uma antropopfagia.

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Pistols: The Dark Side of the Beatles

1 Janeiro 2007

Publicado na edição de Janeiro/07 da Revista Ruído Branco.

O rock funciona por crises e arremetidas. Elvis foi uma dessas arremetidas que impulsionam o rock mais além. Os Beatles foram outra. Os meninos de Liverpool queriam, no começo, apenas se divertir, ganhar dinheiro e garotas. A coisa, no entanto, foi ficando séria. A banda se transformou em fenômeno de massa e isto muda muito as coisas. Quando restrita a Liverpool, por exemplo, a atração das meninas era um fenômeno de bando, depois a energia sexual das garotas se metamorfoseou em histeria coletiva (energia massiva). John & cia. passaram a ser uma espécie de buraco negro que atraia para si grandes quantidades de desejo: sexo, dinheiro, bajulação, ódio e admiração. Foi o segundo caso de fama mundial no rock – o primeiro tinha sido Elvis.

Os Beatles viraram um negócio sério e seus integrantes sentiram isso. Sua reação foi um misto de adesão e repulsa ao espírito comercial. A rebeldia, capitaneada por Lennon, implicou numa aproximação com a onda hippie e suas experiências mágicas com o sexo livre, as drogas, as viagens, o oriente… Essas atitudes, que eram comportamentais e estéticas, causavam furor nos meios conservadores da sociedade, mas exercia uma irresistível atração na juventude. Este confronto de gerações movimentava a vida social e principalmente a mídia, o que significava divulgação gratuita e involuntária, a melhor forma de propaganda. Era uma bola de neve mercantil que se alimentava de sua própria negação: quanto mais John e sua trupe faziam música e tomavam atitudes rebeldes ao status quo, mais eles vendiam.

Elvis foi o fenômeno da década de 50 e os Beatles de 60. Não se pode dizer que os Sex Pistols foram a banda de 70 (que provavelmente foi o Pink Floyd). Mas os Pistols foram a crise mais feia do rock, a mais contestadora, anárquica e explosiva. Porque eram vagabundos viciados, porque seu líder, vocalista e letrista, Johnny Rotten era um irlandês pobre numa Inglaterra preconceituosa, porque tinham talento para compor canções que, apesar de pesadas, mal tocadas e gritadas por Rotten, eram ritmicamente empolgantes e grudavam nos ouvidos das pessoas – eram hits sujos. São características que aproximam os Pistols dos negros americanos: desajuste social, revolta e ritmo alucinante se auto-alimentando. Mais que os Beatles, os Pistols se conectaram com a origem do rock: negra e jovem. Eram o adolescente prestes a entrar no mundo responsável do adulto e que, no entanto, recusa este mundo calculado. Eram o negro/irlandês pobre, proscrito e revoltado, marcado pela sociedade como cidadão de segunda, desde antes de seu nascimento. Duas rebeldias que se juntam um ritmo lancinante e contagiante, rock.

Jovens no ocidente, negros dos EUA, irlandeses na Inglaterra, são situações de minorias, massas bárbaras da periferia, fora dos sistemas produtivos e rebeldes a eles. Mas, paradoxalmente, é da energia selvagem dessas massas que o mercado e a sociedade se alimenta. É na periferia que pulsa a energia desejada pelas massas do centro. Assim, os Pistols e o punk também se tornaram um grande negócio midiático e, principalmente, possibilitaram o negócio maior ainda que foi o rock inglês dos anos 80 e 90, o qual não seria possível sem os Beatles e os Pistols, magia branca e negra da canção pop inglesa

Os brancos (e mesmo os negros) para serem roqueiros, conectam-se com o negro e sua rebeldia rítmica. O contragolpe da indústria cultural é a absorção da energia selvagem que o rock libera. A indústria cultural não cria nem impõe arbitrariamente uma música ou um estilo, ela funciona mais como antena e aparelho de captura. Primeiro ela sonda, identifica e testa as energias musicais e comportamentais das massas bárbaras da periferia, injetando-as nas massas civilizadas do centro. Caso estas se contagiem (pois trata-se de um fenômeno de contágio), as energias periféricas são absorvidas e seus artistas são sugados ao mundo da fama, dos mega-espetáculos e do dinheiro: os Beatles condecorados pela rainha, Rotten participando de um reality show. O rock sempre fracassa (na maior parte das vezes cinicamente) em seu desejo de um novo mundo. Mas nos deixa, como sobra, como vinho, como ritmo, o rastro venenoso desse desejo.

***

Os Beatles não eram exímios instrumentistas nem cantores excepcionais, como Elvis, mas os Pistols definitivamente não sabiam tocar nem cantar. Eles faziam uma zoeira raivosa em cima de letras pobres e agressivas e de um rock básico extremamente alto e sujo para a época. Além disso eram muito mais drogados e estavam quase sempre chapados. Duraram pouco, uns dois anos. Foi um furacão do rock, energia, revolta e anarquia. Os Beatles eram carismáticos, os Pistols eram magnéticos, mas insuportavelmente grosseiros e chulos (aliás, por isto mesmo eram magnéticos). Os Beatles foram os espíritos de luz da canção, enquanto os Pistols foram o exu (a barra pesada) do rock. Meio dia, meia noite.

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Há uma energia não absorvida nos Beatles e nos Pistols. Não é a que está nos pólos do bem e do mal, da luz e das sombras. Estas foram conformadas às forças maniqueístas da sociedade ocidental. Esta energia rebelde ficou como sobra no meio do caminho, passando em meio às polaridades do bem e do mal, da noite e do dia: aurora. Nela, pulsa o que realmente se quis (e quer), seja com os Beatles, seja com os Pistols, uma espécie de mundo novo, hippie & punk, anárquico, vário e solidário.

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Na década de 80, muito rock paulista e candango foi devedor dos Sex Pistols. Legião, Capital, Plebe, Ira, Titãs, Inocentes, RDP não seriam o que foram sem o punk e os Pistols. O caso mais intrigante é o da Legião, que oscilava entre a revolta energética do punk e uma vontade construtiva e moralista, quase de auto-ajuda, quase gospel: anarquia e conformismo de Renato Russo.

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yoda/marx

implacável

a força

é

quebre

fuja

negue

ab

sorvido

você

será

pelo lado negro (ou) pelo lado luz

um rastro

venenoso

resta

você

deixar



O rigor

31 Outubro 2006

Tudo tem rigor. Quando alguém passa o dia inteiro assistindo a TV está submetido a uma ferrenha disciplina corporal. Quando um poeta diletante faz versos de amor à moda casimiro-parnasiana, um complexo rigor normativo entra em jogo neste desejo que se efetua em linguagem.

Não há passividade, facilidade. A questão não é saber o que, numa atividade, é mais ou menos rigoroso e sim saber dos rigores que interessam para o uma dada vivência.

O que você quer? O que funciona agora pra você? O que os desejos falam a/em mim? A que rigores me ligarei?


de possessos & graus podres

12 Setembro 2006

Este que está fora e, no entanto, tensiona com o legível de um agora, distancia-se do jogo habitual da verdade e da falsidade e (se) instaura (n)o campo da fecundidade. Este está na margem, à margem, fazendo margem. É um monstro, um diabo, um possesso do bruxo. Sabe, por exploração, dos poros e vasos de vida que instauram, impregnam e desintegram os limites.

***

Eu quis o grau zero da declamação. Que a voz fosse a transparência atravessada pelo ritmo infinito do poema.

Despertar o poema (intacto) de seu silêncio congênito. Dizê-lo sem corromper a integridade de sua potência sonora, múltipla, muda e inscrita no porvir sempre adiado de sua efetivação.

Não foi possível. Pude apenas degradar a voz, o grau podre da declamação.


As fábulas da forma

22 Agosto 2006

Pierre Bordieu analisa Flaubert em “As regras da arte”. Roberto Schwartz analisa Machado em “Ao vencedor as batatas” e “Um mestre na periferia do capitalismo”. Antônio Candido analisa “Memórias de um sargento de milí­cias” de Manuel Antônio de Almeida no ensaio “Dialética da malandragem”.

Nestas três abordagens de crí­ticos-sociólogos ou, a critério do leitor, sociólogos-crí­ticos, há uma premissa comum que perpassa o trabalho analítico: a de que a forma estética – consciente e obsessivamente rigorosa em Flaubert e Machado e inicialmente frouxa, mas progressivamente bem armada no romance de Almeida – intui uma (ou mais) forma que ordena a sociedade na qual vivem os escritores. Forma social que estes, como qualquer homem de seu tempo, trazem inconscientemente (superego?) consigo. Em outras palavras, a forma estética diz (objetiva) não dizendo (escamoteando a objetivação) a forma social oculta pelos discursos convencionais (ideologia).

Os três crí­ticos frisam a importância, na obra destes autores, da inventividade (desvio) e precisão (mestria) da forma estética para se obter um efeito de real ‘ní­tido’ e ‘limpo’. Nitidez e limpidez que as convenções literá¡rias cristalizadas da época destes escritores não conseguiam atingir, pois, tal como as idéias e discursos correntes, os hábitos da literatura turvavam a compreensão de como (e este como é uma ‘forma de’) a sociedade funcionava verdadeiramente por trás das aparências da ideologia. Paradoxalmente, pelo rigor formal e até pelo culto da forma, acompanhado de uma postura indiferente e desengajada em relação às injustiças sociais e às paixões humanas é que estes autores conseguem atingir mais agudamente o cerne da sociedade e dos homens que nela se relacionam.

Estas obras crí­ticas são tão boas quanto a dos romancistas. Arrisco dizer que estão no mesmo ní­vel de inventividade. Se é preciso ser irresponsável pra se dizer isto, que sejamos então irresponsáveis e, aprofundando o disparate, digamos que as três análises crí­ticas em questão são tão boas fábulas quanto os romances que constituem seu ‘objeto’. São fábulas crí­ticas impecáveis e cada uma apresenta um rigor e uma precisão de análise, uma criatividade em estabelecer relações, de modo algum mecânicas ou previsí­veis, entre autor, obra e sociedade raros de se encontrar. Como bons romancistas, estes crí­ticos são capazes de nos surpreender, frustrando nossas expectativas convencionais a cada passo de seus escritos, apresentando-nos mundos novos e assustadores, obrigando-nos a romper com nossos hábitos mentais para que possamos vivenciar suas obras em sua plenitude. O que Bordieu diz a respeito de Flaubert, aplica-se a ele mesmo, Candido e Schwartz: o bom escritor tem a capacidade de construir uma obra que não é avaliável pelos campos literários (de conhecimento) estabelecidos, pois a partir destes campos antigos ela instaura um novo campo, mais fecundo e refratário a eles. Em outras palavras, as boas obras impõem outra estética e outra ética aos campos sociais e literários já existentes. Tudo isto pode ser dito também a respeito de uma boa obra crítica a qual, não raro, altera a percepção do campo literário atual e da obra que analisa, quase que a reconstruindo.

(Um dado curioso que, para os ufanistas da brasilidade, talvez seja fundamental: Candido e Schwartz chegaram à idéia da forma estética que revela uma forma social antes de Bordieau – ou pelo menos publicaram primeiro. 1 x 0 para a colônia.)

Estas fábulas da forma estética e da forma social não deixam de evocar o princí­pio do mimetismo, da imitação nos moldes aristotélicos. Por outros termos trata-se de uma relação representativa entre estruturas: a estrutura estética da obra representando (revelando) a estrutura social do mundo. São fábulas crí­ticas da representação, nas quais o funcionamento formal do romance representa – nunca explícita ou diretamente – o funcionamento social da vida. E a representação traz sempre a questão da verdade representada, do fundo sobre o qual uma forma se move para iluminá-lo. Eis, talvez, o limite destas fábulas da forma: tratam-se de fabulações realistas que pressupõem um limite de verdade (o da realidade representada) para o jogo da escrita romanesca e da sua própria escrita crí­tica. São, em última análise, buscas por estruturas que revelariam uma ordenação (forma), verdadeira e verificável, do mundo dos homens.


Belchior

31 Julho 2006

Belchior deve ser um constrangimento para os concretistas. Ele os admira, mas não há nada mais contrário ao catecismo concreto (e espólio) que suas canções passionais e engajadas. Se há uma correspondência literária com Belchior, esta só pode a poesia de Ferreira Gullar, seu parceiro de alucinação:

A minha alucinação é suportar o dia a dia
e o meu delírio é experiência com coisas reais.
Benchior em “Alucinação”

Belchior é derramado, transbordante em exclamações e lamúrias, dores e testemunhos, toda a parafernália psicologizante e choramingas que os inventors não perdoam. Caetano, irônico e (auto)crítico quanto à linguagem da canção, é perdoável, admirável, mas Belchior não se distancia, ele se lança demais, se consome em seus artefatos quase como… quase como… um romântico sofrendo de mal do século! (cruz credo ave mallarmia!!)

Mas o que isto importa se Belchior nos deu algumas das melhores canções da década de 70? E uma das linhas de força destas canções é feita justamente do derramamento afetivo, da choramingança desenfreada, do apego ao prosaico da vida e de um certo engajamento de juventude. Por outras palavras, o forte de sua arte é construir uma linguagem própria que deixe a vida próxima penetrar perigosamente nos poros de suas canções. Tanto quanto Gullar, Belchior quer fazer uma canção/poesia suja de vida – daquela vida quase palpável.

Ele ri com um charuto na mão. Era pose para fotografia ou foi apenas o flagra de um riso de artista? Talvez esteja cercado de amigos. Talvez saiba que suas canções serão música ambiente de shoppings e supermencados. Mas por que se importar? Ele ri tão simples, como se houvesse apenas aquele riso franco, uma atmosfera 68 entra 70 adentro, como se o mundo pudesse agora, aquém/além de shoppings e parques temáticos. Ele ri e fuma, quer apenas suportar alucinadamente o dia a dia, alucinadamente, sob a luz do teu cigarro, na cama, teu corpo ruge, brasileiramente linda. Ri como dois amantes e um quarto que se bastam no mundo por um segundo, numa tarde perdida no tempo, ele ri.


É preciso saber gritar

25 Julho 2006

A canção não é música (no sentido estrito da coisa) nem sua letra é um poema. Ela é uma poesia, tão boa quanto a escrita, mas só o é enquanto cantada: se o poema é a coisa escrita que espera a leitura, a canção é a coisa gravada que espera a audição. Luiz Tatit diz, com razão, que, na canção, a entonação do canto deriva da fala e não da música: por isto a coisa não é ópera, na qual a voz é um instrumento a mais.

Às vezes se grita na canção, mas não de qualquer jeito, pois é preciso imbricar os gritos com a instrumentação e os sentidos da letra, como em “Metrolpole”:

Metrópole
Letra: Renato Russo
Música: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha/ Marcelo Bonfá

“É sangue mesmo, não é mertiolate.”
E todos querem ver
E comentar a novidade.

“É tão emocionante um acidente de verdade.”
Estão todos satisfeitos
Com o sucesso do desastre:

“-Vai passar na televisão.”

“Por gentileza, aguarde um momento.
Sem carteirinha, não tem atendimento
Carteira de trabalho assinada, sim senhor.
Olha o tumulto: façam fila por favor.”

“-Todos com a documentação”

“-Quem não tem senha, não tem lugar marcado.
Eu sinto muito, mas já passa do horário.
Entendo seu problema mas não posso resolver:
É contra o regulamento, esta bem aqui, pode ver.”

Ordens são ordens.

“-Em todo caso já temos sua ficha.
Só falta o recibo comprovando residência.
P’ra limpar todo esse sangue, chamei a faxineira
E agora eu já vou indo senão eu perco a novela

E eu não quero ficar na mão.”

Como poema, esta letra seria de uma igenuidade rasteira, mas cantada, ou melhor, gritada como Renato Russo faz, ela se torna uma poesia dura como (e contra) a cidade grande.

Ao gritar violentamente a letra, é como se a voz do cantor explorasse e explicitasse a violência da linguagem cotidiana e bem educada das metrópoles. Atente-se ao penúltimo verso, no qual a palavra novela é gritada de forma grutural, associando à frase cotidiana uma violência insuspeitada. Em contraponto com os gritos há quatro orações isoladas, cantadas repetidamente em tom suave e monocórdio, uma espécie de racionalidade educada, mas fria e insensível e que se torna tão ou mais violenta que as palavras gritadas. Desta racionalidade monocórdia, talvez o verso mais representativo seja “ordens são ordens”, expressão de uma sociedade na qual a regra é lavar as mãos.

Trata-se de um novo mundo para o brasileiro da década de 80, egresso de uma cutura interiorana e rural. Um mundo individualista, calculado e impessoal, povoado de gerentes e funcionários e permeado por regulamentos, rotinas e entretenimento. Um modo de vida urbano que se quer desenvolvido.

Esta canção é uma poesia-porrada, que emerge da vida urbana e interage, tensa e brutamente, com ela. Uma poesia tecida de gritos violentos e agônicos, mas bem gritada.


Aliens & Borgs

21 Julho 2006

Nenhum povo que tenha entrado em contato com a civilização ocidental, do séc. XV pra cá, saiu imune a este contato. Todas passaram a ter no Ocidente o seu horizonte inevitável – desejado ou esconjurado. As sociedades capitalistas são como corpos contagiosos para as outras culturas.

Os aliens dos filmes Alien e os borgs de Jornada nas estrelas são uma espécie de metáfora do capitalismo ocidental e seu poder de desestruturar e incorporar a identidade do outro contra a sua vontade. Aliens e borgs são extra-terrestres terríveis que incorporam (pelo contato físico) os seres humanos para a sua espécie. A única solução para tal ameaça é o extermínio dos alienígenas e é este o objetivo da Ten. Ripley em relação aos aliens e do Cap. Picard quanto aos borgs.

Em termos de horror, o cálculo e a frieza dos borgs talvez superem a violência sanguinária e instintiva dos aliens, que são antes uma espécie que uma civilização: a monstruosidade civilizada é sempre mais horrível que a animalesca. Os povos “bárbaros” e “primitivos” que tiveram contatos imediatos com o os colonos e exploradores ocidentais que o digam.


A seita secreta

21 Julho 2006

A poesia de hoje está nos blogs, uma forma fácil e sem custos para publicá-la. Há uma rede de blogs poéticos na net: você entra em um e, a partir dos links que ele te oferece vai conhecendo outros e assim sucessivamente. O blog (e o site) foi a solução para se atingir o público leitor da poesia, pequeno e disperso.

O blog é uma forma de publicar que também vem de encontro com o modo de interação entre literatura e sociedade hoje em dia. A literatura é muito mais uma seita secreta para iniciados que uma igreja católica para todos. É secreta não porque suas bruxarias sejam feitas em segredo, mas porque, para entendê-las, para se conectar com elas, é preciso uma disposição de espírito (pra usar um termo antigo) pra coisa. Esta disposição exige, além de simpatia, uma certa aplicação num aprendizado ao mesmo tempo técnico e sensível, de longo prazo (a vida toda). Poucos sentem atração/desejo por este duro aprendizado escrito.

Talvez a literatura sempre tenha sido assim: de e para poucos. Mas ela tinha uma ambição iluminista de ser para todos e as pessoas alfabetizadas sentiam a pressão de dever ler a boa literatura. Hoje as pessoas não mais se sentem coagidas a lê-la. Apenas artistas e especialistas em texto a lêem. As pessoas em geral buscam satisfazer seus desejos de poesia na canção pop e os de narrativa na TV e no cinema.

Só os escritores (poetas, narradores e críticos) parecem não perceber o caráter incontornável da literatura atual: o de seita secreta, restrita a iniciados. Quando percebem (porque é óbvio demais) não aceitam o fato e colocam a culpa no subdesenvolvimento, nas elites, na nossa falta de cultura – como se no Primeiro Mundo a situação fosse diferente. Os escritores ainda têm o sonho iluminista de uma igreja católica literária – católico aqui, no sentido de universal. Colocam-se como os apóstolos da literatura.

Para os escritores, aceitar que o texto literário seja para poucos seria incorrer num elitismo inaceitável. Seria concentrar injustamente uma riqueza que deveria ser distribuída a todos. Eles acreditam que a literatura é um bem necessário às pessoas em geral, que as enriquece e as salva. Talvez ela realmente salve os iniciados que, sem dúvida, precisam dela, assim como o feiticeiro e seus aprendizes têm na bruxaria uma prática vital para eles. Como o cientista não pode viver sem a ciência e nem o artesão sem o artesanato. Como algmas pessoas não concebem sua vida sem o rock, outras sem a música sertaneja, outras sem a MPB… O fato de os iniciados terem sido salvos pela literatura não quer dizer que todos o sejam.

A literatura não é uma riqueza absoluta e os que detêm este conhecimento não formam um grupo de privilegiados. O iniciado em literatura, seja leitor ou escritor, não é melhor ou pior que os outros homens.


O feiticeiro

19 Julho 2006

O feiticeiro não é um sábio, mas um explorador do caos e do incerto. É o espírito de margem que se apossa das pessoas.